Need
1 You don't need me!
Notas iniciais
Aquela coisa de sair da infância e entrar na adolescência estava sendo uma experiência lixosa para Sieghart. As pessoas que ele sempre conhecera começaram a mudar e, no fim, ele não reconhecia nem a si próprio.
No momento, Sieg era um adolescente de quatorze anos cheio de hormônios revoltados.
– Urgh, Sieg. Você está me irritando. — Elesis resmungou cruzando os braços. Sieg continuou sendo um depressivo agressivo debruçado sobre a carteira, sem ânimo para copiar as anotações da prima. Mesmo que não tivesse mais tempo para gastar...
– Colegial é uma booooosta…
– Não fale com essa voz nasal. — Elesis bufou. — Cara, seja sincero de uma vez: Só tá assim por causa do Zero. Se quer tanto fazer as pazes com ele, VAI LÁ!
– QUEM COMENTOU NAQUELA LACRAIA? HUH, HUH? NÃO FUI EU!
– Ecnard! — ela quase pegou fogo de tão raivosa. Sieg abaixou as orelhas. — Você não consegue fazer nada direito sem ele. Sério que eu preciso te dizer o que você precisa fazer?! Aproveita que ele tá na biblioteca e vai logo!
Sieghart virou o rosto, sendo tão teimoso quanto ela. Por que ele sempre tinha que correr atrás? Zero não era tudo aquilo. Poderia viver normalmente sem ele, muito obrigada. Se ele queria aproveitar a “popularidade” no colegial, Sieg não seria quem o iria impedir.
Mesmo que ele estivesse morrendo para fazer exatamente isso.
– Sieeeg… Se você não for, eu vou contar tudo que a sua mãe não sabe de você… — Elesis ameaçou mais que assutadora. Sieghart pulou da cadeira meio que no automático, realmente afetado daquela vez. Elesis sabia de mais.
Ela o empurrou sem delicadeza nenhuma, quase quebrando suas costas. Depois fechou a porta na cara dele, sem se importar com os outros alunos dentro da sala.
Sieg não queria ir. Ele era orgulhoso, um grande maldito orgulhoso, e não ter controle sobre uma situação era o fim para ele. E, olha que alegria, era o que mais ocorrerra desde que ele saíra do Fundamental.
Não sabia mais contar dois mais dois e não sabia mais prender a atenção dos próprios amigos. Ele estava perdendo, e perdendo feio. Mesmo assim não queria dar o braço a perder. Ele havia tentado e fora ignorado, não merecia nada daquilo.
Mas por que ele estava entrando naquela bosta de biblioteca gigantesca e apelativa dentro da escola? Ele já a odiava por ter que dividir Zero com ela antes, agora odiava o mundo todo por ele querer Zero também.
Com Zero, ele nunca conseguia competir. Queria saber o que ele fazia de errado para que o garoto desse as costas à ele tão facilmente. Bastava ele se distrair e pronto. Não precisava de ninguém.
Porém, Zero não estava sozinho quando o encontrou. Lin e Jin riam de alguma coisa “muuito” engraçada sentados de ambos lados do garoto, livros espalhados por toda a mesa. Zero sorria. Sorria de forma sincera, bonita… Sorriso que ele nunca deu à Sieg.
Sieg não sabia o que ele estava pensando. Mesmo que o conhecesse, sentia-se distante do mesmo jeito. Como se eles não combinassem… E realmente não pareciam bem juntos, notava isso amargamente quando via suas fotos da infância. Ao contrário, ele e Lin eram o casal perfeito… Zero mal se lembrava dele quando estava com ela…
– Ah, Sieghart!
Oh, shit. Sieghart pensou quando Jin acenou para ele. Zero parou de sorrir e o encarou, surpreso e ainda meio desnorteado pela risada. Ele sempre demorava para voltar a realidade e, nem assim, voltava de verdade.
– Oi. — Lin sorriu simpática. — Está ai há muito tempo?
– Não. — Sieghart fechou a cara. Por que ela tinha que ser tão irritantemente bonita e encantadora? Ele precisava lembrar-se depois de uni-la com o Lupus “Possessivo que não conhece a Lei Maria da Penha”.
– Precisa de um livro, Sieg? — Jin não notou a falta de educação do moreno. — O Zero estava ajudando eu e a Lin no trabalho de Química. Apesar de ele ter ajudado bastante, eu ainda não entendi por que fazer um trabalho de Química dentre tantas coisas.
– Não force muito os seus neurônios Jin, Amy e Azin vão ficar decepcionados. — Lin provocou de forma tranquila.
– Heeey, o que você quer dizer com isso?! — Jin corou levemente. Lin deu uma risadinha meio sábia e meio malígna. Ela sabia controlar as pessoas e fazer isso de forma boazinha.
Creeeepy.
– Zero, posso falar com você?
Ah foda-se. Ele já estava ali e agora encontrava-se irritado. Era melhor fazer alguma coisa do que cruzar de novo com a prima e levar uma surra por não ter tentado e tremido como uma virgem.
Não que ele não fosse. Não, pera. Zero piscou.
– Hmm, diz em particular?
– É, vem logo aqui que não vai demorar. — Sieg bufou e passou a andar em seguida. Com Zero, você tinha que impor se não as coisas não funcionavam. Ele pensava de mais.
Sieghart quis se bater por ficar feliz e aliviado quando viu que ele o seguiu para fora da biblioteca, mesmo que estivesse fazendo algo importante ali dentro. Nem tudo havia mudado, e nem deveria…
– Que foi? — Zero perguntava também se referindo ao por quê de ele parecer tão estressado.
– Nada, nada. Só tenho uma montanha de lição de casa pra fazer antes que os professores fechem a média e ninguém pra me ajudar. Ou conversar sobre. — ele cruzou os braços e virou o rosto.
– Elesis não estava te ajudando?
Sieghart respirou fundo e olhou para o teto. Calma, calma. Ele é lesado, mas se você der uns tapinhas volta a funcionar.
– Ela tacou os cadernos pra eu copiar! E dizendo o tempo todo o quanto eu sou burro e que me odeia! É, é uma grande ajuda, Zephyrum!
Agora ele estava soando mais mimado e raivoso do que o planejado. A coisa do foda-se estava funcionando bem de mais. Zero desviou os olhos, apertando os dedos magros.
– Eu estou ajudando a Lin e o Jin, então não posso…
– Que falta de criatividade, o nome deles rimam. — Sieghart debochou. — É, você está sempre fazendo isso agora! O primeiro bimestre já está acabando e não saímos uma só vez! Eu me sentiria melhor se você simplesmente dissesse que não precisa mais de mim agora que é popular!
Zero alongou os olhos, sem reação. Sieghart controlou a respiração quando percebeu que estava gritando e os outros alunos poderiam ouvir. Se um coordenador os pegasse nunca mais aproveitariam uma aula livre.
– Não preciso… Mais? — Zero repetiu horrorizado. Sieg apertou os punhos.
– Ahh, você é tão lesado! Não sabe nem o que está fazendo ou o que quer? Sim, é isso mesmo. Você não precisa mais de mim, não precisa de ninguém. Todas as suas necessidades são egoístas. É só dar alguma coisa que você goste e você esquece do mundo na hora. E eu não vou mais incomodar alguém assim.
As palavras correram da sua boca como nunca antes, soando extremamente diferente do seu jeito comum de falar ou esbravejar. Ele parecia mais... Cruel, superior. Desde quando Sieghart soava tão prepotente, controlado, quando a verdade era completamente contrária?
Ele fez o que qualquer humano faz quando se depara com uma mudança assustadora: Correu.Deu as costas a tudo e deixou os seus pés o levarem para qualquer lugar, enquanto fosse longe dali. Ele estava tremendo todo aquele tempo, porém mal aparentara.
Parecia outra pessoa, outro Sieghart que não era só mandão e orgulhoso. Seu coração batia tão forte que ele achou que não ia aguentar, porém só parou quando a sua visão escureceu de repente.
Muito assustado e sem fôlego, Sieghart se apoiou numa parede e sentou-se no chão, esperando a tontura passar. Estava fraco. Encontrava-se no caminho para o ginásio com cobertura, do lado de fora da escola. Havia outros alunos ali, relaxando ou estudando espalhados pela pequena área verde que conectava o pátio com o caminho e o caminho com o estacionamento dos professores.
– Sieghart! — Zero apareceu de repente, sua voz falhando. Sieg mal havia o notado naquela eufória. — Você— você quase tropeçou e está pálido! Sabe que passa mal quando está muito estressado!
Ele parecia uma mãe desnaturada falando aquele tipo de coisa. E Sieg sentiu-se pior. Ele se levantou e estava pronto para deixar Zero sozinho de novo, dividido entre a vontade de bater em algo ou afundar o rosto num travesseiro, quando o mesmo agarrou o seu pulso com as duas mãos.
– Sieg, você não pode correr de novo! — Zero realmente estava desesperado para demonstrar. Sieg não se comoveu dessa vez.
– Eu não vou passar mal por sua causa, fique com a consciência limpa!
– Não fuja de mim! — ele tentou de novo, quase chorando. Foi como um choque no corpo de Sieg, impedindo-o de se afastar. — Você… Você faz isso… Você se distancia!
– Eu?! — e lá se foi a compreensão de um segundo atrás. — Você que nunca mais quis saber de mim!
– Não, você que não precisava de mim! — essa retrucada fez Sieg se calar. Zero balançou a cabeça. — Você sempre foi melhor, mais inteligente… Não ia sentir falta de alguém leigo como eu! Eu me senti tão mal pensando que incomodava as outras pessoas, mas quando eu notei que te incomodava mais… Eu quis desaparecer… Eu não quero mais ser um lesado atrás de você.
Ele estava quase chorando, sério. Apertava os olhos com força, que estavam marejados, e o corpo tremia visivelmente. Deveria ser tão difícil para Zero… Falar tudo aquilo quando ele era o pior em se expressar e falar sobre sentimentos. Sieghart tentou, ele teentou, mas não conseguiu segurar a raiva.
– Zero. — Sieg surpreendeu-se por ter soado tão sério. Zero levantou o rosto de forma insegura. — Como diabos eu me distanciei de você? Sendo melhor?
– Não! Não é isso, eu… Eu aprecio que seja melhor… — ele mordia o lábio incontrolavelmente e piscava.
– Tá, vamos por de forma simples. — Sieg bufou e cruzou os braços. — Lembra quando eu namorei a Mari?
– O-o que isso…?
– Eu estava mais distante de você na época?
– N-nã… Sim…
– Ahhh, que problemático. — ele controlou uma risada clandestina o melhor que pode. — Sabe Zero, você que se distancia quando não diz o que está pensando.
– M-mas eu…
– Não sabia, eu entendo isso agora. 'Cê tá perdoado, relaxa.
– Não sabia…? Não sabia o quê, Sieghart?
– Que você tem carência aguda. — Sieg apreciou as nuances das expressões de Zero antes de cair na gargalhada e se preparar pra correr: — E que você me ama!
"E que eu devo te amar um pouquinho também…" Pensou.
THE END?
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