Notas iniciais
Oi, gente, tudo bem? eu escrevi esse conto tem algum tempinho, mas agora senti vontade de compartilhar ♥

espero que vocês gostem, vou ficar esperando o feedback. É curtinho mas é de coração

abraços ♥

Positivo, dizia o papel. Maldito papel. Malditas árvores que produzem essa merda.

Eu o olhei rápido, ainda no carro, no caminho para minha casa. Apenas o suficiente para ver o resultado. Então, fingi que não vi. Prático. É meu costume.

Chorei assim que cheguei em casa. Chutei a parede, dei um soco na mesa, gritei tudo o que estava preso em minha garganta, mesmo morando em um apartamento, derrubei um copo de vidro e fiz questão de causar um corte em meus dedos quando recolhi os cacos. Eu merecia.

Fiz um café. Me acalmei enquanto ouvia o barulho da cafeteira. O liquido preto escorrendo, voando até minha xícara sem que me desse conta. Minha mente esvaziou. Bebi uma xícara inteira. Precisava de mais, então fiz.

Bebi a segunda sentado na mesa, com a ponta dos dedos batucando na madeira. O pedaço de papel em minha frente, me encarando.

Não tenho namorado. Não tenho amigos. Abandonei minha família — essa instituição tóxica e abusiva que me vi obrigado a suportar por muito tempo. Tenho um emprego de merda. Cuido do marketing de uma empresa nas redes sociais, o que contribue para meu complexo título de antissocial. Eu não era assim, antes.

Saí de casa aos dezenove anos. Fui para tantas festas e baladas, beijei tantos homens e até mesmo algumas mulheres (por que não?). Experimentei de tudo. Santo Deus, eu fiz até fisting.

Dói, e não gostei, só para deixar claro.

Já fumei tanta maconha, já senti o gosto de tanta porra, já bebi até não lembrar de meu próprio nome, já cheirei tanta cocaína que meu nariz sangrou, já quebrei o braço em um acidente de trânsito, já vi tanto filme pornô que tenho meu top três de atores favoritos, já li o retrato de Dorian Gray três vezes, já fiz tanta maratona de Queer as Folk que sei as falas de cor. Já vivi. Everybody dies but not everybody lives, como diz o ditado.

Vivi, até certa idade. Abandonei a faculdade de letras no meio e concluí publicidade e propaganda. Ganho o suficiente para me sustentar. É o que importa, no fim, não é?

Mamãe não pode mais me chamar de vagabundo.

Minha pele coçou. Tinha mais de trinta anos e estava correndo até mamãe para pedir ajuda.

Digitei o número no celular.

— Alô?

Ela não tem meu número salvo. Não mais, pelo menos, porque consegui sentir que não sabia com quem estava falando.

— Oi, mãe. Sou eu.

— Fernando?!

— Não. Não o Fernando. Seu outro filho.

Silêncio, então uma explosão.

— Gustavo?

— Oi, mãe.

— Gustavo, meu filho, é você mesmo?

— Sim, sou eu. Desculpa ligar assim, no meio da noite.

Silêncio novamente. Anos sem se falar. Anos que o fio arrebentado de maternidade nos separou.

Mamãe é evangélica. Ela tentou me converter durante anos. Infelizmente nasci viado e ateu. Uma cruz pra mim só se for pra enfiar na bunda. Amém.

— Você está bem? — sua voz soava como alguém pisando em algo delicado. Não consigo mais imaginar o que é que ela pensa de mim. Será que ainda quer me converter? Cura gay, como dizem por aí.

— Estou sim, e a senhora?

— Bem. Tenho pensado em te ligar, sabe? Mas não tinha certeza se me atenderia. Sinto saudades, Gus. Seu pai também.

Senti vontade de rir, mas de forma triste. Papai me odeia. Ao contrário se mamãe, ele acha que não tenho salvação.

Ficamos em silêncio novamente. Anos de histórias e sentimentos entalados na garganta. Segurei a xícara de café com a mão desocupada. Bebi, pensando que seria melhor se fosse whisky ali e outra pessoa falando comigo.

— Eu tô doente, mãe.

— Doente?

— É. Descobri hoje.

— É grave?

— Sim. Bem, mais ou menos. Eu acho.

— Ah, Gus. Filho, o que é? Tá tudo bem?

— É uma doença maldita, mãe.

Não chorei, mas é como se estivesse.

Mamãe fungava do outro lado da linha, a voz estava pastosa quando falou:

— O que é? Câncer?

— Não.

Eu não queria contar. Não aquilo. Ela tinha me dito, aos dezoito anos "Você vai morrer de AIDS se continuar com essa abominação". Merda de estereótipo.

Olhei para o papel novamente. Precisava ir ao médico o quanto anos. Tomar todos aqueles milhares de comprimidos. Do contrário, a morte é certa.

— Gus? Tá aí?

— Oi.

— O que você tem, filho?

— Tudo.

— Gus... Volte pra casa, por favor.

— Eu sou velho demais pra morar com meus pais. Tenho emprego. Estou bem. Só doente.

— Eu não me importo. Por favor, Gus, Deus pode te ajudar. Eu vou orar mais pra você. Oro todo o dia, sabia? Pra você, pros seus irmãos, pra família toda, mas especialmente pra você. Não é vergonhoso ser um pecador. Todos somos, ou fomos em algum momento. Vergonhoso é seguir no pecado. Deus é misericordioso, ele vai iluminar seu caminho. Tenho fé, mas você precisa ter também. Você pode se...

Desliguei o celular. Apoiei a xícara novamente na mesa, então busquei uma caneta pelo apartamento. Risquei o POSITIVO com toda a força que havia dentro de mim, então escrevi, com letras grossas e espaçosas: NEGATIVO

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!