Nem Tudo É De Primeira
4 Nem Tudo É De Primeira
Notas iniciais
Uma dica: se você for dormir na cama de outra pessoa, não se esconda debaixo dos cobertores. Porque isso, combinado com uma manhã escura e um colega de quarto ligeiramente bêbado, pode acabar de um modo nada legal.
Assim como acabou com Percy.
Ele estava tendo um sonho maravilho onde as provas da escola estavam sendo canceladas e todos os alunos receberiam nota máxima quando um Dean Wilson de 90 kg caiu em cima de si, cravando o cotovelo na sua barriga, batendo cabeça com cabeça e acertando com o joelho na região sensível.
Se ele tivesse ar nos pulmões, provavelmente teria gritado um palavrão. Mas infelizmente tudo o que pode fazer foi chutar o outro rapaz para longe e se encolher, tentando suportar a dor.
Esquece segurar o céu e o veneno de escorpião infernal, aquela era a pior dor do mundo.
Dean rolou para o chão e bateu com tudo em alguma coisa que fez um alto ‘crack’, enquanto o próprio garoto exclamava de dor e susto. “Ouch!”
Alguém do outro lado do quarto soltou um guincho surpreso. “O que...?!”
Uma pequena parte do seu cérebro, a única que não está esperneando com o seu sofrimento, lhe avisou que aquela era a voz de Nico. O que o fez lembrar que Nico estava ali, que o fez lembrar que o menino havia passado a noite ali porque, agora ele lembrou, ontem a noite ele surgiu para bater um papo e Percy ofereceu sua cama para o menor dormir (devido as olheiras profundas e negras, lembrou), de modo que ele mesmo teve que dormir na cama de Dean. O que o trouxe a situação atual.
Bom, talvez mais tarde, quando não estivesse com lagrimas de dor nos olhos, Percy não se arrependesse do convite.
“Mas que porra foi essa?!” Dean exclamou de algum lugar no chão, a voz meio arrastada.
Bêbado, informou uma voz impertinente na sua cabeça que ele mandou calar a boca. “Essa... porra foi você... tentando me matar” Falou entre gemidos de dor, girando na cama até estar de barriga para baixo com as mãos na região destruída.
O outro rapaz demorou um segundo a mais para responder do que o normal, como se estivesse processando o que estava acontecendo mais devagar. “Oh, ah, foi mau cara.” Ele disse e era honesto o bastante para que Percy não quisesse acerta-lo na cara com a bola na próxima partida de futebol que eles jogassem. Talvez só uma rasteira leve. “Mas porque você está na minha... oh, olá”.
Houve uma hesitação no ar.
“... oi?”
O semideus se entortou na cama o suficiente para espiar com um dos olhos o que estava acontecendo.
Dean estava no chão, apoiando sobre os cotovelos com a cadeira da escrivania tombada perto dos seus pés (o que explicava o barulho) e perto de sua cama, olhando para cima. Olhando para um Nico di Angelo que provavelmente havia acabado de acordar, sentado no colchão com um cobertor impossivelmente arrumado sobre as pernas e encarando Dean como se ele fosse à criatura mais peculiar com quem ele já havia se deparado.
Quando Percy viu aquilo, viu Nico, sentiu vontade de rir mesmo sofrendo, porque Nico tinha o melhor cabelo ‘acabei de acordar’ que ele já tinha visto. O cabelo ondulado relativamente arrumado do filho de Hades estava à imagem e o espirito do um ninho de passarinhos, com mechas desafiando a gravidade para todas as direções, além da franja longa que vivia caindo nos olhos do garoto estar amassada para o lado, como um estranho penteado emo.
Mas quando os olhos negros se voltaram para si, sobre sobrancelhas franzidas de confusão, a vontade de rir de Percy foi substituída por uma paz de espirito diferente, com uma pontada de satisfação.
Porque o rosto encarava agora era o rosto de uma pessoa que havia dormido plenamente a noite inteira.
No final, Percy decidiu que não estava arrependido de ter convidado Nico para passar a noite. Ele havia feito bem.
Foi à primeira vez em meses que se sentiu bem por ter feito algo por alguém.
Dean olhou o garoto mais jovem de cima a baixo, piscando os olhos de maneira confusa, mas no final sorriu como sempre e falou “Você é o namorado secreto do Jackson ou algo assim?”
Risca isso. Seria a primeira vez em meses que Percy iria se sentir bem fazendo algo muito, mas muito ruim para alguém.
“O quê!?” Nico imediatamente arregalou os olhos negros e a boca articulou-se em algumas palavras silenciosas de puro choque, até que soltou um “N-não!” meio engasgado para logo em seguida corar furiosamente.
O sorriso do Wilson cresceu. “Então quer dizer que está disponível?”
O filho de Hades poderia ter fritado um ovo na cara e os olhos redondos seriam os pratos. E Percy decidiu que não tinha porque esperar e ele podia começar agora mesmo seu elaborado plano de coisas que teriam deixado Hannibal, O Canibal impressionado. Seu alvo? Dean Fernhein Wilson.
Então ele se ergueu da cama, ignorando a dor entre suas pernas, e levou o seu querido colega de quarto para fora do dormitório a pontapés.
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“Então, cabeça-de-peixe, eu soube que você vem trazendo amantes durante a noite” Foi o cumprimento de Lina na primeira aula deles juntos naquela manhã.
Percy revirou os olhos e se sentou ao lado da amiga, soltando seu material de qualquer jeito em cima da mesa. “Eu não estou trazendo amantes durante a noite”
A jovem fez uma falsa cara de espanto. “Durante o dia!? Meu deus, Percy, quem diria que você é tão safado assim!”
O semideus deu um leve soco no braço da outra. Lina segurou a brincadeira por alguns segundos a mais, fingindo estar magoada e surpresa com o ataque, mas logo dissolveu em risos. Ela então puxou o fone de ouvido que tocava musica alto o suficiente para Percy reconhecer como uma das bandas favoritas da morena e se inclinou para frente em sua cadeira, a expressão sinceramente curiosa. “Mas falando sério, você tá pegando alguém? Porque Joey me falou que viu você enxotando Dean para fora do quarto e que minutos depois saiu um garoto mais novo que, de acordo com ele, estava todo amarrotado.”
O filho do deus mar resistiu à vontade de revirar os olhos de novo. “Falando sério, eu acho que Joey deveria começar a cuidar mais do próprio nariz. E em segundo lugar, por que vocês sempre assumem que se alguém está com a roupa amassada, é porque ela estava se pegando com alguém?”
“Porque somos adolescentes e adoramos assumir coisas sexualmente atiçadas” Filosofou a metaleira.
Percy bufou.
“Ei, é a mais pura verdade e você sabe. E até quando você vai evitar a minha pergunta? Além do mais, ele estava saindo do seu quarto, então pode parar de tentar culpar a minha promiscuidade e a do Joey”.
O moreno se encostou à cadeira e a inclinou até ouvir o baque do ferro batendo contra a parede. Seus olhos verdes se distraíram com a visão de um lápis grudado no teto. “Meu amigo Nico tinha dado uma fugida de casa e precisava de um lugar para passar a noite. Dean estava na festa da Penny e como é de conhecimento geral que ele nunca volta de uma festa antes das cinco, eu ofereci o nosso quarto.” Soltou os pés, deixando a cadeira deslizar de volta. Tinha uma pichação de um palavrão ao lado do lápis e Percy se perguntou como alguém tinha conseguido fazer aquilo sem ser pego. Voltou a olhar para Lina, que batucava sua caneta no caderno. “Só isso. Não era nenhuma orgia secreta ou clube de BDSM que você esperava.”
A garota gargalhou. “Eu confio em você para saber que no dia que isso acontecer de verdade, você vai me ligar na hora avisando.”
Percy deu seu sorriso de lado. “Pode deixar”
O professor entrou, batendo na cabeça do primeiro desavisado em pé com o livro e mandou todo mundo se sentar. A aula de historia então começou.
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Depois disso, Nico foi embora e não mandou noticias.
Já haviam se passado algumas semanas desde o incidente com Dean e Percy estava rezando para que seu colega de quarto avoado demais não tivesse assustado o semideus mais novo a ponto dele não querer mais visita-lo na escola. Apesar do que tinha tido sobre não ter tempo ser verdade, ele não queria fazer o outro sentir como se fosse um incomodo. Além do mais era legal falar com alguém sem ter que ficar revisando suas falas para não escapulir nenhuma informação do tipo então eu peguei carona com o meu pégasos para vir para a escola, porque tinha trânsito.
Também era legal conversar com pessoas que não o empurravam para cima de centenas de garotos depois que ele deu uma explicação mal-feita do porque dele não ter aceitado o convite para sair da líder de torcida mais gata da escola. Não é que ele jogava no outro time, mas sim porque... bem...
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[Porque a ideia de namorar, fosse quem fosse, ainda fazia um gosto amargo surgir na sua boca e fazia a sensação de buraco no seu peito ficar ainda mais forte do que o normal e ele se sentia um lixo e deprimido e ele queria chorar e gritar para o mundo O que eu fiz pra você!? porque aquilo era o pior do que qualquer maldita profecia ou maldição ou a merda que os deuses queriam impor sobre ele e...]
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...bem, a companhia de Nico estava mais agradável ultimamente. Claro, o filho de Hades ainda lhe dava alguns arrepios de vez em quando e ainda demorava um certo tempo para sumir o ligeiro desconforto que sempre sentia quando ficava sozinho com o menor, mas pelo menos agora ele já não se sentia nervoso ou apreensivo em volta de Nico como se esperasse que ele fosse tirar a espada negra do cinto a qualquer segundo.
Em termos mais básicos, sua confiança em Nico estava crescendo.
Ou melhor, voltando.
(O Estige ainda lhe dava pesadelos)
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No final, Percy voltou a se encontrar com Nico um mês depois.
Quase literalmente falando. Os dois trombaram e rolaram um morro abaixo.
E não era sua culpa, de verdade. Era difícil prestar atenção em volta quando se está fugindo de uma manticore raivosa cheia de lasanha (isso também não foi sua culpa. Como ele poderia ter adivinhado que seu experimento de ciência ia explodir no meio do refeitório?) carregando sua espada com um braço quase inútil por causa de um rasgo profundo no bíceps e no outro braço um escudo no qual sua vida dependia.
Ele mais sentiu do que viu o rio por perto e disparou em sua direção sem olhar ao redor, sua atenção ainda presa na cauda traiçoeira daquela criatura. Não era culpa sua que Nico era capaz de camuflar perfeitamente nas sombras, de modo que Percy só o viu na beirada do morro, debaixo das arvores, quando estava a uns cinco passos de distancia e com o corpo já retraído para pular.
Só teve tempo de desviar Contracorrente para o outro lado, para não acertar o outro semideus, e meio que abraçar/agarrar o menor pelos ombros. Nico apenas conseguiu olha-lo com uma expressão de puro choque e surpresa antes dos dois rolarem colina abaixo, até atingirem o rio.
Quando seu corpo entrou em contato com a água, seus membros cansados imediatamente ganharam força nova e Percy sentiu todos os seus ferimentos começaram a se fechar magicamente. Sem perder tempo, saltou de pé já girando sua espada de bronze celestial em um semicírculo em direção as suas costas, que era onde seu TDAH apontava.
A manticore, em pleno ar, virou pó de monstro.
O filho do deus mar abaixou a ponta de sua arma, respirando pesadamente, encarando o local onde segundos atrás estava a criatura que quase o matou. Essa semana, pelo menos. Sentia a força e a energia fluírem dentro de si conforme o ritmo daquele riacho e mandou um agradecimento para ninfa dali, que estava lhe dando mais permissão do que o normal sobre aquela água doce.
Com um suspiro fundo se virou para Nico, mas congelou quando viu a cena diante de si.
Não tendo poderes mágicos de Poseidon, Nico não tinha como se curar somente por ter caído em um rio, de modo que estava cheio de machucados e arranhões da descida nada delicada do morro. Havia até um corte bem feio na testa do menor que sangrava. Mas não bastasse isso, foi o que ele segurava que fez o estômago de Percy dobrar duas vezes mais.
Um Nintendo DS em ruínas, quebrado ao meio e ensopado.
Nico o segurava com o cuidado de alguém manuseando os restantes de um tesouro destruído, com o olhar de alguém vendo seu bem mais precioso aos pedaços. Nem ao menos pareceu registrar seus ferimentos e ainda estava sentado dentro do rio, com a água fria batendo na sua cintura.
A culpa arranhou o interior inteiro de Percy como fogo grego.
Oh, merda.
“Nico...” Deu um passo para frente, hesitante.
O garoto suspirou de modo inaudível, os ombros magros se movendo levemente para cima. “Tá tudo bem, Percy” Ele respondeu suavemente e se ergueu do chão, ainda segurando com delicadeza os restantes do seu jogo.
Estaria se Nico não estivesse evitando olha-lo nos olhos a todo custo.
Oh, merda mesmo.
“Nico, me desculp-“
“Já disse que está tudo bem” Interrompeu o mais novo, não bravo, só um pouco mais... áspero. O semideus mais velho encolheu como se tivesse levado um soco. “Eu... você, não foi sua culpa, só...” Murmurou, ao mesmo tempo me que tentou juntar os pedaços do aparelho que voltou a desmoronar instantaneamente. Suspirou fundo mais uma vez, erguendo a cabeça, mas ainda sem olhar diretamente nos olhos de Percy. “Só vou... jogar isso... fora” Disse quietamente.
E começou a caminha em direção à beirada, em direção a uma lata de lixo aleatória que surge de tempos em tempos na margem de rios.
Percy imediatamente se adiantou. “Ei, espera!” Seguiu-o e rapidamente o alcançou, graças a sua vantagem de que a água saia do seu caminho quando andava, e o segurou pelo ombro. “Nico, espera! Não tem como, hmn sei lá, concertar ou algo assim?”
Ok, aquela soou idiota até para ele. Mas, ei? Esperança é a ultima que morre, certo?
O filho de Hades apenas ergueu uma sobrancelha e estendeu os pedaços destruídos, oferecendo-os para uma análise mais profunda. E o filho de Poseidon abaixou os olhos verde-mar e analisou e realizou que realmente não tinha concerto – aquilo não só estava quebrada na junção das duas partes, como também a região dos controles estava rachada e a tela em si havia sido feito em pedaços, sem contar com a água que transformou aquilo tudo em um belo ensopado de DS.
Depois da esperança vem o que mesmo?
Percy deixou o braço cair e observou o menor andar ligeiramente cambaleando até o lixo, hesitar um pouco como se estivesse se despedindo e então jogar os pedaços fora. Enquanto, é claro, a culpa brincava de dar nós no seu estômago.
Nico então voltou devagar para onde estava e encontrou seu olhar por breves segundos, antes de desviar para o lado brincando com o seu anel de caveira.
“Eu sinto muito.” Repetiu, com gosto de pó na boca.
“De boa, eu... não foi sua culpa, Percy” Através do seu mal-estar de culpa (porque ele sabia o quanto custava um negócio desses e provavelmente era o mesmo que ele e sua mãe costumavam gastar com comida de um mês antes de Paul vir com seu salario considerável e sua mãe conseguir o seu emprego dos sonhos) o jovem notou um constrangimento embaraçado do mais novo, como se ele não estivesse acostumado em receber pedidos de desculpas.
Ele tentou não pensar sobre o que isso implicava.
“Então eu vou, hm...“ Nico continuou num tom de voz quieto. O anel continuou a girar rapidamente no dedo magro enquanto que o menino virava de lado, hesitando em andar. “Eu só vou... eh, pegar minha...” Fez um sinal geral para decida do morro e Percy seguiu com o olhar, para achar a espada de lâmina negra do outro semideus caída na grama.
“Ah, claro... eh, quer ajuda?”
Ouve um pequeno e rápido sorriso nos lábios pálidos, talvez divertidos com o modo totalmente sem jeito do garoto mais velho. Mas rápido como veio, rápido como foi. Ele fez um leve movimento negativo com a cabeça e se virou.
Foi só quando ele estava no meio da subida que Percy notou suas roupas completamente encharcadas. Num movimento quase inconsciente, o filho do mar esticou o braço e mandou a água escorregar do pano. No mesmo instante, Nico secou-se imediatamente. O garoto menor, que estava no processo de se erguer com a espada na mão, ficou reto de supetão e virou sobre os calcanhares para encara-lo surpreso. Simplesmente deu de ombros.
Dessa vez houve um sorriso de pelo menos dois segundos e meio.
“Eu, ahm, eu tenho que ir, Percy” Ele disse, coçando a nuca de leve, desviando os olhos para o chão. “Foi, é... foi bem te ver de novo, eu acho. Até logo” Nico acenou fracamente e hesitou uns cinco segundos para finalmente virar e começar a ir embora.
Oh, merda.
Percy se adiantou seguindo um impulso e gritou para a figura no alto do morro. “Te vejo no acampamento nas férias!”
Ele viu a silhueta negra parar e virar. Conseguia sentir o olhar intrigado de Nico daquela distância como um formigamento leve na pele. Por fim, o menor acenou positivamente antes de virar de vez e sumir entre as sombras.
Yep. Grande, Jackson? Algum plano? Se perguntou enquanto se virava em direção ao lixo. Guardando Contracorrente e o escudo novo que havia ganhado de Tyson no último natal, arrancou a tampa da lata e com todo cuidado, puxou os pedaços do DS um por um pondo-os sobre uma dobra camiseta que havia feito. Quando terminou, fechou a lixeira e começou a caminhar em direção a sua escola, aceitando a verdade de que não tinha nada planejado e só estava agindo por impulso.
Vou ter que improvisar, como sempre.
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“O que foi que você fez com isso?” Nathan falou completamente horrorizado, as mãos flutuado sobre os pedaços do videogame portátil como se quisesse toca-los, mas aflito demais para fazê-lo.
Percy segurou a vontade de revirar os olhos. Pelo tom do outro rapaz, alguém poderia achar que ele tinha estripado um cachorrinho. “Eu já disse, eu trombei no dono e o negócio caiu no chão.”
O loiro retirou lentamente seus óculos de grau e os pôs na mesa, logo antes de inclinar para frente com a mão sobre a boca, como uma legítima vítima de novela mexicana.
Sério, para um dos rapazes mais inteligentes que Percy já tinha conhecido, K.G podia ser bem melodramático quando queria.
O garoto mais novo sussurrou, mortificado, por entre os dedos. “Isso não é ilegal em algum lugar da Constituição? Ou pelo menos moralmente errado, como, como uma espécie de pecado? A igreja, a igreja deve condenar isso, não-“
“Nathan!” Exclamou impaciente e viu o outro garoto pular no lugar. “Quer parar com isso e responder logo a minha pergunta? Tem como concertar?”
Os olhos castanho-claros o encararam incrédulos, assim como alguém que acabou de perder o cachorro encararia alguém que acabou de perguntar Posso ficar com a coleira? Meu gato tá precisando, mas o jovem mortal engoliu seu horror com bravura e pôs os óculos de volta no rosto antes de responder. “Eu sinto dizer que isso está além das minhas capacidades médicas, Percy. Talvez em um profissional, mas não mantenha muitas esperanças. Nesses casos, o melhor é se despedir e deixar o resto com Deus.”
Sua vontade de revirar os olhos foi anulada pelo sentimento de culpa intenso que revirou o seu interior. “Não tem jeito mesmo?”
Nathan negou com a cabeça, girando na sua cadeira para encarar Percy sentando na sua cama, no seu dormitório.
O filho de Poseidon desabou para trás, batendo as costas contra a parede, sentindo a derrota entrar em seu sistema. Ele realmente não gostava daquela sensação.
“Se bem que...”
Ele imediatamente se aprimorou na cama novamente. “Se bem o que?”
O loiro batucou os dedos contra sua mandíbula, pensativo, enquanto encarava os pedaços do antigo DS. Puxou uma pinça longa e fina do seu kit de primeiros socorros para eletrônicos e começou a delicadamente mexer no aparelho. Percy ergueu-se num pulo e se aproximou da área de trabalho do garoto mais novo, curioso para ver o que ele estava fazendo e sábio o suficiente para saber que era melhor ficar em silêncio. Em alguns aspectos, Nathan era muito parecido com Leo quando trabalhando – o mundo poderia acabar em volta deles, mas eles continuariam a fazer o que estavam fazendo sem nem ao menos piscar.
Depois de um tempo, o mortal soltou uma exclamação vitoriosa erguendo com a pinça um retângulo preto minúsculo. “Isso!”
“O que?” Percy perguntou, franzindo o cenho confuso.
Nathan virou em sua cadeira e depositou com cuidado o pedacinho de plástico na frente do semideus. “Isso aqui é a memória do DS, contém todos os jogos salvos e dados importantes.”
Os olhos verdes se arregalaram levemente. “Sério?” Pegou o negócio e examinou de perto.
“Yep!” O jovem amante de Shakespeare sorriu satisfeito. “Se você conseguir outro aparelho e inserir a memória, vai ser praticamente a mesma coisa”.
Percy olhou do pedaço de plástico minúsculo para o seu amigo, e depois para o pedaço de novo.
Bem.
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“Percy, você tem certeza?”
“Sim, mãe. Por favor, depois eu te pago.”
“... bom, você que sabe, filho. Eu deposito amanhã no seu cartão.”
“Ok, obrigado! De verdade, fico te devendo uma.”
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