Notas iniciais
Mudanças de verdade agora.
Ou quase.
Bem, bem.
Narrativa.
E, na dúvida, leia de novo ♥

A hora do café mal começara e já estavam os dois descendo pelas escadas.

Matt bocejava a cada passo, palavras saindo mal-articuladas pela boca aberta.

Não que isso fizesse diferença, pois a pessoa com que tencionava conversar não prestaria atenção a si nem que ele se dispusesse a fazer um strip tease em cima de uma das mesas do refeitório.

Mello estava morrendo de sono. Se revirara na cama durante toda a noite e madrugada, morrendo de frio.

E o outro bem sabia disso.

– Mello, Mello, cuidado para não cai apagado no meio do corredor- conseguiu formular entre um bocejo mais longo e um preguiçoso espreguiçar.

Houve um resmungo qualquer, que Matt só podia supor ser algum xingamento que atingia até sua décima e desconhecida geração.

Não deixava de ser divertido.

- Vaaamoss, Mello, quer que eu te carregue no colo?

Chegou mesmo a pegar no braço do amigo, um sorriso estampado no rosto amassado.

Esperava, sim, alguma reação mais bruta. Que fosse um tapa, que fosse um berro. Que fosse até um revide antes de sair batendo os pés.

Mas quando Mello parou, e apenas lhe lançou um olhar vazio, Matt tirou a mão que o tocava sem sequer precisar de ameaça melhor.

- Não me toque.

Não conseguiu deixar de sentir uma certa surpresa ao ver as costas levemente curvadas por puro cansaço se afastando.

Franziu as sombrancelhas.

- Mello, você quer me dizer alguma coisa?

Sim. Muitas coisas.

Nem um pouco bonitas, diga-se de passagem.

Mas todas, se resumiam a uma mesma frase.

Por quê?

Por quê?

- Eu já disse.

...

É. De certo modo, Matt se deixou convencer de que, realmente, daria certo.

Acenou a cabeça. Concordando consigo mesmo.

Mas não.

Ainda não.

Os dois se sentaram juntos. Comeram em silêncio. Tentaram fingir que acreditavam que estava tudo bem. Mas logo cansaram.

Matt apoiou a cabeça em mãos, cutucando seus ovos mexidos com o garfo. Um longo suspiro escapou dos lábios antes de largar o talher de qualquer jeito na mesa com um tilintar metálico.

- Vou indo pra aula.

Anunciou por anunciar mesmo. Mello sequer dignou-se a esboçar reação. Apenas fincou a faca-, é a faca- com mais força num pedaço de panqueca com chocolate, antes de enfiá-lo vorazmente na boca.

Ainda se deu ao direito de olhar para trás antes de sair do refeitório.

Balançou a cabeça pensativo, tirando o portátil do bolso.

Bom. Se ia cometer uma besteira, antes tinha que ter a certeza de haver bons motivos.

.

.

O sol se punha, jogando um calor alaranjado pelos corredores da mansão, lentamente tomados pelas crianças que saiam das aulas da tarde. O volume das vozes só fazia crescer enquanto amigo se encontravam e marcavam, aos berros e sussurros, os programas com os quais ocupariam seus restos de dia.

Matt mantinha-se em silêncio, as mãos enfiadas nos bolsos, olhando um pontinho branco ao longe, parado em meio a todo aquele movimento.

Bom. Já tivera uma confirmação. Um tanto quanto desajeitada, por assim dizer.

Passou um dedo pelos lábios, pensativo.

Só esperava que desse certo.

Sinceramente, não foi sem receios que adentrou no quarto. Não falava com Mello desde o café da manhã. Não por falta de tentativas. Talvez, de oportunidades, posto que o insone ainda se dera ao direito de sumir de vista antes do almoço.

Mas ali estava ele. Completamente apagado. Enrolado até a cabeça num cobertor.

Aiai.

Certo, certo. Hora de colocar a segunda parte do plano em ação.

- Meeelloooo- agachado na beira da cama chamava, melodiosamente.- Meeeeeeeelloooooooo, ô Belo Adormeciiiidoooo.

O máximo que recebeu de resposta foi o loiro fingido virando a cara pro outro lado.

Realmente. Nem com muita boa vontade e uma boa dose de miopia, Matt acreditaria que ele estava mesmo dormindo.

- Eu trouxe chocolate pra você, Mello. Sei que você nem almoçou nem nada... Vamos, eu trouxe trêeees baaaaarraaaas.- completou, balançando seu material de chantagem no ar.

Mello era orgulhoso, teimoso, decidido.

Mas um puta de um chocólatra.

- Será que você pode deixar o chocolate e ir embora?

-Poder eu até que posso. Mas não estou a fim de ser trocado por chocolates, de novo.

Longas histórias, essas.

Mello sentou-se na cama, jogando as cobertas pro chão, a mão já surgindo tão estendida que Matt entregou os chocolates quase que num modo automático.

Permitiu-se ir para o lado daquele viciado que já rasgava um papel, experimentando a proximidade.

– Mas não é o clássico, é ao leite!- veio a reclamação, logo na primeira mordida.

Matt revirou os olhos.

Além de chocólatra, exigente. Vê se pode uma coisa dessas.

–Ah, Mello, faz favor! Eu ainda lhe trouxe o chocolate e você reclama!? É tudo chocolate igual, cala a boca e come, vai.

– Não, Matt é diferente. Ainda que o prazer no final seja o mesmo, o processo é diferente e isso conta. O sabor não é o certo! Isso não vai me saciar.

Previsível. Contava com isso, na verdade.

Apesar de não esperar um discurso tão pomposo prum bando de quadradinhos marrons e cheios de açúcar.

– Você vai comer isso assim que eu der as costas, nem sei porque eu estou preocupado.- desabafou, realmente virando a cara.

– Mas você sabe que eu gosto mais do clássico! Se pegou pensando em mim, poderia ao menos ter pego direito.- ele apontava o chocolate mordido como se este fosse uma carta de acusação, não uma tentativa de paz.

Se bem que não era nenhum dos dois mesmo.

– Ah, quer saber, você que levante essa sua bunda gorda e vá pegar seu próprio chocolate. Na verdade, a culpa é toda sua.

Levantou-se da cama, irritado.

– Culpa de que?

– De nunca sentir todo o prazer que você tanto quer- respondeu olhando-o por cima do ombro, pondo um ‘’quê’’ de provocação.

Mello arqueou uma sombrancelha, ficando com uma cara meio maníaca. Apenas mais uma das expressões de um extenso repertório que seu companheiro de quarto já bem conhecia.

– Matt, onde você quer chegar?

Perfeito.

– Sabe. Se você tivesse ido pro almoço, poderia escolher seu chocolate. Mas não. Ficou de frescura ontem e nem conseguiu dormir direito. E ainda perdeu as aulas da tarde- jogou um pouco mais de provocação no rosto- sabe que mês que vem teremos provas, não sabe? Tudo o que você perde, ou deixa de ganhar, é só por sua culpa.

– Matt, fala de um jeito que eu entenda, saco!

E ele resolveu se comunicar do único jeito que Mello realmente entendia. Com um empurrão, o fez cair na sua cama. O chocolate, infeliz, voou longe.

Imediatamente o loiro ergueu o tronco, mas antes que conseguisse revidar, teve seus pulsos agarrados e prensados. Os pés tocavam o chão, e ao redor de suas pernas estavam as dele, ele que praticamente se deitava sobre seu corpo.

Nunca lutara pra valer com Matt.

Eram amigos.

Mas... Ele era forte.

– Vê se entende isso, otário.- disse baixinho, antes que a distância entre os rostos já não existisse.

Foi rápido.

Mas Mello não pensou em nada.

Não tinha nem em quê pensar.

Só... Sentir.

Um gosto estranho...

– É bom?- Matt perguntou, quando acabou, sentando-se novamente ao lado de Mello.

Deixara-o atordoado o suficiente para poder arriscar tão curto espaço entre os corpos, sem temer por sua vida.

– Você andou fumando de novo?- perguntou, se sentando imediatamente, aproveitando os cabelos channel para esconder-lhe o rosto, perturbado.

– Talvez eu tenha- foi só o que disse, despreocupado- Mas você não me respondeu. Vou ter que tentar de novo?

Antes que Mello se desse conta, uma mão atrevida estava sobre sua perna, e ele tinha a certeza de que se procurasse pelos olhos verdes, aquilo aconteceria de novo. Levantou-se bruscamente.

– Matt, isso é estranho...

– Foda-se, não é essa a pergunta. Eu quero saber se você gostou.- como o outro continuou quieto, acrescentou- eu gostei.

Mello estava juntando as palavras em sua garganta, mas elas se recusavam a formar uma resposta que fosse.

Tentou até ficar bravo, irritado, apenas para sair daquela incômoda situação.

Só que...Algo ainda precisava ser dito al.

Chegou a gritar, sim. Mas por reflexo, quando um forte cheio de menta se aproximou de seu pescoço, provocativo.

Por pudor?

– Bom, vou te deixar ai com seus chocolates-ao-leite. Tenho umas coisas pra resolver.

E saiu, sem dar ao amigo sequer tempo para processar tudo o que se passara.

Levou alguns segundos. Ele abriu a porta com violência, pronto para correr atrás de Matt.

Não sabia bem o porquê, só que precisava tirar aquilo à limpo.

Não sabia bem como, mas daria um jeito.

Mas, quando se precipitou para o corredor, Matt já não estava mais lá.

Droga! O maior exercício que ele fazia era trocar o cartucho do seu Game Boy, como podia ser tão rápido?

Se trancou no quarto, resignado.

Olhou para o chocolate, que não era bem o que ele queria.

Com um suspiro, rasgou o papel.

Não negaria. Era bom. Tinha sido bom.

Mas...

Suspirou, dando outra mordida no chocolate.

Quando Matt voltou para o quarto escoltado por um monitor raivoso que vomitava um discurso sobre a hora de recolher, Mello já se enrolara de novo as cobertas.

Deitou-se na cama, uma expressão séria refletindo a conclusão da qual já desconfiava, mas agora sentia-se compelido a confirmar.

- Boa noite, Mello.

Mas o corpo que fingia estar adormecido, lhe negou resposta.

Notas finais
Sei que o título fugiu do padrão dos demais. Mas é que eu REALMENTE gostei desse ''título'' que, por sinal, usei noutra fic MelloxNear.
Na verdade, tem um bocado de ideias repetidas ai...
Enfim, enfim.
Anjo, roubei uma ideia sua xD
Depois devolvo~
Grata a todos que leram.
E mais grata ainda //apanha, aos que deixaram reviews~
Aaté,
Kalhens.