Negra-Luz

1 Introdução - Alfa e Ômega



"Floresta Escura, nas proximidades de Lavin" Autor Desconhecido.

Em Lavin — cidade não muito distante de uma escura floresta -, habitava um jovem casal feiticeiro que esperava o primeiro filho. Era inverno e os dias ensolarados tornavam-se cada vez mais escassos, deixando o frio intenso tomar conta da cidade. Numa dessas noites geladas, a senhora Wormud começou a sentir as contrações do parto e seu marido apressou-se a buscar uma parteira para realizar os trabalhos, deixando a senhora Wormud deitada próximo à lareira de uma velha casa.

Esta, por sua vez, era uma morada humilde. Vigas pesadas faziam sua sustentação e a alvenaria levantava-a pouco mais de 3 palmos do chão, a fim de proteger os inquilinos do inverno e de animais noturnos. As paredes eram cinzas, combinando com o espírito pacato do casal e a lareira crepitava as madeiras, mantendo cada metro quadrado aquecido. Por fim, o telhado, que fora feito de palma e feno, cuidadosamente colocados para repelir o gelo e a chuva.

Seu interior não revelava muito mais do que o que podia ser visto de fora: um quarto pequeno, apenas com mobílias essenciais: cama para o casal, uma pequena mesinha de madeira, uma janela pequena que iluminava todo o ambiente, alguns tapetes e um guarda-roupa antigo. A sala mostrava-se ampla, iluminada bem no centro pela claraboia (há muito empoeirada). Também possuía poucos móveis: uma mesa de Carvalho para reunir as visitas, um tapete de pele de Urso Negro dando um ar imponente ao ambiente e o arranjo de velas, cuidadosamente colocado no canto inferior direito da sala, de onde toda ela podia ser iluminada pelo propagar das luzes. Dentre todos os cômodos, os mais curioso com certeza era a cozinha, onde os Wormud ostentavam um pequeno fogão a lenha, muitos cadeirões e ingredientes ... Todos os ingredientes dos mais exóticos que se possa imaginar.

Apesar da demora do senhor Wormud em encontrar a parteira, o parto fora simples, trazendo ao mundo uma linda menina. Sua pele era clara e cintilante, sobressaíram pequenos tufos de cabelo liso e negro no topo de sua cabeça e seus olhos eram cinzas como uma tempestade de inverno, entretanto, pairava sobre ela um ar calmo ... ar que logo seria quebrado pela turbulência dos planos de seus pais.

Os Wormud sabiam da existência da Negra-Luz: supostamente uma planta com poderes sobre a vida e a morte. Homens errantes que se aventuraram pela floresta escura, retornavam com histórias que percorriam todas as regiões. Outros haviam escrito livros sobre essa rara anomalia e videntes de vários condados especulavam sobre seu poder. Assim, esse jovem casal fazia planos sobre o poder da rara flor e o quanto ele poderia tornar grandioso aquele que o possuísse.

Apesar de ser a primeira filha, esses pais já tinham grandes planos para sua cria, planos de torná-la a mais poderosa dentre todos os alto feiticeiros, canalizando o poder da Negra-Luz. Para isso, durante meses os dois pesquisaram em livros botânicos, livros de lendas populares e até mesmo passaram noites conversando com viajantes em tabernas, a fim de reunir todo o conhecimento que podiam.

Em meio às várias histórias que leram e ouviram, muitos relatos podem ser destacados. Um dos homens contou sobre o fenômeno do solstício de inverno, afirmando que era quando a planta irradiava toda a sua luz, podendo ser vista a quilômetros de distância. Outro, mais ousado, contou sobre o dia em que um parente distante aventurou-se a pegar uma pétala da Negra-Luz, pois seu filho estava doente e ele confiava que aquela rara planta seria a única forma de curá-lo, e numa noite clara de verão, pôs-se a entrar pela floresta, com seus compadres esperando-o na entrada. Não tardou até ouvirem um grito estridente e um barulho distante de galhos quebrando e folhas secas sendo amassadas rapidamente.

De supetão, o homem que havia se aventurado floresta adentro apareceu na frente deles e disse que precisavam voltar para casa rapidamente e sem que fossem feitas muitas perguntas. Assim que chegaram, o homem encontrou seu filho recuperando-se, comendo uma bela sopa junto a sua mãe e suspirou aliviado, porém, nunca contou a ninguém o que havia ocorrido na clareira da floresta aquela noite. Haviam também histórias sobre pessoas que entravam na clareira e nunca mais saíam, assim como rumores de gemidos vindos do centro da floresta, seguidos por um canto doce e angelical que costumava chamar a atenção de transeuntes.

Reuniram informações por meses e decidiram que era hora de realizar o seu melhor feitiço. A criança estava perto de completar um ano e continuava tão linda quanto o dia em que fora concebida. Assim, ficou acertado que o grande dia seria uma sexta feira, o solstício de inverno mais próximo e, propositalmente, o dia de maior evasão do poder da Negra-Luz. Passaram a semana ajeitando os últimos preparativos, anotando feitiços, comprando ingredientes e se fortalecendo espiritualmente, enquanto a criança dormia calmamente deitada no berço, no cantinho do quarto dos pais.

O tempo passou depressa com tantos afazeres e quando menos esperavam, já era a sexta. Iniciava o pôr-do-sol quando o casal começou o primeiro feitiço, dos três que fariam aquela noite. O marido necessitava de um feitiço de proteção para enfrentar os perigos da floresta, então foram utilizadas algumas velas verdes e galhos de alecrim como incenso, os quais ele segurava e recitava seu mantra, mantendo seu espírito sereno e calmo. A criança, por sua vez, recebeu um feitiço de força espiritual, para que seu pequeno e frágil corpo fosse capaz de suportar tamanho poder que depositariam nele.

Após os preparativos, a esposa colocou no fogo o seu caldeirão, adicionando os ingredientes para o feitiço principal. Já o senhor Wormud, montou em seu cavalo e pôs-se a enfrentar os perigos noturnos da floresta, em busca de pelo menos uma pétala da Negra-Luz.

A floresta, por sua vez, tinha noção do tesouro que escondia e, como se fosse encantada, dificultava ao máximo possível a viagem daqueles que se aventuravam em seus caminhos, utilizando delírios, animais selvagens e uma névoa que tornava-se cada vez mais espessa conforme o aventureiro adentrava-a. Como se não bastasse os perigos à sua frente, o jovem feiticeiro travava uma constante luta com seu cavalo, que ameaçava fugir e deixá-lo para trás a qualquer momento. Todavia, o Sr. Wormud estava empenhado em seu objetivo e sabia que precisava chegar até a Negra-Luz antes que a madrugada atingisse seu ápice.

O local mostrava-se amedrontador, um solo fofo dava a impressão de que a qualquer momento o homem seria sugado e utilizado como adubo para o crescimento daquelas frondosas árvores que o rodeavam. O ar era úmido, como se o local vivesse um infinito inverno, incrementado pela névoa densa que dificultava a visão. Além disso, a copa frondosa das árvores bloqueava a maior parte da luz da lua, deixando a floresta na penumbra. Sons vinham de todos os lados: galhos quebrados, passos amassando as folhas secas, grunhidos e respirações ofegantes.

De repente, um som distante espalhou-se pela floresta um canto suave que acalentava aos ouvidos, esse som, aveludado e triste, vinha da clareira e o homem pôs-se a segui-lo. Chegando bem próximo, o Sr. Wormud desceu de seu cavalo e começou a esgueirar-se entre as árvores, ainda ouvindo o cantar angelical e finalmente percebendo o brilho distante do início do espetáculo da Negra-Luz.

A descrição dada pelos viajantes e as videntes não chegava nem aos pés da beleza que ele estava contemplando: a planta parecia estar flutuando! Seu caule, de um verde bem vivo, dava vida a várias folhas, que se penduravam como o vestido de uma jovem dançarina. As pétalas, brancas e peroladas, se inclinavam de forma graciosa, cedendo ao vento que lhe acariciava e seu miolo, em contraste à todo o resto, era negro, tão negro que não se podia distinguir detalhes de sua textura.

Disfarçado pela penumbra e escondido atrás de uma das árvores, o jovem feiticeiro viu uma silhueta, tão prateada quanto a Negra-Luz em seu ápice. Parecia uma jovem de cabelos longos e altura mediana, mas nada humana. Sua pele era uma cópia fiel das pétalas da flor e ela a acariciava com uma tristeza quase palpável. O Sr. Wormud teve certeza que era dessa moça que vinham os sons doces e suaves que o guiaram até ali. E, até então, ela não parecia ter notado a sua presença, pois continuava a cantar e passar a mão levemente por entre as pétalas da flor.

Em todos os meses de pesquisa, o casal não ouvira falar nem uma vez sobre uma mulher que habitava a floresta, o que deu respaldo para o homem fazer mil e uma especulações em sua mente. Pensou rápido e decidiu que o melhor a se fazer era utilizar um feitiço de invisibilidade, assim, ele pegaria uma pétala sem ser notado pela moça e sairia calmamente da floresta. Concentrou sua mente, balbuciou repetidamente o mantra que lhe dava proteção, até que vagarosamente suas mãos e seus pés começaram a sumir e o efeito estendeu-se por todo o corpo.

Ótimo, agora poderia entrar e sair da clareira sem que fosse notada a sua presença. Saiu de trás da árvore e começou a caminhar cuidadosamente até perto da flor. Quando lhe faltavam cerca de vinte passos para sua mão alcançar uma pétala, a surpresa:

— Sei que está aqui. Aliás, posso senti-lo desde que pisou os pés para dentro da floresta. Retire o feitiço, quero vê-lo, ou serei obrigada a ordenar que o solo o engula, assim como já fiz a muitos outros.

O homem permaneceu estável e atônito. Como era possível? O que era aquele ser? Seria seguro revelar-se e tornar-se impotente diante de seu poder? Eram muitas perguntas e pouco tempo para uma decisão. Pensando rápido, decidiu que se mesmo invisível ela podia senti-lo, de nada estava valendo o seu feitiço. Seria corajoso para enfrenta-la frente à frente.

Retirou então o feitiço e simultaneamente pegou uma pequena faca que levava consigo à todos os lugares, tentando desferir-lhe um golpe na altura da jugular. Não haveria como escapar de um golpe tão bem premeditado e preciso. A faca acertou sua jugular, exatamente como ele havia previsto, porém, nada aconteceu, não houve sangue, nem gritos, nem... Só então ele percebeu que a faca havia passado direto, como um inútil corte no ar.

— Que patético, achei que isso não seria necessário. Bom, claramente eu superestimei a sua inteligência — disse a moça, agora exibindo um semblante de desprezo e descontentamento. Logo após, levantou os braços e o solo abaixo do homem começou a afundar, de forma que seus pés ficaram presos e ele não podia mais se mover. — A propósito, meu nome é Segyn e você está invadindo a minha casa.

Segyn começou a andar de um lado para o outro de cabeça baixa, enquanto milhões de pensamentos atordoavam seus sentidos. O Sr. Wormud continuava incrédulo com o que havia ocorrido, recusava-se a abrir a boca a qualquer custo e sua mente, assim como a de Segyn, estava a mil, tentando achar uma forma de livrar-se daquela saia justa.

— Eu poderia ter expulsado você da floresta assim que pisou nela, poderia ter ordenado a qualquer ser vivo que habita debaixo de minha proteção que matasse você a qualquer momento. Hoje é o solstício de inverno, todos tem medo de vir aqui e por isso você me deixou intrigada. Por que hoje? Por que não ontem, quando havia menos perigo? Por que arriscaria sua vida entrando aqui esta hora da madrugada? — Segyn esperou alguns segundos, ansiosa pela resposta dele, sempre fora muito curiosa e a audácia daquele homem havia deixado ela muito irritada. Passaram-se quase 2 minutos, e o silêncio pairava pelo ar, até que ela o rompeu. — Bom, se não quer falar, eu posso arrancar as respostas de você.

Ela ergueu a mão e começou a fechar o punho, fazendo com que a vitalidade do homem saísse de seu corpo, deixando-o cada vez mais fraco. Segyn queria as respostas, precisava delas, estava se sentindo desafiada e não deixaria barato. O jovem feiticeiro sentia seu corpo fraquejar, suas pernas não queriam mais manter-se em pé, mas ele precisava pensar em algo para sair dali, precisava voltar a sua família. Teve que manter o triplo de concentração para conseguir se mover, pois seu corpo já estava muito fraco. Abriu a mão e dela começou a brotar uma bola flamejante. Ele lançou-na tão rápido que ela não teve tempo de desviar e o golpe atingiu-a em cheio.

Os pés do Sr. Wormud, antes apertados pelo solo, deram uma leve folgada e por um segundo as mãos de sua inimiga pararam de sugar sua vitalidade para protegê-la de cair no chão. E agora? Como pegaria a pétala da flor? Claramente o feitiço que soltara em Segyn não duraria muito tempo. Rapidamente movimentou os braços e criou uma cápsula de proteção impenetrável (primeiro feitiço que havia aprendido durante seus estudos como feiticeiro). Não era uma boa tática, porém lhe daria tempo para pensar.

Do outro lado, Segyn começava a ficar furiosa, aquele homem estava atrasando-a. Em menos de uma hora seria o ápice do solstício de inverno, ela precisava realizar o trabalho para o qual fora designada e ele não poderia estar ali. O broto da flor era a parte mais indefesa e poderosa do seu ciclo, nada poderia tocá-lo. “Droga, deveria tê-lo matado quando tive a primeira oportunidade, inúmeras já passaram e ele continua aqui”, pensou. “Malditos humanos, seres desprezíveis que insistem em despertar a minha curiosidade”. Levantou novamente os braços e dessa vez fez nascer em volta da cápsula do homem dezenas de raízes e cipós que giravam ininterruptamente. Assim, quando ele resolvesse sair de sua cápsula, estaria igualmente preso. Ela sabia que ele só havia acertado o feitiço porque a pegara desprevenida, só que agora ela estava completamente atenta e ele jamais sairia ganhando nessa disputa.

— Vou lhe dar sua última chance, responda as minhas perguntas e quem sabe você sairá vivo desta floresta. — Paciência nunca fora um dom de Segyn.

Ele pensou, pensou e finalmente chegou a conclusão de que não haveria como vencê-la. Nunca ouvira falar dela, não sabia nada sobre a dimensão de seu poder e ainda havia a possibilidade de que um dos feitiços lançados pudesse tomar um rumo errado e acertar a Negra-Luz, matando para sempre os seus planos.

— Me tire daqui e conversaremos. Prometo não tentar te acertar mais, desde que prometa me ouvir até o fim, sem tentar me matar. — era o melhor acordo que ele poderia fazer, visto que estava em desvantagem.

— Prometo ouvi-lo até o fim, entretanto, não tirarei as raízes, isto não é negociável.

— Tudo bem. — Ele sabia que não seria fácil conquistar a confiança dela, então aceitou a melhor oferta que conseguiria. — Eu e minha esposa pesquisamos a respeito dessa flor por vários meses, seus poderes, sua fisiologia, relatos de pessoas que tentaram aproximar-se, todo o conhecimento que pudemos juntar. Somos um casal de feiticeiros e durante a gravidez de minha esposa, decidimos que faríamos da criança a feiticeira mais poderosa que pudéssemos. Soubemos dos poderes da Negra-Luz e especulamos a respeito do poder infinito que nossa filha teria se pudéssemos integrar ao menos uma pétala da flor ao seu corpo. Por isso estou aqui, vim buscar apenas uma pétala, no dia em que a flor tem um poder muito mais forte que em todos os outros dias, por isso estou aqui arriscando minha vida.

Segyn ouvia toda a história e a cada palavra ficava mais irritada com a ambição desmedida daquele casal imprudente. Quando o Sr. Wormud terminou de contar seus motivos, ela sentiu o ódio subindo por todo o seu corpo — há muito tempo não tinha emoções tão fortes quanto agora. Segyn iria matá-lo e ele sabia disso. Suas mãos estavam começando a se levantar na direção dele e logo ela as fecharia por completo, sugando toda a sua vitalidade e deixando o corpo frágil para apodrecer sobre a terra.

— Não, por favor, pense no que lhe disse, dê-me apenas uma pétala e nunca mais me verá, irei embora e criarei a minha filha, apenas uma pétala não lhe fará falta, não deixe que minha esposa e minha filha cresçam sem a proteção de um pai e um marido presente. — Ele estava com muito medo de nunca mais retornar para casa, seus poros exalavam constante pavor e ela com certeza podia senti-lo.

Até aquele momento ela estava tomada pelo mais profundo ódio e já podia sentir a alma e a vitalidade daquele homem passando por entre os seus dedos. Mas, ao ouvir ele falar sobre família, proteção e companhia, Segyn lembrou-se de todos os anos que passou sozinha naquela clareira — repetindo o mesmo ciclo todos os dias -, lembrou-se da vontade incontrolável que tinha de conhecer outros lugares, ter outros afazeres e que nunca pudera, pois estava atrelada a flor assim como as raízes da flor estavam atreladas àquela terra.

Neste momento, Segyn foi tomada por um sentimento de solidão e tristeza tão profundo que o ar de toda a floresta tornou-se pesado. Esta sempre foi a fraqueza dela, sentimentos demais. Sentimentos a faziam mais humana e quanto mais humana, mais fraca. Tomada pela tristeza e solidão de uma alma condenada a estar sempre no mesmo lugar, ela viu na ambição daquele casal uma oportunidade de livrar-se do seu fardo. Sabia que a chance era mínima, mas em todos os seus séculos ali, esta era a primeira vez que alguém tinha planos tão grandiosos a serem realizados com o poder da Negra-Luz. E em um lapso de coragem impensada, Segyn tomou sua decisão.

— Tudo bem, deixarei. Em pouco tempo iniciará o ciclo da Negra-Luz, tirarei você desta prisão e você esperará. Não tire nenhuma pétala da planta, o suspiro prateado é a morte, se tocar, apenas o seu corpo ficará nesta terra. Espere até que ela conclua o ciclo e quando ver o broto nascendo na terra, arranque-o com todas as raízes. — Segyn não fazia a mínima ideia de qual seria o efeito que aqueles atos trariam, mas decidiu arriscar, queria experimentar viver e não apenas realizar tarefas como fora durante todos esses séculos. — Você é um feiticeiro, então sabe que tudo tem um preço, as vezes um preço muito mais alto do que estamos dispostos à pagar. Por isso, caso desista, apenas deixe o broto continuar crescendo, monte em seu cavalo e nunca mais volte aqui, ou sugarei a sua alma no primeiro passo que der para dentro da floresta.

Ela libertou o homem das raízes, transformou-se em pura energia e transmutou-se para dentro da flor na exata hora em que esta iniciava seu espetáculo. O homem não havia desmanchado sua cápsula e nem pretendia, não sabia o que as luzes da Negra-Luz poderiam fazer com ele estando tão perto. Nem acreditava que tinha conseguido convencê-la. Apesar de suas últimas palavras terem parecido uma maldição seguida de ameaça. o Wormud preferiu não atentar-se a isso e fixou seus olhos na Negra-Luz, não perderia aquele espetáculo por nada.

As folhas verdes e cheias de vida já haviam caído e o caule agora adquiria um aspecto morto, acompanhado por um verde de tom musgo. As pétalas (antes peroladas e cintilantes) estavam mais negras que a noite. De repente, do miolo da flor brotou uma pequena fresta de luz prata que aumentava a cada segundo, tornando-se tão intensa que o Sr. Wormud mal conseguia olhá-la, elevando as mãos ao rosto.

Poucos segundos depois, a luz diminuiu levemente e acima da flor o suspiro prateado dançava de um lado a outro, como se esperasse que toda aquela estrutura morta que havia abandonado, fosse ao chão. E como num golpe de misericórdia, o suspiro prateado tomou altura e velocidade suficiente para descer e cravar-se na terra como uma lança, matando todo e qualquer vestígio daquele antigo corpo e deixando um novo broto: a Negra-Luz renascida mais um dia.

Desvencilhou-se então o homem de sua cápsula, pegou sua faca e começou a afofar a terra ao redor do broto, tomando todo o cuidado com a plantinha. Até mesmo aquele pequeno brotinho mostrava dentro de si, por entre as paredes ainda um pouco transparentes, um suspiro de luz dançando de um lado à outro, esperando somente a hora de sua próxima saída. Depois de afofar bastante a terra, pegou o brotinho que saiu sem muito esforço, para ser guardado na bolsa. Logo, pôs-se a voltar para casa rapidamente, montado em seu cavalo e tomando cuidado para fazer o mesmo caminho que fizera ao entrar na floresta.

Chegando em casa, encontrou sua mulher ainda acordada, com um caldeirão no fogo, preparando a poção e aguardando ansiosamente pelo ingrediente principal. O marido não perdeu tempo contando-lhe os perigos do caminho, — apesar de sua mulher estar visivelmente preocupada com o quanto seu rosto estava pálido — tirou o broto da bolsa onde havia guardado e o juntou ao líquido da poção. Uma espessa névoa azulada subiu do caldeirão e, logo após, a poção tornou-se tão negra quanto a madrugada daquele solstício de inverno.

Deitada em um berço no canto da sala, estava à bebê, iluminada apenas por uma pequena vela que fora colocada à uma distância segura de seu berço. Um ano havia se passado desde seu nascimento, sua pele continuava branca e brilhante, seus olhos oscilavam entre o cinza escuro e um pacato cinza-nada, já seu cabelo, descia como uma sedosa manta negra encobrindo seu ombro. A Sr. Womud correu ao berço para pegà-la no colo. Enquanto isso, o marido colocava a poção em um pequeno pote, para que sua bebê pudesse bebê-lo.

Os Wormud seguravam a criança apertado, sentindo medo daquele último instante… Olharam no fundo dos olhos um do outro por alguns instantes, e então consentiram com a cabeça. Era a hora, tudo estava pronto, aquele seria o exato momento da ascensão. Ele pegou a filha no colo, deitou-a calmamente em seus braços e começou a fazê-la beber a poção. Pouco a pouco a poção sumia do pote, até que a última gota foi ingerida pela bebê. Os pais esperaram alguns segundos com ela nos braços, para ver se haveria alguma reação. E as únicas diferenças notadas eram a pele dela que tornava-se cada vez mais clara e seus olhos agora brilhavam. Aparentemente estava tudo bem, afinal, aquele era o poder se mostrando na filha deles, não é?

Poucos segundos depois os pais começaram a perceber uma pequena luz movimentando-se pelo corpo da bebê, como se procurasse algum lugar por onde sair. A bebe se debatia, chorando muito. O pequeno corpinho começou a tomar formas anômalas, tentando se adequar ao seu novo componente e o cabelo, antes negro como a noite, começava a ficar branco, da raiz as pontas. Parecia que nada bastava, até que o corpo do bebê começou a inchar tanto a ponto de explodir.

Neste momento, saiu da boca da criança um suspiro prateado e seus pais começaram a chorar, pois achavam que sua cria iria morrer, como ocorria todas as noites com a Negra-Luz. Assim, o poder voltaria para a clareira da floresta e não haveria mais filha para criar ou poder para recuperar. O suspiro começou a tomar forma, agora mostrava-se como uma energia e rapidamente já era possível ver a silhueta de Segyn novamente. Ela fitou os pais no fundo dos olhos e percebeu que ambos já sabiam o que aconteceria, apesar da poção de força, o corpo da bebê não era capaz de suportar tamanho poder.

— Eu avisei que todo feitiço tinha um preço. Sacrifícios são sempre necessários e eu não vou voltar á ficar sozinha naquela clareira.

Dito isso, Segyn levantou o braço direito em direção aos pais, e o esquerdo na direção da bebê. Começou a fechar calmamente a mão direita, sentindo a vida dos pais correr entre seus dedos, formando um emaranhado de vitalidade na palma de sua mão. Não demorou muito até que toda a alma fosse sugada e seus corpos caíssem, sem vida. Segyn, então, juntou suas duas mãos e moldou aquele emaranhado do tamanho menor que pôde. Olhou para a bebê, que agora descansava no chão gelado, e colocou as duas mãos em cima de seu corpinho frágil, canalizando à ela toda a força vital de seus pais.

— Sua vitalidade desabrochará junto com você, pequena. Nunca conhecerão uma feiticeira mais poderosa do que você se tornará e eu estarei contigo, aqui dentro. — Disse, terminando de colocar o pequeno emaranhado no peito da bebe. — Seu nome será Zilma, porque vai viver um conflito entre a luz e as trevas, mas você saberá escolher o seu caminho menina, você sempre saberá. — E Segyn voltou a tornar-se energia, habitando no corpo de Zilma.