Nem Tudo É De Primeira

25 Nem Tudo É De Primeira


Notas iniciais
O meu estado psicológico nesse momento é igual a um veterano de guerra, sem falar do genocídio de neurônios que eu cometi nesse pequeno final de semana. Não sei como esperam que eu ainda faça mais quatro vestibulares e suas respectivas segundas fases. Odeio matemática e seus derivados. Enfim, voltando a dar notícias depois de fucking meses e a minha desculpa é que eu estava num limbo emocional sem fundo porque eu finalmente entendi que eu não entendo nada. Mas hoje eu reconheci esse fato da natureza e agora vou começar a imprimir meu currículo e mandar para o McDonald´s e os Burger Kings da vida. E só avisando que não, eu não vou voltar a postar com regularidade, isso só vai voltar a acontecer se eu, por milagre divino de Zeus, passar na segunda fase de ALGUMA faculdade público. Senão é mais um ano de cursinho (não são lágrimas, eu só estou descascando cebolas) Obrigada pela paciência e boa leitura.

Parecia que o mundo tinha congelado, frio e imóvel, uma camada fria de desespero cobrindo tudo como gelo. Uma neblina invisível borrando tudo ao seu redor.

Sua pele parecia entorpecida, enquanto sentia o–... morno escorrendo.

Seu peito já estava encharcado.

E ele quase era capaz de ouvir as gotas pingando. Devagar. Uma por uma. Até atingir o chão e se juntar a poça crescente sobre seus pés.

Nathan. Nathan, o que você está fazendo? Essa mancha nunca vai sair e a escola vai cobrar. Nathan. Oh, ótimo, você vai me ignorar agora? Bem infantil da sua parte. Sabe, sabe, nada disso é justo, porque ele não havia irritado ninguém, não havia brigado com ninguém em um longo tempo. Só com o Nico. É verdade! Nico. Nico. Você ia me ajudar sobre o Nico, não ia Nathan? Nathan. Por favor, me responda. Eu nunca quis- pessoas precisam respirar para viver. Nathan, você é esperto. Você sabe disso. Por que você não está respirando?

A Lina.... ela vai ficar arrasada.

Algo roçou contra o seu rosto e de repente mil e uma imagens invadiram a sua mente, uma após a outra, rápido e sem ordem e ele foi capaz de identificar um rosto cheio de dreadlocks louras e um óculos de aviador escuro e sempre carregando livros. Livros. Cheio de livros. Parecia um surfista, esse amante de Shakespeare e tecnologia e vegetariano, como sua irmã. Os dois sempre andando juntos. E-

Como porcelana sendo quebrada, o mundo explodiu em mil pedaços e voltou a girar e Percy pode voltar a si, sua consciência arrebentando ao normal violentamente.

Arquejou, sem ar.

A primeira coisa que viu foi Sasha voando rapidamente para longe e então o rosto pálido como giz e esticado em pânico de Lina surgiu, com os olhos castanhos arregalados transbordando lágrimas e o corpo pequeno tremendo tão violentamente que o próprio Percy sentia. E ele realizou que o peso em seus braços era Nathan, óculos escuros quebrados no chão e olhos castanhos abertos e imóveis e sua irmã pressionava algo – lençóis? – contra suas costas, o que não fazia muito para estacar o sangue. Quase nada. Ainda escorria e manchava de vermelho e ele sentia-se cada vez mais coberto e deuses, ele ia vomitar.

O instinto de Lupa gritou dentro de si um segundo depois e tudo sumiu feito mágica. Sua mão mergulhou por Contracorrente ao mesmo tempo em que soltou Nathan, girando o corpo e a longa espada de bronze surgiu a tempo de bloquear o segundo golpe, dirigido dessa vez para Lina.

Um alto tinido soou e seus braços arderam com a força do golpe.

Lina gritou atrás de si.

Seus olhos arregalaram um segundo antes de um rosnado escapar de si, arreganhando os dentes. Sua visão estava tingida de vermelho. “Fobos.”

Um adolescente, aparentemente não muito mais velho que si, sorriu expondo caninos brancos e reluzente e olhos feitos de fogo brilharam maliciosamente. A jaqueta de couro estava amarrada na cintura, deixando braços musculosos amostra, contraído enquanto o deus do medo empurrava a parte afiada da espada em sua direção.

Fobos riu e Percy foi capaz de ouvir um eco como clicks de aranhas atrás. “Olá, perdedor. Vim arrancar a sua cabeça, como eu prometi.”

Antes que pudesse reagir, o deus recuou e desferiu um golpe direcionado para a sua garganta. Abaixou a tempo, ouvindo o som da lâmina cortando o ar acima da sua cabeça e, pensando em Lina e Nathan logo atrás de si, rolou para frente. Aproveitando o movimento, girou sua própria espada contra o torso de Fobos.

Sentiu o impacto de metal contra metal vibrar pelo seu braço e arregalou os olhos chocados ao ver o bloqueio. O que-

Ouve uma agitação ao seu lado e ele só viu o golpe quando o joelho já estava afundando contra seu estomago. Violentamente. Dor. Percy sentiu o ar sair do seu corpo a força um segundo antes dele ser lançado para trás, voando, até bater contra algo. Dor explodiu de todos os lados e seus olhos ficaram momentaneamente cegos.

O que estava acontecendo? Era como se...

“É isso mesmo, lixo.”

[Clicks. Clicks. Como presas de aranhas.]

Percy ofegou e se forçou a enxergar.

Fobos sorriu de cima de si, um momento antes de pisar com força na sua mão segurando Contracorrente e ele só pode gritar, em agonia, ao sentir dedos quebrando. Então uma bota de couro desceu sobre o seu peito, arrancando o pouco ar que tinha. Esmagando. Um gosto metálico invadiu sua boca e ele não sabia se havia vomitado sangue ou apenas mordido a língua.

Algo frio encostou contra sua garganta. Percy abriu os olhos marejados de dor e se encontrou contra a ponta de uma espada dourada. O deus do medo gargalhou e se inclinou, falando contra o seu rosto, um bafo como cheiro de um campo de batalha queimando. “Eu aprendi alguns truques nesses anos. Apenas para poder te estripar.”

Fúria queimou através da dor, um ódio que não achou que sentiria de novo na sua vida rasgando pelas suas veias, porque havia sangue na lâmina divina e os soluços violentamente silenciosos de Lina eram como o único som do mundo no momento. Engoliu ríspido o grito de dor que subia pela sua garganta e falou dentre dentes cerrados. “Estou-... lisonjeado.”

“Você é um filho da puta arrogante, sabia disso? Mas quem sabe se...” A ponta afiada deslizou da sua garganta para bem acima do seu olho esquerdo e Percy congelou, sem ousar respirar. Sua visão estava banhada em ouro afiado e poderoso, centímetros de arranca-lo a visão e seus batimentos eram tambores em seus ouvidos e ele sentia a dor irradiando dos seus dedos consumindo seu ódio a nada, conseguia sentir o gosto metálico na língua e no ar e o cheiro de carne queimada e ossos carbonizados e dor. Fobos riu, ecoando gritos de agonia e desespero e o sibilar de mil aranhas e- e o Empire State estava atrás de si e companheiro após companheiro caia ao seu lado, sangue espirrando pelo ar e corpos sobre seus pés, porque ele não podia parar de mover, porque parar era morrer e ele não podia não podia não podia, quem ia liderar se ele simplesmente chorasse e desistisse e havia uma ponte caindo e um arco quebrado na beira, sem Will e-

então outra risada, mais profunda, mais antiga, mais poderosa, mais gentil, a voz de uma mãe que fala com o assassino do seu filho e Oh, pequeno semideus, por que não desiste? Os deuses já não mais ouvem, não mais respondem e Poseidon- pai, pai onde você está? Por favor, não me abandone, me ajude, eu não quero- eu não quero morrer. A quanto tempo estou preso aqui? Semanas, meses, seis meses, eu perdi seis meses, eu perdi- eu perdi- eu perdi ela.

“Eu devo te levar vivo. Mas o que é um braço ou dois a menos para o grande filho de Poseidon, huh?” Sibilou o som de mil presas de aranha e o ouro se afastou de repente.

Eu estou-

“Hey!”

O mundo estilhaçou, de repente.

Literalmente.

Pedaços de aço e vidro choveram do ar e ele ouviu, distante, um urro de dor e como se a própria realidade se retorcesse, o terror e a dor sumiram, atingindo-lhe com violência na sua repentina ausência e Percy arquejou desesperado, confuso. O que estava-

Então dois olhos escuros surgiram diante de si, castanhos escuros – castanho, castanho é uma boa cor, uma cor... bonita porque castanho era como a cor do tronco de arvores antigas e nozes doces e dos olhos – em uma rosto pequeno e fino, branco de pânico e manchado de respingos vermelhos.

Lina? “Lina?” Sua garganta raspou dolorosamente.

A garota piscou os olhos inundados de lagrimas e ele sentiu uma mão pequena agarrar a parte de frente da sua camiseta, tremendo. “V-você... você está bem? Você estava- estava-...”

Ou ele que estava tremendo?

Agarrou o pulso fino da amiga e se ergueu, ignorando a dor e o terror e o quão drenado o seu corpo todo estava. Estava acostumado com isso. Com estar exaurida até a alma e ignorar e seguir em frente. Fazia parte de ser um semideus, ou de ser Percy Jackson. O que viesse primeiro.

Lina arregalou os olhos e se soltou, agarrando um laptop contra o peito. Um laptop em ruinas, com a tela estilhaçada, faltando vidro e pedaços do teclado.

Seu laptop.

“Você-... você acertou o deus do medo com o meu laptop?”

A morena olhou para o objeto destruído em suas mãos e então ergueu um olhar culpado, embora ainda levemente histérico. “Eu- sim? Huh, desculpe. Eu acho.”

Percy quis rir. Queria dizer que ela havia acabado de salvar sua sanidade destruindo seu bem mais caro. Mas tinha a vaga sensação de que isso acabaria soando errado e distorcido, porque ele não estava feliz. Estava tudo menos feliz. E talvez ainda não tão sano.

E sua garganta ainda doía.

[Geralmente essa era a ideia da tortura, não é? Fazer a pessoa gritar até perder os pulmões]

Ergueu-se do chão e se aproximou dos amigos, no mesmo tempo em que Lina pareceu sacudir o corpo inteiro violentamente. “Espera, eu acertei quem?”

Sua mão encontrou automaticamente o pescoço de Nathan, pressionando a região abaixo do maxilar. Concentrou-se por um momento, tentando ignorar a pele pálida e gélida sobre seus dedos e o nó de horror em seu estomago, ameaçando faze-lo vomitar.

Controle, Percy Jackson, se controle. Depois você entra em pânico. Agora não.

Esperou vários segundos, olhos focados no nada.

[Ele não conseguia sentir nada.]

Lina surgiu no seu campo de visão, mas Percy não conseguia se mover. Não podia. Porque ele não estava sentindo nada.

Duas mãos manchadas de vermelho voltaram a pressionar o pano contra as costas de Nathan, nós dos dedos brancos de força. “Percy, o que está acontecendo?”

Sua cabeça ergueu devagar, encarando sua amiga mortal. Mortal. Frágil. Sem poder. Lina estava pálida e ainda tremia visivelmente, sua voz havia falhado e havia lágrimas brilhando em seus olhos.

Ela estava banhada de sangue do próprio irmão e havia acabado de salvar a sua vida.

“Peeercy Jackson.” Como estalidos de presas de aranha e o sibilo de uma cobra.

Lina desviou os olhos para o lado e então gritou.

Não. Não.

“Não.”

Som escorreu zunindo pelos seus ouvidos, a pressão de mil toneladas no seu estômago.

E então o mundo explodiu.

–

Água.

Som do mar, suave. Ressoando.

Indo e vindo.

“Vamos pra praia, mamãe?”

Sally virou e sorriu, gentil, absoluta.

Mas então parou e sua imagem derreteu feito nevoa. Houve um movimento, como um estalo de asas e o arrepiar de penas e de repente cachos dourados e olhos cinzentos na sua frente.

Percy quis gritar, mas não tinha voz.

“Não o deixe chegar.”

Pânico. Dor. O que-

“É mentira. Tudo. Não o deixe chegar perto.”

“Quem-” Engasgou, sem ar.

Cinzas intensos. Como uma tempestade. Ou era uma tempestade?

Duas mãos gentis sobre seu rosto e ela falou. “Não acredite nas mentiras.”

Houve um puxão e era como se estivessem arrastando-o para longe, violentamente. Percy agarrou com mais força. Pânico. Não, não, não, não!

Ela sacudiu a cabeça, cachos loiros voando.

“Não se esqueça. Nico é a causa disso tudo.”

E o soltou.

–

“-ercy. Percy.”

Abriu os olhos, sobressaltando, e arquejou violentamente.

O mundo parecia terrivelmente claro e se forçou a fechar os olhos de novo, pela dor. Dor. Gemeu e escondeu o rosto atrás de suas mãos. Ou o que ele julgou ser suas mãos. Pareciam incrivelmente pesadas e entorpecidas para serem seus membros, e não algo aparte do seu corpo.

Sua consciência pareceu o atingir de novo e ele captou novamente as vozes ao seu redor. “-sse para fechar a droga da cortina! Estamos numa enfermaria ou não!?”

Encolheu com o grito irritado, que fez sua cabeça doer. Se era por causa do grito ou do tom irritado, ele não tinha certeza.

A luz pareceu diminuir até um nível aceitável e a queimação dos seus olhos pareceu sumir junto. Mesmo assim, ele ainda sentia os nervos pulsarem dolorosamente. Como fios desencapados tocando sua pele em vários pontos.

Houve um farfalhar e então algo pousou em seu... ombro. Sim, aquilo era o seu ombro. Ele tinha quase certeza. Tipo, 90% de certeza. E o algo era uma... mão. Ou pelo menos algo com o peso de uma mão. Oh, deuses, sua cabeça estava rodando.

“Percy?”

Uma parte sua reagiu, lembrando-lhe que aquele era o seu nome. O resto estava consumido pela completa e total falta de força no seu corpo para dar a mínima. Não conseguia reunir energia nem para retirar as mãos que havia pousado sobre seu rosto.

Cansado, forneceu sua memória.

Mas então ela logo se corrigiu: Exausto.

Esgotado. Exaurido. Totalmente drenado de energia.

Ele finalmente sabia como uma pilha se sentia no final da sua vida útil. Não que isso fosse uma das suas top dez curiosidades. Mas agora ele poderia ser mais simpatizante a uma bateria velha, na próxima vez que cruzasse com uma.

“Qual é, Percy. Fique comigo, ok? Não arraste asa para o inimigo. Morfeu é um babaca, lembra?”

Sim, delirou internamente, mas sabe trabalhar tão bem.

Houve um resmungo próximo de si.

“O que você- Clarisse, espera! Eu não acho que isso-!”

Um som de tinido de ferro e então algo atingiu sua cara com tudo.

Algo molhado. E congelante.

Percy arquejou e então engasgou e então finalmente encontrou seus olhos e os abriu, ao mesmo tempo em que se revirou, tentando escapar do frio o mais rápido que podia porque eles estavam no início da porra do inverno e isso seu cérebro o lembrou imediatamente.

Enroscou em algo e o chão pareceu sumir debaixo de si. Soltou um grito de susto automático. Um segundo depois voltou a encontra-lo, com tudo. Nova dor se espalhou pelo seu corpo.

Percy piscou os olhos, espantado ao ver um teto de madeira branco sobre si e sentindo a pele pinicando de frio. Virou o rosto e avistou uma cama ao seu lado, lençóis embaralhados descendo sobre si. Um tempo depois um rosto preocupado surgiu da barreira do colchão, cabelos cacheados parecendo mais bagunçados do que o normal. Levou meio segundo para identificar a pessoa.

...Austin?

O filho de Apolo franziu as sobrancelhas louras. “Percy? Você está bem?”

Ele levou alguns segundos a mais do que deveria para entender que, sim, o cara estava falando com ele. O que deveria ser óbvio, porque ele estava olhando para si.

Abriu a boca para falar, mas então a fechou com uma careta, sentindo uma garganta dolorosamente seca. Mas antes que pudesse sinalizar ou algo do tipo, o filho de Apolo pareceu eriçar feito um gato, virando para sibilar furioso com alguém além do seu campo de visão. “Como um médico e uma pessoa decente, eu posso dizer que isso extremamente desnecessário!”

“Ele está acordado, não está?” Respondeu uma voz, indiferente.

“Esse não é o ponto! Jogar um balde de água com gelo na cara de alguém quando-”

Percy franziu o cenho, reconhecendo a outra pessoa quase imediatamente e não sendo capaz de imagina-la estando num lugar mais fora do seu ambiente. “Clarisse?” Indagou espantado, a voz raspada, interrompendo Austin sem intenção e ignorando o olhar ligeiramente magoado que recebeu do outro garoto.

Houve sons de passos, botas de couro contra chão de madeira e então a líder do chalé de Ares surgiu pelo contorno da cama, calças camufladas e regata branca, o olhar de escárnio já pronto no seu rosto de traços duros. A garota fez um movimento rápido da cabeça, lançando os fios curtos para longe do rosto e então cruzou os braços, expondo músculos definidos.

“Lambendo o chão de novo, Jackson? Acho que você não consegue ficar longe dele, huh?” Sorriu com os dentes, condescende.

Percy sentiu seu rosto fechar, numa reação quase automática. “Difícil, uma vez que você sempre está nele.” Respondeu, ácido, um momento antes de realizar que- Hey! Ele havia acabado de provocar Clarisse estalado no chão, numa posição que tornaria muito fácil ela revidar de modo permanente.

Surpreendente, a filha de Ares não fez nada disso. Apenas bufou, deixando a provocação rolar com um revirar de olhos (como se ele fosse o infantil) e esticou a mão. Percy encarou a oferta de ajuda por um segundo chocado, tentando processar Clarisse sendo civilizada com ele. Por um momento considerou que aquilo era uma pegadinha e no instante em que ele segurasse a mão da outra, ela faria alguma coisa, do tipo lançá-lo para trás num golpe de judô maluco.

Mas quando a mãos continuou estendida, sua dona com uma sobrancelha erguida – parecendo questionar sua inteligência como humano sem precisar de palavras –, Percy deu de ombros internamente e resolveu confiar no senso de honra de Clarisse, que embora perturbado na maior parte do tempo, sempre traçou uma linha clara de que ela não atacava alguém incapaz de se defender. A valentona dos seus doze anos já havia sumido fazia anos.

Agarrou a mão estendida e soltou um grunhido dolorido quando foi erguido num puxão, parando sobre pés incertos. O mundo girou por alguns segundos, mas logo voltou ao normal, sumindo com a leveza vertiginosa da sua cabeça. Piscou os olhos e se deparou com um Austin ridiculamente perto, tipo, estourando a bolha de espaço pessoal dentro da bolha de espaço pessoal e Percy quase caiu novamente quando recuou instintivamente para trás. “Deuses, Austin! O que eu te disse sobre espaço pessoal?”

O garoto em questão apenas franziu o cenho, parecendo ignorar seu comentário completamente em favor de se aproximar mais uma vez, em um passo incrivelmente intrusivo. “Como você está se sentindo?” Perguntou e então esticou as mãos e segurou o seu rosto, puxando-o para mais perto. Percy tentou resistir, mas seu corpo ainda parecia incrivelmente mole e ele se viu sendo manuseado feito um boneco.

“Para início de conversa-” Foi interrompido num grunhido surpreso quando Austin segurou o seu queixo e abriu sua boca, para logo fecha-la num estalido e girar sua cabeça para os dois lados. “Austin-!”

Houve um som abafado a sua esquerda, que parecia incrivelmente com uma Clarisse rindo em silencio.

Então sentiu sua blusa ser erguida e foi isso.

Reuniu todas as suas escassas energias e enfiou ambos os braços entre os de Austin e os abriu, forçando-os para longe, antes de abaixar apressadamente sua blusa, o tempo todo ignorando o melhor que podia o riso já não mais disfarçado da filha de Ares ao seu lado. “Austin!” Exclamou irritado com um rosto totalmente não vermelho.

O filho de Apolo ergueu os olhos para si, parecendo genuinamente surpreso com sua explosão. O pior é que Percy sabia que provavelmente era verdade. O garoto era senão honesto em sua preocupação médica. Mas isso não diminuiu sua irritação. Ou seu embaraço, aliás.

“O que nós conversamos verão passado sobre limites?”

O menino juntou as sobrancelhas no meio da testa. “Mas-”

“Sem mas, Austin.” Interrompeu. “Espaço pessoal, cara, espaço pessoal. Violação nível 5 aqui.”

O filho de Apolo estalou a língua, parecendo insatisfeito, mas Percy cruzou os braços determinado e se afastou dois passos do médico. O outro rapaz soltou um suspiro e então ergueu as mãos ao teto, assumindo sua derrota, porque todo mundo da cabine de Apolo já havia aprendido que não se discutia com Percy Jackson na enfermaria.

As entranhas são minhas e se eu quiser elas no chão, então elas vão ficar no chão! Muito obrigada pelo band-aid.

Soltou sua respiração devagar e então se sentou na cama, deslizando as mãos pelo rosto molhado de suor frio. A interação já havia esgotado suas poucos energias e sua visão começava a embaçar. Teve que se esforçar para não deitar e desmaiar de novo.

“É melhor avisar Quíron que ele acordou.” Falou a voz de Austin, mas Percy não se incomodou em erguer a cabeça.

Houve um grunhido desinteressado e passos de botas de couro contra madeira soaram, se afastando de onde estava. Uma pausa silenciosa e então a cama afundou do seu lado, as molas gemendo de leve e uma mão gentil pousou sobre sua testa. Dessa vez ele não afastou Austin enquanto o menino verificava sua temperatura. Alguns segundos se passou sem os dois falarem nada, até que o filho de Apolo se pronunciou, a voz baixa, talvez sentindo que a cabeça de Percy estava para explodir. “Como está se sentindo?”

Suspirou e afastou suas mãos do rosto, hesitando um momento ao vê-las tremendo feito folhas ao vento. “Como se eu tivesse sido pisoteado por um gigante.” Replicou, a voz rouca. Pausou. “Eu fui pisoteado por um gigante?”

“O que? Não! Por que você...” A voz de Austin morreu no meio da frase, o outro rapaz o arregalando os olhos numa mistura de preocupação e surpresa. Que, só para constar, não ajudou muito na sua ansiedade. Então ele continuou, num tom incrédulo. “Você não se lembra, Percy?”

Franziu o cenho, virando o rosto completamente para o amigo dessa vez. “Não me lembro do que?”

Austin o encarou boquiaberto por um tempo longo o suficiente para que Percy começasse a se indagar mentalmente se ele tinha algo colado na sua cara. Ou se o rosto dele estava tão terrível quanto ele se sentia. Talvez uma espinha monstro (porque deuses proibissem dele ser livre desses problemas de adolescentes nomais, mesmo que ele tivesse salvado aquelas bundas divinas mais de uma vez) havia nascido de novo sem que ele notasse.

Mas o filho de Apolo logo se aprimorou e Percy não teve tempo de perguntar sobre sua aparência, porque no momento seguinte Austin disse, sem mais nem menos: “Você esteve em coma por duas semanas.”

Encarou o amigo, sem reação por um momento.

–

Aparentemente um Percy histérico supera um Percy exausto. Quem diria, huh?

–

“Sua mãe estava em pânico quando nos contatou.” Quíron disse calmamente, estendendo-lhe o pacote de gelo. Percy aceitou sem comentar e o pôs contra o galo que Clarisse lhe deu quando os canos da enfermaria começaram a ranger perigosamente. Ele ainda achava que fora desnecessário. Não estivera tão fora do controle assim. “Aparentemente, você explodiu o seu quarto e inundou sua escola inteira.”

(Ok, risca isso)

Piscou os olhos, o choque o atravessando feito um raio e o pacote quase escorregou da sua mão. “Eu- o que? Por que?”

“É o que eu esperava que você me contasse.” O seu antigo professor de História entrelaçou seus dedos no colo, uma vez que estava dentro da sua cadeira de rodas mágica, e o encarou com olhos inteligentes. “A nossa sorte é que, por estarmos no final do ano, não havia quase ninguém na redondeza. E não houve ferimentos piores do que alguns arranhões. Mesmo assim, essa explosão de poder foi perigosa, Percy, a Névoa mal foi capaz de encobri-la. O que aconteceu?”

Engoliu em seco, sentindo sangue bombeando nos seus tímpanos. Abaixou os olhos para sua mão, vendo-as tremer e ele não teve forças para sequer fecha-las. “Eu- eu não-... eu não me lembro de nada.”

Quíron juntou as sobrancelhas numa expressão preocupada, as rugas que não chegavam perto de denunciar seus mil anos de vida se aprofundando. “Nada?”

“E- eu não-... acho que- não...” Soltou o pacote de gelo e pressionou os dedos contra seus olhos, forçando sua memória. Tentando trazer imagens do que o havia feito explodir sua escola. Ele admitia que havia sentindo a vontade de fazê-lo mais de uma vez, ao longo de todos esses anos, mas não fazia sentindo fazer justamente agora quando- quando-

Grunhiu frustrado e apertou suas palmas contra a testa, porque ele não conseguia sacudir a sensação, desde que havia acordado, de que ele estava esquecendo algo fundamental. Importante. Parecia estar coçando, pinicando na ponta da sua memória, mas toda vez que tentava agarrar, ela escapava feito ar. E isso o enchia de um senso de urgência que o deixava na ponta da cama, mesmo sentindo cada membro pesado feito uma pedra.

Porque algo o dizia que ele devia estar de pé, correndo o mais rápido que podia. Para algum lugar. Porque alguma coisa exigia sua atenção imediata e-

E-

Seu coração parou.

“Lina e Nathan.” Respirou, sem ar.

Ergueu a cabeça e viu Quíron o encarar com alarmo. “O que-”

“Meus amigos!” Se ergueu da cama, ignorando a dor no seu corpo inteiro, porque de repente era como se tudo voltasse de uma vez e sua cabeça estava zunindo conforme lembrava e o que havia acontecido enquanto ele dormia? “Eles- eles estavam comigo quando- Isso! Foi Fobos! Fobos atacou e disse algo sobre ter que me levar, mas ai- o que aconteceu enquanto eu dormia? Nathan estava ferido e Lina- Lina estava gritado– onde, como vocês me trouxeram? Duas semanas e ninguém me acordou? E-eu tenho que-”

“Percy!”

Sobressaltou e olhou para o lado, olhos arregalados. Quíron segurava seus braços com força e foi nesse momento que ele se tocou que isso doía levemente.

Olhos de mil anos o encaram com firmeza. “Percy, respire fundo. Devagar.”

O que? Ele estava... oh, certo.

Engoliu em seco e então tentou puxar ar para dentro, o mais lentamente que pode.

1,2,1,2...1...2...1...2

Devagar, o tremor agressivo sob sua pele foi se acalmando. Sua visão tinha bordas borradas e Contracorrente – automaticamente na sua mão – machucava sua pele, mas ele sentia menos como explodindo a qualquer segundo e arranhando a própria cara de ansiosidade. Se focou no corte da sua mão, que sua caneta mágica havia aberto, usando da dor para se firmar.

Fechou os olhos e soltou a respiração.

Quando teve a certeza que sua voz não tremeria, falou. “Tinha duas pessoas comigo quando... quando eu explodi o quarto. Lina e Nathan. O que aconteceu com eles? Nathan estava-” E foi quando sua garganta fechou, enjoo embrulhando seu estomago quando a memória do rosto pálido e sem vida de seu amigo invadiu sua mente, com o cheiro metálico violento. Havia tanto sangue... sangue demais para alguém que já havia aprendido quantos litros alguém pode perder antes-

Não pense nisso.

Ouve um som estrangulado que Percy adivinhou que veio de si.

Não pense nisso. Não pense nisso. Não pense nisso.

“Quíron?”

O centauro recuou, soltando seus braços cuidadosamente. A expressão em seu rosto era hesitantemente em branco e ele pareceu debater por um momento o que diria. Se lhe contaria a verdade ou o mandaria descansar. Por fim, Quíron pareceu tomar uma decisão e se inclinou na cadeira, mãos cruzando sobre seu colo. Quando falou, sua voz era grave. “Pelo o que soubemos, você foi encontrado sozinho, Percy. Não havia ninguém com você.”

Isso foi como um soco no seu estomago e Percy desabou na cama, pernas repentinamente moles e sem força. Lutou contra a vontade de vomitar e a necessidade de respirar, duas coisas parecendo impossíveis no momento e sua visão ainda embaçada foi englobada em um borrão molhado que ele reconheceu como lágrimas de pânico inundando seus olhos. Ofegou, o ar raspando na sua garganta, porque ele havia fracassado de novo–

Quíron se inclinou para frente de novo, expressão de preocupação aprofundando suas rugas. “Percy...”

Engoliu o soluço e falou. “Telefone.”

“O que?”

“Eu preciso de um telefone.” Engasgou. Não entre em pânico. “Eu- eu preciso ligar- para minha mãe, ela que ligou para vocês, então talvez- talvez ela s-saiba de algo, eu preciso de um telefone, Quíron, por favor.”

O centauro o encarou por um segundo, antes de acenar devagar. “Eu vou providenciar um.” Replicou ele, a voz baixa, e a mão que Percy não havia notado que estava sobre seu ombro o apertou com firmeza. “Mas você tem que me prometer que vai se acalmar.”

Olhos nos olhos de mil anos, Percy só pode confirmar com um movimento da cabeça.

Quando Quíron saiu pela porta, o som da sua cadeira motorizada cortou o silencio por poucos segundos antes de ele voltar a reinar. O filho de Poseidon respirou, tremulo, e deixou cair sua cabeça entre os braços, rezando para qualquer deus que estivesse ouvindo.

–

“Eles estavam com você...? Oh, acho- acho que faz sentindo. Eu soube pela Penny que os dois foram encontrados no campus e as pessoas ficaram confusas porque eles estavam... estavam totalmente secos, mesmo com a escola inteira inundada... Eu soube-... oh, Percy, eu sinto muito, eu sinto muito mesmo, mas... a Lina foi internada em estado histérico e Nathan-... o estado dele é grave. Ele está em coma desde que foi encontrado e os médicos-... os médicos estão- estão falando sobre morte cerebral. Eu sinto muito, Percy.”

–

Percy largou o celular, sem sequer desliga-lo, e se sentou.

O céu estava avermelhado.

Notas finais
Nunca jogue água fria no rosto de alguém dormindo, isso pode causar choque e se a pessoa tiver algum condicionamento físico tipo problemas cardíacos e tals, você pode acabar matando alguém. Eu sei que eu prometi Nico nesse capitulo, mas acabou não rolando. Mas posso jurar pelos meus livros que no próximo ele aparece (assim como vários outros personagens negligenciados por minha pessoa de Percy Jackson)