Notas iniciais
Olá de novo, leitores! Ando revisitando rascunhos bem antigos e remendei esse, iniciado em meados de 2017. A maioria das referências à astronomia aqui são bem amadoras. Os nomes de estrelas citados realmente têm raiz persa/árabe de vários séculos atrás, e muitas vezes a origem é sequer rastreável. A tradução foi tirada diretamente do inglês, então é uma tradução cruzada e provavelmente pouco confiável. A tradução de um nome em especial é todinho gozação minha, o significado mais correto possivelmente é "ferrão elevado" ou só "ferrão/agulhão". Lembrando que certas estrelas têm mais de um nome, por mais que alguns sejam considerados mais oficiais que outros. Não se iludam pelo começo, a fic tem nonsense e ele vem do nada. Camus também ri demais por aqui, então podemos considerar OOC? É uma oneshot bem despretensiosa, por favor, relevem. * A Nebulosa do Coração se situa na constelação de Cassiopeia e é formada por estrelas jovens que emitem intensa irradiação com formato que às vezes lembra um coração. É como aparece na capa da fanfic. Boa leitura!

A cena que protagonizavam não era o que tinha em mente quando Camus o chamou para ver estrelas à noite em sua casa.

Verdade fosse dita: suas expectativas estavam inadvertidamente altas quando aceitou o convite e subiu até o décimo primeiro templo com uma garrafa de vinho contrabandeada e um sorriso bobo de quem corre para os braços do primeiro amor. Pudera, que outro tipo de ideia um garoto como ele elaboraria de tal programa, ainda mais da maneira como havia sido proposto?

Minha casa, à noite, ver estrelas. Era a descrição de um encontro, não se fazia necessária uma perspicácia aguçada para adivinhá-lo.

E, novamente, tinha metido os pés pelas mãos. Agora lá estava ele, dormitando nos fundos de Aquário enquanto Camus, tomado por um entusiasmo científico, vigiava pacientemente o movimento dos astros. Havia passado as últimas duas horas sentado à espreita de uma tediosa chuva de meteoros que a muito custo era vista a olho nu.

Minha casa, à noite, ver estrelas. Não poderia ser mais literal. Que o amigo fosse perdoado, em nenhum momento faltou com a honestidade.

Quando se era inexperiente em relacionamentos, como Milo, via-se comum todo tipo de mal interpretação e esperança infundada. E ele era um garoto contaminado pelos romances de banca lidos às escondidas nas madrugadas insones. Trazia no imaginário a lista completa de ingênuas idealizações a respeito do amor – acreditava nele como uma fusão plena de almas, uma entrega desenfreada e destinada a grandes sacrifícios, doces sofrimentos e à eternidade como recompensa.

Não surpreendia que sonhasse com declarações arrebatadoras. Ou que ansiasse por receber flores e presentes exóticos em datas marcadas no calendário. Esperava daquela primeira paixão nada menos que uma experiência imersiva: queria vasculhar sob a pele do outro até os mínimos detalhes e permitir-se doar de si os ossos.

Ocorria que a pureza de sua visão de romance, infelizmente, esbarrava na praticidade de Camus. Nada mais eficiente do que se apaixonar por um tipo como ele para derrubar por terra e de uma só vez seu castelo de fantasias.

Camus era uma pessoa muito diferente de todo o resto.

Ele era avesso a demonstrações efusivas de afeto e não lhe apetecia dar nomes às situações— tal como via os relacionamentos: estados potencialmente fugazes. Não se atinha a datas comemorativas; guardava o aniversário de ninguém e julgava o dia dos namorados um ridículo produto do capitalismo. Desprezava arranjos de flores por não passarem de cadáveres bonitos nas palavras dele. Os presentes mais simples, como discos e livros, eram os que o conquistavam de verdade.

Quanto aos seus sentimentos, estes se insinuavam nas entrelinhas de um beijo roubado ou na espontaneidade de um roçar de mãos repentino. Eram dúbios. Nunca ganhavam o universo preto e branco das palavras.

E, ainda que Milo tivesse uma vida longeva com ele, não arriscava ser nem de longe capaz de penetrar a densidade das suas camadas. O alheamento natural de sua personalidade se punha como obstáculo extra a quem estivesse disposto a lançar alguma luz sobre sua alma.

Foi pensando naquele rapaz complicado que dedicou mais um gole da garrafa que esvaziava sozinho. Entontecia depressa sob o álcool, em partes porque o jantar romântico fora um pote de batatas fritas servido displicentemente na varanda. E pensar que o amigo cozinhava tão bem...

Meditava sobre ele – mesmo ao seu lado, nunca estava ao seu alcance.

Camus fitava o firmamento com a luminosidade mortiça da lua a sombrear os poucos vales de seu rosto jovem. Enquanto a maioria das pessoas via um sentido poético em mirar o céu noturno, sabia que ele olhava para as estrelas com os pés no chão. Naquela noite, contudo, parecia um pouco reflexivo. Talvez além dos meteoros buscasse também respostas. Era um espírito inquieto, mais até que o próprio Cavaleiro de Escorpião, embora não lhe dessem crédito.

Depois de mais uma vez desistir de desvendar a expressão insondável dele, Milo decidiu aventurar-se pelos mapas do céu e desacelerar a progressão da bebedeira. Estendido no chão diante deles, havia uma carta celeste dos tempos das Grandes Navegações pertencente ao acervo do Santuário. Como os de sua espécie, era supersticioso e ricamente decorado com ilustrações coloridas das constelações, as quais fizeram Escorpião sentir-se ainda mais abjeto, pois nunca conseguia relacionar as formas abstratas dos agrupamentos de estrelas aos seus mitos originários.

Por exemplo, como alguém conseguia enxergar Ganímedes no rabisco que era Aquário? Ele via um mero jogo de ligar os pontos totalmente aleatório.

E faziam falta as lições de astronomia durante o treinamento básico, desperdiçadas em desatenção...Aquela seria uma boa hora para apontar estrelas com propriedade e parecer inteligente. Camus certamente valorizaria uma companhia que soubesse apreciar seu passatempo. Duvidava receber mais um convite à sua casa no próximo eclipse lunar, passagem de cometa ou qualquer destes eventos quase imperceptíveis na abóbada celeste.

Deitou os olhos mais demoradamente sobre o desenho de Aquário no canto esquerdo do mapa – ironia ou não, era um menino ruivo de cabelos encaracolados a verter água de um jarro. Eis que suas divagações morreram diante de um achado.

Releu o nome da estrela e a hilaridade só cresceu em seu peito. Enfim, de riso frouxo pelo vinho, não conteve uma gargalhada.

O cavaleiro que controlava o zero absoluto apenas franziu suas sobrancelhas, à espera de uma explicação.

Milo tentou segurar a risada com as mãos – só fez lágrimas se acumularem nos cantos dos olhos. Queria parecer inteligente, e tudo que conseguia era ter uma reação tão infantil àquela descoberta:

— Camus, tem uma estrela na sua constelação chamada Bunda!

Silêncio. Milo pensou que fosse ter câimbras na barriga de tanto que soluçava prendendo o riso. O dono da casa respondeu algo desconcertado:

— É um nome árabe. Tem significado de sorte.

— Oh.

O riso arrefeceu na hora. Piscou um par de vezes, sentindo-se terrivelmente idiota. Voltou ao mapa procurando por algo que despistasse sua gafe:

— Esse também é um nome árabe: Albali? – apontou a primeira estrela que viu.

— Sim. – Camus respondeu monocórdico, mesmo um tanto severo.

— Qual é a tradução?

A pausa se estendeu mais do que o normal, todavia, o Cavaleiro de Aquário respondeu inalterado:

— O engolidor.

Apertou os lábios em torno de um risinho que escapou por suas narinas. Ah, perdia a oportunidade de dar uns amassos, mas não perdia a piada:

— Que constelação obscena essa sua...

Ganhou uma merecida cotovelada, seguida de desprezo. Camus levantou-se e andou pelo terraço de mármore balançando a cabeça em desaprovação. Ainda abafando risos com os cachos de ouro sacudindo em torno de si, o perseguiu e o abraçou pela cintura. Ele era assim: espaçoso, invasivo...e adorável à sua maneira ferina.

— Não fique bravo, é besteira minha! – apoiou uma bochecha em seu ombro e Aquário pôde sentir os sacolejos das gargalhadas reprimidas.

— Me surpreende que o cavaleiro da constelação de Escorpião faça esse tipo de brincadeira.

— Eu sei, desculpe. Fui muito criança, né?

— Não é só isso. Que moral você tem para falar de Aquário quando há ali no seu território uma estrela chamada Shaula, que significa “rabo empinado”?

Foi aí que Milo explodiu em risadas convulsivas, precisando mesmo afastar-se de um Camus com o queixo arrogante elevado.

— Você acabou de fazer uma piada? – se foi intencional ou não, o fato é que ele possuía algum senso de humor. Amava o sarcasmo de Aquário e lastimava que ele só florescesse no calor das batalhas.

E o guardião daquele templo não resistiu ao absurdo de toda a situação: abriu um de seus raros sorrisos. Era discreto, como toda sua manifestação de humores, mas suavizava o contorno dos olhos bonitos e o rejuvenescia, reconciliando-o com sua mocidade. Iluminava-o por inteiro, como o pálido sol da primavera a derreter a neve.

— É...eu fiz, sim. – cruzou os braços em cômico desafio. Só Milo o tirava do sério a ponto de arrancar-lhe arroubos de impulsividade.

Encantado, Escorpião recompensou-o com um beijo e perdoaram-se na cumplicidade de seus risos conectados.

Gostavam-se justamente nas diferenças. Não era surpresa que estivessem misturando e confundindo tudo desde o cataclismo da adolescência – parecia-lhes natural que ocorresse assim. Sabiam sequer precisar se algum dia havia sido diferente, se aqueles beijos não seriam apenas outra manifestação da afinidade que sempre existiu entre ambos.

Não importava o jeito estúpido como tinham chegado ali. Sempre chegavam ali, no fim das contas.

Até que a história seguiu um curso diferente e, quando o pretexto do beijo morreu, Camus não se negou a continuar. Não o afastou como das outras vezes em que desafiaram a fronteira da zona cinzenta de sua amizade ambígua. Normalmente o cavaleiro de gelo recuaria às armadilhas que existiam do outro lado, disfarçadas de deliciosas possibilidades, mas naquela noite cada mordida em seus lábios era uma injeção de coragem.

E o cavaleiro da oitava casa não perdeu a chance: enredou as mãos nos cabelos fascinantes e o atraiu inteiro para si com uma força mais poderosa que a gravidade. Finalmente as coisas corriam como planejava e o tinha na palma da mão, as pernas feito gelatina ameaçando ceder.

— Quer dizer que minha constelação tem um rabo empinado? – provocou ao ouvido enquanto tateava a barra da camiseta dele com dedos trêmulos. Não se acovardaria diante do sinal verde. Ora, era para isso que tinha vindo até a casa de Aquário, em primeiro lugar, e Camus e ele estavam se comunicando tão bem...

.

Milo retirava todas as suas reclamações: ver estrelas era incrível.

A vida era incrível. Camus era incrível.

Finalmente compreendia a metáfora de estar nas nuvens.

Se atreveu a deitar a cabeça no ombro do – amigo? namorado? – só para testar sua reação. O Cavaleiro de Aquário, por sua vez, não se moveu. Tomou aquilo por bom sinal.

Ponderou se seria uma boa hora para se declarar. Estava cheio de ímpeto e as palavras se alborotavam no seu peito, exigindo passagem.

Então, ele girou a cabeça ruiva no mármore rosado do piso e se encararam. Houve uma paz, um acordo silencioso. Tudo aquilo que revolvia dentro de Milo parou para reverenciar o momento. Percebeu que nada que dissesse poderia levá-los a um entendimento melhor do que aquele.

Não se tratava de um rapaz convencional ali, então por que se ater a cerimônias? Só queria que aquela felicidade durasse para sempre. Apesar de lentamente perder a inocência, ainda era Milo – intenso, imaturo, dramático.

Com uma rápida fuga de seus olhos aos céus, lhe veio um pensamento incômodo: e quando perdesse Camus? Não por suas ações (porque essa possibilidade nem passava pela cabeça dele), mas pela sina de suas vidas? E se ele precisasse se afastar em serviço, como o Cavaleiro de Libra, ou morresse em guerra?

Um nó o asfixiou. Seu atordoamento não passou despercebido, entretanto:

— Você está bem? – o guardião do templo murmurou com dedos gelados em seu braço. Gostou de saber que ele se importava e colocou sua mão sobre a dele.

— Estou bem, só pensando... – não podia dizer o que estava pensando, era tétrico. Simplesmente apontou o firmamento. – Qual dessas é a nossa estrela?

Sem que se quisesse, soara bastante meloso.

Camus temia por aquilo.

Apesar de fleumático na superfície, já tinha alguma vivência no campo sentimental. Ao contrário de Milo, que cultivava miragens, enxergava o amor distorcido em contornos traumáticos. Trazia tatuada na memória a tragédia com Sinmore e Surtr. Seu primeiro amor partiu destroçado por sua causa, deixando-o para trás sangrando remorso e abandono. Desde ali, vestia armadura até no coração.

Ser estoico era mais fácil do que enfrentar os lutos, afinal.

É claro que também se pegava extasiado por aquela experiência nova, porém considerava injusto alimentar Milo com esperanças desleais. Não eram os mocinhos inconsequentemente apaixonados dos seus livros, ou qualquer outro casal. Nunca haveria coisas ditas em excesso, dia dos namorados, rosas ou sequer satisfações. Não haveria corações em árvores, uma estrela só deles...

Mas ele poderia encontrar abrigo em Camus sempre que desejasse. Poderia esperar por um ouvido, uma companhia nos treinos, um travesseiro a mais na cama.

Jamais um compromisso.

Não arriscaria decepcionar outra pessoa e se mostrar novamente fraco.

— Você quis dizer nossas constelações? – fez-se de desentendido.

— Não. Nossa estrela. – o menino loiro insistiu. – Onde vamos nos reencontrar quando nossos dias de luta terminarem.

Se ele já sofria por aquilo tão cedo, então estavam perdidos, pensou Camus.

— Milo, as constelações de Aquário e Escorpião ficam muito longe uma da outra.

Todavia, seu amigo teimoso se recusava a aceitar a mensagem implícita. O que era a distância de anos-luz para um cavaleiro de ouro? Ainda mais um cavaleiro de ouro que amava outro.

— Então vamos marcar nosso encontro no caminho. Você pode escolher o lugar. – Milo levantou-se de súbito como veio ao mundo e arrastou a carta celeste para perto deles. – Tem tantas opções interessantes: Golfinho, Unicórnio...

Camus apoiou-se nos cotovelos para acompanhá-lo em sua busca pelas constelações mais esdrúxulas e não evitou um riso franco, jogando a cabeça para trás.

Milo imitou-o, olhos cerúleos fixos nele. Era como se estivesse vendo um fenômeno da grandeza da aurora boreal ou o espetáculo das borboletas-monarcas...e era tão lindo. O título de Cavaleiro de Aquário cabia-lhe à perfeição.

Atravessaria a via láctea que fosse para tê-lo daquele jeito, rindo junto a si.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!