Nature and Gods.
1 A cidade branca.
Notas iniciais
Era de noite na antiga e bela cidade branca, onde na praça, bem embaixo do enorme pé de marula, a velha e gorda Mamalu se preparava para contar mais uma história das várias aventuras de Ohjá; o poderoso deus protetor, criador e patrono da cidade.
Várias crianças estavam sentadas em volta da velha negra e gorda, e entre os adultos que estavam presentes, apenas Caimrut, que era o chefe da nobre e honrada guarda da cidade, se destacava como o único homem imortal naquela reunião.
E enquanto isso, em uma janela de uma casa próxima a praça, Glades, o guerreiro campeão e representante de Ohjá, observava o brilho branco da lua refletir em todos os tijolos e pedras brancas da cidade, enquanto desfrutava de um generoso copo de licor de marula madura.
— Esta cidade é branca demais. — Resmungou Glades antes de dar um guloso gole em seu copo feito de cristal bastante brilhante e raro.
— Uma cidade branca para um povo negro. — Falou Lumba, esposa de Glades, ao se aproximar de seu marido acompanhada da mais nova bebê do casal.
Glades apenas sorriu ao ver o rosto fofinho e simpático de sua pequena filhinha, Jasiri, que esfomeada se agarrava e mamava no seio direito de sua mamãe formosa.
— Eu sinto falta de ver paisagens com cores diferentes. Até porque se não fosse pelo nosso povo, as árvores, o ferro e o céu, eu realmente passaria a acreditar que o mundo todo é branco. — Comentou Glades ao se aproximar de sua esposa e lhe acariciar os cacheados cabelos.
— Você não gosta da cor branca? — Perguntou Lumba antes de sorrir e fazer Glades reparar em quão branco era o brilho de seus perfeitos dentes.
Glades então deu mais um gole em sua doce bebida e ao perceber que a curiosidade de sua amada era infinita, ele respondeu — Eu apenas sinto falta de nossa terra mãe; pois quando fui capturado e treinado para matar outros homens, o que eu mais desejava era retornar para nossa gente, mas quando eu finalmente retornei, não demorou duas semanas para que Ohjá trouxesse todo nosso povo para cá. Para uma cidade branca no meio dos céus. — Finalizou o forte guerreiro com certa nostalgia no olhar.
— Ohjá fez isso para nos proteger, meu amor. Ele nos deu a imortalidade e também a dará para nossos filhos apenas porque você arriscou a sua vida e liberdade pela vida e a liberdade de nosso povo. Você é um herói, meu amor, um verdadeiro herói de Nuanda. — Falou Lumba com profundo orgulho e admiração por seu marido.
— Nuanda é uma cidade e um povo zumbi, meu amor. Quase todos que viram nossa cidade, nosso povo e nossa nação enquanto ela ainda estava na terra, ou estão mortos ou se transformaram em Ghouls há muito tempo; pois você deve lembrar que nós nos separamos de nossa terra mãe há aproximadamente dois mil anos romanos. — Argumentou e explicou Glades com um tom de saudade na voz.
— Não fale desse povo aqui, Glades! Você sabe que eu odeio tudo o que eles fizeram com você e seu corpo. — Falou Lumba ao aproximar a mão direita e tocar uma cicatriz de corte profundo cravado na pele do braço esquerdo de seu amado.
Naquele momento Glades se sentiu mais amado do que nunca por sua esposa, e ao decidir mudar de assunto para agradá-la um pouco mais, falou — Kurito me avisou que nosso senhor deseja falar comigo ao amanhecer. Ele me falou que aparentemente Mamalu finalmente encontrou o local onde está a faca e a mbira de Ohjá. —
Lumba então ficou bastante feliz ao ouvir a novidade sobre os valiosos pertences perdidos de Ohjá, e ao balançar e beijar sua filhinha, que agora já estava bem alimentada e tranquila, exclamou — Que a visão de Mamalu esteja certa! Faz tanto tempo que nosso senhor procura por esses poderosos artefatos. —
— Sim. — Concordou Glades. — A faca dourada é capaz de cortar qualquer coisa, enquanto a mbira do vento pode controlar todos os espíritos com o seu som. — Relembrou Glades com um olhar de pura esperança.
Lumba também se esperançou com a ideia da recuperação de tais itens, e ao olhar pela janela e avistar a velha Mamalu contando contos antigos para várias crianças, adultos e velhos, a bela morena perguntou — Você acha que nosso senhor vai pedir para que você vá recuperar as relíquias lá embaixo? —
Glades apenas largou o copo de cristal por cima da mesinha de ferro mais próxima da janela, e ao olhar para a praça lotada, respondeu — Eu espero que sim. Pois você mais do que ninguém sabe o quanto eu anseio por ver o mundo lá debaixo novamente. —
Lumba então ficou um pouco mais feliz por seu marido, e ao encostar a cabeça em seu ombro, perguntou — Caso seja este o motivo, você irá sozinho? —
Glades então se inebriou do carinho oferecido pelo corpo quente de sua amada, e ao abraçá-la carinhosamente, respondeu — Não. Se eu for levarei Kurito comigo e deixarei a proteção total da cidade nas mãos de Caimrut e sua guarda. Pois o velho comerciante nortenho já demonstrou sua bravura e habilidade com armas inúmeras vezes. —
Aliviada com a informação, Lumba beijou a bochecha esquerda de seu marido, e ao sorrir novamente, falou — Me alegra que não irás sozinho até aquele lugar hostil. Pois segundo Mamalu, os brancos já tomaram e povoaram quase todo o chão. —
Glades apenas sorriu ao perceber o medo que sua esposa tinha da tal gente branca que ela mal avistara enquanto vivera na terra, mas para não a preocupar e estender ainda mais a conversa, o grande e forte homem colocou a sua bela e risonha esposa em seus fortes e musculosos braços, junto com sua pequena filhinha, e as levou até o quarto, onde o pequeno e jovem Durudu, de apenas sete anos de idade, dormia ao lado de um filhote de leão branco chamado Kamba, por sobre uma cama forrada com a mais pura seda produzida pela própria cidade.
— Aqui, vamos imitar nosso filho Durudu e dormir que já está tarde; sem falar que nós não tivemos a sorte de finalmente ter dois filhos em tão pouco tempo, depois de centenas de anos de tentativa, apenas para nos preocuparmos com o amanhã e não com o hoje. — Falou Glades ao deitar sua amada e a sua filha por sobre uma enorme e confortável cama de casal.
— Durma conosco, guerreiro, pois sentiremos vossa falta quando você partir para o chão. — Sussurrou Lumba com uma voz tão sedutora e atraente, que deixou Glades duro e pronto para amá-la pelo resto da noite.
— Dormirei sim, minha vida, pois não há lugar melhor neste mundo que não seja ao teu lado. — Confessou e agraciou Glades antes de se deitar ao lado de sua família e dormir em paz pelo resto da noite.
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