Nem Tudo É De Primeira

15 Nem Tudo É De Primeira


Notas iniciais
Para não dar confusão, a cena entre os [ ] é a continuação da ligação do Percy pra Reyna do cap. anterior e as cenas do Nico e do Percy são as cenas iniciais do cap. 13, mas com descrições mais detalhadas. Elas são parte da reflexão que o Percy faz aqui.

[“Huh, ok. Mas, Percy, você tem certeza de que você quer se meter nisso?”

Fechou os olhos, sentindo os primeiros raios do sol acariciarem o seu rosto gentilmente.

“Sim, eu tenho certeza.”

“Hm, tá legal. Se der problema, o funeral é seu. Que horas?"

"Dez?"

"Ok."]

.

*

.

A chave entrou num click baixo e ele destrancou a porta, entrando no seu dormitório silenciosamente. Seus pés descalços agradeceram no momento em que ele abandonou o mármore frio do corredor pelo carpete macio do quarto e todo o seu corpo pareceu derreter no momento em que se jogou embaixo das cobertas, fugindo do ar frio. Soltou um suspiro satisfeito que foi abafado pelo seu travesseiro.

Tudo o que ele queria agora era dormir.

Claro que foi nesse momento que Dean saiu do banheiro, gritando feito o idiota que ele era.

“Percy!” Gritou a voz do seu companheiro de quarto, impossivelmente aguda para a voz de um homem que absolutamente não sabia cantar, e no segundo seguinte sentiu algo pesado cair em cima dele na cama. Logo depois veio de novo a voz, imediatamente do lado do seu ouvido. “PERCY!”

Ninguém poderia culpa-lo por não ter tido muito alto controle. Depois de um final de semana emocionalmente e fisicamente exaustivo que ele tivera, além de ter ficado basicamente duas noites em claro tentando resolver problemas, quem o culparia por não ter muita paciência com o seu colega de dormitório ridicularmente feliz e pesado pulando em cima dele no exato momento em que ele conseguiu se deitar de verdade?

Assim, no exato segundo seguindo após Dean ter inadvertidamente achado que podia gritar no seu ouvido, Percy o chutou sem cerimonias para fora da sua cama. Com força.

Ouviu vagamente o outro rapaz cair no chão num baque alto, rolando provavelmente umas duas ou três vezes antes de bater contra o pé da cama oposta num tuq! engraçado, soltando uma exclamação de dor e/ou susto. Mas a maior parte do seu cérebro estava concentrada em tentar voltar a achar uma posição confortável naquele colchão maravilhoso. Virou de barriga para baixo e deslizou ambos os seus braços para debaixo do travesseiro, se espreguiçando.

Como aquilo era bom.

Nem um minuto após tê-lo chutado violentamente, Dean voltou a pular em cima dele, tão animado quanto antes. “Percy! Percy, Percy, Percy Cara Emburrada!” O rapaz de cabelos areia gargalhou alto.

Grunhiu irritado e se virou repentinamente na cama, girando o travesseiro com toda a sua força em direção na cara de Dean. Mas aquele mortal deve a audácia de desviar a tempo do seu golpe, além de agarrar o travesseiro real do filho de Poseidon!

“Seu lerdoo!”

Saltou sentado na cama num pulo, encarando seu inimigo com olhos mortalmente sérios, seus dedos enfincados no material macio. “Solta isso. Agora.” Falou lentamente, enfaticamente.

O seu oponente teve a coragem de rir. “Percy Dorminhoco! Ranzinza! Soneca!”

Rangeu os dentes e avançou para cima do outro, mas esse logo desviou para o lado, para fora da cama, levando consigo tanto o travesseiro como os seus cobertores. “DEAN!” Gritou e tentou agarrar o outro rapaz. Mas Dean Fernhein Wilson escapou das suas garras e, como a criatura sem coração que ele era, olhou para ele diretamente nos olhos sem um pingo de arrependimento ou piedade e falou com o próprio sorriso do diabo.

“Aula daqui a vinte minutos.”

E saiu do quarto rindo diabolicamente.

Percy desabou no colchão, derrotado.

Pela milionésima vez, se arrependeu de ter pedido a Dean que fosse o seu despertador.

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*

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“Nossa, que cara!” Penny exclamou, um sorriso hesitante no lábio como se ela temesse que o assunto não permitisse brincadeiras. “O que aconteceu?”

Percy ainda piscando o sono para longe de seus olhos sorriu de lado uma única vez para assegurar à amiga, mas quando abriu a boca para responder sentiu um tapa violenta nas suas costas que o fez cambalear para frente, interrompendo-o. “É porque nosso Percy teve uma noite agitada, se é que você me entende.” Disse um Dean surgindo do nada e piscando um olho para a ruiva, um braço jogado por cima dos seus ombros. “Menina, nem te conto o tamanho do chupão que eu vi, tipo, na lombar dele! Era-“

Penny corou, arregalando levemente os olhos.

Percy jogou o cotovelo para trás, acertando a barriga de Dean sem cerimônia alguma e senti-o se curvar, soltando uma exclamação de dor. Ignorou. “Não é nada disso! No sábado eu caí no chão e acabei batendo as costas contra uma pedra e por isso está ficando roxo agora e como é que você sabe disso?” Explicou embaraçado para a amiga, gesticulando as mãos de maneira constrangida, mas direcionando a última pergunta de maneira indignada para o rapaz atrás de si, encolhido ao pé da mesa da sala de aula.

Houve uma pausa de silêncio onde Penny escondeu um riso atrás das mãos de unhas coloridas e Dean permaneceu quieto.

No fim, ouviu um casual: “Eu tenho curiosidade sobre o corpo humano.”

Percy bufou. “É falta de educação espiar as pessoas quando elas estão trocando de roupa, principalmente sem a permissão delas.”

“Eu acho que ‘Espiar’ é uma palavra desproporcional a situação.”

“Concordo, ‘Bisbilhotar’ é melhor.”

“Não é pra tanto. E você deveria se sentir lisonjeado!”

“Lisonjeado? E você admite então que estava me bisbilhotando?”

“Eu não disse isso.”

“Disse sim.”

“Não disse não. Nunca disse a palavra ‘bisbilhotar’.”

“Disse sim. Acabou de dizer.”

“Não vale assim!”

“Claro que vale! Quem ditou as regras?”

“Ninguém dita as regras, elas são passadas de geração para geração. É uma tradição.”

“Tradições podem ser quebradas.”

“Mas não deveriam.”

“Não importa.”

“Claro que importa!”

“Vocês dois parecem duas crianças discutindo desenho animado.” Interrompeu Penny. Desviou os olhos de Dean para a amiga e a viu sorrir abertamente, a cabeça apoiando em cima da mão em cima da mesa da sala. “E não o fato de Dean ter dado uma de pervertido de novo pra cima do Percy.”

Sorriu um sorriso de lado e se virou para dar um peteleco no meio da testa do amigo. “Isso ai, você me deve um lanche por causa dessa.”

O jogador de futebol recuou com o golpe, a mão direita indo imediatamente para a região acertada. “Ei! Isso dói!” Exclamou ele, franzindo o cenho.

“É essa a ideia.” Replicou.

Viu os olhos castanho-claros revirarem, os dedos ainda massageando o ponto dolorido. “Ok, que seja. Agradeça por ter o corpo de um deus grego, senão nem rolava.”

Percy gargalhou, jogando-se na cadeira ao lado de Penny e antes que pudesse responder, um dos companheiros do time de futebol chamou Dean do fundo da sala e o rapaz logo respondeu, indo em direção a um grupo de pessoas notavelmente atléticas após dar um aceno breve para o filho de Poseidon e a ruiva. Observou o amigo por um breve momento antes de se voltar para frente, abrindo seu material casualmente.

Jogou o caderno de Biologia em cima da mesa, junto do estojo e a agenda, mas quando começou a escavar sua mochila a procura do seu livro, descobriu que o havia esquecido. Franziu as sobrancelhas e amaldiçoou em grego antigo. “Ei, você sabe se hoje tinha que trazer o livro?” Indagou, se voltando para Penny.

Que ainda sorria abertamente para ele.

Piscou os olhos uma vez. “O que foi?”

“Você realmente não liga nem um pouco, né?” Ela falou, um encanto na sua voz que o fez se encolher ligeiramente acanhado.

“Não ligo para o que?” Perguntou meio confuso.

A menina apontou o polegar para trás para o fundo da sala. Percy olhou naquela direção, não vendo nada além de Dean conversando alegremente com as pessoas do clube de esportes. “O que?” Voltou os olhos para ela, ainda sem entender.

Penny riu, deslizando uma mecha vermelha para trás da orelha. “O Dean, Percy, eu estou falando do Dean.”

“O que é que tem o Dean?” Juntou as sobrancelhas no meio da testa para a garota.

“O garoto não admitiu, meio minuto atrás, que ele basicamente te espionou trocando de roupa? Muitos surtariam por muito menos.” Respondeu ela.

Piscou os olhos para a ruiva, assimilando o que estava ouvindo. Então franziu o cenho mais ainda, ainda falhando em ver o ponto da amiga. “Mas... é o Dean.”

Penny soltou uma risada surpresa. “Exatamente.”

“Não, quero dizer, você sabe como ele é. Ele diz todas essas besteiras, mas ele nunca espiaria pra valer, tipo, até o fim, pelo menos não com quem ele não tá namorando/ficando.” Explicou, cruzando os braços sobre a mesa. “Além do mais, eu faço natação com ele. Ele já me viu sem blusa.”

Pensou ter esclarecido o problema, mas logo em seguida viu a jovem de cabelos cor de fogo balançar a cabeça incrédula, um sorriso carinhoso nos lábios. Era o tipo de movimento que uma mãe dá para um filho que acabou de fazer algo estúpido de uma maneira fofa e com boas intenções.

Percy se virou meio defensivamente, sentindo o rosto esquentar de leve. “Onde eu errei?”

“A parte onde eu estava vendo se te incomoda que um homem te cheque ou não.” Replicou Penny, ainda rindo levemente.

“Ah.”

Percy deu uma pausa, pensando.

Comparando, na verdade.

Relembrou de Dean no seu primeiro dia de aula, que basicamente se encostou ao seu lado no armário e o cumprimentou com um ‘Verde é minha cor favorita, sabe.’ que foi prosseguida de um piscar de um olho só e uma apresentação de nome inteiro, além do outro rapaz ter permanecido mais perto do que realmente era necessário.

Percy levou só dois minutos e meio para assimilar que estava levando uma cantada. Depois disso ele seguiu em congelar instantaneamente por dez segundos e então gaguejar em todas as suas respostas, sem saber como direto como reagir. Só que no final ele não precisou porque Dean logo riu e se afastou, parando imediatamente de dar em cima dele e soltando um comentário simplório ‘Ah, que pena. Não joga no meu time, huh?’ para depois esticar sua mão e indagar educadamente pelo seu nome.

Ao final do dia, Percy havia encontrado o seu futuro colega de quarto.

Trouxe também as memórias de algumas outras pessoas dando em cima dele: Rachel, Drew, uma garota da escola... e as comparou com a do Dean. Não foi com surpresas que descobriu que todas apresentavam o mesmo conteúdo, basicamente.

Deu de ombros levemente. “Não mais do que eu me incomodo com mulheres.” Respondeu com sinceridade, começando a abrir o estojo. Mas então deu uma pausa, revisando o que tinha acabado de falar e reformulou o que tinha dito. “Quero dizer, acho que depende mais do jeito que a pessoa vem. Não é incomodo, mas... sabe?”

Penny fez um som do fundo da garganta, concordando, ainda com um sorriso gentil no rosto. “Eu sei.” Falou e inclinou de leve a cabeça, contemplando-o. “Então você não se importa que um homem dê em cima de você?”

Deu de ombros de novo, se encostando a cadeira. “Não em particular, não.”

A ruiva sorriu para si. “Quem me dera todo mundo pensasse assim.” Falou ela num tom suave, tão encantado e impressionado que Percy corou embaraçado, se remexendo sem jeito na cadeira.

“Eh, bom... eu... também.”

Então os dois caíram num silêncio tranquilo, o som da sala ressoando pelo local – as risadas, as discussões, os gritos agudos de animação ou indignação, até algumas vozes cantando num coro ao fundo. E em meio a toda essa baderna, Percy conseguiu escutar a baixa pergunta que se seguiu:

“Você é... bi?”

Olhou para a amiga, um pouco surpreso com a pergunta e viu-a dar uma expressão curiosa, embora hesitante. Quando Percy não respondeu de imediata, a garota logo se adiantou meio nervosa, gesticulando de maneira preocupada. “Desculpa, essa foi uma pergunta meio indelicada, você não precisa responder se não quiser.”

“Não, não é isso.” Assegurou logo para a ruiva, sacudindo a mão levemente. “É que eu nunca realmente parei para pensar sobre o assunto, então eu não...” Deixou a frase morrer no ar, refletindo internamente sobre isso.

Viu Penny piscar os olhos grandes de maneira curiosa, os longos cílios balançando de leve. “Você não sabe?” Indagou devagar, num tom que não deixava espaço para ofensa ou julgamento, apenas uma honesta e intrigada pergunta.

Não é que Percy não soubesse, no sentido estrito da palavra, mas é que ele realmente nunca tirou um dia para parar e refletir sobre sua sexualidade. Era um dos vários fatores da sua vida que ele meio que negligenciou devido o seu cotidiano um tanto quanto ocupado de semideus, de modo que por toda sua vida ele meio que carregou adiante tudo aquilo, só reagindo sobre o assunto quando ele era diretamente direcionado para si – como quando alguém dava em cima dele.

Ou quando...

... Melhor, na única vez que namorou.

E, no final, aquilo não poderia ser considerado refletir, pois entrar em pânico sem ter ideia do que ele supostamente deveria fazer, mas mesmo assim querendo tudo aquilo com uma vontade esmagadora, ao mesmo tempo com medo de fazer algum erro estupido e estragar tudo... Isso não podia ser considerado refletir sobre sua sexualidade, porque em primeiro lugar o sexo nunca foi o que o atraiu para o relacionamento.

Se por tudo, foi apenas uma espécie de bônus sobre o qual ele nunca realmente pensou. O que o atraia, o que sempre o atraiu foi... a pessoa em si.

E esse assunto ainda fazia sua garganta fechar e seu coração começar a bater dolorosamente dentro do seu peito, então ele pigarrou o nó na sua voz e tentou fazer seu rosto sorrir para Penny, respondendo da maneira mais honesta que conseguia a pergunta da sua amiga e fingindo que ainda estava tudo de boa como há dois minutos.

“Eu não sou muito de rótulos, mas até onde eu sei, eu sou hetero.”

Pelo olhar suave que recebeu, ele não conseguiu.

“Vamos sentar nos lugares, classe!” Exclamou a professora de biologia, entrando na sala empurrando um carrinho com uma TV em cima. “Hoje vamos assistir um documentário sobre doenças virais, sobre o qual vocês depois irão me entregar um divertidíssimo relatório de dez páginas.”

Houve um gemido instantâneo e coletivo da sala inteira, enquanto a mulher em seus quarenta anos sorria alegremente. “Sabia que vocês iam amar. Sr. Wilson, que tal o senhor dar o ar de sua graça para a sua mesa?” Disse ela enquanto arrumava os fios do carrinho, sem sequer olhar para trás. A turma riu enquanto Dean voltava de maneira exageradamente graciosa para o seu lugar ao lado de Percy e piscava um olho para a professora quando ela se virou para falar de novo. “Não precisa disfarçar seu amor por mim, profi. Se você me quer por perto, é só dizer.”

“Claro que sim, te amo tanto que vamos ficar juntos mesmo depois que as aulas regulares acabarem, na recuperação, não é?” Retrucou a professora de biologia, sorrindo angelicamente enquanto abria o DVD.

Dean bateu na mesa, fingindo balançar a cabeça de maneira chateada. “É uma pena que eu não curto sua raça, não acha?”

A mulher mais velha ergueu uma sobrancelha. “Minha raça?”

“É, mulheres.”

A sala caiu na gargalhada, com até mesmo a professora segurando o riso com dificuldade. A senhora se virou, balançando a cabeça de maneira descrente, e coloco o filme no aparelho e depois se afastou para apagar a luz.

Percy se encostou à mesa, cruzando os braços por cima da superfície e apoiando a cabeça em cima.

Quando as luzes apagaram, sua mente começou a desvairar.

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Sentiu Nico descer da poltrona e o desconforto em sua coluna devido à posição não muito confortável sumiu assim que sentiu o peito menor encostar-se ao seu, o aperto dolorido dos braços magros em seu pescoço mudando de ângulo e se tornando um abraço normal.

Suspirou fundo silenciosamente, segurando mais firmemente o outro semideus. “Aqui.” Murmurou contra os fios negros e se ergueu do chão cuidadosamente, trazendo gentilmente o filho de Hades consigo. Depois o guiou até o sofá vermelho e o deitou.

Mas quando se afastou ligeiramente, querendo dar espaço ao menor, Nico não o deixou.

Os braços magros continuaram presos ao redor do seu pescoço.

Deslizou uma mão pelo cabelo cor de ébano. “Nico?”

Sentiu o mais novo negar com a cabeça contra o seu ombro, sem erguer o rosto, sem dizer nada.

Então Percy se deitou, encaixando o corpo menor entre seus braços mais uma vez, segurando-o com força como se assim pudesse parar os tremores que vinham e iam.

E ficou assim até o inicio da tarde.

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Como deve ter sido para Nico quando ele descobriu sua sexualidade?

Será que foi como Percy, só parando para realizar isso quando alguém o confrontou diretamente sobre os assuntos? Ou foi uma epifania solitária?

Pensando bem, o problema de Nico era o exato oposto do de Percy. Em vários aspectos. E semelhante em outros também.

Percy nunca viu a sexualidade como um problema ou mesmo algo a ser pensado com muita seriedade, mas Nico visivelmente pensava bastante sobre o assunto – até demais, diria, e de um ponto de vista não muito bom. E enquanto Percy nunca acreditou em rótulos (simplesmente porque ele odiava rótulos), mas se viu facilmente caindo dentro de um para sua total indiferença, Nico vinha de um tempo em que rótulos era basicamente tudo o que mantinha uma pessoa dentro ou fora de um campo de concentração e o garoto se viu caindo inevitavelmente num rotulo demarcado por vermelho para o seu total terror.

Um ponto em comum era que ambos se sentiam desconfortáveis sobre esses rótulos – se bem que por motivos extremamente distintos.

Percy era por causa do seu passado.

Nico era por causa do seu futuro.

E embora ele não quisesse pensar muito sobre o seu motivo, Nico era uma questão diferente.

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“Você está gelado.” Comentou, cobrindo os braços magros com os seus próprios esperando esquenta-los ao menos um pouco. “Como você pode estar gelado? Estamos na frente de uma lareira.”

“Eu estou perfeitamente bem.” Replicou Nico, encolhido para perto de si, o rosto escondido para baixo com a testa no seu peito. “Você que parece que engoliu o sol.” Sua voz saia abafada e sem tom.

Embora houvesse um toque de indiferença nas palavras do menor, Percy ainda estava bastante consciente do fato do seu poder anti-água não funcionar com lágrimas.

“Não parece, eu sou o sol-“ Brincou, tentando alterar o clima e foi recompensado por um cutucão nas suas costelas que o interrompeu e o fez saltar. “Ai! Isso dói!”

“É meio que o ponto.” Retrucou Nico e o menor lutou, realmente lutou para manter um tom indiferente de voz, mas mesmo assim Percy conseguiu capturar uma pontada de sorriso naquela frase.

Uma pontada de vida, em quase cinco horas.

Sorriu para o encosto vermelho do sofá, descansando o queixo em cima da cabeça de fios negros. “Violência.”

“Meu nome do meio.”

“Sei.”

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Quando ele disse que entendia um pouco do que é ser o isolado da turma, do que é se sentir como o diferente entre os normais, Percy não estava mentindo. Ele ainda lembrava-se dos seus primeiros doze anos de vida, mudando de escola para escola, sempre sendo o garoto novo e esquisito com déficit de atenção, hiperatividade e TDHA que todo mundo afastava a carteira e os professores imediatamente o colocavam na primeira mesa. Lembrava-se de não aguentar os olhares julgares de todos os lados e começar a surtar logo na primeira semana, irritado, furioso com o mundo por motivos que ele ainda não conseguia formular.

Mas então veio Grover e o Acampamento Meio-Sangue e de repente ele não era mais o esquisito que todo mundo evitava. Pela primeira vez ele tinha amigos. Pessoas que entendiam o que ele havia passado, pois já haviam estado no seu lugar e ele se sentiu acolhido pela primeira vez em anos, mesmo com a provável morte de sua mãe na época pairando sobre sua cabeça.

Mas quando ele disse que também não conseguia entender 100%, ele também não estava mentindo.

Porque Nico veio no exato caminho oposto do seu. Ele tinha um lar, uma família construída, provavelmente até amigos com quem ele brincava na época e ele veio ao Acampamento ainda feliz, animado com tudo que estava acontecendo. E então ele perdeu Bianca, lembrou-se de perder sua mãe e descobriu como o isolado entre os isolados. Saiu de um lar acolhedor para um mundo cruel demais, sozinho.

E então assim, sozinho, foi descobrindo seus outros demônios.

Como será que foi? Percy se perguntou internamente, seus olhos presos na TV sem nada realmente ver, como será que Nico descobriu?

Essa era um história que ele provavelmente deveria ter perguntado. Talvez o ajudasse a compreender.

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Quanto tempo passou Percy não tinha certeza, mas sentia que já estava chegando ao meio-dia, pois sua barriga estava começando a reclamar. “Eu estou com fome.” Comentou.

“Bom pra você.” Foi a resposta mal-educada que recebeu e que Percy deixou deslizar sem nem piscar os olhos, ocupado em dedilhar uma música que estava na sua cabeça pela ultima meia hora no braço do Nico. O garoto estava mais magro do que há uma semana e se perguntou pela quinquagésima vez quando fora a última vez que ele comera.

“Você está com fome?”

Houve uma pausa. Então uma resposta abafada e um tanto quanto ranzinza. “Não.”

“Mas que TPM é es-“ Começou a brincar, mas de repente sentiu os pés ridicularmente frios de Nico encostarem na sua perna, num choque térmico que chegou a doer. “Ai, ai, ai!” Tentou recuar com uma exclamação em grego antigo, mas o menor o segurou com as mãos, circulando um dos seus tornozelos com os pés gelados. “Isso é golpe baixo! Isso é golp- ai!”

Por fim, Nico criou piedade e o soltou e o filho de Poseidon imediatamente recolheu as pernas para longe do menor, tentando aquece-las de novo contra o sofá vermelho. “Fica quieto, Percy.” Ordenou o filho de Hades, numa voz irritada e sonolenta, enquanto ele escondia o rosto contra uma almofada.

Percy bufou, ainda que sorrindo levemente. “Eu hein, estressado, vai ficar com rugas aos vinte anos-“ Mas então Nico recolheu as pernas e, num flexibilidade totalmente injusta, colocou os pés contra sua barriga e começou a empurra-lo para fora do sofá. O semideus mais velho esganiçou, se agarrando ao braço do móvel. “Ai, ai, ai! Tá bom, eu paro, eu paro!”

“Huh.” O menor parou e voltou a esticar as pernas, afundando o rosto contra a almofada fofa.

Mas mesmo assim Percy conseguiu ouvi-lo começar a rir e não pode evitar sorrir também.

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Sentiu uma batida no seu ombro e se virou para encontrar Dean desabado ao seu lado, dormindo descaradamente exatamente do modo que ele dorme no quarto.

Dean era uma pessoa incrivelmente confortável na sua própria pele, Percy observou. Não tinha medo de se mostrar como era ao mundo e tinha os nervos e a força de vontade para saber se defender de quem não gostava do que via. Não era fácil, Percy era amigo dele há tempo o suficiente para saber disso – já havia o ajudado a sair de uma briga injusta mais de uma vez e não gostava de pensar no numero de vezes que o garoto de cabelos areia voltou com um olho roxo após ter saído para se divertir.

O menino ficava chateado, dava para ver, mas logo sorria e brincava com a situação, exigindo um sorvete já que estava enfermo. E Percy revirava os olhos e tacava um travesseiro nele, exatamente como sabia que o outro queria que ele reagisse.

Porque Dean já não tinha medo e havia aprendido que só deve querer opinião de quem ele quer ouvir. E em quem ele já confiava, ele pedia amizade e não pena nessas situações.

Só que a chave era essa: ele tinha em quem confiar.

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Sua barriga roncou e Percy gemeu contra a almofada, ombro com ombro com Nico no sofá. “Mas é sério, Nico, já deve ser uma hora.” Reclamou, olhando para o menor.

O filho de Hades se mantinha de olhos fechados, ainda mantendo o rosto parcialmente escondido com o seu braço. “... Já passei mais tempo sem comer.”

“Pois não deveria, faz mal para a saúde.”

Dessa vez o menor fez questão de abrir os olhos só para poder revira-los na sua frente. “Você parece o Jason agora.” Disse e Percy fez um movimento de indignação com o braço livre. “Ei! Ofende, mas não magoe.” Girou no sofá da sua posição de costas e parou de lado, apoiando a cabeça na mão. “Além do mais comer é tão bom! Como você pode não gostar?” Indagou, honestamente curioso.

Viu Nico afundar o rosto na almofada e começar a tremer os ombros, no que ele logo reconheceu como uma risada. “Esquece, não parece mais. É por isso que você engordou.” Replicou o menor, fazendo-o sorrir.

“Todo avião tem pneu.” Declarou seriamente.

Teve o efeito que queria quase que instantaneamente.

Nico começou a gargalhar contra o sofá, o corpo pequeno sacudindo.

Percy fingiu piscar os olhos de maneira confusa, como se não estivesse entendendo. “O que?”

“Eu vou fingir que não ouvi isso e vou te ignorar a partir de agora.” Respondeu o filho de Hades ainda rindo, e girou no sofá, ficando de costas para si.

“Como assim? Ei!”

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Quando as luzes se acenderam, Dean saltou acordado num pulo que o fez cair da cadeira. A meia sala que viu o que aconteceu começou a rir, junto de Percy e Penny – ambos esticando a mão e ajudando o amigo a se sentar.

O garoto semicerrou os olhos para si e para a ruiva, adotando uma falsa expressão ferida. “Traidores.” Mas aceitou as mãos esticadas e se sentou. Então se virou para toda a sala, falando numa voz tenebrosa. “Riem da minha desgraça, mas lembrem-se depois que Lina McCoy é minha amiga pessoal, ouviram?”

Houve uma pausa impressionante onde todo mundo se calou por um segundo inteiro, e então Penny desatou uma gargalhada tão inesperadamente aguda que fez a represa se romper e todo mundo voltou a rir, até mesmo a professora de biologia na frente da sala tentando conter um Dean Wilson indignado, mas com um sorriso animado no rosto.

Percy se encostou-se à cadeira, sentindo o estômago começar a doer de tanto rir e limpou uma lagrima do olho.

É, ele havia entendido: a chave é ter em quem confiar.

Notas finais
Urgh, cansada. Esse capitulo foi ridiculamente difícil de escrever e eu ainda não estou satisfeita com ele, sinto que ficou meio exaustivo e repetitivo, mas não consegui achar nenhuma outra forma de escrever essa fase de transição dos capítulos que funcionasse melhor. Sinto-me frustrada quando não coloco conteúdo em muitos capítulos seguidos e, por mais estranho que pareça, eu estou ansiosa para chegar na tempestade que eu disse há vcs. Desculpem por isso.