Nebulosa Cristalis - Parte 1
3 Capítulo 2: Dissonância em lá menor.
Notas iniciais
Naquele dia, o clima estava estranho entre nós. Todos sabíamos da seriedade da missão, e da importância e dedicação que ela necessitava. Acordei exatamente cinco horas da manhã, vesti meu kimono e logo antes de me dirigir ao banheiro, ajoelhei-me diante de meus antepassados para fazer uma rápida prece. Sussurrei, rápidamente, pois nunca me senti bem ao rezar por papai, onde quer que ele esteja...
Ao terminar, me levantei rápido demais, batendo a cabeça na gaveta que esqueci aberta, quando fui pegar meu kimono. Saindo de meu quarto, esfregando o topo dolorido de minha cuca, entrei no banheiro e abri a água. Foi nisto que percebi que havia alguém conversando na porta de fora, e resolvi fechar o chuveiro para prestar atenção.
"Eu não acho que enviar uma criança para a missão seja algo sensato, Supervisor. Ela é muito nova e completamente imatura." — Disse a voz com um forte sotaque russo. Só podia ser a vagabunda peituda da Natasha, que vivia se oferecendo para cima dos diretores do projeto, tentando conseguir mais informações. Certa vez ouvi um deles falando sobre sexo com ela! Uma piranha, que agora também resolveu que eu não sou boa o suficiente para a missão...
"Senhorita Natasha, a direção escolheu os integrantes a dedo, e faltando apenas sete dias para lançarmos, você resolve dar sua opinião? Sinto muito, mas o que foi decidido, não foi decidido por mim, e sim por forças maiores." — Eu sempre achei nosso supervisor um amor de pessoa. Ele era sempre rígido comigo, e me dava broncas quando eu, por acidente, derrubava Natasha nos penhascos do simulador de sobrevivência. Mas, realmente, ele sempre foi meu integrante preferido da equipe de treinamento. Enquanto eu pensava em uma forma de humilhar a peituda, e mostrar a ela quem é a menina mais inteligente do mundo, escolhida a dedo pela direção do projeto, as vozes foram lentamente se distanciando do banheiro, até o ponto em que apenas ouvia o barulho do meu chuveiro.
Ao bater seis da manhã, nos dirigimos ao grande salão dos simuladores, e Ibrahim ficou encarregado de, até o fim do dia, me fazer decolar uma nave. É hora de realmente ver se esse Allah que ele tanto fala nos ajuda, afinal, tudo quanto é problema, Ibrahim pede ajuda a ele. E lá vamos nós para mais uma exaustiva sessão de pilotagem.
"Ushio, meu anjo, deixe-me lhe ensinar a ordem de botões..." — Disse Ibrahim, com seu tom sereno, como sempre. — "Primeiro você vira esta chave. Aí você aperta o botão vermelho com o número um. Depois o dois, três, nesta ordem até o dez..." — Ele dizia, e eu seguia exatamente o que me fora ordenado. Mas, como sempre, a nave explodia na decolagem... Até que...
"Ushio... Você está pisando no acelerador?" — Perguntou Ibrahim, com um tom levemente irritado.
"Acelerador? Pisar?" — Eu respondi, quase socando sua cara. É óbvio que eu não faço idéia do que ele está falando!
"Sim... Em baixo de seu pé esquerdo." — Eu corei. Nunca me senti tão inútil. Minha vontade era de, mais uma vez, retornar ao meu quarto, e nunca mais saír de lá. Me contive do choro e respondi, humilhada:
"M-meus... Pés... N-não alcançam o chão..."
Já não bastava tamanha humilhação, e o cansaço físico e mental de passar o dia inteiro com aquele idiota na minha frente, com sua voz mansa e gentil, agindo como se fosse meu pai... Tentando... Cuidar de mim... Como se eu fosse apenas uma criança... Ainda tenho de aguentar uma gargalhada dele após dizer, completamente humilhada, que meus pés não alcançam o chão? Será que ele não possui o mínimo de.. Respeito com o coração de uma dama? Meus pés não atingem o chão, mas, em questão de segundos, atingiram bem no meio de suas pernas, e mais uma vez, corri em direção ao meu quarto, em prantos. Desta vez, no corredor, havia alguém me esperando. Me arrepiei por completa ao ouvir aquele r puxado, aquele sotaque arrastado russo...
"Para onde está indo, Sorata? Não deveria estar treinando?" — Disse Natasha, que não viu meu rosto inchado de choro.
"Para meu quarto. Saia da frente, sua piranha." — Definitivamente, foram as palavras que eu mais me arrependi de dizer. Pelo menos, naquele momento, foram. Mal terminei a frase, e senti uma ardência em meu rosto. Um, dois, três tapas. Numa situação normal, eu reagiria. Mas, minha inutilidade merecia punição...
Sinto uma absurda dor no topo de minha cabeça, e meu corpo se levanta do chão. Natasha havia me levantado pelos cabelos, e sussurrou em meus ouvidos, em um tom pesado e seco, que ecoou pela minha cabeça durante o resto da semana:
"Eu não me importo com quem você é. O que você fez, ou de onde você veio. Na minha pátria, origem não vale nada. Ou você mata, ou você morre. E se por algum acaso você botar a minha missão e o meu sucesso em risco, saiba que estará colocando a sua linda cabecinha, com estes longos cabelinhos negros, em risco. Me fiz entendida, sua pirralhinha mimada?"
"S-sim..." — Respondi, engasgando em lágrimas. Tamanha humilhação não iria ficar impune... Mas, no momento, estava em desvantagem.
"Sim o quê, sua pirralha?" — Disse ela, rindo. A vagabunda estava tendo prazer com tudo aquilo... Ela estava se divertindo às custas de meu sofrimento. Mas, acatei por um momento seus desejos. A vingança há de vir... Há de vir...
"Sim... Senhorita Natasha" — Respondi, ainda chorando. Ao ouvir isto, ela me colocou de pé no chão novamente, e me soltou. Corri em direção ao meu quarto, e, mais uma vez neste inferno de treinamento, deitei-me frustrada, e completamente humilhada.
"Eu sou a menina mais inteligente do mundo." — Gritei contra meu travesseiro, enquanto espancava-o. Lembrava de cada momento, cada situação no simulador, onde Natasha deixava o trabalho pesado para mim. Lembrava de cada palavra de consolo que Ibrahim me passava, como se tivesse pena de mim. Quem é um mero criador de gado, uma pessoa normal, como todas as outras, para sentir pena de mim? Eu sou Ushio Sorata! Eu sou a menina mais inteligente do mundo! Eu não mereço passar por estas humilhações...
"Eu não sou um fracasso!" — Foram as últimas palavras que me lembro ter dito, antes de caír no profundo sono. Estava cansada, e faltavam, agora, apenas seis dias para o início da missão.
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