Nem Tão Doce Primevera
8 O que os olhos não querem ver
*P.O.V. LYSANDRE*
Não soube como agir diante do olhar tímido dela dentre aquele turbilhão de emoções.
Eu a vi assim que cruzei os portões do colégio, me senti aliviado por ela estar conversando animadamente com seus amigos. Pensei que poderia ao menos cumprimenta-la, mas na medida em que me aproximava sentia-me cada vez mais inquieto e quando de repente nossos olhos se encontraram eu não soube o que dizer, as palavras não pareciam tomar forma em minha mente, ao olhá-la só consegui me lembrar de suas bochechas rosadas e da pequena covinha que se formava ali quando ela sorria, mesmo quando de nervoso, de seus grandes olhos azuis e de como eles se fixaram em mim me despindo de coragem instantaneamente, de como seus lábios estavam trêmulos e de como aqueles longos cachos negros, sempre desarrumados emolduravam perfeitamente toda essa expressão.
O fato que não poderia mais negar é que sua declaração causará algum efeito em mim e agora eu não consegui mais olhar para minha doce e curiosa amiga apenas como uma doce e curiosa amiga, era impossível negar as suas feições e forma, ela era uma garota atraente de diversas maneiras e eu não sabia como lhe dar com essa minha mais nova descoberta.
Então fiz a única coisa que me passou pela cabeça na hora do pânico: eu a ignorei, não por arrogância ou por desprezo, eu apenas não soube o que fazer com todos esses pensamentos que me cortavam em milésimos, eu apenas agi como um garoto assustado. Uma parte de mim não se sentia pronta para falar com ela diante de tantas pessoas e a outra parte apenas achava que não saberia agir diante dela e de Rosalya, não queria machuca-la mais do que já havia feito, não tinha o direito de infligir isso a garota que tão docemente me apoiou, mesmo que não pudesse lhe corresponder à altura.
Porém não sabia que isso causaria um efeito tão devastador, Analu se distanciou pelo resto da manhã, ao menos de mim. Sentou-se sempre ao fundo da sala eu não ouvia sequer o som de seu riso corriqueiro com os comentários indiscretos ou cômicos do Alexy, sempre que a observava por sobre os ombros ela estava distraída olhando o próprio reflexo turvo na janela ou rabiscando em seu caderno, coisas que provavelmente não teriam a menor ligação com a aula, ela apenas estava mergulhada em seus pensamentos e eu não poderia julgá-la.
Entre as minhas observações acabo me lembrando de um de nossos primeiros encontros a sós em uma típica tarde calma de outono. Ela estava como nessa manhã perdida entre seus pensamentos sentada em um banco observando a estufa, sua mão corria pelo papel como se já estivessem condicionadas aos movimentos rápidos, porém sutis da caneta. A observei por um tempo até que ela estendeu o caderno e riu satisfeita pelo resultado que alcançará com o seu pequeno esboço dos lírios. Ela era uma das poucas pessoas ali que destoavam do padrão colegial, apesar de parecer tão inquieta e agitada como a maioria das garotas em nossa idade, seu jeito um tanto peculiar de ver o que estava a sua volta não passava despercebido.
"_ Desenhar para mim é algo que vai além do que eu posso explicar, faz com as coisas pareçam em ordem em meu mundo... Mesmo quando não estão, entende? Pareço até um pouco louca falando assim não é?" — Foi o que ela me disse nesse dia e eu apenas concordei acenando sem de fato entender o que aquilo significava, bem, agora eu sabia.
Eu tinha consciência de que ela não falaria comigo, pelo menos não por hora, eu sabia disso porque foi o mesmo que fiz depois do namoro entre Rosalya e meu irmão, eu me distancie na esperança de que as coisas se acalmassem.
— Vai continuar com essa cara o dia todo?
— Castiel, não estou muito animado para as suas provocações hoje.
—.Estou vendo... O que não significa que eu não vá te provocar. — Ele respondeu dando de ombros.
— Mas é claro que não...
— Agora sério, se ia ficar tão para baixo assim, deveria falar com sua confidente logo.
— Onde quer chegar com isso Castiel?
— Ao óbvio! Vocês não se falaram desde que chegaram e ela sempre faz questão de falar com você... Então está meio na cara que algo aconteceu.
— Não sabia que se preocupava tanto assim com a minha relação com a Analu.
— Não me preocupo com a relação de vocês.... Só estou um pouco incomodado com toda essa comoção. Sinceramente essa conversa não está nos levando a lugar nenhum, então vou tirar um tempo no porão.
E de mesmo modo como ele iniciará a conversa sem nenhum motivo aparente ele a encerrou, me dando as costas e indo em direção ao porão. As vezes eu não consegui entender bem como funcionava a mente do Castiel e muito menos como funcionava a nossa amizade, mas eu já o conhecia o suficiente para saber que ele estava falando menos do que realmente queria, ultimamente ele parecia estar profundamente incomodado em relação a minha proximidade com a Analu, mas eu tinha receio de lhe perguntar diretamente o porquê.
Quando paro para pensar eu nunca conversará com ele abertamente sobre as coisas que passava ou que sentia, não por não confiar nele, mas pelo fato de que por muito tempo meu irmão representará o meu único confidente. Talvez por isso não consegui falar para ele sobre meus sentimentos por Rosalya ou da confissão de nossa colega, e o fato da Analu ter se aproximado sem aviso prévio e rompido essa barreira dele ter o incomodado mais do que estava disposto a admitir, ao menos é o que eu pensava. A pior parte é que ele estava certo, a repentina distância causará em mim um certo desconforto, assim como a aproximação repentina também causará. A essa altura todas as coisas pareciam dar voltas no mesmo lugar.
“_ Vamos apenas seguir, sim?” — Essas palavras ainda estavam cravadas em mim, e eu sabia bem o porquê, todo esse tempo eu estive fugindo por ser o mais sensato a se fazer, mas essas coisas, esses sentimentos nunca se resolvem com sensatez. E a essa altura eu havia remediado tanto as minhas decisões que só me restava uma coisa a fazer. Me forcei a atravessar o corredor e buscar por ela, precisava dizer o que estava preso em mim antes que esse surto de coragem se esvai-se. Procurei entre as áreas abertas do colégio e em nossas salas de aula em comum, mas quanto mais eu procurava mais distante tudo aquilo parecia.
— Lysandre, está tudo bem com você? — Sua voz finalmente me alcançou na escadaria.
— Sim, está tudo bem, na verdade estava a sua procura, queria saber se podemos conversar?
— Mais que pergunta Lysandre, é claro que sim.
— Então poderíamos ir a um lugar mais reservado? O que tenho a falar é um tanto particular Rosalya.
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