Necessário

1 Necessário


Ele era um príncipe.

Foi nessa visão que ela acreditou por vários e longos anos de convivência em que o apoiou como sua melhor amiga e confidente. Sentia que estava em uma relação injusta de “dar e receber”, em que o que ela recebia era sempre algo contrário ao que desejava, por mais que se esforçasse e fizesse a primeira parte do seu acordo unilateral.

A verdade é que ela não era a princesa.

Bonita, sofisticada, elegante, “mas completamente sem caráter”, essa foi a sua primeira princesa. Bonita, era algo que não podia negar, porém não conseguia ver essa beleza materializada em uma pessoa, era como se visse uma escultura de arte áspera e fria que ganhara vida e era exposta em todas as televisões da cidade. Não confiava nela, não via sinceridade em seus olhos e sentia enjoo ao pensar no veneno que sempre escorria de suas palavras. Não aceitava seu melhor amigo passando a vida dele ao lado de uma mulher como aquela. Imaginava que o relacionamento dos dois não fosse durar muito tempo.

Sua segunda princesa era igualmente bonita, porém ela irradiava um tipo diferente de beleza, era uma beleza benevolente, sincera e que atraía naturalmente as pessoas em sua volta. Seus olhos brilhavam com gentileza, seus gestos esbanjavam simplicidade e todo o ar que a cercava parecia mais leve. E esse abismo de diferença era o que mais a irritava. As palavras saíam ácidas de sua boca acusando a princesa (“você é uma falsa”), quando no fundo ela apenas mascarava a irritação de como ela mesma nunca atravessaria o limite que a permitiria entrar no mundo dele, ela se irritava ao pensar que talvez dessa vez o seu príncipe tivesse escolhido a mulher certa para ele.

E ela aceitou essa condição, talvez ela não fosse princesa dele, mas nunca deixaria de ser a sua mais fiel escudeira, carregando o mundo em suas costas se isso fosse o suficiente para protegê-lo.

Ela era uma princesa.

Quando via o seu reflexo e o brilho no olhar daquele homem, tão perdidamente apaixonado por ela, não podia evitar o pensamento de que talvez realmente tivesse entrado para aquele mundo da realeza. No mundo daquele homem só havia ela, ela e ela, uma princesa perfeita que o amava.

Aprendeu a apreciar as qualidades daquele homem, aprendeu também a apreciar quem ela era ao lado dele. Gostava do tempo que passava com ele e das possibilidades que se abriam em frente aos seus olhos, descobriu a fotografia e o seu potencial como modelo. Percebeu que seu papel não precisava ser restrito ao de escudeira do príncipe encantado, ela não era um anexo.

Apesar disso, ela tinha a ideia clara de que não era perfeita, pelo menos não a princesa perfeita que existia no sonho dele.

Talvez tenha sido isso que acabou com o relacionamento que já estava fadado ao seu fim. Se com o príncipe encantado ela se encontrava em uma relação de “dar e receber” em que ela só fazia a primeira parte, com ele ela apenas recebia. O “amor” que ela podia oferecer ao rapaz era desproporcional ao amor que ganhava. Ela podia se afogar em seu carinho, em sua paixão, mas sempre o deixaria abandonado em um deserto. E ela conhecia muito bem esse sentimento de desigualdade, de carregar o mundo e mover montanhas por uma pessoa que nunca te enxergaria, por uma pessoa cujo coração nunca dispararia com suas ações. Doía, magoava, era frustrante.

Ele mudou sua vida, ela era sua princesa, mas ele não era o seu príncipe.

Ela não era uma princesa e ele não era um príncipe.

Ele tinha o seu lado vulnerável tanto quanto ela ou qualquer outra pessoa, mas ela não levantava o mundo por ele. Ela o levantava e apenas ele, porque fazer mais do que o necessário era pena, e pena era um sentimento patético em seu mundo. Ele não precisava de pena, de olhares de dó, pois encontraria uma forma de se reerguer em meio a todos os maldizeres e acusações, ele apenas precisava de confiança: uma base onde seus pés instáveis pudessem se firmar, um muro onde suas mãos fracas pudessem se apoiar.

E ela sabia que o caminho dele era incerto. Ela não andaria agarrada a ele, não o olharia pelas costas ou avançaria em sua frente, mas estaria ao seu lado, com as mãos prontas para levantá-lo e dar um empurrão caso ele caísse novamente. E tinha a certeza de que quando suas mãos o apoiassem, as dele fariam o mesmo e ambos andariam de cabeça erguida.

Ela confiava nele, porque nada nele mentia. Suas palavras, apesar de afiadas, eram sempre sinceras, a tristeza e a angústia que acumulou por tanto tempo transpareciam pelo brilho de raiva que ia desaparecendo gradualmente e o sorriso que ele aprendeu a sorrir mostrava como agora se sentia leve, como se finalmente tivesse abandonado a sua pesada armadura em uma guerra que (pelo menos para ele) finalmente havia acabado. E acima da confiança ela se sentia livre (eles se sentiam livres), ela não carregava o mundo em suas costas, mas também não sentia que seus pés iam deixar o chão pela culpa de não dividir um peso com a outra pessoa, com ele não havia exigências ou palavras cortadas, havia apenas o brilho, o refúgio e a segurança.

Algo dentro dela, algo coberto pelas suas palavras diretas e pela personalidade marrenta, encontrou algo parecido dentro dele, escondido pela sua língua ferina e o seu ato de bad boy, e tudo, absolutamente tudo, era um milagre.

Ela não era uma princesa, ele muito menos um príncipe, mas se eles fossem o necessário nos olhos um do outro, já era o suficiente.

Notas finais
Confesso que só comecei a assistir a novela mesmo quando soube que a Giane e o Fabinho podiam terminar juntos, então minha interpretação dos personagens pode estar bem falha.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!