Nem Mesmo a Lua
1 Despertar no Escuro
Notas iniciais
A rua continuava vazia e o céu continuava escuro. Um homem abraçado a um violão dormia a vinte metros de distância dele. Olhou para as próprias mãos: vazias e arranhadas pelas paredes ásperas nas quais se apoiou antes de desistir de voltar para casa. Aquele parecia um bom lugar para desistir das coisas, talvez o homem com o violão achasse o mesmo.
Não havia nenhuma estrela no céu e um vento sonoro soprava, zumbindo aos seus ouvidos e quase explodindo sua cabeça, mas refrescando sua face. Garota nenhuma passaria ali, muito menos sua garota. E, se passasse, não o veria. As pessoas veem realmente os caídos nos menores cantos da cidade? Os que cantam, silenciosamente, uma canção de morte em vida?
Não, sua garota não o veria. Ela passaria com os cabelos bonitos a ocultando dos olhares das paredes e do chão. Ela também não se culparia, no entanto, se o visse.
Mas sua garota não era mais sua garota. E seus amigos também não existiam mais. Talvez alguns imaginários, que apareciam quando ele ultrapassava cinco copos de algo que pedia no bar da vez.
Levantou-se, e, cambaleando, começou a caminhar contra o vento. Fechou o casaco comprido e apertou os braços contra o corpo frio.
O homem com o violão agora estava mais próximo. Ele tinha um casaco parecido com o seu e a cabeça pendia, torta.
Não estava morto, mas cansado. Sentou-se ao lado do senhor músico e abraçou os joelhos. Voltar para casa não adiantaria muita coisa, porque lá não havia proteção alguma contra nada. Não havia calor.
Quem sabe, pela manhã, o velho musicista lhe tocaria uma canção?
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