Nem Tudo É De Primeira
22 Nem Tudo É De Primeira
Notas iniciais
A batida veio como um som abafado no quarto vazio. As luzes apagadas deixavam o lugar numa penumbra suave, enquanto os raios de luz que conseguiam passar pelos milhares de prédios do lado de fora iluminavam tentativamente os objetos. A cama, que ocupava quase 3/5 do espaço, estava vazia, com as cobertas embaralhadas do lado como se alguém as tivesse jogado.
“Percy?”
Percy fechou os olhos e encostou a testa contra seus braços cruzados.
Houve uma pausa pequena antes do barulho da porta sendo aberta se pronunciar e dois pares de passos entrarem no quarto. Percy era familiar com os dois sons o suficiente para reconhecer Grover, com o mancar leve que ele sempre tinha quando usando os pés falsos, e Dean, que parecia estar constantemente querendo afundar o chão com o quão duro ele fazia questão de pisar. Nenhuma dessas informações, entretanto, o fez se mexer de onde estava sentado na escada de incêndio.
[ele ainda não havia conseguido puxar ar o suficiente para dentro do seu peito apertado, mas]
Fazia umas duas horas que ele estava assim. Por que mudar agora?
As vozes dos seus amigos conversaram entre si em múrmuros que Percy não tentou entender, ocupado em encarar a escuridão das suas pálpebras. Sua mão estava doendo.
“Percy?” Grover voltou a falar em voz alta, parecendo mais perto. Certamente após alguns segundos ele ouviu sua cama ranger quando alguém subitamente subiu nela. “... Percy.”
[... Percy, eu sinto-]
Não respondeu. Seus dentes rangeram com a força que sua mandíbula travou.
“Ele está bem?” Indagou a voz de Dean. Grover pareceu virar, de modo que sua voz ficou a favor do vento que entrava pela janela e que levou as palavras do sátiro para longe dos ouvidos de Percy. Não que ele estivesse terrivelmente curioso.
Sua mão ainda doía. Ele levou um momento para entender que era suas próprias unhas o cortando, com a força que mantinha o punho cerrado.
Ele levou mais tempo ainda tentando soltar seus dedos.
Teve uma discussão baixa e então. “Oh, okay. Eu vou- huh, vou esperar lá fora então. Se precisar de ajuda...” Grover murmurou algo, provavelmente um ‘obrigada’, porque logo em seguida Dean replicou. “De nada.” E passos pesados se afastaram da janela seguidos do som baixo do click da porta se fechando.
Houve um momento de silencio.
“Percy, você não quer entrar? Está frio ai fora.”
Quando não se moveu, Grover suspirou e então ouve os sons de alguém tentando escalar sua janela com pés falsos. Houve o barulho de um par de tênis usados raspando contra o ferro, o outro garoto parecendo cambalear um pouco no espaço pequeno, antes de uma presença incrivelmente familiar sentar-se ao seu lado. Ombro com ombro. E ele sentiu o calor do amigo que ele não via fazia meses contra si e o cheiro de grama e lã que Grover conseguia ter sem ser ruim e Percy de repente se lembrou dos seis anos de amizade que ele tinha com aquele sátiro – amizade compartilhada que os dois tinham da mesma pessoa.
O fato de que Grover tinha 4 anos a mais que ele e mesmo assim era o sátiro sentando-se ao seu lado, no frio e não o contrário.
Mais que idiota egoísta você é, Percy Jackson.
Enquanto Grover ainda se ajeitava ele falou por entre os braços. “Me desculpe.”
Ele sentiu o outro congelar por um momento. “Pelo que?”
“Por ser um imbecil que só pensa em si mesmo.”
Grover não respondeu de imediato, parecendo mastigar seu comentário. No final o sátiro pareceu finalmente achar uma posição confortável ou simplesmente desistiu de tentar, relaxando ao seu lado. Ele soltou um ‘hmm’ com um toque de balido escorrendo. “Eu não diria que narcisismo é seu defeito número um, a não ser que você tenha começado a levar as dicas da Drew a sério. Nesse caso eu teria que avisar a Piper para que ela tomasse as providencias adequadas.”
A resposta de seu amigo foi tão inesperada que uma risada surpresa acabou escapando da sua boca. Fraca e baixa, mas genuína.
Mas rápido como veio, rápido ela se foi e Percy foi deixado para trás sendo apenas capaz de suspirar e desencostar a testa dos seus braços. Se encostou na parede de concreto atrás de si e deslizou uma mão pelo seu cabelo, sentindo-o melado e cheio de areia. Não era uma surpresa levando em conta o que tinha acontecido horas atrás, com... com-
Rispidamente mudou o curso dos seus pensamentos. Sua mão caiu de volta para o seu colo.
“Não, é que...” Seus olhos caíram para onde suas mãos se massageavam, observando as quatro marquinhas que suas unhas tinham provocado na pele. Ele queria poder tirar aquele manto de depressão dos seus ombros tão fácil como estava tirando aquelas marcas. “Eu acabei esquecendo de... da data e eu simplesmente sumi sem, sem te avisar quando... quando eu lembrei. Ou qualquer coisa. Então...” Ele suspirou e apoiou o rosto contra as mãos, escondendo os olhos nas suas palmas. “Eu... sinto muito.”
“Percy, você não precisa se desculpar por estar de luto.” Grover replicou, a voz tremendo daquele jeito que a maioria confundia com gagueira, mas era simplesmente porque Grover tinha cordas vocais que podia reproduzir sons humanos e de bode e os dois juntos nem sempre saiam em harmonia.
Foi um dos sons mais gentis que Percy ouviu em um longo tempo.
“Você também está de luto.” Replicou tenso, irritado consigo mesmo. “Você não deveria... não deveria ter que vir me consolar só porque eu fui um idiota que se fez esquecer do quanto-... do que ontem-” Percy engoliu em seco, sentindo as palavras entalando na sua garganta teimosamente. Deuses, como ele era patético. Deixou suas mãos deslizarem do seu rosto até seu cabelo, agarrando tufos de fios com força. “Você tem o direito ao... ao seu luto também, Grover.”
O outro garoto fez um som grave no fundo da garganta, concordando com o que tinha dito. E então Percy sentiu um peso contra seu ombro e olhou para o lado para ver Grover se apoiando em si, olhando para o céu distraidamente. O céu cinza da cidade. Percy sabia que ele odiava aquele céu, mas o sátiro continuou olhando para cima. “Você sabia que alguns mortais acreditam que, quando as pessoas morrem, elas vão para o céu?”
O filho do mar piscou os olhos, pego de surpresa com a pergunta. Não tinha muito haver com o que estavam falando. Deixou as mãos caírem da sua cabeça. “Huh... sim? É uma religião. Cristianismo, eu acho.”
Percy nunca fora religioso quando pequeno e quando crescido ele meio que nunca teve essa opção. A realidade de que não existia um Deus de D maiúsculo e sim milhares de deuses com d minúsculo veio, literalmente, batendo na sua porta. Em uma praia no meio de uma tempestade, com um monstro meio humano e meio touro perseguindo ele. Com um garoto meio bode tentando salvar sua vida que ele havia conhecido naquele mesmo ano na escola e que tinha virado seu melhor amigo.
Até hoje, na verdade.
Grover acenou, ainda olhando para o céu. “Quando eu descobri isso, eu achei meio bobo. Afinal, é quase universal o conceito de enterrar as pessoas que partem e eu acho que é porque todo mundo, mortal ou não, sabe inconscientemente que é para baixo que vamos quando morremos.” Ele falou quietamente e então esticou a mão para cima e Percy automaticamente olhou junto. O céu estava cheio de nuvens, mas dava para ver o sol, brilhando. “Mas agora eu acho que consigo ver porque eles gostariam de pensar assim? Não é a verdade, claro, e o verdadeiro paraíso é lindo, mas o céu realmente parece um lugar maravilhoso para se viver depois de partimos. Com as estrelas e os astros e tudo mais.”
Então Grover finalmente baixou os olhos e o encarou. Parecia ligeiramente embaraçado. “Eu acho que eu estou tentando dizer é que luto é algo bem pessoal, Percy. Cada um tem o seu modo e... e ninguém pode ser penalizado ou julgado pelo modo como o faz. Então não precisa se... desculpar, só me avise se você precisar de um abraço ou qualquer coisa. Amigos são para isso.”
Percy engoliu, sentindo a garganta ligeiramente fechada. Tentou sorrir para o amigo, a coisa toda talvez saindo meio molhada. Pigarrou. “Quando foi que você ficou tão filosofo?”
Grover corou levemente, mas sorriu de volta para si. “Alguns de nós tem que amadurecer, sabe.” Replicou provocando. “Além do mais, se eu realmente viesse te consolar toda vez que você agisse feito um idiota, Juniper ia começar a ficar com ciúme de todo o tempo que eu teria que passar com você-”
Percy o socou no braço e Grover saltou para longe, um sorriso largo no rosto. Sem conseguir conter, Percy sentiu suas defesas quebrarem e quando viu, estava rindo.
Aquela devia fazer uma imagem bonita. Dois adolescentes sentados na escada de incendia numa manhã fria e rindo sem motivo aparente. E Percy tinha consciência fazia muito tempo desde a última vez que ele tinha feito isso – rido sem motivo com o seu melhor amigo, apenas aproveitando o momento. Um ano e meio, mais ou menos.
Deuses, como ele sentiu falta disso.
Como se fosse o vento, ele sentiu o peso da manta de depressão ser erguida de si por um momento. Só por um momento, porque ele sabia que aquilo era coisa temporária. Mas não o impediu de aproveitar o máximo que podia.
“Obrigado.”
Grover o encarou com os castanhos dos seus olhos brilhando gentilmente. “Obrigado também.” Quando Percy o olhou intrigado, o sátiro sorriu pequeno. “Eu... precisava disso tanto quanto você, eu acho.”
Não respondeu. Em vez disso voltou a encostar na parede, deslizando de modo que os ombros dos dois ficassem encostados um no outro. Ficaram em silencio por um momento, só o som dos carros nas ruas abaixo e o barulho costumeiro de apenas mais um dia na grande cidade de Nova York.
Quando a calmaria foi quebrada, entretanto, Percy já conseguia sentir a pergunta vindo fazia alguns minutos, de modo que não foi pego de surpresa quando Grover finalmente falou.
“Você quer falar sobre o que aconteceu?”
“Sabe, eu acho que essa frase está em, tipo, 99.8% dos filmes mais melosos do universo.”
“Percy.”
O filho do mar grunhiu e bagunçou seu próprio cabelo com certa violência. “Eu nem sei direito o que aconteceu. Eu estava dormindo- quero dizer, eu nem lembro de ir dormir! Eu só lembro do pesadelo, de acordar gritando e então vomitar meu estomago pra fora.” Ao dizer isso, Percy imediatamente foi invadido por cenas do seu sonho horas atrás, em especial as cenas no Acampamento Meio-Sangue e uma faixa verde manchada de sangue. Era como se o mundo tivesse ficado de repente alguns graus mais frio e sua pele começasse a encolher, esmagando-o por inteiro e sem pensar, ele se aconchegou mais perto de Grover – o cheiro da parte meio bode do seu melhor amigo nunca tendo sido tão reconfortante quanto agora.
“Pesadelo? De semideus ou normal?” O sátiro indagou, franzindo as sobrancelhas preocupado. Se ele notou que Percy havia basicamente se colado do ombro ao quadril com ele, o homem-bode não comentou.
O filho do mar teve que rir – um som desarmonioso e baixo que durou pouco menos que dois segundos, porque era como eles diziam, certo? Rir para não chorar.
“Francamente? Eu não sei.” Replicou com amargura, pressionando sua mão contra seus olhos. “E eu não sei qual possibilidade é pior. Quero dizer, se for de semideus então realmente as coisas poderiam ficar muito feias para todo mundo, então talvez essa seja a pior, mas se for coisa da minha mente... Então, cara, eu provavelmente deveria ir ver um psiquiatra ou coisa assim. Seria masoquismo demais. Mas eu não quero falar disso agora.”
Grover pareceu a ponto de retrucar, mas Percy simplesmente balançou a cabeça, se negando a continuar naquele assunto. “Eu realmente não quero, Grover. Depois... depois eu te conto, ok? Eu ainda- aquele pesadelo ainda faz meu estomago embrulhar e eu realmente não tenho mais o que vomitar.”
Isso talvez não tenha sido a melhor coisa a dizer para apaziguar seu amigo, porque se tudo, o sátiro só pareceu querer discutir o assunto ainda mais. Entretanto o outro garoto apenas apertou a boca numa linha tensa e acenou para que ele continuasse.
Percy sentiu uma onda de gratidão invadi-lo. Ele não estava brincando. Só de pensar naquele sonho, qualquer parte dele, ele sentia toda sua pele se arrepiar e seu estomago começar a se contorcer, fazendo borbulhar bile na base da sua garganta.
Deu um leve sorriso para o amigo, que Grover não pareceu conseguir corresponder, antes de continuar. Suspirou uma vez, silenciosamente. “Depois que eu... você sabe, eu meio que estava me sentindo claustrofóbico, então eu-... fugi da minha escola e fiquei andando até chegar numa praia. Nem lembro qual praia. Só senti a presença do mar e meio que fui para lá instintivamente? Eu não sei, eu-... eu já não estava pensando direito. Eu só queria um lugar isolado para me acalmar, sabe?” Falou, tentando soar calmo, mas ele conseguia sentir o gosto da sua expressão miserável só de olhar para Grover.
O sátiro não disse nada, apenas fez um movimento leve de incentivo com a mão.
Percy inspirou fundo pelo nariz e olhou para frente. A parede do prédio vizinho estava cheia de pichações com aquelas letras que ele nunca conseguia ler e alguns desenhos caricatos. Havia a imagem de um menino discutindo com outro pelo que parecia ser uma bola, mas podia muito bem ser o planeta terra.
“Eu fiquei lá por algumas horas. Não sei direito quantas, mas quando eu me toquei o sol já estava nascendo. E então o... o Nico apareceu.” Sua boca pareceu secar e o semideus sentiu sua respiração fazer um soluço, ficando mais pesada. Percy tentou engolir repetidamente, mas de nada serviu para aliviar a sensação de que de repente tinha uma bola de tênis na sua garganta. “E... e...”
[... Percy?]
Alguma coisa se torceu dentro de si, agonizantemente, e ele deixou sua cabeça pender para frente, cobrindo sua nuca com ambas as mãos. Encolheu assim, dentro de si mesmo, cuidadosamente como um pedaço de origami, pensando que talvez assim ele pudesse sumir da face do planeta.
Era um peso sobre seus ombros lembrar, como se o ar acima de si decidisse que queria brincar de gravidade e começasse a esmaga-lo. Uma coisa meticulosa, grau por grau, de modo que ele sentia a agonia perfeitamente em cada átomo do seu corpo. Mas pior porque aquilo, por mais que parecesse, não era algo físico de modo que não tinha remédio, massagem ou descanso que o livrasse daquela... não dor, dor era algo muito claro e simples. Era mais como se algo se apertasse debaixo da sua pele, muito profundo e muito desfocado para você conseguir esfregar com a ponta dos dedos. O desconforto simplesmente estava lá e não tem nada que você possa fazer quanto a ele.
Culpa era uma sensação muito engenhosa.
“Espera, então Nico te achou primeiro?”
Ergueu a cabeça de leve e olhou sem entender para o amigo. A sua expressão pareceu responder a pergunta de Grover, porque o sátiro não insistiu.
Em vez disso, ele apenas adotou uma expressão impossivelmente mortificada. “Oh meu deus, Percy, me desculpe! Eu não achei- quero dizer, eu nem pensei quando- quando Nico falou que ia me ajudar a te procurar, eu nunca imaginei que ele ia te achar primeiro! Tipo- quero dizer, ele- ele, quando ele sumiu nas sombras eu achei que ele tinha só desistido, senão eu teria feito alguma coisa! Eu-“
“Grover.” Percy interrompeu, já tendo se perdido no meio da fala do amigo. “Do que você está falando?”
Grover o encarou de olhos arregalados, a boca articulando palavras silenciosas e garoto-bode inteiro se mexendo horrorizado com motivos além da compreensão do filho do mar.
Ergueu as sobrancelhas para o amigo, meio preocupado. “Ei, você tá legal?”
“É que-!” Ele explodiu do nada, fazendo Percy recuar de susto. Então ele voltou a se controlar, mordendo o lábio inferior por um momento antes de continuar. “É que quando, quando eu estava saindo do Acampamento Meio-Sangue Nico deve ter me visto, porque d-de repente ele surgiu e disse que ia... ia me ajudar a te achar. Eu devia ter dito não, me desculpe, P-Percy! Depois do que aconteceu, eu s-s-sei que as coisas não estavam m-m-muito boas entre você e o Nico, m-m-mas eu não sabia, quero dizer, não queria t-t-ter-“
Quando Grover começou a perder o som das palavras humanas para balidos, Percy decidiu interromper o amigo de novo. “Espera. Você acha que o meu problema com o Nico ter aparecido é por causa do...” Ele arrastou a frase, deixando-a morrer.
Grover o olhou parecendo nervoso, as mãos se movendo erráticas no colo do sátiro.
“Oh.” Falou. “Não é isso, Grover. Sobre... sobre o que aconteceu um... ano atrás, eu já resolvi as coisas com o Nico.” Parou ao ouvir o que tinha dito. Então foi forçado a emendar, sentindo o nó na garganta se apertar mais ainda. “Ou pelo menos, eu tinha.”
O sátiro inclinou a cabeça, uma expressão confusa no seu rosto. “O que você quer dizer?”
Percy deslizou as mãos da sua nuca para o seu rosto, esfregando a pele gelada por um momento antes de pressionar a base das suas palmas contra seus olhos. A culpa que havia sido temporariamente erguida dos seus ombros voltou com força total, esmagando seu peito e fazendo seu estomago embrulhar.
Deuses, eu vou vomitar.
“Grover, você sabia que o Nico gosta de mim?”
“Hm, sim? Quero dizer, aquele tempo depois da Bianca eu não sei, mas agora-“
“Não, não desse modo.”
O silencio do amigo era intrigado e confuso sem que Percy tivesse que olhar para o rosto do sátiro. Suspirou fundo e tirou as mãos do rosto. Olhou para o amigo antes de falar.
“O Nico me beijou.”
Grover o encarou, sem reação, por vários segundos, o rosto em branco como se ele estivesse processando o que tinha acabado de ouvir. Mas no instante em que o fez, seus olhos se arregalaram quase que comicamente. “O que?! Por que? Quando? Onde- Oh, por Pã, foi ontem, não foi?”
Não disse nada, apenas acenou fracamente.
O sátiro se encostou na parede pesadamente, olhando atordoado para frente. “Deuses.”
Percy riu totalmente sem humor. “É, eu concordo.” Inspirou fundo, tremulamente, tentando sem êxito puxar mais ar para dentro dos seus pulmões. “Deuses.”
Se perguntou se o que aconteceu ontem – o gás venenoso que fora todas aquelas emoções sem controle, sufocando-o voluntariamente – o havia danificado permanentemente. Percy não ficaria surpreso se tivesse. Ele ainda conseguia sentir os efeitos e ele sabia que a origem do veneno ainda estava presente, como uma pequena bomba encaixada atrás do seu coração.
E essa explosão recente havia servido apenas para reabrir e aprofundar os estilhaços que ele havia ignorado até então. Ele havia lido algo assim numa revista medica, uma vez – um segundo trauma sobre outro ainda não cicatrizado pode levar a danos permanentes no organismo.
Percy meio que se sentia danificado. Talvez para sempre?
Olhou para cima. “Deuses de fato.”
“Mas-”. Grover se inclinou para frente de repente. “Eu não entendo. S-se Nico realmente gosta de você, porque ele faria uma coisa dessas justamente- justamente-”
Percy o interrompeu antes que ele completasse a frase. “Eu não acho que foi algo planejado. Eu não acho que... ele decidiu fazer aquilo. A expressão dele quando a gente estava-“ Sua voz entalou, embargada e ele quis poder sumir. A memória o atingiu com o peso de mil quilos, afiada.
Era honesta demais, certo? Aberta, vulnerável, como um recém-nascido e era apenas muita coisa de uma vez só. Percy não achava que Nico deveria ser capaz de uma expressão dessas. Ele não achava que ninguém deveria.
Era tão... exposta [aqui está meu coração em uma bandeja de prata].
“Espera. Percy, você quer dizer que...”
Ele soltou um som baixo, como de um animal ferido, e sorriu pequeno, sem humor ou alegria.
“Sim, eu correspondi.”
–
Levou mais alguns minutos para Percy finalmente concordar em sair da escada de incêndio. Quando ele e Grover foram até sala do apartamento, eles foram imediatamente encostados por Sally e Dean que mantinham expressões quase gêmeas de preocupação. Mesmo que Dean estivesse sujo de migalhas de biscoitos e bolo azuis, o que talvez arruinou um pouco a imagem de amigo preocupado.
Sua mãe parecia impossivelmente aliviada que ele estava falando como um ser humano normal agora e Percy não pode evitar um golpe de culpa (mais um, é claro). Ele imediatamente a abraçou, pedindo desculpas pelo seu comportamento. Ela em si hesitou, parecendo sentir que nem tudo estava 100% bem de novo, mas não demorou em retornar o gesto e inche-lo de comida logo em seguida.
Dean tinha um ar ligeiramente desconcertado, mas mesmo assim conversou com Percy e só foi embora quando o semideus o assegurou que ele estava melhor e que segunda ele ia voltar para a escola. Algumas ações do amigo, incluindo o abraço estranhamente longo na hora da saída, lhe indicaram que o outro rapaz talvez soubesse um pouco do que aquele dia significava para si. Mas nem Percy e nem Dean comentaram durante a visita.
O jogador de futebol foi embora com meio bolo embrulhado quando ele comentou inocentemente nas façanhas culinárias de Sally.
Grover ficou até tarde da noite com ele, os dois mais aproveitando a companhia um do outro do que conversando. Amanhã de manhã o sátiro teria que voltar para suas obrigações como Sucessor de Pã e Percy logo teria que voltar a estudar, com a semana das finais já as portas.
Ele queria poder dizer que depois da conversa com Grover, depois da visita de Dean e depois da companhia constante da sua mãe, ele seguiu aquele dia (e os seguintes) mais estável. Na realidade ele ainda estava longe, quilômetros de distância do que o termo bem representava. Sua cabeça doía e seu peito parecia papel amassado com pedaços de vidro dentro e o pesadelo era uma constate no seu cérebro, pulando sobre seus olhos nas horas mais importunas. Na única vez que arriscou comer alguma coisa, seu estomago embrulhou tão violentamente com um cheiro de sangue que só ele podia sentir que foi um milagre Percy não ter vomitado na frente da sua mãe. Isso com certeza não teria ajudado a assegura-la de que ele estava melhor.
Ele passou o resto do dia se sentindo miserável e depressivo e culpado e mais culpado ainda por estar se sentindo miserável e depressivo. Chegou ao seu ponto limite a noite, quando foi dormir e aquela bomba instalando atrás do seu coração ameaçou explodir mais uma vez e ele encolheu feito uma bola e ele finalmente chorou.
Um choro violento, mas silencioso, com seu corpo tremendo a cada soluço que escapava da sua boca. O rosto pressionado contra o travesseiro, que engolia suas lagrimas e qualquer som que ele deixava escapar, e o cobertor puxado sobre sua cabeça. Ele tentou parar uma ou duas vezes, mas era como tentar segurar a respiração – seus músculos se rebelavam contra sua vontade e se retraiam e tremiam mesmo ele não querendo e uma hora ele desistiu e deixou seu corpo fazer o que podia para aliviar a dor.
Mas Percy realmente disse a verdade quando falou que foi silencioso. Ele nunca fora de chorar alto, nem mesmo como criança. Então ele realmente não tinha ideia de como sua mãe soube, mas enquanto ele tentava respirar em meio ao choro ele sentiu uma mão gentil na sua cabeça e embora Percy já tivesse passado muito da idade para colo, ele não hesitou em virar e abraçar sua mãe com todas as forças.
Ele finalmente dormiu, algumas horas depois.
Mas quando ele abriu os olhos no dia seguinte, não podia dizer que havia descansado.
–
Na segunda-feira, assim como tinha prometido a Dean, Percy arrumou suas coisas e voltou para a escola.
Sua mãe havia sentado ao seu lado na mesa, Paul na sua frente, e os dois o disseram que se ele quisesse, ele poderia faltar na escola hoje e que eles ligariam dizendo que ele estava doente ou coisa do tipo. Não havia pressão nas palavras de nenhum dos dois e nem expectativas nos seus gestos e por isso Percy ficou muito grato. Dado o mínimo empurrão, ele provavelmente teria escolhido ficar em casa, sem querer conviver com ninguém pelo dado tempo, mas ele se conhecia o suficiente para saber que isso mais o prejudicaria do que ajudaria.
Percy era uma pessoa cuja a mente era modo “tarefa-única” e se ele ficasse em casa, remoendo seus machucados sem nada para distrai-lo, ele simplesmente ia se afundar mais ainda na lama que era suas emoções no momento. Ele precisava de algo para se focar além de si mesmo.
Você poderia dizer que aquilo era apenas adiar o problema, ignora-lo, e que isso só piora as coisas, mas para Percy era a lógica de quem está em dor. Você não tira a anestesia de uma pessoa que acabou de ter a perna amputada para que ela enfrente, se acostume e supere a dor. Se você fizer isso, tudo o que vai ganhar vai ser gritos a plenos pulmões em agonia e provavelmente um olho roxo.
Deixe a coisa baixar de volume primeiro.
Ou pelo menos foi o que Percy disse a si mesmo.
–
Na escola, ele passou a primeira semana quase sem falar com ninguém. Não porque não queria, mas porque ele não conseguia. Ver as outras pessoas, rindo, vivendo, seguindo suas vidas – era demais para si, como uma navalha cortando suas veias. Solidão era o que precisava, longe da vida que parecia sufoca-lo no momento.
Passava reto pelos corredores e só dizia algo quando era dirigido diretamente. Pelo resto do tempo, preferia ficar no seu quarto estudando. Estudando. Estudando. Desculpe, eu não posso ir, estou estudando para a prova.
Hoje não, eu quero revisar a matéria.
Eu não estou no humor para festa, desculpe.
Esse final de semana foi fazer uma maratona de estudos.
Havia uma parte sua que ficou assustada com o quão não-explodindo ele estava com tanto estudo. A outra simplesmente seguiu em frente, mecanicamente.
Entretanto, quando a semana de provas finalmente terminou, assim terminou também as desculpas que Percy podia dar para não se envolver com a turma. Ele conseguiu adiar qualquer coisa por mais uma semana, tempo no qual começou a sentir suas fontes de distração começarem a quebrar e ele estava desesperadamente tentando achar algo que o mantivesse ocupado.
Foi quando Lina perdeu a paciência e destruiu a porta do seu quarto.
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