Nem Mais Uma Palavra

8 Vencendo Obstáculos


Notas iniciais
Autora: Hellen Karim de Souza Viana Sinopse: Durante a Ditadura Militar, em meio a um protesto, um homem conhece o amor de sua vida. Mas o que parecia a história perfeita para os dois, será interrompida pela angústia da prisão. Aviso: Insinuação de tortura.

Capítulo 1:

Não era necessário pensar nos movimentos que o corpo precisaria executar para que eu me movimentasse, considerando que sou empurrado pela multidão.

Todos ali movidos pelos sentimentos: tristeza, revolta e indignação. Um de nós estava sendo carregado, sua voz não seria ouvida, mas sua luta não cessaria com seu corpo.

Nós continuaríamos a bradar contra o golpe, contra os ditadores, contra a repressão.

Seríamos livres, teríamos voz e honraríamos os colegas que não pudessem caminhar conosco, seja devido ao cárcere, ao exílio ou a morte. Nada nos abalaria, calaria ou faria com que mudássemos de ideia sobre aquilo que buscávamos.

Capítulo 2:

1972, ditadura militar está no auge e já perdi a conta de quantas pessoas queridas eu perdi para a repressão. Enquanto divago sobre a morte, seja de amigos ou da liberdade de expressão, meus olhos esbarram em algo que parecia deslocado do cenário de protestos no qual eu estava.

Em pé de fronte à multidão, estava aquela que mudaria tudo.

Não era necessário palavras para entender que nossos pensamentos estavam unidos em um único momento. Com seus cabelos negros largados ao ombro, bradava furiosamente aquela por quem eu me apaixonaria e lutaria todos os dias da minha vida sem cessar.

Capítulo 3:

1974. Como é possível ela estar em meus braços? Era a pergunta que me fazia todas as vezes que dormimos juntos. Estar com ela me fazia sentir algo que eu nunca havia sentido antes. Tê-la em meus braços me fazia viajar para outro mundo, um mundo de paz, de amor e igualdade onde seríamos felizes e criaríamos nossos filhos.

Foi com esse pensamento que saí quando decidi comprar algo para o desjejum. Segui caminhando, quando percebi tarde demais que estava cercado por homens que vinham em minha direção. Observei-os e os encarei enquanto se aproximavam. Então não vi mais nada.

Capítulo 4:

Eu gritava, esbravejava com toda minha força, mas só dentro da minha cabeça. Não daria a eles o gosto de ouvirem o desespero em minha voz. Naquele camburão frio, cheirando a ferrugem e com os militares zombando de nós, eu só pensava em como voltaria pra ela. Não importava quantos choques eu levasse, quantas surras meu corpo teria que aguentar, se me estuprassem ou me colocassem amarrado, de qualquer modo eu voltaria pra ela... E não seria morto!

Passaram-se dias, meses... Eu não sabia ao certo. Estava lutando para manter a lucidez, mas já mal sabia o que era real.

Capítulo 5:

Acordei e me deparei com um movimento estranho: fomos libertados e jogados para fora da cela. E no meio da multidão, eu a vi novamente. Como na primeira vez, lá estava ela com sua beleza e aos prantos... Mesmo com tanto tempo, ela me esperou, me procurou e me libertou. Seríamos livres agora, poderíamos ser quem realmente éramos, desfrutar do nosso amor.

1982. As estrelas no céu de Nova York refletiam no sorriso dela e senti que não poderia estar melhor. Perdi muitas coisas pela ditadura, mas ganhei um amor para uma vida inteira. Assim, fechei meus olhos e agradeci.