Negros
1 Escuro
Notas iniciais
– Os olhos do Near são negros, né?
Era um feriado. Prolongado.
Daqueles que se insinuam na quinta, começam na sexta para só acabar na meia-noite da segunda.
Época ideal para uma viagem, passeio com os pais, saída com os amigos, jogo de bola no parque ou qualquer porcaria dessas.
A menos que... Sei lá.
Esteja chovendo.
Ou, por conta da chuva todo o quarteirão esteja sem luz.
Até mesmo, quem sabe, você seja órfão.
Ou, no caso daqueles dois, tudo isso junto.
É. Não sobram muitas opções assim.
Na verdade, a Mello e Matt só restara o tédio.
Mello olhava pra cima, um livro que já várias vezes desistira de ler jogado em cima da barriga.
Além do que, ler no escuro faz mal pra vista.
Matt seguira seu exemplo depois que as pilhas de seu Game Boy simplesmente o abandonarem. E como o mesquinho do Roger resolvera colocar o gerador só para o sistema de segurança e comunicação, não tinha grandes esperanças de conseguir energia para seu PlayStation sem fazer algumas barbeiragens com a fiação.
E estava com preguiça demais pra isso.
– Como é que é?
– Os olhos, sabe? São negros?
– Sei lá. Não me interessa a cor dos olhos dele.
– É que eu tinha ouvido que eram azuis. Mas pensando bem agora, acho que eles são pretos...
– Sério, Matt, cale a boca.
– E, como você é quem mais fica olhando pra cara dele, eu pensei que soubesse melhor do que qualquer um e...
Levou o livro direto na cara.
Só mesmo o instinto assassino de Mello pra permitir uma mira dessas no meio daquela escuridão de falta de energia.
Ouviu as molas de a cama ao lado relaxarem, antes de Mello passar por si, pegando o livro no caminho com uma brutalidade que fazia parecer que tinha sido culpa sua ele ter ido parar ali na sua cara e não uma clara tentativa de homicídio.
– Vai aonde?
– Pra longe de você.
Esperou Mello se aproximar mais da porta.
– Depois me conta, hein!
– Contar o que, saco?
– A cor dos olhos!
Foi o tempo de se jogar no chão num rolamento bem calculado antes do livro passar zunindo pra se acabar num baque contra a parede.
.
.
.
Deixava-se levar, janela após janela naquele corredor sombrio.
Em todas, nada. Senão a mesma chuva.
Passava, distraído, os dedos pelos cabelos, sentindo a testa latejar, como se seu cérebro estivesse pulando direto contra o crânio.
Horrível, horrível.
Se tivesse sorte teria dormido mal e aí ao menos poderia admitir que dormira uma miséria qualquer.
Mas não.
Depois de dois dias insones, não lhe restavam forças sequer para expulsar Matt do quarto em prol de um descanso que fosse.
De modo que, depois de tantas voltas e revoltas ali estava, o braço tampando os olhos de uma claridade inexistente, o restante do corpo jogado no primeiro sofá vago que encontrara.
O que, por sinal, nem ao menos tivera a graça de ser difícil.
Aquela mansão era velha. E escura, como toda boa mansão velha. Nas raras vezes em que a luz faltava, a única pessoa com a qual você podia contar de trombar fora do limite das portas dos quarto era a Solidão.
E ela, filha da puta que era no máximo te deixava o Tédio como companhia.
Virou no sofá.
E virou.
E virou mais uma vez.
Arrumou de novo a almofada, antes de mudar a posição, dar um terceiro soco nela e deitar.
E virar.
E virar e virar e virar e virar e virar e virar e-
– Quem está ai?
E parar.
– Quem quer saber?
–... Mello?
Arregalou os olhos, enxergando tanto quanto se eles estivessem fechados.
Agora sim, reconhecia a voz.
Que, só para esclarecer, pertencia ao culpado de sua deplorável situação.
Vulgo, Near.
Notas finais
Era pra ser uma one-shot.
Mas eu não consegui fazer ser uma one-shot.
Entãaaao...Eu não sei qual vai ser xD//apanha.
Aliais, eu adoro e odeio a imagem da capa.
Acho-a estranha, mas divertida.
E, sinceramente, perfeita pra fic.
Enfim, críticas, xingamentos, toques, tijolos, opiniões, conversa-fiada...
Tudo é sempre muito bem-vindo~
Grata,
Kalhens.
Fale com o autor