Naturally 2.0

2 Dois - depressão


dois

Um mês havia se passado desde que eu havia viajado para casa de vovó. Eu estava ansiosa para voltar logo. Não via a hora de encontrar Percy faltavam duas semanas para as férias acabar e dava para aproveitar pelo menos um pouco e queria, também, dar a maior bronca nele.

Ele havia prometido me ligar todos os dias, mas durante esse tempo não recebi noticia alguma sobre ele. Percy não tinha celular, era quase impossível encontrar ele desse jeito. Passei as férias toda esperando por um telefonema, e-mail, carta, telegrama, mensagem de voz, mas nada. Não ouvi sequer falar em Manhattan nesse ultimo mês.

Assim que chegamos, mamãe me proibiu de sair de casa até arrumar todas as minhas coisas. Quando terminei saí de casa e atravessei a rua, bati na porta e fiquei esperando.

Ouvi algumas risadas do mongoloide – do Gabe – e revirei os olhos, ele abriu a porta.

– O que você quer, chatinha?

– Vim te ver, titio. – Disse ironicamente – Sentiu saudades? – Arqueei a sobrancelha.

– Desembucha logo que eu quero voltar pro meu jogo. – Respondeu perdendo a paciência.

– Chama logo o Percy! – Respondi também.

– Ah, meu Deus! Ele não te contou? – Revirei os olhos – Percy e sua mãe se mudaram... – Ele fez um ‘O’ com a boca, ironicamente. – Assim que você entrou no carro ele e a mãe dele fizeram as malas. Nunca mais voltarão.

– É mentira! – Gritei. Meu coração estava batendo a mil, isso não podia ser verdade, Percy nunca me abandonaria. – Percy, tia Sally! – Chamei.

– Grita, sua chatinha, grite a vontade, eles não vão aparecer. – Continuei gritando e Gabe se irritou. – Tchau, eu tenho mais o que fazer do que ficar vendo uma pirralha em pânico. – Ele bateu a porta na minha cara e algumas lágrimas escorreram de meus olhos.

O Percy não poderia ter feito isso comigo... Ele prometeu nunca me abandonaria, promessas são promessas, ele prometeu que nunca nos separaríamos. Dei a volta na casa e entrei pela porta dos fundos silenciosamente. Eu ia provar que Gabe estava só mentindo pra mim.

Subi correndo para o quarto dele, entrei e reparei que estava do mesmo jeito que estava no dia em que eu fui embora, quando subimos ali para ficar conversando. Algumas roupas jogadas no canto do quarto, a cama bagunçada, tudo exatamente igual. Respirei fundo e abri o guarda-roupa, as lagrimas começaram a cair mais rápido. Gabe estava certo, Percy havia realmente me deixado. Saí logo daquela casa que só me trazia lembranças dele e entrei correndo na minha.

– Tudo bem, querida? — Perguntou mamãe assim que me viu entrar.

Nem me dei ao trabalho de responder e entrei em meu quarto.

– Que merda, Percy, tudo lembra você. – Eu disse olhando para um porta-retratos em minha cabeceira onde havia uma foto de nós dois juntos. Peguei-o e o arremessei contra a parede. Eu já estava sem fôlego de tanto que chorava.

Levantei-me e peguei a foto em meio aos cacos de vidro e guardei dentro de uma madeira solta do meu piso, junto com algumas cartas que ele havia me mandado e cada mínimo detalhe da nossa vida juntos, como uma flor que ele havia me dado há três anos, ela estava seca, mas bem conservada e meu diário, sim, pode parecer brega ou clichê, mas todas as noites eu escrevia em meu diário, era uma forma de desabafar tudo que eu estava sentindo.

E foi ali dentro daquele quarto que eu chorava todas as noites. Meus pais já não me perguntavam mais o que estava acontecendo ao ver que eu não respondia. Eu mal abria minha boca e quando falava algo eram duas ou três palavras no máximo. Eu não conseguia arrancar aquela tristeza de dentro de mim, e se alguém falasse de Percy recebia um olhar fulminante em troca. Só queria me livrar dele, só queria que todas as lembranças dele saíssem da minha cabeça e que cada lugar que eu fosse não lembrasse ele.

Faltavam três dias para o fim do verão, três dias para o fim das férias. Papai tinha decidido aceitar uma proposta de emprego em Londres, que só não aceitou antes por minha causa, mas eu estava decidida a esquecer de Percy e disse para ele que por mim tava tudo bem e que eu adoraria ir para Londres.

Fechei o zíper da ultima mala e chamei meu pai para ajudar-me a descê-las e fechei a porta do quarto me recusando a pensar nele, as lembranças não viriam, não permitiria-me a chorar mais por ele.

Desci as escadas correndo e tranquei as portas de casa. Passei pela casa em que ele morava e me permiti a dar uma ultima olhada. Repuxei minha boca em um biquinho, segurando o choro e entrei no taxi.

– Vamos embora daqui, papai. – Eu disse deitando- me em seu ombro.

Já estávamos no avião quando me lembrei de uma coisa muito importante. Droga, me xinguei internamente. Eu me esqueci de pegar as coisas que estavam no piso solto do meu quarto, inclusive meu diário, minha sorte era que só Percy conhecia aquele esconderijo, agora era só torcer para ninguém encontrar.

Percy’s Point Of View

Cheguei em casa do acampamento, já estava tudo bem, Graças aos Deuses.

– Mãe, tô indo ver a La! – Avisei para ela.

– Vai sim, filho. Ela deve estar muito brava porque você não deu noticias o verão inteiro. – Mamãe fez careta.

– Te vejo mais tarde, se eu voltar vivo. – Nós rimos e eu saí. Aproximei-me da casa de La e reparei que havia algo na janela.

VENDE-SE

Como assim? A La havia se mudado? Sem me dizer nada? Sem se quer me deixar um bilhete? Mas pra onde ela havia ido? Ela com toda certeza não tinha o direito de fazer isso! Não comigo!

Peguei uma chave que tio Peter sempre deixava em cima da calha e entrei na casa. A primeira coisa que fiz foi jogar aquela placa para bem longe. Ninguém ia morar na casa da minha Laysla.

Subi correndo para o seu quarto, estava vazio, exceto pelos móveis. Nada em canto nenhum, nada no guarda roupas, nada. Estava saindo do quarto, com uma dor imensa dentro do peito, quando tropecei em um pedaço meio solto da madeira. Caramba! A madeira solta do piso. Levantei-a um pouco e vi que tinha varias coisas ali dentro. La nunca me deixou ver o que tinha ali. Comecei a tirar as coisas de lá. Uma foto nossa, aquela que sempre estava na sua cabeceira. Observei-a e não pude deixar de sorrir. Havia uma tulipa ali, uma que eu havia lhe dado há três anos, estranhei o fato de ela ainda estar viva, como se tivesse sido colhida ontem, e não seca. Havia varias coisas. Queria entender o porquê de Laysla ter deixado tudo àquilo pra trás. Peguei mais algumas coisas e vi no meio de um monte de cartas e bilhetes meus um livrinho.

– Droga é o diário da La. – Eu disse o abrindo. Ela não havia deixado tudo àquilo para trás. La e sua cabeça, ela havia se esquecido totalmente de levar. Aonde quer que ela fosse ela sempre levava seu diário.

Abri seu diário na ultima página, era de três dias atrás:

“Não aguento mais tudo isso, cansei, ninguém acredita em mim quando eu conto o que está acontecendo, ninguém pensa se eu estou bem, se estou precisando de um colo, de um carinho, só querem saber o porquê de eu estar triste, mas ninguém para pra pensar que eu não quero falar sobre isso, porque esse assunto dói; pensar nele dói, não quero me machucar mais, sei que ele conquistou um pedaço enorme do meu coração e que eu não vou conseguir tira-lo do meu peito de uma hora pra outra, mas eu estou tentando e isso é o que me importa. Eu sei que um dia, ele vai sair da minha cabeça, sei que um dia, eu vou esquecer ele, pois tenho quase certeza de que eu nem passo pela cabeça dele, que eu sou apenas mais uma idiota na vida dele. Nada adiantam as promessas, nada adiantam os juramentos se é para se quebrar, nunca mais prometerei e ninguém prometerá nada para mim, porque promessas são quebradas, sempre. Ontem, papai veio conversar comigo, ele decidiu aceitar aquela proposta de emprego, e queria saber o que eu achava, disse que por mim tudo bem, não tinha mais nada pra fazer aqui, não tinha ninguém neste continente idiota, pra que se apegar a um garoto idiota? No fim ele vai te magoar, como todo mundo. Ele vai te enganar, te fazer pensar que é importante e te magoar, quebrar seu coração em mil pedacinhos, pedacinhos que mesmo você colando, seja com fita adesiva, seja com cola, vai continuar faltando um caquinho. Então é isso, amanhã, vamos viajar, para um lugar bem longe, para nunca mais voltar, quero refazer minha vida lá, quero esquecer tudo que um dia eu tive em Manhattan, todos que um dia eu amei em Manhattan, porque esse lugar idiota, só me faz lembrar ele. Ele que me magoou tanto. E sinto muito, aqueles que um dia gostaram de mim de verdade, mas eu preciso sair deste lugar, sem me despedir de ninguém, odeio despedidas e isso é a melhor coisa a ser feita.”

Fiquei indignado com o que li. Como assim algum idiota a magoou, seja lá quem for, e ela simplesmente decide ir para longe? E me fez prometer que nunca iria abandona-la ou esquecê-la, mas ela, simplesmente faz o que me fez prometer? Deixa-me, me esquece e vai para longe? Por causa de um garoto? Ah, se ia ser como ela queria, se ela queria ir para longe de mim, ela que fosse e eu não ia ficar chateado por isso, tinha sido uma escolha dela. Era a cara de Laysla tomar suas próprias decisões, e não pensar no que isso ia afetar os outros. Eu odiava isso.

Fechei o diário com raiva, não queria ler mais nada, não queria mais pensar na Laysla. Não queria mais saber dela, desci as escadas e fechei a porta. Deixei uma única lagrima cair ao colocar a chave reserva de volta no lugar.