Nem Tudo É De Primeira

26 Nem Tudo É De Primeira


Notas iniciais
Wow, aparentemente eu não morri, huh? Como minha querida amiga que veio me espancando com um gato morto disse, declarando tbm que faz três anos que eu não atualizo essa fanfic.

Percy estava caminhando pelo corredor quando ouviu as vozes sussurrando.

“-eu falei com o Quíron e ele disse que o Percy havia acordado! Qual é o problema?” O tom gaguejado, não por nervoso, mas sim porque as cordas vocais em questão eram meio bode, entregaram Grover primeiro. Ele parecia chateado.

“O problema é que você parece um filhote de bode chutado, estúpido.” Grunhiu... Clarisse? A filha de Ares soava mais estressada do que a última vez que ele a viu. “Você realmente acha que ele não vai notar que algo está errado no instante em que ele te ver assim, parecendo ter acabado de voltar do enterro da sua bezerra?”

Grover baliu em protesto. “N-não diga coisas horríveis assim!”

“Ok, má escolha de palavras, mas você entende meu ponto. Eu não poderia dar a mínima para o que acontece com o Percy na maior parte do tempo. Hades, seria uma das primeiras a rir se ele caísse e quebrasse a cara. Eu fui uma das primeiras a rir quando ele caiu e quebrou a cara. Mas é isso. Eu não piso em quem está no chão, ok? E o cara poderia muito bem estar enterrado pelo tanto de merda que está chovendo nele nesses últimos tempos. O ataque, o coma e agora ele acabou de descobrir sobre os amigos mortais dele. Vamos dar um tempo antes de chutar a outra bomba, okay?”

Houve um muxoxo tristonho, acompanhado de balidos desanimados, enquanto Grover concordava.

Percy fechou os olhos e respirou devagar.

Por um segundo, imaginou-se virando e voltando de onde tinha vindo, voltando para a enfermaria e deitando na cama. Imaginou-se ignorando tudo o que havia ouvido, forçando a continuação da sua alienação e deixar que os outros cuidasse do que é que fosse aquilo sozinhos, concedendo o desejo deles de poupa-lo.

(Por um segundo, ele imaginou como é que seria abandonar o posto de Percy Jackson)

(Era tão leve que ele sentiu-se enjoado)

Abriu os olhos devagar e observou a parede da curva que o corredor fazia.

Então deu um passo e saiu de onde estava.

—

“Que bomba?”

Grover pulou de susto e se virou. Clarisse apenas franziu os olhos, parecendo adivinhar que estivera escutando escondido.

Seus olhos traçaram os contornos do rosto da filha de Ares, vendo-a igual à quando ela o acertara na cabeça algumas horas atrás. Quando se voltou para Grover, entretanto, foi forçado a pausar.

Clarisse estava certa. O sátiro estava horrível.

Estava mais pálido do que o normal, com olheiras escuras num contraste agressivo na sua pele e parecia ter perdido vários quilos desde a última vez que se viram. O cansaço emanava dele como ondas, o modo como seus ombros estavam caídos e ele se curvava dentro de si mesmo, parecendo incapaz de aguentar o próprio peso por muito tempo.

A exaustão do seu melhor amigo pareceu atingi-lo com força, lembrando-o do seu próprio estado deplorável.

Mesmo assim deu um passo para frente, suas mãos automaticamente procurando ajudar com uma força e energia física que ele definitivamente não tinha. “O que aconteceu?” Perguntou.

Grover não recusou o seu toque, mas não depositou o peso nas suas mãos. Em vez disso, o sátiro o encarou por alguns segundos, juntando as sobrancelhas no meio da testa num semblante preocupado, o lábio inferior sendo mastigado por isso. Depois o outro garoto lançou um olhar de esgueira para Clarisse, que observava tudo com uma expressão impassível.

Percy se virou, o rosto tão vazio de expressões como o da garota.

[Ele ainda havia de fazer uma, na verdade]

[Não tinha mais energias para emoções]

A filha de Ares o observou estoica, a imagem e definição de um general de guerra sondando seu soldado e avaliando se ainda faltava muito para quebra-lo. Se valia a pena joga-lo no campo ou no final se provaria mais como um peso morto.

Percy não se moveu. Deixou-se ser analisado e julgado e decidiu que o que é que Clarisse decidisse, ele aceitaria. Já havia feito sua parte, já havia dado aquele passo. Se não achassem que sua ajude valesse a pena, ele voltaria ao seu caminho.

Porque no final das contas, ele não tinha muito a oferecer.

“Qual é o seu problema?”

Olhou para ela. “Como?

Clarisse bufou, enrugando o nariz numa careta de nojo. “Eu consigo ouvir você sentindo pena de si mesmo. Pode parar. Está me dando ânsia.”

“Clarisse!” Grover arregalou os olhos, choque e então subsequente incredibilidade despejando dele. “N-n-não-!”

“Cala a boca, sátiro. Você pode ter a paciência de passar a mão na cabeça desse idiota toda vez que ele fica assim, mas eu não sou amiga de nenhum de vocês. Eu não tenho obrigação de ser legal.” Ela cruzou os braços então, e o encarou de cima para baixo friamente. “Então me diga, qual é o seu problema? Com essa cara de cachorro chutado, dá para ver que você não quer realmente ouvir a resposta.”

Percy a encarou de volta com o cenho franzindo, sentindo-se irritado. Quando isso falhou em fazer a filha da guerra vacilar, grunhiu e virou o rosto, decidindo observar a janela em vez disso. Houve uma risada cheia de escárnio que ele fingiu não escutar.

“Que foi? Acertei num calo?”

“C-Clarisse, por favor-”

“Deuses, você é patético, Percy.” Clarisse sorriu, ignorando Grover, e Percy sentiu algo se arrebentar e quando ele se viu estava agarrando a parte da frente da camiseta da garota e o outro punho estava erguido e seus dentes expostos, num rosnado mudo, e ele via vermelho, furioso.

“Percy!”

Clarisse não reagiu, deixando ser puxada com um sorrisinho satisfeito e ele teria feito— teria socado com toda sua força se não fosse o repentino peso jogado contra teu braço e de repente, Grover estava entre ele e a filha de Ares. Percy congelou, ar raspando fino como gelo nos seus pulmões do nada.

O sátiro quase não alcançava o queixo de Clarisse e seu punho estava muito mais alto do que qualquer barreira que ele tentasse criar e Percy poderia continuar sem problema – ele sequer rasparia no amigo, passando direto por cima dos cachos para o maxilar da garota do outro lado, para aquele sorriso cheio de escárnio como se ela entendesse alguma coisa, como se ela soubesse a merda que era a sua vida— mas um único olhar para baixo e para a expressão horrorizada do seu melhor amigo e ele sentiu toda sua vontade quebrar.

Ele soltou a garota e com um rosnado, empurro-a para o lado, para fora do seu caminho, e seguiu em frente com pinicadas de entorpecimento na ponta dos seus dedos, ignorando os chamados de Grover. Clarisse gargalhou e falou. “É por isso que você é todo fodido, Percy. Você só faz o que você deve, não o que você quer. E esse seu senso ferrado de obrigação vai te matar um dia desses e pode apostar que eu vou estar lá para assistir.”

Diga algo que eu não sei, rangeu os dentes antes de fechar a porta com tudo atrás de si.

O som não foi tão satisfatório como esperou.

—

De todas as pessoas possíveis que poderiam estar na sala de reuniões da Casa Grande, foi Leo que o destino te mandou pular de susto com a força com que fechou a porta.

O filho de Hefesto arregalou os olhos para si, parando de mexer na caixa de achados e perdidos sobre a mesa de Pingue Pongue. Estava semi-pintado de graxa como sempre, com roupas parecendo levemente chamuscadas (o cheiro de cabelo queimado confirmando isso) e ganhando subitamente o ar de alguém querendo estar em qualquer outro lugar, exceto ali.

Havia bandagens em todos os dedos dele e espiando para fora da gola e parecia ter perdido uma luta contra um gato.

Percy respirou fundo, o ato em si parecendo trêmulo, e tentou relaxar sua expressão.

Quando isso não funcionou, ele recorre a simplesmente esconder o rosto em uma das mãos. “Foi mal.”

“Uh... sem problema, cara.” Há um ting! como metal contra metal suave entre as palavras hesitantes do filho de Hefesto e Percy está cansando demais para lidar com o constrangimento e a tensão e qualquer outra coisa, então ele ignora o modo sem jeito que o outro rapaz se mexa na cadeira e se joga em uma.

Adrenalina de antes, tingindo os cantos da sua visão de vermelho, começa a rapidamente sumir até deixa-lo sentindo-se vazio. Percy tenta respirar de novo e quando isso mais uma vez falha, ele deixa sua cabeça cair sobre seus braços na mesa e deixa a sensação de estar preso dentro de uma pele muito apertada varre-lo.

Sufocante, parecendo deslizar cada vez menor. Ele agarra seus próprios fios e puxa até a dor ser o suficiente para distrai-lo.

“O que aconteceu?”

“O... o que?”

Não se mexeu. “Enquanto eu dormindo feito um idiota, o que aconteceu?”

“E-eu- uh, eu não sei se eu devo-”

“Leo.” Percy não tinha intenção de cortar tão rispidamente o outro rapaz de modo que pausa por um momento, ouvindo o silencio desconfortável. Grunhe, frustrado. “O que aconteceu com você?” Repete, dessa vez tomando cuidado com suas silabas.

O resultado é um tom quase como o de uma pessoa normal.

Das mãos do filho de Hefesto sai um pequeno macaco eletrônico, que pula sobre as patas traseiras duas vezes antes da corda acabar. O outro rapaz quase parece não notar isso, pegando o objeto mais uma vez e o desmontando em poucos segundos, o tempo todo evitando o olhar de Percy. “O que acontece com todos os semideuses, eu acredito. Perdi uma briga.”

“Contra quem?” Franziu o cenho.

As mãos cheias de cicatrizes e calos congelou por um segundo e Percy ergueu os olhos para ver a expressão confusa de Leo, encarando-o de volta pela primeira vez. “Você não sabe?”

Suas sobrancelhas se ergueram sozinhas no meio da sua testa, refletindo a confusão do outro menino. “Como eu poderia saber?”

“Como você-? Mas Quíron disse que, que você também foi...” A frase de Leo foi lentamente morrendo e a compressão em seu rosto gradativamente crescendo. Então houve um click! metafórico no ar e os olhos do rapaz se esbugalharam por um instante antes dele piscar freneticamente, e então se erguer bruscamente da mesa gaguejando mil palavras por segundos, dedos ágeis agarrando as peças soltas da mesa. “E-e-e-eu tenho que ir! Eu esqueci q-que eu tinha que ajudar com os reparos das catapultas e se eu não for, a galera do chalé inteiro vai notar e eu não posso faltar porque eu sou o representante atual e eu meio que tenho que mostrar um bom exemplo, então e-”

Percy conhecia uma tentativa de fuga estratégica de longe e quando Leo virou para disparar para fora dali, ele já estava no meio do caminho. O garoto menor engoliu visivelmente, seu pomo-de-adão tremendo, e tentou fracamente parecer afrontado. “H-hey.”

Percy não disse nada e apenas enfiou as mãos nos bolsos dos shorts que vestia, encarando-o nos olhos.

Tentou ignorar o modo como seus dedos imediatamente se fecharam em punhos, as unhas encaixando-se em feridas já existentes.

Houve um momento estático, em que Leo hesitou com suas peças em mãos e pareceu debater se valia a pena tentar enfrenta-lo para sair dali e Percy suprimiu uma carranca de mal humor. Canos rangeram em resposta por todos os lados, um tremor pelas suas veias indicando a água disponível ao seu poder com um mero pensamento. Que ele tente, rosnou uma parte de si. O oceano vs. Fogo. A natureza já ditava o resultado daquela luta antes mesmo deles terem nascido. Ele poderia afoga-lo antes que ele sequer conseguisse pensar em invocar suas chamas-

Respirou tremulamente, choque pondo um basta nessa trilha de ideias. Cerrou os olhos e pensou: mas qual é a merda do seu problema?

“Desculpe.” Murmurou cansado, e se virou, sentando-se na beirada da mesa.

De repente era como se tudo fosse um esforço em demasiado.

Qual é o seu problema?

Qual é a merda do seu problema?

Houve um rangido suave de peso sendo alternado sobre madeira e “Credo, cara.” quebrou o ar. Percy abriu os olhos, surpreso em ver Leo parado na sua frente. O rapaz coçou a nuca, parecendo desconcertado. “Que jeito de fazer um cara se sentir culpado.” Falou ele, sorrindo quebrado.

Ele tentou responder o ato, mas os músculos do seu rosto pareciam entorpecidos. Em vez disso, deu de ombros e soltou um som grave, quieto.

“Eu só- hm, eu só não queria ser aquele que ia estragar o seu dia, quero dizer-” Falou o filho de Hefesto, parecendo determinado a achar um padrão no chão. “Estragar mais ainda, eu digo.” Adicionou após um momento e então pausou, parecendo realizar que não fora uma adição muito boa. “Uh...”

Bizarramente, sendo a criatura estranho ele é, é isso que faz Percy rir.

Cobre o rosto com uma das mãos e ri num respiro, sentindo-se paradoxalmente confortado pela falta de senso social de Leo. Algo se alivia dentro do seu peito – algo desagradável e amargo desde o encontro com Clarisse – e ele se sente um pouco mais ajustado na sua pele.

Um pouco... um pouco mais Percy, do que Percy Jackson.

“Você não precisa me dizer.” Fala por fim, honestamente. Ele se ajusta até estar propriamente sentado na mesa em vez de só apoiado e encara as próprias mãos, vendo as marcas vermelhas. Honestamente eu não quero saber, pensa contrariado, mas não admite em voz alta. “Eu só estou... cansado, eu acho. E irritado. Eu falei com a Clarisse alguns minutos atrás e definitivamente não foi uma experiência relaxante.”

“Eu imagino.” Leo simpatiza, a expressão de alguém que já não mais se sente como se estivesse pisando na toca de um dragão.

Um golpe de culpa o atinge, porque absolutamente tudo o que ele jamais quis ser foi ser um valentão. Um idiota usando a própria força para conseguir o que quer, vencendo usando-se da injustiça como ferramenta. Causa um gosto amargo no fundo da sua boca.

“Leo.” Começa.

“Foram romanos.” Ele o interrompe.

Percy pausa.

“O que?”

“Quíron disse que você foi atacado, por isso achei que haviam te contado sobre os outros ataques.” O filho do deus do fogo continua e Percy sente o que provavelmente era um aneurisma explodindo no seu cérebro.

Ergue uma mão num pedido silencioso. “Espera-”

Leo não nota. “Reyna, eu, Frank, Hazel, Piper, Clarisse e mais algumas outras pessoas sofremos ataques de romanos. Aparentemente muitas pessoas não gostaram do nosso tratado de paz? E vem causando muitos problemas? Eu não entendo essas pessoas, francamente. Depois da luta que teve no acampamento romano e o grupo rebelde de Octavio fugindo para a Rússia, as coisas começaram a ficar ainda mais caóticas por aqui, então Quíron vem usando a galera que fez o tratado pra tentar criar acordos com outros acampamentos, mas isso meio que saiu pela culatra porque agora todo mundo sabe que foi nós que começamos tudo e então acabamos virando alvo. Tirando a Reyna e o Frank, que já estavam sofrendo ataques faz meses lá no Acampamento Júpiter e- Percy, você está bem?”

Com as mãos no rosto, ele respira e conta até dez em voz alta. Tem consciência de Leo o encarando confuso, mas no momento ele ignora em favor de não embarcar numa onda de fúria e intenção assassina que seu corpo exausto definitivamente não iria aguentar e ele não queria voltar para a enfermaria.

Ele está já no número 33 quando seu controle escapa e o banheiro no corredor explode.

Leo salta, chocado. “O que-”

Percy não vai aturar nada disso.

“Que outros ataques?!”

—

Ele acha Quíron na sala do centauro.

A porta de madeira não tem chances nenhumas quando ele a empurra violentamente para fora do caminho. Ele diria que não era seu hábito quebrar propriedade alheia, mas ultimamente isso não tem sido verdade, então ele deixa a culpa para outra hora e se aproxima do seu professor em passos duros. “Por que ninguém me disse nada?” Exige.

Quíron parece inteiramente desaprovador como raramente parece, sobrancelhas grisalhas se franzindo em direção a porta. “Percy-” Ele começa, mas não o deixa terminar.

Suas mãos acham o caminho da mesa e ele bate ambas as palmas com força na superfície. A madeira treme e derruba um copo cheio de canetas. Percy não liga. “Por que ninguém me disse sobre os ataques dos romanos!? Sobre Octavio? Todo mundo está lidando com uma revolução esse último ano e só agora eu descubro!? Por que diabos ninguém me disse nada!?”

Percy nunca viu Quíron erguer a voz e isso não mudo nem mesmo nesse momento. O centauro cruza os dedos sobre a mesa e o encara calmamente, como se estivesse para discutir a lição de casa. “Sente-se, Percy. Você acabou de sair da enfermaria, não deveria estar se mexendo assim ainda.” Ele fala com paciência, proposito, e pela primeira vez isso faz sua irritação aumentar do que diminuir.

Seu punho desceu de novo, e dessa vez é o vaso que sofre. “Não mude o assunto!”

Quíron não se abala. “Eu não vou ter essa conversa com você fumegando feito um cão com raiva. Sente-se, Percy.”

Sua raiva, ele sabe, está totalmente mal colocada. Isso não o impede de balançar a mão e derrubar o vaso tombado no chão, causando um alto crack! na sala.

“Eu não quero sentar! Eu quero saber porque meus amigos foram atacados por meses e ninguém pensou em me informar disso!?”

“Quem morreu e te colocou no comando, moleque?”

Há um estalido e Percy se vira com os dentes expostos e punhos cerrados, sua fúria borbulhando inadequada e sem senso debaixo da sua pele. É lava, lançando enxofre e veneno em forma de fumaça que intoxica seu cérebro, e embora jamais o tivessem rotulado como uma pessoa razoável, é um novo nível de estupidez que o comanda nesse momento e o faz xingar o deus parado do outro lado da sala.

A palavra em grego antigo estala cheia de magia no ar, áspera feito uma cobra sibilando.

Dionísio pisca e sacode a cabeça, e a cobra morre.

É o único indicio da maldição que teria derrubado um mortal de joelhos. E mesmo não sendo digna de sequer atordoar o ser imortal, o deus do vinho franze o cenho e Percy é lançado no chão com a força equivalente de um elefante caindo em cima de si. Suas mãos salvam o seu rosto de ser remodelado, mas é por pouco, e o mesmo não pode ser dito do resto do seu corpo.

Dor explode em todos os lugares e Percy arqueja sem pulmões. Merda.

“Dionísio!”

A pressão não cede. “Estou apenas ensinando uma lição. Você vem ficando cada vez mais mole, centauro. Lembro de uma época em que semideuses virariam húmus por uma insolência dessas.”

Ele não consegue mais respirar e há luzes dançando diante dos seus olhos.

“Ele acabou de acordar do coma! Pare com isso antes que ele desmaie!”

“Hum.”

De repente o elefante se ergue das suas costas e ele consegue mover seu peito. Tosse explode dolorosamente, mas ele tenta respirar avidamente de qualquer jeito, arquejando. Fogo percorre seus músculos mais uma vez exaustos, punindo-o por ser um imbecil.

Isso, de jeito nenhum, é o suficiente para força-lo a ficar no chão. Ele se empurra de pé, engolindo os gritos de dor durante o caminho. “Merda.” Respira, sentindo suas pernas tremendo feito uma vara verde, e Percy desaba sem elegância contra a mesa de Quíron e dessa vez, as coisas caindo não são intencionais. Há um golpe de culpa que ele ignora.

Há um suspiro que ele também ignora. “Percy, por favor, se sente.”

“O que-... você está escondendo de mim?” A cabeça apoiada na madeira e ele sente gotas de suor percorrendo seu pescoço e suas costas.

“Eu disse-” Quíron corta Dionísio com um som ríspido e o deus resmunga, tomando a cadeira que Percy recusou.

A um sentimento no ar enquanto ambos os lados esperam o outro ceder, que não é exatamente impaciência – não, nem mesmo Percy é capaz de quebrar a paciência de alguém que teve milhares de anos para estendê-la. Soa mais perto de... desapontamento, embora certamente não seja direcionado para si ou ele já teria cedido.

Ah, certo. Percy se lembra que está diante de um homem com cem séculos de vida e a resposta se torna óbvia.

Quíron está cheio de tristeza.

“Eu não nego minha ofensa a você, embora sinta-me forçado a explicar meus motivos.” A cadeira de rodas desliza de trás da mesa e Percy, e joelhos no chão, se vê olho no olho com seu professor. A expressão do outro não é arrependida, se apenas resignada. “Você está cansado, Percy. Eu sei que não era minha para tomar, mas tomei mesmo assim a decisão de lhe poupar por pelo menos o tempo que você precisaria para descansar. Na época, os problemas não estavam tão fora do controle assim e julguei que eu e os outros semideuses conseguiríamos tomar conta das coisas sem precisar te envolver e devo dizer que nós conseguimos, por um tempo.” Ele aperta os lábios numa linha pálida. “Os ataques só começaram alguns meses atrás, Percy. Eu considerei nesse momento te avisar, se apenas para mantê-lo alerta de ataques a você mesmo, mas me foi trazido que você ainda necessitava de mais tempo. Vendo agora, eu vejo que era verdade, mas diante os acontecimentos de duas semanas atrás, reconheço o tamanho do meu erro. Me perdoe, Percy. Jamais foi minha intenção de te ferir.”

Olhos antigos o encaram humildes e uma culpa controlada, mas inteiramente honesta. Percy sente a boca seca e ele se mexe desconfortável, tornando-se impossivelmente consciente de todas as coisas caídas no chão.

Sempre, sempre um idiota.

Ele se senta no chão, derrotado. “Me desculpe por quebrar seu escritório.” Murmura.

Dionísio solta um muxoxo de desdém atrás de si, que passa por cima da sua cabeça.

A expressão pesada de Quíron se quebra por um momento num sorriso pequeno. “Bom, o mar não é conhecido por ser dono de um temperamento razoável.” Não é um perdão, muito menos uma condenação, e quase sete anos sob a tutela daquele homem o ensinaram a reconhecer os jeitos dele.

Há o som de uma lata de bebida sendo aberta e Dionísio fala. “Eu deveria te transformar num rato e te jogar no mar. Talvez assim você aprenda a ser mais respeitoso.”

Percy não se desculpa, mas dessa vez é apenas por orgulho e não porque ele não se sente arrependido. A frase do deus é ambígua, e ele tem a distinta impressão que Dionísio não estava se referindo somente ao seu xingamento para com ele.

“Quem... quem te disse que eu precisava de mais tempo?” Ele lambe seus lábios, sentindo-os secos.

Antes que Quíron possa responder, o deus do vinho interrompe. “Ah, foi o seu espiãozinho, não foi Quíron? Aquele que você tem usado para observar todo mundo, o filho do meu tio, Nino.”

O centauro franze o cenho, certamente ofendido em nome do seu aluno, mas Percy está distraído e pela primeira vez desde que fora esmagado no chão por ele, ele se vira para o deus com uma certa trepidação.

Ele molha os lábios de novo. “Você quer dizer Nico?”

Dionísio dá de ombros e bebe seu refrigerante de uva.

Notas finais
Um grito para o lindo ser humano Bone Hand que fez uma linda e maravilhosa recomendação enquanto eu procrastinava vergonhosamente a minha existência. E um agradecimento para todos que comentaram e visualizaram essa história, mesmo que a própria autora tivesse a abandonado por tanto tempo. Prometo responder todos os comentários (TT.TT) Bjs e até meus amores!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.