Nem Mais Uma Palavra
10 Homem Branco
Notas iniciais
CAPÍTULO 1.
Por que minha vida é tão insignificante perante os seus olhos? É pelo fato de eu não ter pele branca ou olhos azuis?
Porque deitado neste chão frio, na escuridão de seu porão grotesco de sujo onde você diz que é meu lugar, reflito sobre o que há de errado com minha pele escura e meus cabelos ondulados. Penso nas diversas chicotadas que recebo dia, tarde e noite, meu sofrimento infligido apenas pelo seu prazer sádico em ouvir meus gritos esganiçados, quebrados pela tamanha dor sentida a cada estalar de ossos. Nunca em vida ou morte esquecerei seu olhar prazeroso.
CAPÍTULO 2.
Você me disse que os puros irão triunfar, que os brancos vão tomar seu lugar de direito como governantes e que iriam me livrar dessa cor maldita que carrego graças aos porcos dos meus descendentes.
Sinto-me tão exausto, exausto de tudo. Todas as lágrimas misturadas ao sangue me varrem a face e a escuridão inquietante me leva para um lugar onde nada disso acontece, um lugar onde estou com minha família, feliz sem ter sido arrastado para este lugar asqueroso fedendo a sangue velho. Mas, então, você desce com seu esplendor branco, portando um chicote com diversas pontas cortantes, sorrindo.
CAPÍTULO 3
Sinto que nasci no corpo errado, sob a pele errada. Sinto que alguns membros estão se desligando de meu controle, não quero morrer como um animal abatido na mais porca jaula. Deus me ajude!
Pela fraca luz da lua que invade a pequena janela, vejo-me destruído, tanto por dentro quanto por fora. A nudez de meu corpo faz com o que o frio entre por cada poro sem impedimentos. Meus pulsos encontram-se roxos pelas algemas, assim como o restante de meu corpo que estava adormecido pelas pancadas constantes e pelo ar congelante que cobre meu corpo. Deus tenha piedade mim!
CAPÍTULO 4.
Ouço as vozes dos policias locais acima de mim. Quero gritar, mas não tenho forças suficientes. Junto tudo o que posso e grito até meus pulmões arderem feito brasas, mas eles riem de minha ação. Estão negociando mais um jovem, assim como me venderam a você. E você compra, pois assim como eu, também sabe que estou morrendo.
Sei disso, pois a cada dia que passa vejo seu sorriso perverso aumentar a cada reação de meu corpo contra seu chicote pontiagudo e como dizia que eu estava sendo curado da maldição de ter a pele negra, eu não queria isso.
CAPÍTULO 5.
Sinto meu corpo tão fraco que mal posso abrir os olhos. Odeio a ideia de morrer tendo como última lembrança as cenas onde você me bate e eu desmaio de dor.
Pergunto-me sobre minha mãe, o que deve estar fazendo na minha ausência? Está me procurando? Era essa a realidade das diversas pessoas que passavam na TV, vítimas de sequestro?
Sinto tantas saudades de minha família que meu coração se enche de angústia por saber que nunca mais irei vê-los. Minhas últimas lágrimas banham minha face neste momento de dor, não aguento mais. Que Deus perdoe tudo o que fiz.
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