Nem Tudo É De Primeira
18 Nem Tudo É De Primeira
Notas iniciais
Quando Percy entrou nos limites da cidade, o inferno estava solto.
O bunker mais próximo estava completamente engolido pelas chamas, enquanto pessoas corriam de um lado para outro trazendo baldes ou mangueiras para controlar o fogo, ao mesmo tempo em que um grupo de semideuses (provavelmente filhos de Hécate, já que brilhavam com símbolos estranhos circulando ao redor de seus corpos) entravam e saiam do edifício em chamas, sempre arrastando em duplas barris ou baús com a escrita “Inflamável” na frente.
Então houve uma explosão que fez o chão tremer e algo indistinguível disparou do que antes era o teto do bunker e atingiu outro edifício, que imediatamente começou a pegar fogo também. A gritaria aumentou quando às pessoas tentaram se dividir para ajudar os ocupantes do outro prédio.
Percy se lançou no meio da multidão e decidiu em meio segundo qual era a prioridade. Quase que instintivamente, invocou a água e logo se viu o pequeno Tibre se ergueu do chão. Apertando o punho de Contracorrente, se concentrou em direcionar o rio para o prédio mais recentemente em chamas, criando uma cachoeira temporária. Uma parte pequena do seu cérebro registrou os soluços de surpresa e alguns gritos de reconhecimento, mas os ignorou em favor da sua tarefa.
Em poucos segundos, a nova chama morreu diante das toneladas de litros de água despejadas e Percy liberou a pressão, sentindo o rio se soltar do si como um elástico se rompendo. Cambaleou um passo para trás, sentindo-se ligeiramente tonto.
“Percy!” Alguém gritou a sua esquerda. “O bunker!”
Piscou os olhos ligeiramente turvos em direção ao prédio original e entendeu o que estavam tentando lhe dizer. A água jogada dos baldes evaporava antes mesmo de conseguir tocar no fogo e os semideuses que antes estavam tentando tirar o alimento das explosões já não conseguia mais entrar, mesmo se protegendo com magia. A qualquer segundo ele veria o quão bom era o arsenal de explosivos dos romanos.
Respirou fundo e esticou a mão livre em direção ao pequeno Tibre, buscando a conexão de novo com o rio mágico. Mas no instante que conseguiu segurar a corrente, sentiu algo sólido e pesado se chocar contra si, jogando-o no chão. Rolou instintivamente para trás, absorvendo a força do impacto e se ergueu já com a espada erguida.
Um romano que ele reconhecia da Primeira Coorte rosnou para ele, uma lança de ouro imperial em suas mãos. “Graeca, você não é bem-vindo aqui!”
“Isso é racismo, sabia?” Retrucou.
O guerreiro romano basicamente latiu para ele e o atacou.
Percy estava em grandes apuros. Uma lança tem um arco de alcance duas vezes maior do que uma espada e o outro garoto a manejava com habilidade o suficiente para o filho do mar saber que não era um iniciante ali. Desviou de um golpe com Contracorrente e balançou a lâmina de bronze tentativamente em direção do oponente, já prevendo o que aconteceria. O outro rapaz deu um simples passo para trás que o tirou completamente do alcance de Percy e o dono dos olhos verdes foi obrigado a recuar mais ainda para não ser atravessado.
Seus olhos se desviaram momentaneamente da luta para o edifício em chamas logo adiante e amaldiçoou em grego antigo. Ele não tinha tempo para aquilo!
Mas então o outro semideus cometeu um erro tático e lançou a lança em sua direção. Percy se jogou para o lado, evitando ser empalado vivo por um fio de cabelo, e num movimento fluido do seu pulso abaixou com toda sua força Contracorrente contra o cabo de ouro imperial.
Ouve um estalido agudo e o chão pareceu estremecer por um momento. E então a lança caiu ao chão divida em dois.
Anos de treinamento o fizeram se virar no momento certo e evitar um golpe de adaga bem aonde antes seria o seu calcanhar de Aquiles, acertando o inimigo no ombro. Entretanto, ao em vez de parar por conta da dor, o outro rapaz continuou indo para frente, saltando em cima de Percy. Caiu no chão, batendo com forças as costas o suficiente para lhe arrancar o fôlego e Contracorrente escapar de sua mão.
Sua visão voltou ao normal bem a tempo dele ver o guerreiro romano erguer algo brilhante e definitivamente não saudável para si. Agarrou com ambas as mãos o pulso que segurava a adaga no exato momento em que ela desceu mortalmente para a sua garganta e lutou contra a força do outro rapaz. O garoto rosnou e passou a jogar todo o seu peso contra o golpe e Percy grunhiu, tentando impedir o avanço da lâmina, sentindo os músculos dos seus braços queimarem.
Ele não ia aguentar.
De repente o pulso que pesava sobre si foi para o lado violentamente e o semideus romano em cima de si solto um grito de dor, caindo ao chão. Imediatamente Percy rolou para o lado, enfiando a mão no bolso e tirando Contracorrente novinha em folha em formato de caneta. Piscou os olhos surpreso para o que viu.
Uma flecha de haste vermelha atravessando o braço do seu atacante.
Do nada, enquanto ele estava se erguendo do chão, Frank Zhang surgiu ao seu lado com um arco recurvo e uma aljava cheia de flechas de hastes vermelhas nas costas. O garoto parecia ao mesmo tempo em pânico e aliviado. “Percy! Você está bem?” Indagou, se fazendo ouvir mesmo por cima da gritaria.
Um sorriso enorme abriu em seu rosto ao ver o amigo e o socou de leve no ombro. “Ei, Zhang! Olhos de águia, como sempre!”
O filho de Marte pareceu surpreso com o elogio por meio segundo, mas logo sorriu agradecido. Então imediatamente ganhou um ar sério do atual comandante da Legião ao lado de Reyna e apontou para o edifício em chamas. “Uma ajuda, talvez? Se aquilo ali explodir...”
Percy não precisava ser dito duas vezes. Virou sobre os calcanhares em direção ao pequeno Tibre e se concentrou na correnteza. Ergueu-a do seu leito com um comando da mão e virou a nova cachoeira sobre o bunker em chamas, inundando tudo num raio de vinte metros.
Ouve alguns gritos assustados, enquanto algumas pessoas eram pegas de surpresa pela enchente repentina, e vários outros gritos de alegria. O fogo havia cessado.
Frank ao seu lado soltou um suspiro aliviado, que fez seus ombros relaxarem. “Um acidente evitado.” Murmurou, mais para si mesmo do que para Percy, mas ele acenou concordando de qualquer forma. “Vamos, talvez alguém tenha se ferido.” Disse o filho do senhor da guerra e logo começou a caminhar para frente, as costas eretas e a postura firme.
Percy escondeu um sorriso de lado. O sino-canadense com certeza havia crescido naqueles dois anos como chefe dos romanos.
Então, guardando Contracorrente em seu bolso, começou a seguir o amigo por entre a confusão. Chegando em meio a multidão, observou os arredores ao mesmo tempo em que, com um movimento simples do pulso, fez toda água sumir do chão – queria poder fazer o mesmo pelas pessoas e os objetos, mas algo lhe dizia que ele não teria tempo para tocar em tudo e todos que haviam se molhado e faze-los secar magicamente. O bunker estava além de reparo e vários outros prédios ao redor haviam sido prejudicados com as chamas violentas, ou com as explosões e varias pessoas andavam de um lado para outro ajudando feridos ou desvirando coisas.
E, notou após um momento de analise, escoltando pessoas também. Havia pelo menos uma meia dúzia de adolescentes entre 15 a 20 anos com as mãos amarradas às costas e pelo menos duas pessoas as vigiando com armas expostas, parecendo todos abatidos, mas furiosos.
Olhou para Frank, adiantado alguns metros de si. “O que aconteceu aqui?”
O descendente de chinês fez uma careta involuntária e abaixou o rosto para o chão, o arco ainda em sua mão direita. “Problemas internos.” Respondeu ele, num tom de voz cuidadoso.
Franziu as sobrancelhas, confuso, lembrando-se do que Reyna havia dito. “Que tipo de problemas?”
O romano se calou por um momento, sem encara-lo de volta. A linha relaxada dos seus ombros havia desaparecido e agora era visível o quão tenso estava o outro rapaz. Sua confusão cresceu diante o nervosismo palpável do amigo. “Frank?”
“Problemas políticos.” Respondeu rapidamente o outro semideus, ainda sem olha-lo.
Percy sentiu uma nota de frustração se infiltrar dentro de si e estava prestes a perguntar o que havia de errado com seu companheiro de guerra quando uma voz melodiosa o interrompeu.
“Frank!”
Ambos os rapazes se viraram e os olhos verde-mar se depararam com olhos dourados.
Então Hazel Levesque congelou a dois metros de distancia de onde estavam, surpresa em suas feições de chocolate.
“Percy?”
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“Não acho que você tenha quebrado nada.” Disse Hazel gentilmente, enfaixando o pulso de uma garotinha que havia acabado ferida no meio da confusão. “Mas é melhor você pedir um pouco de néctar para os filhos de Apolo de qualquer forma, mas só um pouco.”
A menina acenou a cabeça, já tendo parado de chorar, mas ainda com lágrimas nos olhos azulados. A filha de Plutão então cuidadosamente a desceu da maca da enfermaria improvisada e passou uma última vez a mão pelos fios amarelos da pequena, falando algumas palavras de consolo em um tom baixo, antes de deixar a criança sair da barraca.
Percy, sentando sobre uma maca ao fundo (porque ele realmente não tinha dom nenhum para curandeirismo e era melhor para os feridos que ele só os trouxessem do que tentasse cura-los) observou o ocorrido com um coração pesado no peito. Ele não conseguia, de modo algum, associar essa imagem da Hazel – a imagem que ele tinha e mantinha da sua amiga, cuidando com gestos e palavras dos que precisavam, transparecendo confiança o suficiente para acalmar e humildade o bastante para agradar – com a imagem de Nico aos pedaços, desesperado em descobri o que havia errado com ele que até mesmo sua irmã havia se voltado contra ele.
Percy simplesmente não conseguia. E odiava a ideia de que aquela era apenas uma faceta da sua amiga que ele ainda não havia conhecido. Não podia ser. Tinha que haver um pano escuro sobre aquela confusão que ele estava determinado em tirar de uma vez por todas.
“Hazel...” Chamou quietamente.
“Sim, Percy?” A menina virou, piscando os olhos de ouro derretido e uma expressão macia no rosto, de um jeito que ele só podia descrever como “donzela”. Ela depositou o pano que dobrava na maca, dando-lhe toda sua atenção.
E de repente a frase que ele estava planejando dizer soou incrivelmente acusadora, afiada na sua cabeça de modo que ele não conseguiu pronuncia-la. Não parecia certo jogar algo tão frio sobre aquela menina de olhos de sol e pele de chocolate.
Então, em vez de ir direto o assunto, ele perguntou: “O que aconteceu aqui?”
A filha de Plutão pareceu levemente surpresa com a pergunta, mas logo suspirou, parecendo resignada. “Estamos tendo alguns problemas internos políticos.”
“É, eu soube.”
A semideusa mais nova o apresentou um sorriso pequeno, com uma pontada de diversão e compreensão. “Não fique bravo com o Frank. Como um dos líderes da Legião, ele tem que se manter neutro durante os debates políticos, ou podem acusa-lo de ser imparcial no seu julgamento.”
“Julgamento?” Repetiu indagador.
“Sim.” Ela respondeu e então hesitou por um momento antes de se aproximar e se sentar na maca diante de Percy. Os olhos dourados o encararam com firmeza. “Desde o fim da guerra contra Gaia e o acordo de paz entre os romanos e os gregos, vem tido um... desentendimento entre o povo de Nova Roma.”
Percy não precisa ser um gênio para entender o que ela estava dizendo. “Tem gente discordando do acordo de paz?”
Hazel acenou afirmativamente com a cabeça. “Já tem tido alguns meses que Reyna e Frank vem tentando manter esse debate politico só entre os membros do Senado, mas alguém acabou vazando a discussão para a população de Nova Roma umas duas semanas atrás e agora as pessoas estão começando a tomar partido.”
Percy franziu as sobrancelhas, fazendo uma expressão azeda no rosto. "Quem faria isso?"
Hazel o olhou por um instante, com cuidado. O filho do mar manteve a careta.
Então ela respondeu simplesmente. "Octavian."
Silêncio.
"Desculpe, eu não ouvi direito. Achei que você tivesse tido Octavian."
A filha de Plutão deu um sorriso sardônico. "Você ouviu direito, Percy."
"Ah." Respirou fundo uma, duas vezes e então gritou. "O QUE?!"
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Depois que Percy conseguiu se acalmar o suficiente para ouvir a história direito, ele pode sentir a dor de cabeça que as novidades sem dúvida trariam para ele no futuro. Porque definitivamente isso não estava nos seus planos para hoje e ele definitivamente não precisava de estresse extra, mas os deuses o odiavam, então ele teve que se adaptar.
"Então você esta me dizendo que Octavian, que deveria estar apodrecendo no fundo das masmorras mais fundas das profundezas do abismo profundo, vazou as informações do Senada para o povo de Nova Roma?" Percy indagou, fingindo que Contracorrente na sua mão era pura casualidade. Hazel lhe deu um olhar simpatizador e acenou. Fechou os olhos por um segundo de concentração, não querendo explodir os encanamentos da região, antes de perguntar entre dentes cerrados. "Como? O bastardo já conseguiu escapar da pena de traição-"
A semideusa o interrompeu com um suspiro. "Octavian vem de uma das famílias com mais influencia dentro de Nova Roma, uma família de legiões ainda por cima. Ele tem conexões."
"Eu achei que ele já tivesse exaurido essas cartas. Os pais dele não impediram a pena de morte?"
"Sim. Mas eu acho que fizeram isso apenas porque ele é filho deles." Respondeu Hazel com os lábios franzidos. "Andrômeda e Julie são boas pessoas, apenas meio arrogantes. Não acho que eles concordem com as ações de Octavian. Mas a família é sagrada para os romanos, então talvez tenham feito tudo só por isso. Mas causar tumulto e cutucar uma rebelião pelo filho que traiu Nova Roma? Duvido."
Percy ergueu as sobrancelhas. "Então quem foi que o ajudou a espalhar as informações? Pelo o que você me disse, ele ainda está preso. Alguém do lado dele? Um traidor?."
A dama de chocolate acenou afirmando, uma expressão de desagrado no rosto jovem. “Eu, Frank e Reyna acreditamos que sim, mas não temos provas e muito menos suspeitos. A prisão de Octavian é vigiada, mas não temos o hábito de ficar registrando todas as pessoas que vão visita-lo. Porque por algum motivo, as pessoas estão fascinadas para ouvir a história dele." Ela murmurou ranzinza a última parte, parecendo irritada.
“Foi sempre assim tão violento?” Indagou, apontando para o lado de fora da barraca, onde dava para ver os destroços dos prédios.
A menina negou. “Antes não, na maioria as pessoas ficavam trocado insultos. Mas de uns dias para cá um grupo mais radical vem atiçando o povo a agir. Hoje foram partidários da Primeira Coorte.” Então ela suspirou, parecendo cansada e triste. “Eu só queria que mantivessem a população de Nova Roma fora das lutas.” Falou num tom baixo, sinceramente angustiado.
E era isso que ele não entendia. Essa era a Hazel que ele conhecia, a mesma que havia gritado com Jason, filho de Júpiter e seu ídolo, por sugerir que salvar Nico talvez não fosse a melhor estratégia e prosseguiu em fazê-lo de qualquer forma. Essa Hazel não podia ser a mesma Hazel que havia feito seu irmão reduzir-se ao estado miserável que Percy havia testemunhado pessoalmente. Tinha que haver mais nessa história que ele não sabia.
Então ele se adiantou, descendo da maca. Parou diante da garota mais nova e segurou-lhe as mãos, ignorando o olhar confuso que recebeu.
“Percy?”
Não respondeu de imediato, seus olhos presos no contraste da sua pele com a pele de Hazel enquanto tentava se organizar internamente. Não era um assunto fácil e ele não achava que tinha um modo delicado de aborda-lo, um modo que poupasse um pouco do golpe que provavelmente seria para os sentimentos da Hazel. Suspirou silenciosamente e interlaçou gentilmente seus dedos com a romana e então ergueu os olhos para os orbes de ouro derretido e, mantendo o máximo que podia o seu tom neutro, perguntou:
“O que aconteceu entre você e o Nico?”
A menina reagiu quase que imediatamente ficando tensa. Sentiu os dedos finos se encravando em suas mãos ao mesmo tempo em que a filha de Plutão arregalou os olhos, parecendo empalidecer alguns tons. Houve uma pausa impossivelmente pesada de dois ou três segundos onde ninguém fez nada, com o coração de Percy sendo seu único indicativo de que o tempo não havia congelado. E então a menina abriu a boca como se para falar, mas parou e pareceu perder as palavras no meio do caminho, de modo que ela voltou a fechar a mandíbula num click! baixo.
Então Hazel Levesque puxou um longo e trêmulo suspiro e sorriu um sorriso sem vida, uma casca vazia do que ela geralmente apresentava ao mundo e falou calmamente. “Nico te contou?”
Ambos ignoraram o modo como à voz da romana quebrou no nome de seu meio-irmão.
Percy lutou para manter a expressão neutra. “Não... exatamente, ele mais que...”
Se desmontou em pedaços machucados bem diante de mim.
Expôs uma ferida aberta sem querer.
E eu só pude assistir.
“... deixou escapar.” Terminou quietamente. Hazel acenou de leve com a cabeça, os olhos dourados desviando-se dos seus para a porta da barraca. Quem só observasse sua expressão facial, diria que ela estaria no máximo desconfortável com o tópico.
Percy agradeceu a qual fosse à divindade que o fez se aproximar da amiga. Era apenas porque ele lhe segurava as mãos que o filho do mar não explodiu na hora e saiu soltando acusações, concluindo com um coração dolorido que Hazel realmente tinha um lado frio e afiado que ele desconhecia e que agora estava sendo mostrado para ele. Era só porque ele estava com os dedos entrelaçados com os dela – sentindo a absoluta falta de calor na pele chocolate, sentindo o tremor violento que as tomava apesar do aperto de ferro que ela mantinha – que ele sabia melhor do que acreditar naquela peça.
Porque por segurar-lhe as mãos, ele pode se firmar de que talvez, talvez ele conhecesse mesmo a atriz por trás da personagem.
“Hazel?” Chamou.
A menina não respondeu de imediato, ainda com os olhos fixos na saída da barraca e os cabelos encaracolados caindo como ondas pelos seus ombros. Quando falou de novo, sua voz estava tão baixa que poderia ter se perdido no vento facilmente.
“Ele me odeia, não é?”
Percy pausou, sentindo algo se retorcer dolorosamente dentro de si ao ouvir isso. Apertou as mãos pequenas entre as suas, querendo passar um mínimo de conforto. “Eu não acho que seja isso, Hazel.” Respondeu sinceramente, porque realmente Nico não parecia odiar a irmã e sim parecia odiar a si mesmo. Auto recriminação, autodesprezo – cacos de vidro voltados para dentro. Guardou um suspiro trêmulo. “Mas...” Deixou a frase morrer, sentindo-se incapaz de formula-la.
Os olhos dourados se voltaram para si e ele era uma má pessoa por sentir alivio em ver as lágrimas acumuladas nos olhos da amiga?
“Eu o magoei.” Disse a romana.
Não era um pergunta, então Percy não a respondeu.
Hazel riu uma vez sem alegria e abaixou o olhar para seu colo. “Você... sabe porque eu e o Nico... brigamos?” Indagou ela quietamente, somente o tremor da sua mão denunciando seu estado emocional.
O filho do mar apertou os dedos escuros entre os seus antes de responder. “Sim.”
“E você não-... você aceitou o Nico.” De novo, quase não era uma pergunta, mas essa ele respondeu.
“Sim.”
A jovem pareceu encolher diante aquela única palavra, recuando como se tivesse levado uma chicotada. Houve uma pausa de vários minutos antes dela voltar a falar, a voz baixa como um sussurro. “Você veio brigar comigo?”
Percy suspirou silenciosamente, desejando poder olha-la nos olhos. “Não, Hazel.”
“Por que não?” Perguntou a filha de Plutão e havia uma indiscutível nota de desapontamento em sua voz, como se ela quisesse levar uma bronca ou algo do tipo.
“Porque eu vim aqui para entender o que aconteceu.” Replicou seriamente.
Ao ouvir sua resposta, Hazel finalmente virou os olhos para si e havia uma beirada naquele mar de ouro, como vidro fino contendo muito mais do que podia. A garota suspirou e libertou suas mãos das de Percy que, após um mínimo de hesitação, recuou. Observou a mais nova esconder o rosto nas palmas e uma lembrança repentina de Nico fazendo o mesmo na Cabine de Hades o atingiu, o impelindo a falar.
”Vocês são irmãos.”
“Eu sei.”
“Então por que...” O filho do mar se interrompeu quando um soluço baixo escapou da menina. Hazel, ainda de cabeça baixa, passou a mão pelos olhos escondidos, limpando algo que Percy não pode ver. Então a romana encarou suas palmas molhadas por um momento em total silêncio antes de suspirar e responder a pergunta do semideus grego numa voz baixa.
“Nico... ele veio comigo e com o pessoal para o Acampamento Júpiter depois das férias de verão e de principio não estranhei, só achei que ele quisesse passar algum tempo com a gente.” Ela pausou e na pausa Percy silenciosamente se sentou ao lado dela na maca. Hazel não mostrou sinais de reconhecimento da sua presença quando voltou a continuar. “Mas depois de... um tempo, ele começou a agir... estranho ao meu redor. Parecendo nervoso e ansioso. Perguntei durante uma semana inteira se estava tudo bem e ele dizia que sim, mas dava para ver que tinha algo... tinha algo o incomodando.” A romana soltou uma risada triste e autodepreciativa e o filho de Poseidon lutou contra a vontade de abraça-la, sentindo que não seria bem-vindo. “Então, quando ele finalmente respondeu que sim, que tinha algo sobre o qual ele queria conversar... ele...”
Ela parou engolindo em seco, apertando ambas as palmas uma contra a outra. Mas o tremor ainda estava lá.
Ergueu os olhos das mãos de Hazel para os olhos dourados da mesma ainda firmemente voltados para baixo, e continuou a frase para ela suavemente. “Contou que era gay."
A filha de Plutão soluçou e puxou as pernas para perto do corpo, abraçando-as. “Eu sei que, de todas as pessoas, eu deveria entender mais do que ninguém que como você nasce... ou de onde você vem... não significa nada sobre quem você é.” Falou ela com a voz embargada, o vidro fino começando a rachar. A menina escondeu o rosto entre os braços. “Percy, eu ainda vejo Nico como meu irmão, mas depois que ele me contou-“ A romana se interrompeu com um soluço, passando a manga da blusa que usava sobre o rosto escondido. Ele não se mexeu. “... eu não sei porque, mas-... mas aquilo não saiu da minha cabeça. Toda vez que eu olhava para o Nico, eu automaticamente pensava naquilo, mesmo eu tendo dito que estava tudo bem alguma coisa dentro de mim não estava e eu... eu-“
“Hazel...” Começou, mas a romana o interrompeu, continuando a falar cada vez mais rápido e mais alto, como se estivesse com medo de ouvir.
“E-eu comecei a evita-lo, não intencionalmente de primeira, mas... mas toda vez que ele se aproximava eu- eu pensava naquilo e-... e então ficava arranjando desculpas para me afastar. E isso foi indo e indo e eu sabia que Nico havia notado, mas toda vez que ele tentava conversar sobre o assunto eu fingia não entender e então m-me afastava.” Hazel começou a chorar abertamente, os ombros pequenos tremendo enquanto as lágrimas escorriam e os soluços violentos que ficavam interrompendo-a aumentando de volume. Ela não mais conseguia esconder o rosto entre os braços e Percy viu a expressão angustiada que tomava a face normalmente tão suave.
Novamente, não se mexeu.
“Só q-que o Nico não desistiu e continuou tentando falar comigo e mesmo eu vendo o quan-quanto eu estava o magoando, eu continuei f-fingindo até que não aguentei mais e disse pra ele- eu disse para ele: Por que você não vai visitar o Acampamento Meio-Sangue?” Ao dizer isso ela soluçou violentamente, o corpo pequeno tremendo inteiro. As lágrimas contínuas começaram a cair sobre suas pernas. “D-depois disso ele sumiu e não voltou m-mas.” Os olhos dourados se ergueram inundados para si, o vidro fino despedaçado. “A expressão- a expressão no rosto do N-Nico quando eu disse isso-... eu sou uma pessoa horrível, Percy.”
E ela desabou a chorar, voltando a se encolher como se quisesse desaparecer do mundo. Percy fechou os olhos por um momento antes de se inclinar e trazer a amiga para um abraço que ela não devolveu, sentindo o tempo todo seu coração bater dolorosamente.
E os dois ficaram assim por pelo que pareceu horas.
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Tudo o que passou pela sua cabeça naquele momento, entretanto, foi se no final Hades realmente o odiava tanto assim.
A ponto de fazê-lo sofrer.
Sendo obrigado a assistir seus filhos chorarem.
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“Por quê?” Perguntou simplesmente, algum tempo depois.
Viu Hazel erguer os olhos marejados por um momento, antes dela desviar novamente para o lado. “Eu não sei.” Respondeu ela, a voz baixa. “É só que... nem dois anos atrás minha opinião era comum e agora... o mundo muda tão rápido.”
Percy considerou isso por um momento, observando Hazel limpar o restante das suas lágrimas. Desviou os olhos para a saída da barraca e soltou a amiga do abraço, sentando-se de frente para ela na maca. “O mundo muda rápido.” Concordou num tom quieto, vendo o perfil derrotado da filha de Plutão. “É injusto pedir que você se ajuste na velocidade dele.”
A romana ergueu os olhos para si, parecendo miserável e triste, mas com uma pontada de curiosidade diante a sua frase.
Hesitou antes de continuar a sua frase. “Mas você pode tentar segui-lo.”
Os orbes de ouro o encararam por alguns segundos surpresos, mas a jovem semideusa logo os abaixou, conseguindo transmitir toda uma tristeza e uma resignação com aquele único movimento. Suas mãos se fecharam em punhos em seu colo – não por raiva, mas por nervosismo.
“Eu falo sério, Hazel. Você consegue.”
A garota suspirou sem som. “Eu não sei...”
“Você o ama?”
A donzela de chocolate se sobressaltou, olhando para ele com algo parecido com choque. Um nó se formou na sua garganta e seus dedos se cerraram com mais força – dessa vez com medo.
Mas então Hazel Levesque brilhou com um pouco da sua chama normal, um ar indignado em seu rosto. “É claro que sim!”
O nó se desfez e Percy relaxou as mãos. Sorriu para a amiga, feliz com o fato de saber que esse era um sorriso genuíno. “Então você consegue. É só não desistir.”
A jovem voltou a olha-lo tristemente, fazendo sua alegria despencar do seu peito. “Você faz soar tão fácil, mas Percy.” Ela disse, pondo uma mecha marrom atrás da orelha e logo em seguido abraçando seu próprio tronco. “Por mais que eu ainda ame o Nico, eu... vai ser como desistir de uma moral minha. Aceitar o que antes eu achava errado como certo agora.”
“Ei, eu sei que não é coisa fácil que eu estou dizendo.” Replicou e se adiantou por cima da maca, voltando a se sentar ombro a ombro com Hazel. Olhou-a nos olhos com honestidade e lhe segurou a mão mais próxima, sentindo a umidade das lágrimas ainda na pele escura. “Mas você não acha que vale a pena?”
A mais nova o olhou incerta, uma culpa nublando seus olhos dourados. “Percy, não é tão simples assim.”
“Claro que é.” Declarou confiante. “É só pensar que é o Nico.”
As sobrancelhas da pequena se juntaram numa expressão confusa, mas antes que ela pudesse o interromper Percy continuou, soltando sua mão instintivamente para gesticular fervorosamente sobre o que falava. “É só entender que o mesmo Nico que está dentro da sua cabeça agora é o mesmo Nico de antes, é o mesmo moleque mal-humorado e ranzinza que consegue assustar Leo com um olhar, que rosna toda vez que o Jason chega muito perto e que gosta de se fingir de chato, mas que na verdade é legal pelas costas de todo mundo.” Disse com animação, tentando deixar a todo custo o tom da conversa leve e foi recompensado por um pequeno sorriso de Hazel com suas palavras. “É exatamente o mesmo Nico, só que agora você sabe que sobrinhos não vão rolar. Quero dizer, a não ser que ele resolva adotar ou fazer aquele negocio do ‘Minhas Mães e Meu Pai’”
A garota riu baixinho. “Acho ‘Comme les autres’ se encaixa melhor.” Sugeriu ela e então congelou, parecendo notar o que havia acabado de fazer.
Percy sorriu e segurou a mão da amiga mais uma vez. “Viu? Vale a pena.”
Pelo Nico.
Se não é que essa frase vinha reinando sua vida nesses últimos dias? Mas sem surpresas notou que não se incomodava com essa perspectiva. Para ele, valia a pena pela amizade com o menino mais novo.
Agora era questão de ver se valia para Hazel seu laço familiar.
Um silêncio se instalou na barraca enquanto a filha de Plutão encarava sem ver suas mãos juntas. Apertou os dedos da amiga, querendo reassegura-la sem palavras.
Por fim, a mais nova suspirou e lhe apresentou um sorriso pequeno que lembrava um pouco do seu sorriso normal. “Quando foi que você se tornou tão bom com as palavras, Percy?”
Fez um som ofendido, fingindo recuar magoado. “Eu sou um discursador nato. Não sei o que você quer dizer com isso.”
Hazel não retrucou. Em vez disso apenas aumentou o seu sorriso e se inclinou para frente, depositando um beijo sobre sua bochecha.
“Eu vou tentar, Percy.”
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“Tem certeza de que não vão precisar de ajuda?” Perguntou pela terceira vez enquanto caminhavam para a beirada da cidade. Notou vagamente que já estava escurecendo e que provavelmente já eram umas cinco da tarde.
Hazel revirou os olhos e sorriu para ele mais como ela mesma, mesmo que ainda estivesse com os olhos avermelhados.
“Sim, não foi nada muito grave.” Respondeu a menina, parando de andar. Percy parou um passo adiante e se virou para a amiga. “Nossos arquitetos já devem estar reparando os prédios e acrescentando novas coisas também.”
O filho do mar fingiu bufar. “Romanos.” Então deu uma pausa e continuou seriamente. “E o problema com Octavio?”
Hazel suspirou e passou uma mecha para trás da orelha, seus olhos se desviando momentaneamente para Nova Roma. “Vamos tentar resolvermos entre nós. Como o problema é com o tratado de paz, se envolvermos você ou qualquer outro grego talvez a coisa fique ainda pior.” Falou e então os orbes dourados voltaram de novo para ele.
Percy acenou, embora relutantemente, concordando com a lógica da filha de Plutão. “Mas qualquer coisa, você já sabe.” Replicou e embora não tenha sido intencional o duplo sentido da sua frase, deixou fluir ao ver a romana olha-lo agradecida.
“Eu sei.” E então Hazel beijou-o novamente na bochecha antes de se afastar, começando a voltar por onde haviam vindo. “Tchau, Percy.”
Acenou, sorrindo de lado. “Bye.”
Observou Hazel sumir entre os prédios e suspirou, sentindo-se repentinamente cansado dos eventos do dia. Começou a caminhar em direção da recém-descoberta garagem, esperando que Reyna já tivesse terminado seus assuntos no Senado e estivesse lá para lhe dar a carona de volta. A ideia de ter que voltar a pé todo o percurso de volta era de longe agradável e se Percy pudesse se ajudar, seus pés provavelmente agradeceriam.
Começou a cantarolar uma música dos The Smashing Pumpkins enquanto subia o morro para a garagem, observando o céu naquela cor dupla de azul-dia com vermelho de crepúsculo começando a se estender do sol, sumindo ao horizonte. Virou os olhos para o pôr-do-sol que ele sabia ser atrás de Nova Roma quando algo pegou sua visão.
Percy congelou em seu passo.
Seu coração pareceu parar de bater.
Ao longe, sobre a colina um vulto de branco o observava. Os cabelos loiros voando pelo vento.
Quando notou que era observado, acenou suavemente para si.
E ele sentiu o medo e a esperança percorrendo o seu corpo, o nome na ponta da sua língua, doce, suave, amargo, afiado e fazia tanto tempo que ele não o pronunciava, mas as silabas saiam perfeitamente porque antes ele amava pronuncia esse nome e ainda amaria se não doesse tanto ao menos pensar nele, mas agora seria possív-
Ann-?
“Percy?”
Saltou no lugar e se virou, sentindo o coração em sua garganta. Reyna piscou para ele, parecendo irritada e cansada, mas principalmente preocupada. “O que você está olhando?”
Encarou a filha de Roma por um momento antes de se virar para onde olhava antes.
A colina estava vazia.
Percy sentiu sua boca seca enquanto seu coração batia dolorido.
“Nada, não estava olhando nada.”
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