Nem Tudo É De Primeira

24 Nem Tudo É De Primeira


Notas iniciais
Bom, depois desse capítulo, eu provavelmente vou voltar a postar de acordo com a minha sorte. Eu não vou desistir da fanfic, mas a minha vida vai ficar cada dia mais complicado. Por favor, tenham isso em mente. Esse capítulo está meio curto, mas não deu como aumenta-lo. Sorry about that. Espero que curtam de qualquer forma.

Ok.

Tudo bem, a realização daquilo demorou um pouco para entrar na sua cabeça, mas agora estava tudo ok.

Ele, como a pessoa chamada Percy Jackson, não tinha nenhum problema com o repentino fato certeiro (porque ele tinha certeza disso assim como tinha certeza de que era filho de Poseidon. Ele não entendia direito e nem entendia como exatamente aquilo funcionava na vida real, mas ele sabia que era verdade e aceitava) de que ele estava se apaixonando por Nico di Angelo, um garoto de quinze anos que já vivera por mais de sete décadas e que era ranzinza e mal-educado e gentil e bom e absolutamente lindo quando sorria.

(E quando foi que ele começou a pensar no Nico com adjetivos assim?)

E realmente, isso fazia muito sentido. Várias memórias vieram a sua cabeça, de coisas que ele havia feito ou dito que na hora ele não havia pensado nada demais, mas agora, com essa nova luz, Percy admitia que provavelmente era meio óbvio o que estava acontecendo. Ele tinha consciência que não era estritamente comum dois garotos dividirem um sofá por horas sem a intenção de dormir e que jaquetas são caras e as pessoas não costumam ficar dando para qualquer um e aquele momento bizarro na cafeteria no outro dia e Jesus, era isso que Sasha estava tentando lhe mostrar com as imagens?

(Ele deu uma breve pausa para refletir sobre o fato de que um peixe voador tinha mais clareza sobre seus sentimentos do que ele mesmo.)

Em sua defesa, ele havia feito tudo isso sem pensar sobre os motivos simplesmente porque lhe parecia natural. O que, para alguém de fora, poderia ser usado como um excelente argumento para apontar que ele deveria ter notado que havia alguma coisa estava rolando e ele retrucaria, dizendo que sua cabeça simplesmente não funcionava desse jeito. Se a coisa lhe parecia natural, então ele não perdia tempo refletindo sobre o assunto. Por que ele deveria?

Esse jeito de pensar já havia lhe rendido muitos tipos de problemas, agora que ele parava para pensar. Mas, de novo, Percy Jackson era constituído para não pensar demais sobre o que lhe era normal (monstros e deuses-pais e deuses-tios e titãs malignos querendo dominar o mundo), porque se ele o fizesse, ele tinha quase certeza de que ia quebrar alguma coisa não remendável.

Então, é. Sabe a figura clássica do herói “só músculos e sem cérebro”? Percy sempre se identificou com ela.

Mas voltando ao assunto, porque ele estava se desconcentrado gloriosamente. Sobre o que era mesmo? Ah, sim, sim. Ele havia acabado de entender que estava apaixonado pelo Nico, somente os deuses (uma em particular) sabendo a quanto tempo e tinha começado a refletir sobre porque ele não havia notado antes. E a questão em pauta era que, embora Percy não tivesse nenhum problema com esse novo fato em si, havia algumas pequenas complicações que vinham com ele.

Porque mesmo ele sabendo que estava completamente caído pelo filho de Hades, como ele já havia explicado antes...

“Eu não sou gay.” Falou.

Lina, sentado do seu lado, o olhou gentilmente e pôs uma mão sobre a sua. “Percy, não tem problema ser-”.

Mas ele imediatamente a interrompeu, porque ela não tinha entendido. “Não é isso, eu-... eu simplesmente não sou.”

A garota parou por um momento, encarando-o nos olhos com algo parecido com hesitação. Ela batucou as unhas longas contra as costas da mão, inclinando a cabeça de lado levemente. “O que você quer dizer com isso?”

Percy balbuciou por um momento, tentando por seus argumentos em ordem. Era mais difícil do que ele teria pensado, considerando que ele se considerava heterossexual há um bom tempo. “Eu só... sei? Quero dizer, eu nunca senti nenhum tipo de... atração por... por outro homem na minha vida. Nunca. Eu gosto de mulheres, eu meio que sempre gostei. Mas eu nunca...” Ele deixou a frase no ar, sentindo-se incoerente e piscou confuso para suas próprias mãos.

Quero dizer, se realmente tinha uma parte sua que podia gostar de homens, levando em conta o ambiente cheio de atletas definidos (porque ser semideus é uma ocupação integral) em que ele vivia, ela já não deveria ter mostrado sinais de existência a essa altura? Pelo Olimpo, ele já havia tomado banho numa sauna romana e não havia sentindo nada demais.

Por que, em nome de Poseidon, essa sua parte escolheria se manifestar somente agora, depois de seis anos de puberdade plena? Ainda mais por um moleque franzino e pálido, mais novo, filho do deus dos mortos, ranzinza, com quem Percy compartilhava uma história de convivência incrivelmente complicada e desconfortável? Se fosse mesmo para acontecer, não faria mais sentindo ele se apaixonar por alguém como o Jason, o típico herói romano ou Charlie ou até mesmo o Dean, todas figuras atléticas e carismáticas e clássicas?

Fosse cruel pensar assim, mas as pessoas não costumam se apaixonar pelo garoto gótico antissocial que senta sozinho no canto do refeitório.

“You know...” Ele ouviu a voz da Lina começar, casual, e se virou para a amiga que encarava o teto. “Bissexualidade é uma coisa real, sabe?”

“Eu sei, mas...”

“E você pode ser 90% atraído por mulher e 10% atraído por homem. Não existe regra para esse tipo de coisa.”

Percy abriu a boca para responder, mas não achou o que dizer. Sua cabeça estava girando loucamente, sem saber no que focar, porque de repente havia muita informação nova sobre a sua vida que há duas horas atrás ele não tinha ideia sobre. Sem aviso. Sem preparo. Apenas uma bomba caindo em si e um bilhete de “boa sorte” feito de fumaça por cima.

Um braço pequeno envolveu seu ombro. “Percy, eu posso ver a fumacinha preta saindo das duas orelhas. Pare com isso.” Lina disse, uma voz de riso, e então um dedo cutucou sua testa. “Não pense demais. Isso é o de menos. O que importa agora é tentar entender seus sentimentos. Pense somente no Nico. Você gosta dele ou não?”

“Eu...” Ele não precisou ir longe e nem cavar fundo para achar sua resposta. Sua mente pareceu automaticamente lhe fornecer o sorriso pequeno do filho de Hades, sempre meio escondido e hesitante, mas honestamente feliz e era como se calda de chocolate quente estivesse sendo derretida dentro de si toda vez que conseguia arrancar um deles do outro semideus, não era? Um calor morno, delicioso, se espalhava pelo seu corpo e ele conhecia – por Poseidon, ele conhecia essa sensação porque ele já havia sentindo-a antes e como é que ele nunca havia feito a associação?

Se era amor? Percy não tinha absolutamente nenhuma coragem de chegar perto dessa palavra ainda. Mas Nico com toda a certeza não era mais só um amigo.

Ele tentou tossir através de um peito de repente cheio, sentindo seu rosto queimar de leve. “Sim.”

[Sim. Sim. Com certeza sim.]

“Então por que se encucar tanto?”

Soltou um som frustrado e bagunçou furiosamente seu próprio cabelo. “Olha, Lina, é complicado. É tudo ridicularmente mais complicado, porque as coisas estão complicadas desde muito tempo, e tudo se complicou ainda mais até um nível de complicação que eu não sei nem como começar a explicar porque é tudo tão complicado.” Percy falou, rápido e estressado, sentindo-se cada vez mais como se estivesse andando sobre aqueles bambus de massagem de pé japoneses horríveis. “E se eu tentar enfiar esse-... esse novo acontecimento nessa confusão toda sem entende-lo direito, eu só vou acabar me complicando ainda mais e vou acabar queimando o último neurônio são que me resta, então...” Ergueu a cabeça e olhou a amiga diretamente nos olhos, falando com toda sua honestidade e convicção. “Socorro.”

Lina piscou os olhos, ligeiramente sobressaltada e então olhou para o irmão. Percy seguiu o olhar dela e viu Nathan erguer os ombros, tão sem saber o que dizer quando a menor.

Grunhiu resignado e deixou sua cabeça cair para frente.

“Olha Percy, eu não sei o que dizer.” Lina começou sem jeito, a voz delicada. “São os seus sentimentos. Você é que tem que definir o que você sente e o que você não sente. Você não se sente atraído pelo Nico, é isso?”

O semideus encarou a morena por um momento, digerindo as palavras o melhor que podia. Imediatamente ele pensou no beijo na praia e não, não tinha como dizer que não havia nenhum tipo de atração ali porque tinha. A sensação da boca de Nico contra a sua, o toque da língua inexperiente que ele guiou, mãos pálidas gentis contra sua pele – tudo aquilo o fazia se sentir incrivelmente, impossivelmente bem e seu peito parecia se aquecer ao ponto de derreter todos os cacos de vidro, mesmo que só por um momento. E Percy sentia que podia fazer aquilo a qualquer hora, a qualquer momento, o dia inteiro se pudesse.

E o mais surpreendentemente é que ele queria fazer aquilo.

Porra, como ele queria.

Mas isso, essa sensação morna por todo o seu corpo... isso não era excitação. Ou era? Ele sentia o seu corpo inteiro se acelerar com aquelas memorias, o coração, a respiração, tudo, mas não tinha certeza em relação ao segmento relativamente importante entre suas pernas.

Soltou um profundo suspiro e apoiou a cabeça em suas mãos, fechando os olhos. “Eu não sei.” Respondeu por fim, sinceramente. Hesitou alguns segundos, antes de perguntar. “Vocês acham que isso é possível?”

“O que?” Nathan indagou.

“Se apaixonar por alguém e não... não sentir atraído sexualmente por ela?”

Ambos os irmãos ficaram em silencio por algum tempo, talvez refletindo sobre sua pergunta. Lina falou primeiro, deitando sobre suas costas. “Possível, eu sei que é, afinal existem assexuados e eles também se apaixonam, mas no seu caso Percy...” Ela virou, deslizando seus braços pelo seu pescoço e apoiando o queixo sobre seu ombro. A morena deu uma breve pausa antes de sacudir a cabeça e continuar a falar. “No seu caso, eu não sei. Se você realmente não sabe... bem, eu acho que você vai ter que dar uns pega no Nico para ter certeza.”

Percy jogou seu cotovelo para trás, acertando de leve as costelas da garota que pulou para trás com uma exclamação de indignação. “Ei! Mas é verdade!”

“Lina tem um pouco de razão.” Nathan falou e os dois ignoraram o ‘eu disse’ infantil da adolescente. O loiro deu de ombro diante do olhar afiado do semideus. “Eu me considero hetero também, mas quem sabe? Um dia eu posso encontrar um cara que me faça dispensar uma garota, talvez um dia eu me apaixone por um homem. Eu não sei. Eu acho que não tem idade para parar de se conhecer.”

O moreno olhou para a janela, observando o céu vermelho começar a se encher de nuvens cinzentas.

*

Percy?

*

O filho do mar se jogou na cama e se virou para enterrar o rosto contra o travesseiro. “Eu odeio a minha vida.”

Ouviu Nathan e Lina rirem, felizes em suas vidas descomplicadas. “É, todo mundo passa por essa fase, Jackson. Não se preocupe, é momentânea.” Comentou o mortal loiro e ele sentiu a mão da morena batendo simpatizante nas suas costas.

Percy grunhiu e não se moveu. Uma parte sua queria poder afundar ali e nunca mais sair. Sem ter que lidar com problemas, monstros, vestibulares e paixões repentinas para acerta-lo no meio da cara sem nem ao menos avisar antes. Tipo, a vida não tinha maneiras?

“De qualquer forma, você sabe o que tem que fazer agora.” Lina falou, jogando-se ao seu lado. Espiou cuidadosamente do lado do olho e viu o sorriso da amiga.

“Se você disser que eu tenho que ir falar com o Nico...”

“Você tem que ir falar com o Nico.”

Gemeu desgostado e apertou o travesseiro ao redor da sua cabeça, fazendo o seu máximo para se fundir com sua cama. “Por que a solução é sempre conversar? Por que não pode ser esperar até que as coisas se acalmem ou esperar até atingirmos um nível de desconforto que impeça qualquer um de tocar no assunto?”

“Vocês já não estão nesse nível, a essa altura?”

“Não me subestime, McCoy.”

Ela riu. Ouve um som das molas do colchão sendo aliviadas de peso e então um pé cutucou sua perna. Percy ergueu a cabeça e olhou para trás, encontrando um Nathan com os ósculos escuros pendurados na ponta do nariz e com uma mão estendida na sua direção. “Vamos, Percy. Levanta.”

“Por que eu deveria?” Reclamou, mas se ergueu de qualquer forma, aceitando a ajuda oferecida.

“Porque quanto mais cedo você for resolver esse problema, melhor. Confie em mim, eu sei.”

O filho do mar, apesar de tudo, sorriu pequeno para o amigo. “Oh, devo ouvir a voz da experiência?”

Nathan o lançou um olhar totalmente sério por cima dos aros negros e balançou a cabeça em direção a irmã, ainda esparramada na cama. “Quem você acha que fez as duas se juntarem?” Indagou, cruzando os braços. Lina soltou um guincho indignado e começou a falar algo, mas o loiro a interrompeu com um: “Sua ideia de paquera é ir até a pessoa e pedir na cara dura por um beijo. Penny estava aterrorizada de você nas primeiras semanas, sabia?”

Percy engasgou de leve e então teve que rir. Ambos os garotos ouviram a menina mais velha soltar um muxoxo ranzinza e algo que soou como “aterrorizada de amor, isso sim”.

Nathan revirou os olhos claros e então se voltou para si. “De qualquer forma, eu acho-”

*

[Estava tudo bem.]

Foi tudo muito rápido.

*

Percy estava rindo, Lina estava amuando sem real sentimento por trás e Nathan estava dizendo algo, uma expressão tranquila no rosto e tudo estava absolutamente normal.

Então algo quente espirrou em si e quando Percy piscou os olhos, confuso, algo pesado caiu em seus braços e ele cambaleou para trás.

Um segundo antes dele olhar para baixo, ele ouviu Lina gritar histérica.

*

Era Nathan.

E o algo quente era sangue.

*

Uma voz falou, bem no seu ouvido, como o estalido das presas de mil aranhas juntas e era como se o calor fosse roubado do seu corpo com as palavras.

“Você abaixou a sua guarda.”

Notas finais
Tã-tãããã! Continua no próximo capítulo... (Até o próximo feriado livre que eu conseguir! BYE!)