Nature and Gods.
7 Ruinas do passado.
Notas iniciais
Os esquilos pulavam de galho em galho e os pássaros cantavam pelas arvores enquanto Kaleb e a arqueóloga Marta Ortes caminhavam pela floresta indo em direção as antigas ruinas de uma cidade esquecida.
O clima estava bastante confortável e nas raízes das arvores era possível observar dezenas de diferentes espécies de cogumelos, plantas, musgo e outros fungos que serviam de alimento para vários animais, desde os pequenos camundongos aos maiores javalis.
— Kaleb, existem muitos animais nesta floresta? — Perguntou Marta ao observar um rápido esquilo vermelho pular de uma grande pedra para uma grossa e forte árvore.
O já experiente morador da região logo apontou para um pequeno grupo de perdizes que bebiam água de uma generosa poça e respondeu — Sim, Marta. Essa floresta é lar de inúmeras aves, mamíferos, insetos e até mesmo peixes. As trutas pescadas nos rios dessa região são provavelmente as mais saborosas que você irá provar em toda sua vida. —
— Então por aqui existem raposas, doninhas e gatos selvagens? — Perguntou a arqueóloga bastante empolgada com aquele local.
— Existem sim. — Respondeu Kaleb de imediato. — E entre as doninhas existe até mesmo uma espécie que possui o seu nome, Marta. —
A arqueóloga então se lembrou que seu pai lhe dera o seu nome baseado naquele animal e ao contar este fato para o seu simpático guia, a de cabelos castanhos perguntou — Você já viu alguma por aqui? —
Kaleb porém apenas balançou a cabeça em negação e ao apontar mais uma vez para um faisão que se alimentava de pequenas frutinhas vermelhas abundantes em um arbusto próximo, falou — Apenas algumas pessoas já avistaram Martas nesta floresta, já que as mesmas vivem nos topos das arvores mais escondidas no interior da mata. E como a maioria das pessoas da vila temem adentrar tanto por aqui, muitos sequer chegaram a ver uma raposa. —
Marta logo fotografou o belo faisão colorido que se alimentava das frutinhas e após olhar para a imagem capturada na tela do seu celular, a curiosa arqueóloga perguntou — E você? Já viu alguma raposa? —
Kaleb então riu alto o que acabou assustando o faisão e as codornas que também estavam por perto, fazendo com que o barulho de bater de asas e algumas penas voando pelo ar mudassem completamente o clima de paz e tranquilidade daquele lindo local.
— Sim, Marta, eu já vi uma raposa. Na verdade, eu já vi duas raposas adultas e dois filhotes desse mesmo casal. O macho costumava ir caçar galinhas no meu galinheiro, já que a minha casa fica mais perto da floresta. Porém, depois que ele encontrou uma fêmea vinda de outra região, eles atravessaram o rio e foram morar na parte mais profunda da mata, provavelmente com medo do lince que estava caçando por aqui neste local. — Respondeu e explicou o morador ao mostrar que realmente conhecia bem a fauna da área.
— Espera, tem lince por aqui? — Perguntou Marta totalmente chocada com a revelação da informação.
— Tem sim, e lobos, ursos, lontras e carcajus também. — Listou Kaleb com a naturalidade de quem fala quantos peixes tem em um aquário.
— Lobos e ursos!? — Gritou e exclamou Marta mais assustada ainda com a mais nova revelação.
— Hahahaha...! — Riu Kaleb ao finalmente perceber o medo na voz da mulher. — Sim, Marta, esta floresta é realmente bastante cheia de vida. Mas você não precisa se preocupar muito, pois na parte em que estamos só existe uma alcateia de lobos, uma mamãe urso e seu dois filhotes, um urso macho que é o pai dos mesmos, um único lince e eu não lembro se tem mais de um carcaju por aqui. — Respondeu e explicou Kaleb na tentativa de acalmar a nervosa arqueóloga.
Marta, porém, não aparentou ficar mais calma e ao olhar para todos os lados e não ver nada demais além de plantas e uma pequena lagartixa grudada a uma árvore, a curiosa arqueóloga perguntou — Por acaso nenhuma pessoa já foi atacada por ursos, lobos ou outros animais selvagens do tipo por aqui, certo? —
Por um instante os contos de caçadores atacados e devorados por ursos e lobos surgiram nas lembranças de Kaleb, mas ao perceber que aquele fato com certeza deixaria a já assustada mulher mais apavorada ainda, o esperto guia apenas concordou com a cabeça e ao mostrar um revolver que o mesmo trouxera consigo para a caminhada, respondeu — Não se preocupe, os animais não vão nos incomodar pois a maioria caça apenas durante a noite; e os ursos raramente aparecem para humanos. Os moradores da vila mesmo temem muito mais as fadas, gnomos, trolls, duendes e lobisomens que vagam por aqui do que um carcaju ou lince furioso. —
— Duendes? — Indagou Marta antes de abandonar o seu medo e abrir um sorriso de dúvida sobre as palavras dita pelo esperto e belo rapaz.
Kaleb: — Sim, duendes. Segundo os mais velhos eles eram bastantes hostis com os primeiros moradores humanos desta região. Existem até duas espécies deles por aqui: os goblins e os trasgos. —
Marta: — Trasgos? —
— Sim, trasgos. Eles são uns tipos de duendes mais orelhudos e de cor variada; costumam fazer bastante travessuras e em alguns lugares são chamados de Hobgoblins. — Contou e explicou Kaleb detalhadamente.
— Senhor Kaleb, você por acaso não acredita nesses contos, acredita? — Perguntou Marta ao perceber como o rapaz falava com tanto gosto.
— Se eu acredito? — Indagou Kaleb sorrindo. — Eu já vi os malditos trasgos pessoalmente. Os pestinha são bem mais comuns desse lado do rio do que os goblins. Uma vez alguns entraram na minha casa e quase não saíram de lá por três dias. — Segredou Kaleb com tanta naturalidade que até parecia estar falando de um fato do dia a dia.
Marta então começou a rir tão alto que acabou assustando um coelho que saiu correndo detrás de uma moita para ir se esconder direto em sua toca.
— Sir Kaleb, eu não consigo acreditar que o senhor crer mesmo que tais lendas e contos infantis sejam reais! O que o senhor já viu mais por aqui, um lobisomem? — Indagou e zombou Marta totalmente descrente da história contada pelo simpático homem.
Kaleb logo percebeu que a arqueóloga era totalmente descrente sobre os contos e lendas que rodeavam aquela região. Então ao apontar para uma direção onde um caudaloso rio corria sem parar, o nativo falou — Por aqui o máximo que já encontrei foram três trolls, duas fadas, quatro gnomos, sete duendes; um goblin e seis trasgos, e sim, também já vi um lobisomem (Se bem que não é bem um lobisomem...), mas a questão é que, se você quer encontrar criaturas mágicas e ver se elas existem ou não, o local ideal é depois do rio, onde a floresta é escura e profunda e todos os moradores da região lhe dão o nome de bosque negro. Lá você encontrará muito mais seres do que aqueles que eu lhe falei que existem por aqui. Porém, cuidado, nem todos os que vivem por lá são pacíficos. —
Marta se sentiu tentada a duvidar novamente da fala do rapaz, mas Kaleb havia falado com tanta convicção e certeza em suas palavras que a sábia arqueóloga apenas decidiu mudar de assunto e continuaram conversando sobre o tempo e outras bobagens até chegarem nas ruinas que Kaleb havia comentado anteriormente.
Ao chegar Marta logo avistou um homem vestido de roupas cinzas bastante velhas e usando um boné azul, o mesmo carregava um livro e parecia observar as paredes através das lentes dos seus pequenos óculos com uma lente tão pequenininha que a atenciosa arqueóloga logo se questionou o porquê de ele utilizá-lo.
— Olá Vellt! Eu não sabia que você estava por aqui hoje. — Falou Kaleb ao avistar o seu velho amigo e mentor.
— Olá Kaleb, olá senhorita. Eu estou apenas matando a saudade dos velhos desenhos das pilastras e paredes dessas ruinas. Você mais do que ninguém sabe como eles são sentimentalmente importantes para mim. — Explicou o misterioso homem ao cumprimentar os recém-chegados.
— Vellt, esta é a senhorita e arqueóloga Marta ortes. Senhorita Ortes, tenho um imenso prazer em lhe apresentar o interessantíssimo Vellt Violeta. Ele é quem mais entende sobre essas ruinas por aqui, e foi ele quem me ensinou quase tudo sobre este local. — Apresentou e explicou Kaleb sem muitos rodeios.
— Oh, é um prazer e uma sorte maravilhosa conhecê-lo, senhor Vellt. O senhor também é arqueólogo? — Perguntou Marta bastante curiosa e empolgada por conhecer alguém que provavelmente poderia saciar a sua sede de curiosidade por um bom tempo.
Vellt então sorriu lisonjeado pela a aparente admiração da curiosa mulher, e ao fazer uma nobre e educada reverência para a mesma, o de boné e óculos respondeu — O prazer é reciproco, minha amiga sedenta pelo passado. Assim como você também gosto de rever memórias e velharias. Então sim, creio que somos do mesmo grupo de seres. — Concluiu o mesmo ao oferecer o livro que ele carregava para a arqueóloga dá uma checada.
Marta logo agarrou livro, mas antes mesmo que ela pudesse abrir, Kaleb falou — Ela já leu as cópias que eu tenho lá em casa, Vellt. Eu não traria alguém até aqui sem estar devidamente preparada. —
Vellt então sorriu novamente e ao receber seu livro de volta das mãos da mulher, apontou para as ruínas e falou — Como você já sabe pelo livro, minha curiosa amiga, essas ruínas são de uma pequena população humana que desapareceu misteriosamente e sem deixar rastros. —
Marta então se admirou maravilhosamente ao observar as velhas pilastras de pedras outrora brancas, mas agora completamente cobertas por plantas trepadeiras e musgos por quase toda parte.
— Porém — Continuou o de óculos e boné — Se você souber onde procurar e retirar um pouco das plantas que aqui fazem morada.... Você encontrará maravilhas escondidas. — Finalizou o mesmo ao retirar umas trepadeiras da frente de uma pilastra e revelar um desenho de uma criatura bastante estranha gravado na pedra.
— Que magnifico. — Comentou Marta ao se aproximar e tirar uma foto com o seu celular. — O que será que significava essa gravura? — Perguntou a mesma tentando decifrar a imagem de algo que parecia um bebê com um rosto extremamente deformado.
— Ah, isso foi uma tentativa bastante humilde de representar um goblin, provavelmente feita por alguém que nunca viu um antes, é claro. Apesar de que, na minha opinião pessoal, a feiura ficou bastante fiel aos originais. — Explicou e comentou Vellt com um sorriso bastante sapeca no rosto.
— Hahahahaha.... — Riu Marta sobre a piada do brincalhão. — E aquela estatua bem preservada ali? É uma figura de alguma sacerdotisa ou deusa da fertilidade? — Perguntou a arqueóloga ao tirar mais fotos desta vez de uma estátua de uma bela e bem detalhada mulher nua.
— Ah, esta é a figura de representação da ninfa Natyelt. Os Gielfis, que eram como eram conhecidos os humanos que habitavam este lugar, adoravam este belo e atraente ser tanto quanto os elfos. — Respondeu e explicou Vellt com toda a paciência e boa vontade do mundo.
— Então eles realmente acreditavam em trolls, elfos, ninfas e duendes, certo? —
— Exatamente. — Respondeu Vellt ao mostrar algumas figuras no chão que representavam vários seres mágicos e até mesmo alguns animais da floresta. — Eles não só acreditavam como eles eram inimigos e aliados de alguns desses seres. Afinal, foram os elfos que os ensinaram todos os segredos das florestas e da natureza e depois os levaram para o reino mágico de Álfheim, onde eles não precisariam mais temer todos os perigos deste local. —
— Perigos, que tipo de perigos? — Perguntou Marta bastante confusa.
— Sim, perigos, minha querida. Os goblins eram bastante chatos e insistentes, mas não eram eles os mais perigosos nesta região. — Explicou Vellt com um tom de voz extremamente sério.
Porém, antes que Marta pudesse indagar o sábio homem sobre quais perigos ele realmente se referia, Kaleb interrompeu a fluida conversa e falou — Vellt, nossa amiga não acredita e nem conhece sobre as lendas e criaturas locais. Então se possível, porque não á deixamos explorar melhor as ruinas agora e depois contamos toda as histórias e lendas deste antigo povo? —
O de óculos pequeno e olhos violeta apenas entendeu e concordou com a cabeça, e ao retirar uma pequena lupa de seu bolso interno, a entregou para a arqueóloga e falou — Então fique à vontade para explorar e investigar a escrita e linguagem deste antigo povo, minha querida. Eu garanto que você nunca viu algo parecido.
Marta logo pegou a pequena lupa e ao agradecer com um sorriso e um singelo aceno de cabeça, a curiosa exploradora observou a estranha e minúscula escrita gravada na base de algumas pilastras bastante velhas do local e falou — Magnifico! Não parece ser de nenhuma língua indo-europeia que eu conheça. Será que se trata de algum tronco linguístico anterior? Algo como o idioma basco? —
Vellt então apenas sorriu e ao olhar de relance para Kaleb que também estava sorrindo em segredo, o misterioso e sábio homem ajeitou os seus pequenos óculos e falou — Talvez seja, minha amiga. Ou talvez seja algo de outro mundo. — E então deixou que a mesma explorasse em paz pelo resto do dia.
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