Neighbors
6 Capítulo 6
Não dormi absolutamente nada aquela noite. Meu cérebro trabalhava a mil por hora forçando-me a imaginar coisas. Isso não pode estar acontecendo comigo. Não. Não. Não. A lembrança de seus olhos azuis me fazia sorrir no escuro encarando o teto. Puta que pariu estou fodida.
Não eram 4hrs da manhã e eu já estava de pé, andando para um lado e para o outro, vendo a hora que acabaria por fazer um buraco no chão. Fui até a sala onde Sophie dormia enroscada em sua manta. Acabei por acordá-la com minha silenciosa aproximação.
–Te acordei neném? – ela ronronava. Sorri e a peguei no colo, em seguida, me joguei no sofá. Comecei a pensar em minha situação fodida. Eu não sabia por que estava me sentindo daquele jeito. E pior: eu tinha o dia inteiro junto com ele pela frente. Isso não era ruim, de jeito nenhum, eu querer isso é ruim. E eu queria muito, muito, muito mesmo. Não era para eu gostar dele desse jeito, e, no entanto estou aqui, acordada no meio da noite querendo mais que tudo aqueles lindos olhos azuis a minha porta.
Parabéns Elena! Meu inconsciente gritou para mim. Revirei os olhos. Realmente, aquilo era tudo que eu queria, pensei com ironia debochando de mim mesma, me apaixonar, o que numa tradução grosseira significava “tomar no seu cu” – talvez literalmente – a voz em meu inconsciente ria. Sacudi a cabeça tentando afastar o pensamento.
Eu precisava dormir, não podia ficar como um zumbi pelo resto do dia, e, no entanto, não conseguia ficar na cama, só se fosse amarrada lá. Decidi fazer algo que eu nunca havia feito; fui até o banheiro e procurei a maletinha de primeiros socorros onde eu guardava todos os tipos de remédios. Tomei um dos meus comprimidos do antialérgico que costumava me deixar apagada por horas. Arrastei-me de volta para o quarto com Sophie ainda no colo, carregando sua manta, decidida arrumar um lugar para ela ficar perto de mim. Estiquei a pequena manta no tapete ao lado de minha cama, a felina rapidamente deitou e voltou ao seu sono tranqüilo. Sorri para a cena e cai na cama – literalmente – me acomodando rapidamente, esperando que o efeito do antialérgico me atingir.
Liguei para Damon assim que saí do banho, dizendo que tinha acabado de acordar — uma mentira necessária. Ele já estava pronto e estaria na minha porta na dentro de meia hora. Corri de um lado para o outro em meu quarto procurando o que vestir. Apelei pelas roupas que havia comprado no dia anterior e mesmo assim não consegui me sentir bem em nenhuma delas. Revirei todas as gavetas e acabei vestindo uma saia branca de cintura alta, em corte V na minha perna esquerda, estampada com grandes flores lilases e para combinar, uma de minhas blusas preferidas, uma rosa com mangas pequenas e com babadinhos. Calcei minhas sandálias altas e peguei minha bolsa preferida que combinava perfeitamente com a mesma. Dei uma rápida olhada no espelho e percebi que estava arrumada demais. Não só isso havia uma coisa estranha comigo. Minhas bochechas estavam coradas demais, meus lábios extremamente rosados entrando em contraste com a minha pela oliva, meus olhos tinham um brilho que eu desconhecia. Aquela pessoa no espelho não poderia ser eu, eu mesma não era capaz de me reconhecer. Joguei meus cabelos para trás e coloquei os óculos de sol, prendendo-os. Fechei os olhos e suspirei tentando diminuir o ritmo de minhas batidas cardíacas. A campainha tocou no mesmo segundo que abri meus olhos.
Caminhei até a porta um tanto insegura e um tanto ansiosa para ver seu rosto. Abri a porta se hesitar.
–Oi – murmurei.
–Oi – ele sorriu. Damon usava uma camiseta meia-manga branca, colada ao corpo, destacando cada músculo de seu peito. Sua calça era quase skinny, e ele usava uma bota confortável, me deixando completamente em desvantagem no quesito conforto. Ele tinha sua câmera pendurada no pescoço. Ah, e é claro, ele estava muito sexy. Demorei a perceber que ele me avaliava. Olhei para baixo sem graça.
–Vamos? – perguntei.
–Claro.
–Onde vamos comprar as coisas para o piquenique?
–Você realmente quer um piquenique?
–Tanto faz – dei de ombros.
–Pensei que seja melhor a gente só andar e aproveitar o tempo bom.
–Seria melhor se tivesse me avisado, eu teria tomado café. – fechei a cara.
–E perder a oportunidade de te levar para tomar café? Acho que não – ele brincou.
–Tudo bem então – sorri.
–E Sophie?
–Ainda está dormindo?
–Tem comida para ela?
–Sim, tudo que ela precisa – murmurei.
–Acho melhor deixarmos ela em casa.
–Por quê?
–Lá pode ter cachorros.
–Verdade – pensei por um minuto.
–E pelo que eu me lembre, não é permitido a entrada de animais em nenhuma cafeteria.
–Ela vai ficar bem – disse por fim. Damon assentiu e eu tranquei meu apartamento.
Tomamos café no Starbucks, e me senti em uma sessão fotográfica. Damon tirou foto de todos os movimentos que eu fiz e muita das vezes as tais fotos lhe causavam muita risada. Eu simplesmente o ignorei. Meu inconsciente estava me deixando maluca, o tempo todo me impulsionando para tomar atitudes que me assustavam – que é óbvio, não fiz.
Chegamos ao parque exatamente meio dia, estava bem vazio, e era lindo. Não, lindo não descrevia tanto. Havia árvores formando desenhos abstratos, a luz solar tomava o tom de verde esmeralda em todo o local. Bancos de madeira ocupavam todos os locais as raízes das árvores permitiam, o calçamento era de antigas pedras que faziam desenhos pelos quais não faziam sentido para mim. O cheiro de gases poluentes do transito era trocado pelo incrível ar natural, pelo qual fazia minhas narinas arderem um pouco. Inspirei uma grande quantidade de ar e fechei os olhos ouvindo o canto dos pássaros abafados pelo barulho da cidade envolta.
–Faça uma pose! – ordenou Damon se pondo de frente para mim. Revirei os olhos e coloquei um de meus melhores sorrisos no rosto com uma de minhas mãos no cabelo. Ele rapidamente se ajoelhou e bateu a foto, sua expressão me dizia que ele estava satisfeito com o resultado.
–Vai passar o dia tirando fotos minhas?
–Você não gosta? – ele riu.
–Não – disse já cansada de fazer poses de cinco em cinco minutos.
–Ah ótimo, então vou continuar – disse abrindo um largo sorriso.
–Me dê sua câmera aqui, anda – disse com raiva.
–Hã-hã, você vai apagar suas fotos.
–Não, vou tirar fotos suas – fiz um biquinho.
–Que coisa mais fofa – ele disse apertando minha bochecha com força. Dei-lhe uma tapa na mão. – Vem cá, tire uma foto comigo. – Não pensei duas vezes e me coloquei ao seu lado, Damon passou um de seus braços a minha volta e colou seu rosto no meu. Dei um sorriso tímido e esperei até o que flash me cegasse.
–Deixa eu ver!
–Não – ele levantou a câmera até que a mesma ficasse fora de meu alcance.
–Por quê?
–Porque não.
–Larga de ser chato – resmunguei.
–Deixa de ser chata você, depois eu te mostro todas elas.
–Assim sim – abri um sorriso amarelo. Damon revirou os olhos e passou seu braço esquerdo envolvendo meu pescoço e me deixando colada ao seu corpo. Senti meu corpo inteiro se arrepiar correspondendo ao seu toque, meu coração reagiu da mesma forma, quase saltando de meu peito. Inspirei seu perfume e fechei os olhos apreciando a sensação. Andamos por todo o parque daquele jeito. Damon tirou poucas fotos depois daquilo, mas não minhas, de nós. Meu inconsciente berrava coisas para mim me deixando atordoada, do tipo “talvez ele se sinta da mesma forma”. Eu sabia que não, eu só estava me precipitando, como sempre fazia, só não me impediria de desfrutar dessa sensação.
Decidimos sentar na grama, em um dos poucos lugares livre de sujeira e apreciar a paisagem. A brisa soprava serena mexendo levemente com meus cabelos. Damon estava deitado ao meu lado, encarado a copa das árvores, totalmente absorto em pensamentos – pelo menos era o que me parecia. Coloquei-me de pé me lembrando que estava de saia, caminhei até um dos bancos mais próximos e observei o lugar a minha volta, mas só uma coisa/pessoa prendia minha atenção. O homem deitado debaixo de uma árvore a minha esquerda tinha os olhos fechados com uma expressão ilegível, tão tranqüilo e sereno, poderia estar sonhando feito uma criança. Seus cabelos negros eram levemente bagunçados pela brisa, espalhados pela grama ligeiramente alta no local. Mal percebi que estava sorrindo. Puta merda, o que era aquilo, afinal? Como meus sentimentos poderiam mudar de um dia para o outro? E que sentimentos eram aqueles?
Sentimentos que eu desconhecia. Nunca me apaixonei verdadeiramente por alguém, e não sabia se era isso que estava acontecendo agora. Nunca me senti com as pernas bambas por causa de ninguém, nunca me senti intimidada pelo olhar de alguém, e nunca me senti tão sem graça perto de alguém. Já tive namorados, verdade, não muitos, três para ser precisa. Eles gostavam de mim, e esse foi o verdadeiro motivo por ter ficado com eles, e ser virgem é a minha maior piadinha interna. Se qualquer uma de minhas “amigas” de Toronto desconfiassem disso acabariam por arrumar um relacionamento forçado para eu mudar meu status sexual. Eu não ligava para aquilo – até hoje não ligo. Não mudaria em nada na minha vida se não fosse com alguém que eu realmente gostasse – corrigindo – amasse. Pode soar clichê, mas em minha opinião é a coisa certa a ser feita. Suspirei mudando o rumo de meus pensamentos. Queria acariciar seu rosto, ah, sim, queria muito, mas é claro que eu não faria. Observei Damon de longe mantendo um leve sorriso no rosto. Ele estava dormindo? Talvez sim. Decidi me aproximar calculando meus movimentos para não sobressaltá-lo. Para minha surpresa ele abriu os olhos juntamente com um sorriso torto.
–Achei que estivesse dormindo – corei.
–Quase – ele bocejou. – Quer ir para casa?
–Já está ficando tarde.
–E você está com fome – Damon me acusou.
–Não – disse e meu estômago roncou me entregando. Ele riu.
–Vamos almoçar, tem um restaurante italiano aqui perto maravilhoso – piscou Damon para mim.
–Sem hashis – suspirei.
–Sem hashis – ele balançou a cabeça positivamente se pondo de pé e pegando minha mão despreocupadamente. Meu corpo se aqueceu ao seu toque e demorei a perceber que tinha me esquecido de respirar.
Ah, meu Deus...
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