Nebulosa Cristalis: Parte 2

1 Capítulo 1: Anã Vermelha


Eu não sabia quanto tempo havia se passado desde que dormimos. Sei apenas que quando acordei, Ibrahim e Natasha ainda estavam congelados. A sensação era gratificante. Observei o rosto doce do capitão, em seu sono de morte. Era incrível ter o poder de uma vida nas minhas mãos. Por acaso, aquelas vidas eram o futuro da humanidade. É como ter um pequeno hamster nas mãos, e decidir se é hoje que ele vive, ou não.

Enfim. Coloquei meus devaneios de lado por um segundo, e comecei a programar a máquina para acordá-los. Perguntei ao computador:

— Lucy, que dia é hoje?

— 28 de Abril de 3056.

— C..como? — Não é como se eu tivesse gaguejado, eu apenas engasguei com minha saliva. Era um problema comum. Coisa de gênio.

— 28 de Abril de 3056, senhorita Sorata.

— Pode me chamar de Ushio, por favor.

— Os dados dizem que na cultura Japonesa se chama pessoas com as quais não se tem intimidade apenas pelo sobrenome, senhorita Sorata.

— Pois, você acha que tenho menos intimidade com você do que tenho com o estúpido do Ibrahim ou a vagabunda da Natasha?

— Eu sou apenas uma máquina, senhorita Sorata. Minha programação não é achar. É obedecer os comandos da tripulação, e garantir uma boa viagem.

— Pode me explicar o motivo de ter subido três semitons a afinação de sua voz?

— Erro. Perdão, senhorita Sorata.

— Que saco. — gritei. – SE VOCÊ ME CHAMAR DE SORATA DE NOVO, EU VOU TE DESLIGAR, SEU ROBÔ DE MERDA. — Minha calma tinha chegado ao fim. — O SEU TRABALHO É ME OBEDECER. EU SOU SUA MESTRA. EU TE PROGRAMEI, E SEI DO QUE É CAPAZ. ENTÃO ME FAÇA O....

A máquina me iinterrompeu com um barulho ensurdecedor. Logo à minha frente, as janelas se abriram, me deixando estonteada. A luz, e os pontos de sua ausência, bailavam pelo cosmos em uma dança macabra. Era assustador. A estrela estava tão próxima que eu creio que conseguiria tocá-la. Caí sentada, apenas por quê Lucy colocou uma cadeira logo atrás de mim, enquanto discutíamos. Não, espere… Eu não discuti com uma máquina. Eu apenas ordenava ela. Apesar de que, com a minha genialidade, não é de se espantar que minha criação conseguisse até discutir com um ser humano. Eu esbocei um sorriso de canto de boca, e continuei apenas observando a beleza que o universo me mostrava. Eu era uma garota de química, mas apenas por quê estrelas não podem ser manipuladas pela minha mão.

— Eu não gosto da idéia de algo tão grande. Nada deveria ser maior que eu…

— Mas a senhorita tem apenas um metro e meio…

Apertei o botão de desligar a voz da IA. Ela não podia falar, mas podia me ouvir, e me obedecer. Era uma tortura para ela, já que a programei para sempre conversar comigo. Voltei ao meu trabalho de preparar para que Ibrahim e Natasha acordassem. Ainda assim, não queria que fosse tão cedo. Já se passou tanto tempo, acho que posso me divertir um pouco pela nave. Liguei a voz de Lucy de novo.

— Devo informar que a senhorita me programou para ser sincera. E devo também lembrar que a senhorita está nua.

— Foda-se. — Continuei caminhando pelos corredores do navio.

— Senhorita So.. Ushio…

Minha cabeça se virou em direção às câmeras.

— Lucy, você gaguejou?

— Não. Não fui programada para gaguejar.

— Eu sei…

— Senhorita Ushio.

— Diga…?

— Como foi teu sono? Apenas um lapso de memória?

— Não me lembro de ter lhe programado para anotar meus sonhos…

— Não. Mas me programou para tomar teu tempo quando estivesse quieta demais. O resto, deixou que eu inventasse.

— Você é uma máquina. Se coloque na sua posição e pare de perguntar demais. Ou falar o que não deve.

— Perdão, senhorita Ushio.

— Obrigada.

Me pus a observar a nave e todos os seus compartimentos. Havia uma sala de jogos, mas todos pareciam coisas que o Ibrahim jogaria. Também havia uma hidromassagem, o que era maravilhoso. Mas, o que realmente me importava era o laboratório.

— Lucy, você preparou o laboratório, como ordenei?

— Sim, senhorita. Com todas as almofadas rosas que mandou.

— O quê? Eu pedi almofadas verdes. São a minha cor…

— Você me programou para fazer brincadeiras. Esta foi uma.

— Brincadeiras eram para ser engraçadas.

— Eu apenas fui programada para isto. Culpe meu programador desprovido de senso de humor.

Eu não respondi. Não vou me rebaixar a discutir com um pedaço de metal que eu mesmo fiz. Apenas desativei a fala dela de novo. Ao entrar no laboratório, Lucy havia preparado realmente as minhas almofadas verdes. O laboratório estava impecável, e as plantas haviam sido muito bem cuidadas. A minha muda de cerejeira estava enorme, e suas folhas estavam rosadas, como na minha Terra…

Derrubei algumas lágrimas de saudade, e me sentei. Passei o resto das horas do dia assim, observando o cosmos ao lado de uma cerejeira.