Negros
6 Estilhaços
Notas iniciais
Um ciclo vicioso, assim como a maioria das coisas viciosas, não passa de uma zona de conforto que as pessoas constroem ao redor de suas vidas para evitar de ter que tomar uma atitude qualquer em relação a um determinado problema.
E, claro, ele sabia perfeitamente bem disso. Eles. Talvez por isso ainda estivessem se agarrando ao máximo aos velhos hábitos que os impedissem de sair do circulo que já a tanto tempo haviam traçado e tantas e tantas vezes repetido.
Dava para ver que alguma coisa estava errada.
Mesmo que Mello estivesse gritando e esmurrando a porta, havia algo quebrado no tom de voz que deixava escapar a ansiedade; acabava atrapalhando o caminho do orgulho.
Mesmo que Near estivesse com os olhos voltados para seus próprios brinquedos, ignorando o chilique que o outro armava, não conseguia evitar a vermelhidão no rosto nem a força com que se agarrava o robô de plástico; sentia a dor nas juntas dos dedos.
A tempestade roncava ao fundo, vibrando as enormes janelas que mal e mal iluminavam o corredor de luzes apagadas e tapetes grossos.
Estavam a poucos passos de se quebrar, e aquilo era assustador.
No silêncio que nunca chegou a ser realmente um silêncio, um deles decidiu apelar. Fez algo contrário à si mesmo – ou talvez ago apenas natural no contexto.
De dentro do seu quarto, perdeu a cena. Não viu a testa de Mello recostada contra a madeira da porta, os fios loiros caindo ao redor da cabeça, quase que numa trégua que não ousava anunciar. Não ainda.
– Near, abre a porta.
Não havia nada ali. Raiva, determinação, violência. O tom sequer fora mais alto do que o necessário. Era apenas um pedido.
Uma trapaça.
Um passo.
Cautelosamente, colocou o pé no chão. Mesmo com a meia, dava para sentir o frio que a chuva trouxera como o efeito colateral. Aquela tosse que não passa quando se pega uma gripe chata. A distância entre a porta e sua cama era curta demais... Nem dava para enrolar durante o percurso.
Outro passo.
Girou a tranca para poder dar a volta na maçaneta. Ali em sua frente, Mello já estava recomposto, a postura reta como que de propósito, apenas pelo prazer de poder lhe olhar alguns poucos centímetros de cima.
Manteve-se rígido, evitando contato visual. Fez o possível para manter-se como si mesmo, esforçando para representar o único papel que sempre teve que representar.
Tentou voltar.
Alguma coisa o entregou. O que teria sido, não sabia. Talvez as mãos um pouco mais apertadas ao redor do robô de plástico que ainda carregava consigo. Quem sabe os músculos estivessem tensos o suficiente para que o outro notasse. Pensou vagamente se seus dedos dos pés não estavam um bocado contraídos, denunciando o frio excessivo que sentia ali, fora da proteção de suas cobertas e de sua lanterna.
O fato foram as mãos. Mesmo ali no corredor, elas ousaram subir pelo seu pescoço. Conseguia senti-las tomando as rédeas de sua vontade, ajustando o ângulo de seu rosto para algum que fosse favorável.
Sentiu os lábios de Mello de encontro aos seus. Foi leve, suave e com certeza muito errado. Foi um beijo inexperiente de gente virgem, quase como um teste, apenas para tentar se ter uma ideia de como é que aquilo funciona. Não havia sequer saliva, apenas as mãos e o contato da carne.
Foi tão simples, tão besta. Beirava o deprimente, uma cena patética que você olha e pensa ''e pensar que um dia eu fui assim...''
Daquelas que te arranca um suspiro e, quem sabe, até um sorriso.
Se afastaram, para poderem se olhar. Eram mesmo dois pequenos desgraçados, sem conseguir negar sua natureza num momento como aqueles. Analisavam, procuravam caminhos, respostas, calculavam probabilidades e chances de acerto.
Felizmente, tinham quase que a mesma capacidade analítica – não vamos estragar o momento dizendo quem realmente era o número um – e encontraram aproximadamente a mesma resposta, com uma margem de erro que não impediu um último passo.
O robozinho caiu no chão, esquecido, coitado. Mas veja bem, não havia para ele entre o abraço que firmaram.
''Abraço'' sequer define aquilo. Foi mais um ''agarramento'', mas mesmo assim, a palavra ainda não é essa. Se encaixam os dedos pálidos ao tecido negro, numa desistência cheia de força e desejo. Se misturaram as respirações logo antes das bocas, de um jeito melecado e fluído. Quando deram por si, estavam os dois sem saber quem era a batida do coração de quem, tão próximos estavam os corpos, os músculos pulsando cheios de vontade um contra o outro.
Naquele instante, eles se quebraram.
Como ondas, chocaram-se um contra o outro e caíram em pedaços sobre a cama, os estilhaços apagando o contorno do ciclo que tinham desenhado.
Ainda havia a intensidade e a necessidade de atenção de Mello, reivindicando para si o direito de posse daquele ser, marcando todo o caminho que tocava com a boca, fazendo questão de chupar a pele e morder a carne.
Ainda havia a indiferença e a sobridez de Near, que não tomava parte daquele abuso contra si, quase como o ato não fosse diferente de todos os outros que haviam encenado antes de tantas outras formas.
Mas havia algo de errado.
Algo de certo.
Não trocaram palavra, apenas olhares. Os olhos azuis se enfiavam no fundo dos negros e voltavam à superfície já com as respostas. Se deixou afogar, apenas para poder lembrar o quão bom era respirar, sentir os pulmões cheios de ar novamente, saboreando a umidade e o suor, o cheiro que se desprendia do corpo de Near.
E o outro permitiu que aquilo acontecesse. Não desviou, não deu atenção a alguma outra coisa, não olhou para baixo nem procurou nenhum brinquedo para se distrair. Também resolveu abusar. Deixou que Mello mergulhasse em si. Sentiu a dor, e como doeu. Dói quando alguém entra em você. Usou a desculpa par apertar mais a blusa negra e para sentir o corpo dele tenso contra seus braços.
Foi uma coisa dolorosa, aquela, e não exatamente bonita de ser ver. Envolvia calor, fluídos corporais, coisas grudentas e inexperiência, o que sempre, sempre, deixa tudo um bocado diferente dos livros de romance.
E eles não se importaram. No meio do caminho até ali, já haviam se despedido de tantas coisas que não tinha nem porque sentir vergonha de transarem. Beiraria o ridículo se naquela altura não se tocassem, se descobrissem, apertassem. Era obsceno, toda aquela coisa de pernas bertas, arreganhadas, aquelas mãos nada bobas, indo e vindo, aqueles dedos se enfiando onde não deveriam. Coisa de fazer uma senhora desviar os olhos, horrorizada, só de pensar naquelas línguas e no gosto que aquelas coisas deveriam ter.
Mas não importava. Eram pessoas práticas, veja bem.
Simplesmente fizeram, até o fim.
Se deixaram ficar exaustos demais para poderem voltar à sua zona de conforto. Talvez tenha sido de propósito, quem sabe.
A chuva continuava lá fora, como não poderia deixar de ser. Um raio caia de quando em vez apenas piscando brevemente, abrindo caminho para o trovão que vinha logo em seguida.
Se deixaram dormir, enfiado um nos braços do outro.
Amanhã, precisariam juntar os pedaços, ver o que havia sobrado, o que ainda dava para aproveitar.
Amanhã.
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