Nem Tudo É De Primeira
9 Nem Tudo É De Primeira.
Percy mordeu o lábio inferior, pensativo. Seus dedos estavam flutuando sobre o teclado fazia já alguns minutos, sem nada escrever, e ele encarava a seta piscando calmamente há mais tempo ainda.
Por fim, mandou a vida se fuder junto do mundo e escreveu rapidamente, o barulho das teclas sendo pressionadas preenchendo o dormitório silencioso, antes de se erguer agarrando sua jaqueta e sua carteira no processo e sair apressadamente do lugar, quase se esquecendo de trancar a porta.
Ele tinha coisas importantes para fazer.
PJ123 Há alguns segundos
Ninguém controle por quem se atrai e por quem se apaixona.
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Ele estava andando tão rápido que quase trombou contra Penny, saindo distraidamente do dormitório feminino escrevendo algo no celular. Soltou uma exclamação alta, que fez a ruiva saltar de susto e começar a virar na sua direção, mas antes de conseguirem fazer contato visual Percy fez um estranho malabarismo com o corpo, numa tentativa desesperada de evitar um encontrão. Conseguiu brecar a tempo suficiente para dar uma volta bizarra na ponta dos pés em torno da garota, desequilibrando na frente dela de maneira nada elegante.
“Wow!”
Penny saltou de susto de novo, virando-se rapidamente para frente. Encarou-o surpresa, erguendo levemente as sobrancelhas ruivas. “Percy, o que você esta fazendo?”
O semideus se aprimorou, voltando ao normal. “Nada! Eu só... não tinha te visto. Desculpe.”
A garota acenou devagar com a cabeça, fazendo um movimento com a mão que dispensava a necessidade do seu pedido de desculpas enquanto olhava-o de cima baixo curiosamente. Um sorriso divertido surgiu nos lábios rosados da mortal. “Vai finalmente sair, huh?”
“Eu... sim.” Respondeu esfregando as mãos nas jeans que usava. Engoliu em seco. “Eu conversei com... com Dean e eu vou falar com o Nico.”
Penny olhou para ele por um momento, encarando-o diretamente nos olhos com seus orbes azuis-escuros sem a diversão de segundos atrás. Mas então ela sorriu um sorriso gentil e doce, igual a uma flor linda de pétalas rosas e pouco reconhecida pelo mundo, porque não é exatamente rara e nem é mencionada em livros de Shakespeare, pois é simples e sincera e de repente Percy viu o que Lina provavelmente viu e o que a fez se apaixonar tão perdidamente por uma garota que foi tão injustamente solitária que ninguém por anos sequer olhou em sua direção.
Uma alma honestamente boa.
“Eu fico feliz em ouvir isso.” Falou, no seu tom suave de costume. Penny inclinou a cabeça para o lado de leve, parecendo inconsciente de sua incrível magnitude de ser humano como alguém capaz de ser naturalmente, simplesmente boa. Alguém que instintivamente sabe o que fazer em todas as situações enquanto pessoas como Percy, estranhamente normais, tinham que lutar e pensar para chegar na mesma conclusão. Ela encostou a ponta do seu celular na beirada do seu sorriso. “Aquele menino precisa de você.”
Alguém que sempre sabe aonde olhar.
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[Não dar um segundo pensamento para as pessoas. Isso pode ser perigoso.]
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Fechou os olhos por um momento, respirando fundo.
Então os abriu novamente e deu um sorriso pequeno para a amiga. “Você está certa. Sempre tão sensata.”
Ela piscou os olhos grandes e riu uma vez, deixando o elogio deslizar sem embaraça-la ou mesmo massagear o seu ego – nem mesmo que minimamente. “Nem sempre. Eu aceitei namorar com a Lina, não aceitei?”
Percy riu, o som alegra saindo inesperadamente da sua boca. Olhou com carinho para sua amiga, sentindo-se impossivelmente feliz por ela pela milésima vez. “Talvez não tenha sido a escolha mais sensata da sua vida, mas foi uma das melhores, não foi?” Disse, as mãos deslizando para dentro dos bolsos da jaqueta e sentindo com a ponta dos dedos da sua mão direita a caixinha fria de Sacha.
Os olhos de Penny se desviaram para um ponto invisível entre eles, torando-se sonolentos de recordações, enquanto ela sorria um sorriso cheio de significados pessoais que Percy não duvidou que somente Lina pudesse entender. A ruiva deslizou o celular sobre os lábios num movimento inconsciente, o chaveiro da letra L balançando de leve. Ela respondeu sem olha-lo nos olhos, mas Percy não se incomodou daquela vez.
“Foi a melhor da minha vida.”
Seus próprios olhos se desviaram para o céu.
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[Eu não te culpo mais.]
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E ele acenou, concordando.
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“Você sabe pra onde você vai?” Penny perguntou.
Percy mordeu o interior da sua bochecha, pensando sobre a lista de locais que ele montou ontem à noite onde ele achou que Nico poderia estar. Era duro admitir que, em quase cinco horas, ele só conseguiu pensar em uns seis lugares, quase todos não muito promissores – era um tapa na cara realizar que, em quase cinco anos convivendo com Nico, ele ainda não tinha quase nenhuma ideia do que o garoto fazia quando não estava no Acampamento.
E mesmo que tivesse o fato de que o menor quase nunca o procurava para conversar e que a maior parte do tempo em que eles se conheceram os dois tinham coisas mais importantes com o qual se preocupar (como salvar o mundo, a humanidade e os deuses gregos do Olimpo que tinham a incrível habilidade de não fazerem nada mesmo sendo deuses) do que a rotina um do outro, Percy ainda tinha uma pesada sensação de que ele tinha negligenciado e muito seu amigo.
Bom, pelo menos agora ele estava tentando mudar isso.
... Melhor, ele ia mudar isso.
Chega de ser um completo idiota com seus amigos, Jackson. Pensou com firmeza para si mesmo. “Não exatamente, mas eu tenho umas ideias.”
“Hm.” Penny olhou-o ligeiramente incerta. “E você tem dinheiro o suficiente para essas suas ideias?”
Olhou confuso para ela. “Como assim?”
“Quanto você tem, Percy?” Ela indagou, ignorando sua pergunta.
Deslizou a mão automaticamente para o bolso da jeans e tirou sua carteira, espiando o tanto de dinheiro que tinha sobrado esse mês. “Uns vinte dólares.” Olhou para a amiga, que o encarava meio incrédula. “O que?”
A garota suspirou uma vez silenciosamente. “Você se recorda que hoje é sábado e que Nathan e Lina e Dean e todos os seus amigos que possuem um carro saíram para ir visitar suas respectivas famílias e que você vai ter que usar ou o ônibus ou o trem ou o taxi para andar por ai?” Ela falou seriamente, as sobrancelhas vermelhas puxadas juntas no meio da sua testa.
E lá se foi sua certeza e firmeza, virando pó e sumindo feito areia ao vento.
Penny analisou sua expressão por um momento antes de apertar os lábios, meio áspera e meio divertida. “Você tinha esquecido.” Não era uma pergunta.
“Hm...”
A ruiva soltou um som descrente que parecia muito com uma risada. “Percy, meu bem, você pensou direito como você ia acha-lo antes de sair correndo feito um desembestado?”
“E-eu pensei aonde, mas...” Engoliu a saliva acumulada na sua boca, sentindo o rosto queimado. Pigarrou uma vez, desviando os olhos para qualquer ponto menos Penny. “... eu não... pensei sobre como eu ia... chegar lá.”
Olha que interessante à linha de formigas andando perto do seu pé.
Uma mão pequena repousou sobre seu ombro. Ergueu os olhos para ver Penny olhando-o com uma diversão mal contida na expressão. Ela falou, um riso escapando levemente com as palavras. “Se eu fosse a Lina... “
O semideus estremeceu. “É, eu sei.”
A ruiva riu uma vez, apertando um ponto entre os olhos com um dedo pintado de laranja. A garota suspirou uma vez antes se voltar para ele de novo, adotando uma pose definida. “Ok, querido. Você precisa reduzir suas ideias para um número que caiba no seu bolso. São quantas?”
Ele revisou rapidamente sua lista mental. “Seis, eu acho.”
“Quantas são longe daqui? Tipo, duas horas ou mais de carro.”
Ele revisou de novo. “Hm... seis.”
Penny o encarou por um longo segundo. “Como exatamente você estava esperando visitar todos eles com vinte dólares?”
Percy sentiu o rosto queimar. “Eu não achei que ia precisar de dinheiro!” Se defendeu, encolhendo sobre o olhar da amiga. “Eu estava contando em pegar o carro de Dean emprestado.”
“Ok, que seja.” Respirou fundo a ruiva, parecendo pensar por um momento. Então após uns dois minutos em silêncio ela balançou a cabeça. “Não tem jeito nenhum de você conseguir ir a todos eles. No máximo um ou dois e você vai ter que andar muito, meu bem.”
“Isso não é um problema, é só que...” Ele ralou para pensar nesses seis. Agora ele teria que reduzir para dois? Não tinha ideia do como faria isso, todos tinham a mesma probabilidade de chances dele encontrar Nico.
Penny se adiantou e segurou ambos os seus braços, olhando-o com firmeza nos olhos, “Pense, Percy. Se você fosse seu amigo, para onde você iria? Esse sempre é o truque. Onde você procuraria Dean se ele sumisse?”
Essa era fácil. "Na quadra abandonada de esportes."
"E Lina?"
"Hmn... Provavelmente no subterrâneo." Ele disse após um momento de pensamento. "Metro, eu acho."
Penny sorriu. "Viu? É fácil, é só imaginar."
Verdade, só que...
Ele mordeu o lábio inferior e tentou pensar. Tentou pensar em Nico, tentou pensar sobre tudo o que sabia e tudo o que havia aprendido sobre o filho de Hades nesses últimos anos.
E as informações vieram com uma facilidade e uma riqueza de detalhes que o surpreendeu.
Nico não gostava de conflitos, mas tinha um problema ainda maior com conflitos pessoais. Ele tinha a tendência de, talvez não fugir estritamente dizendo, mas querer evitar confrontar as pessoas com quem ele desenvolvia algum tipo de problema mais intimo. O assustava esse tipo de coisa e havia um toque defensivo sempre que alguém tentava conciliar com o menor. Um medo de se aproximar das pessoas que o fazia escolher a solidão.
Isso riscou dois lugares da sua lista.
Mas a solidão não era algo que Nico gostava, isso era algo que ele já havia visto. Mesmo que ele a preferisse, se lhe era oferecido um opção onde ele não se sentisse oprimido ou pressionado socialmente, o garoto iria considerar, ele ia olhar para a oferta com cuidado, mas com ansiedade também, medindo o medo e a companhia.
E se a pessoa que tivesse oferecido agisse do modo correto, se ela soubesse bem o que ela podia e o que ela não podia pedir do semideus, então ela talvez fosse recompensada com um Sim. Porque Nico queria companhia, mesmo que seu primeiro instinto fosse evita-la.
Isso riscou mais duas opções da lista.
Só que ele era seleto com as pessoas com quem ele arriscava passar um tempo junto. Não era com qualquer um que ele iria se sentar ao lado na mesa ou se dispor a conversar de verdade, com um sorriso honesto ou dois.
Não era com qualquer um que ele iria buscar conforto também.
E isso reduziu a lista a um lugar.
Olhou para Penny, sentindo um peso no peito que estava se tornando familiar. “Eu já sei aonde.” Forçou um sorriso no rosto e se inclinou para dar um leve beijo na bochecha da ruiva, antes de se afastar rapidamente. “Obrigado, Penny.”
Se virou e estava se preparando para disparar em direção ao portão da escola quando sentiu sua mão ser segurada. Olhou de volta para trás. “O que foi?”
A mortal o olhou gentilmente. “É melhor você ficar com isso.” Ela disse antes de pressionar uma nota de cinquenta na sua palma. Cortou seu imediato protesto com um olhar sério, fechando seus dedos em torno da nota. Então ela se afastou, pondo as mãos para trás do corpo. “Boa sorte.” Falou com sinceridade, a expressão abertamente carinhosa.
Percy engoliu em seco, olhando do dinheiro para a amiga por um momento antes de deslizar a nota para dentro do bolso. “Obrigado.”
Penny sorriu. “Amigos são pra isso.”
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Ele conseguiu achar um taxi que o levasse até Atlantic Ave, aceitando sua incrível pechincha de pagar pelo menos três dos pedágios até o local. Acabou com quase todo o seu dinheiro nessa viagem, mas pelo menos ganhou um tempo razoável de dianteira.
Teve que esperar pelo trem 8818 até Jamaica por impacientes vinte minutos e trinta segundos, o tempo todo em pé e lutando para não ficar andando de um lado para o outro e irritar as pessoas ao seu lado. Quando embarcou, mesmo sabendo que a viajem não poderia ter durado mais do que quinze minutos não parou de roer as unhas e mexer os dedos. E ele sabia que ainda tinha um longo percurso pela frente.
A sua TDAH não o poupou um minuto sequer aquele dia todo, porque o tempo parecia escorrer feito placa tectônica.
Desceu correndo da estação e foi direto em direção ao próximo, ignorando os palavrões e as exclamações ofendidas das pessoas com quem ele esbarrava. Quase perdeu o trem, o que provavelmente teria lhe rendido um ataque de nervos a altura, e se acomodou no fundo do vagão em pé tentando recuperar o fôlego enquanto sentia o trem começar a andar.
Deslizou de onde estava apoiado na parede até o chão, sentando com as pernas dobradas perto do seu corpo. Viu uma mulher olha-lo de esgueira antes de mudar de lugar e um senhor encara-lo com divertimento, talvez imaginando que ele estivesse fugindo de casa.
Ele os ignorou. Ignorou todo mundo e ignorou que havia lugares perfeitamente vazios a apenas alguns metros de onde ele estava, porque Percy sentia em seu interior que se ele se mexesse agora não iria conseguir mais parar até chegar ao seu destino. Então ele não se mexeu pelas três horas seguintes, olhando firmemente pela janela a paisagem passar e mudar, sentindo os saltos de energia quando passavam perto da agua do mar e ignorando as tentativas de chamar a sua atenção das colegiais em pé ao seu lado e recusando educadamente a oferta da senhora de se sentar no lugar dela, porque ela já estava para sair e um garoto como ele não deveria ficar no chão gelado com aquele tempo frio.
Ele se manteve assim a viagem inteira, tentando desesperadamente manter a cabeça limpa de pensamentos, porque senão ele começaria a ficar nervoso e estressado e iria esquecer tudo o que ele havia preparado na noite anterior para falar para Nico.
Podemos dizer que Percy era horrível nisso também.
Pelo tempo em que chegou décima segunda parada do trem, a sua parada, ele já estava à flor da pele com um firme tufo de cabelo entre os dedos.
“Última parada, Montauk. Repetindo, última parada Montauk...”
Saltou sobre os pés, assustando o único passageiro no trem além dele mesmo. Fez um gesto de desculpas para a mulher e disparou para fora, seus pés fazendo um som molhado conforme batiam nas inúmeras poças que haviam se formado com a chuva de minutos atrás.
Ele automaticamente achou o seu caminho habitual por aquelas ruas, porque ele sempre vinha ali com sua mãe no carro dela e do Paul nas férias de verão. Mas dessa vez Percy parou na metade no caminho e tomou outra rota, em nada diferente das outras ruas desertas e cobertas de matagal e colinas vazias. Seus passos eram o único som pela estrada vazia, com exceção de um ou dois carros que passavam de vez em quando ao seu lado.
O ar úmido da chuva recente fazia sua pele ficar molhada, grudando seu cabelo de leve e esfriando suas roupas, mas manteve o passo firme o que afastou o frio do seu corpo.
Olhou para cima, vendo o céu claro e aberto da manhã sendo substituído pelo escuro e cheio de nuvens do inicio da tarde, o sol começando a se pôr no horizonte. Era uma visão linda e triste, de certa forma.
Sua cabeça rodava, repetindo o discurso que havia montado ontem a noite palavra por palavra como uma mantra para se manter calmo. Estava funcionando pelos primeiros metros, mas agora que estava se aproximando do local o efeito estava se tornando o oposto.
Seus dedos se apertaram na caixinha de Sacha e sentiu o peixinho mordiscar sua pele, se pedindo para ele parar de tentar destruir sua casa ou tentando assegura-lo em seu nervosismo ele não sabia, mas acariciou-a de volta de qualquer forma e tirou a mão do bolso.
Parou seus passos.
Havia chegado.
Olhou para cima e observou a entrada de pedra diante de si, a placa de ferro ainda cheia de gotículas da chuva e Percy se perguntou se fazia parte do pacote desse tipo de lugar trazer essa aura deprimida.
Com um suspiro fundo, engoliu o seu nervosismo e caminhou para frente em passos decididos, entrando de cabeça erguida e mãos ligeiramente trêmulas no Cemitério de Fort Hill.
Onde um túmulo com apenas um corpo sustentava dois nomes.
Maria e Bianca di Angelo.
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