Nem Tão Óbvio Assim
11 Sério? Serio. Mesmo.
Notas iniciais
Narração.
Se sentir uma dúvida tão absoluta e profunda a ponto de nada mais fazer sentido, leia de novo ♥
Batidas firmes na porta ecoaram ao longo do quarto escuro.
Jogado na cama, não se mexeu.
Alguma voz o chamou distante.
Novas batidas, ritmadas e certeiras.
Apenas deu mais uma mordida em seu chocolate.
Seu nome era berrado ao vento, junto de socos decididos.
Ele apenas olhou para o lado, para a cama vazia e ainda bagunçada.
A maçaneta foi praticamente esganada enquanto Matt a girava de um lado pro outro.
– Mello, tira essa cadeira da frente da porta que eu quero entrar, porra!
Comeu mais um quadrinho, olhando a fresta ridícula que Matt conseguira abrir, a cadeira, cômoda e livros fazendo pouco-caso de seus hercúleos esforços.
– ABRE ISSO, PORRA! ESSE QUARTO É MEU TAMBÉM!
– Lembrou-se disso agora...
Ouviu um bufo vindo do corredor.
Estava sendo ridículo. Desconfiava.
Mas estava em pleno direito de o ser.
– Para com essa marra de mulherzinha traída e me deixa entrar!
– Mulherzinha traída é o teu rabo.- ponto.
Um soco único e reverberante.
Uma criança normal já estaria ameaçando chamar um monitor ou, ainda, o próprio diretor.
Mas, primeiro: eles já não eram mais crianças há um tempo.
E , segundo, nunca foram lá muito normais.
– Mello, me deixa entrar que a gente conversa...
O loiro sentiu uma vontade muito sincera de soltar uma risada demoníaca e debochada, mas já estava cansado daquele ataque besta que estava pregando em si mesmo. Tirou as coisas da porta, encarando o amigo de cima a baixo, antes de deixá-lo entrar.
Jogou-se sentado em sua cama.
Matt sentou-se ao seu lado.
– Que merda toda é essa?
– Eu estou apaixonado.
... Uma vontadezinha bem sincera de perguntar novamente ‘’que merda é essa’’. Mas conteve-se.
Desconfiava, já.
– Pelo Near?
– Depende.
– Que porcaria de resposta é essa?
– Fecha os olhos.
– Não mesmo.
– Porra, eu tava tentando criar um clima!
– Parabéns, você falhou miseravelmente.
– Vai sem clima mesmo então.
Mello já experimentara a força daquelas mãos se fechando em seus pulsos antes.
Puxou o corpo de Matt pra si, enfiando o pé reto em seu abdômen.
– Vai tentar o que? Me estuprar seu filho da puta?!
– Só é estupro se não for consentido — comentou sorrindo, puxando o loiro metido a bravo consigo, fazendo os dois cair no chão.
– ME LARGA VIADO!
Os dois rolavam.
Não entenderam direito como a coisa aconteceu entre pernas e braços e mãos e caras feias.
Mello só sentiu suas costas batendo na parede com brusquidão, antes de sua boca ser tomada afoitamente por Matt.
Reconhecia o gosto, já.
De cigarro misturado porcamente com menta.
Deu um bom empurrão no peito tão próximo, ofegante, forçando distância.
– Vai mesmo ficar me agarrando de novo depois de simplesmente fugir?
A frase poderia até mesmo ser, veja, de uma mocinha num filme barato e digno do clichê americano. Ou de uma novela da TV aberta.
Mas não com aqueles olhos afilados e a mais pura expressão de asco na cara, as palavras saindo moles de desdém e descrédito.
– Bom, você que começou, quebrando meu Game Boy.
Sério isso? Sério mesmo?
– Você é o que? Burro? Tapado? Você mereceu aquilo Matt e sabe muito bem disso.
– Mereci? Mereci por que, ô animal? Por te falar a verdade? Por apontar todas as merdas que você faz? Se me falar que foi por trazer a porcaria de um chocolate original, juro que enfio todo o estoque de chocolate ao leite daqui a você pelo outro lado! Você é um puta dum apelão, isso sim!
– Eu sou o apelão? Quem foi que tentou me acertar com uma voadora?
– E você jogou um dicionário de alemão no meu game boy!
Ok, isso não está dando em nada. Pior, esta acabando com tudo o que tinha montado antes.
– E você fugiu pro quarto do Near!
Incrível como toda a conversa parecia ser montada apenas para cair justamente naquele ponto.
Naquele nome. Precisamente.
– Qual o problema com o quarto do Near? Aliás, qual o seu problema com o Near? Porque, sabe, tem trocentas crianças nesse lugar. Por que você elegeu alguém que nunca nem te fez nada, que nem liga pra você?
– Nunca me fez nada? Eu deveria ser o número um Matt. Você sabe disso!
– Deveria o caramba. Você é muito mais burro do que ele, aliás, você é a pessoa mais burra que eu já conheci Mihael!
– Como é que é?
– É isso mesmo que você ouviu: você é um completo idiota.
– Não sabe faze mais nada além de me xingar?
– É, não sei. Sua burrice deve ter me contaminado. E- acrescentou, só para calar o chato que já ostentava os lábios a meio caminho de se abrirem de novo- vou tomar banho.
Banho?
– Banho?
– É, banho. Algum problema?
Não. Imagina.
– NÓS ESTAMOS NO MEIO DE UMA DISCUSSÃO DEPOIS DE VOCÊ ME AGARRAR A FORÇA E VOCÊ VAI TOMAR BANHO?
– Basicamente — respondeu, já passando pelo quarto com uma muda de roupas em mãos.
Mello agarrou seu braço.
– Você não vai ficar fugindo.
– Vai se foder Mello. Pare você de fugir do que está debaixo do seu nariz antes de vir torrar meu saco.
Soltou-se com firmeza.
Por pouco conseguiu trancar a porta do banheiro, com um Mello enfurecido atrás de si.
– Sai daí agora senão eu juro que enfio todos os seus cartuchos no seu rabo, Matt!
– Entra aqui pra enfiar então.
Abriu o chuveiro com vontade, refazendo alguns cálculos.
Precisava ganhar tempo. E manter o Mello quietinho ali.
Quietinho, modo de dizer, óbviamente.
A porta, surrada e quase posta a base pela brutalidade das ameaças, que mais tinham cara de promessa, que o dissesse.
Ah, Near, pelo amor do Mario, chegue logo...
– Vai encher outro, loira chata!
Não veio resposta.
Certo.
Aquilo era um problema?
– Mello?
Colou o ouvido na porta, antes de ouvir o som de caixas sendo arrastadas.
OH MERDA...
– Mello, sai de debaixo da minha cama! Mello!
Tarde demais.
Sabe aquelas gazuas e coisinhas legais feitas para arrombar portas?
Tipo, qualquer porta.
Como o quarto de alguma garota bonitinha.
O armário de chocolates da cozinha.
A gaveta com cigarros da sala dos professores...
Portas de banheiro de mansões velhas?
Pois é.
Mello entrou de um jeito que parecia que realmente conseguira abrir a porta na base do espancamento, mirando reto no pescoço de Matt.
Aquilo ia ficar roxo...
– Não... Respiro!
– Ótimo, assim não fala merda.
Aquele loiro era um psicopata em potencial, mais um pouco e ia acabar numa máfia da vida!
– Escuta aqui, Matt. Você sempre foi meu amigo. Meu melhor amigo, mas a gente tem que esclarecer as coisas.
Livrou-se das garras geladas que fechavam sua traquéia, apenas para sentir a blusa ser agarrada e as costas jogadas na parede.
– E o que você quer saber, Mello?
– Não me respondeu. O que está acontecendo?
Droga. Dessa vez estava sério. Ele não se deixara levar por meia dúzia de palavras infantis.
Peeensa.
– Sobre o que? Sobre você estar dando showzinho de puta traída, sobre eu ter resolvido sair daqui quando você abusou da grosseria? Sobre eu estar dormindo com o Near? Conte-me sua dúvida, Mello.
Cada sugestão saia ácida e irritante.
Arrastada.
– Tudo. As coisas não eram assim.
– Não mesmo, porque você sempre foi incompetente demais pra mudar. E não adianta fazer essa cara não. Não é porque você nunca criou vergonha na cara pra ir atrás do Near que ninguém mais pode.
Ali.
Aquele era o ponto.
– Matt, sempre soube que você era meio puto, mas isso é um pouco nojento demais.
– Eu estar pegando o cara que você queria soa nojento agora?
Sentiu o peito um pouco mais apertado.
Literalmente.
– Eu não quero nada com aquele pirralho.
Alguém bateu na porta.
Ambos viraram o rosto para o som num instinto meio besta.
– Matt? Matt, você está aí?
Os olhos de Mello se estreitaram em puro ódio.
Near.
– Ele veio te buscar.
– Veio. Vou ficar no quarto dele por uns tempos.
– Assim vocês se comem mais fácil.
– Assim fico mais tempo longe de você — soltou-se bruto — até você aprender a pensar.
– E aquela história de “vamos conversar”?
– Eu já disse o que você precisava ouvir Mello, estou esperando suas respostas.
Saiu, massageando o pescoço, indo juntar algumas coisas mais importantes que não arriscaria largar a mercê daquele Nintendo Killer.
Deixou que ele fosse, encostado na porta do banheiro, com o chuveiro ainda ligado. Pensando.
Sentou-se na cama, enfiando os dedos pelos cabelos.
Sentiu-se infantil.
Imaturo. Despreparado.
Mas, por alguns instantes, Mello sinceramente se sentiu sozinho.
Completamente sozinho.
– Estou esperando. Mello. Matt.
Os dois nem se olhavam, enquanto que Roger faltava arrancar o globo ocular para esfregá-lo melhor em cada um, de cima a baixo.
O silêncio era pesado. Gordo, mesmo. Alimentado por cada sentimento que lhes corroia.
Tanta... Tanta coisa havia acontecido... Tanta coisa havia... Mudado.
Mello apertou os punhos, pensando em algo razoável a ser dito. Mas... Nada.
Ainda. Ainda aquele sentimento banal de solidão.
Notas finais
- Minha colega de curso.
É.
Peço desculpas pelo atraso.
Desculpem se ficar muito exagerado ou mesmo forçado. Dessa vez fizemos a correção diferente... Normalmente sentamos no MSN e ficamos até a porra ficar decente.
Não deu tempo.
Desculpas mais profundas à Clara.
E agradecimentos realmente sinceros à Senhorita Konan que, mesmo ocupada, ainda assim fez a betagem linda e debochada de sempre, toda colorida~
Ficam os avisos de sempre,
Kalhens.
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