Natural Selection

8 Cap. 7: Isle of Flightless Birds


Notas iniciais
Heey, meus walkers favoritos!!! Eu estou viva!!! Mil desculpas pela demora. Meu ano está sendo uma correria e, se eu quiser passar no vestibular, eu preciso estudar, não é? T.T Estamos com 51 acompanhamentos e 12 lindos favoritos! Amo vocês, seus sobreviventes maravilhosos! Espero que gostem do capítulo. Só consegui postar porque ele estava quase pronto... Muitas das minhas fics estão atrasadas, pois não estou nem na metade do capítulo. Desculpa, gente. Sem mais delongas, boa leitura, e nos vemos lá embaixo.

Believe me you'll begin to wish you were sleeping

Your weeping will creep in your head and you'll cry

But if we wake up every morning and decide what we believe

We can take apart our very heart and the light will set us free

Isle of Flightless Birds — Twenty One Pilots

Estavam todos em silêncio. Não parecia apropriado dividir o pensamento com o próximo, a não ser que quisessem piorar o clima totalmente ansioso e irritado. Coisas de humanos... Sempre temíamos aquilo que desconhecíamos e, quando a verdade vinha à tona, a garganta fechava, um arrepio percorria a coluna e, no próximo minuto, não mais dominávamos nossas próprias ações. Os minutos, os quais se seguiram, portanto, em total quietude, foram a melhor maneira de cada um assimilar as recentes informações antes de explodirem.

As latinhas de metal, que haviam servido de pratos, encontravam-se largadas pelo espaço, pois ninguém sentia fome. Não pude deixar de me preocupar com minha segurança naquela fazenda e isso fazia minha cabeça latejar... Precisava urgentemente de um pouco de água.

Eu estava sentada, escorada a uma árvore, sentindo a luz do Sol deixar minha pele com uma sensação menos forte de solidão, como se o calor me abraçasse e dissesse "Tudo bem ter medo às vezes". Embora rodeada por vários estranhos, uma barreira invisível contra eles era uma das minhas maiores certezas da vida, e essa cerca de vidro nunca seria quebrada. Poderia até ser arranhada ou até mesmo ter sua superfície com algumas rachaduras, mas nunca ruiria. Não poderia ruir. Sabia que, no instante em que essa muralha fosse destruída, eu estaria indefesa e propensa a qualquer ataque...

Medo. Medo era uma dor constante no fim do mundo, porém, era de nossa escolha deixá-lo nos dominar ou fazê-lo uma de nossas maiores e poderosas forças. Talvez fosse algo bom: sentir medo. Pelo menos nesse quesito eu conseguia dizer que ainda era humana, que minha alma não havia sido vendida a baixo custo para o apocalipse, e era exatamente isso — se perder —, o qual não deixaria acontecer tão cedo. Abraçada ao medo, daria um jeito de fugir daquela fazenda.

Segurei com mais força a alça superior de minha mochila, atenta ao meu redor e constantemente olhando para trás da árvore para me assegurar de que não tinha um errante se aproximando. A existência de um cerco de zumbis naquele espaço fechado fazia-me duvidar da sanidade do dono daquele vasto lote de terras. Ele parecia tão sábio, quase perigoso para mim, pois temia que ele pudesse provocar uma das ranhuras em meu sistema de defesa, todavia, no momento eu considerava a possibilidade dele estar enlouquecendo pela realidade atrás daquelas cercas.

— Isso é impossível. — T-Dog, de repente, rompeu o silêncio, pensando em voz alta. — Pessoas doentes? — Bufou, negando com a cabeça, aflito. — Aquele velho é doido...

Alguns ergueram o queixo para concordar, acenando levemente, porém, sem demonstrar estarem muito interessados em falar. Shane não havia saído ainda da frente do celeiro e Daryl já havia desaparecido novamente, algo que percebi ser bem comum. O caipira deveria ser o mais distante, o mais parecido comigo... Andrea levantou-se assim que o negro compartilhou suas reflexões; talvez estivesse sendo difícil demais ouvir mais verdades; e direcionou-se ao trailer, ao mesmo tempo em que Dale, com os olhos meio arregalados, exalando preocupação, seguiu-a.

Era estranho. Eu temia por minha segurança, tanto por causa dos mortos como dos vivos, no caso, eles; só que, no final, éramos reduzidos à mesma criatura assustada, nada mais, nada menos que sobreviventes tentando sobreviver. Mordi os lábios e travei o maxilar, vendo T-Dog ajeitar a espingarda no ombro. Pensei imediatamente na confusão, a qual causei por causa do canivete. Estúpida... Se eu tivesse pensado um pouco melhor, eu poderia ter tentado ganhar a confiança de Carol e, talvez, em um futuro próximo, até poderia me referir ao canivete como algo meu.

A mulher de cabelos grisalhos encarava o chão, sem qualquer expressão aparente senão receio. Não poderia culpá-la, já que Shane fizera o favor de jogar na cara de uma mãe desesperada em achar a filha, que a garota deveria estar morta em um canto qualquer e era hora de engolir isso. Não que não fosse uma possibilidade, mas aquilo pegou Carol desprevenida. Lori tinha uma de suas mãos sobre as costas da outra, às vezes proferindo palavras de conforto ou somente tentando passar um pouco de esperança com o silêncio.

Olhei de soslaio, enfim, o filho do xerife. Eu não sabia se fazer um trato com ele foi a melhor escolha que já havia feito e também não sabia se cumpriria minha parte do acordo se ele fizesse a dele, pois poderia ser uma armadilha no final das contas. Descumprir uma promessa não era algo, o qual eu gostaria de fazer, porém, se a sobrevivência gritasse dentro de mim seria meio difícil de ignorar. É dando, que se recebe... Será que cortar esse elo, essa poderosa e verdadeira frase, custaria minha vida?

Carl estava com os lábios franzidos e com um vinco entre as sobrancelhas desde que Shane havia dito aquelas besteiras e provocado um belo pandemônio. Realmente... Sophia deveria ser alguém bem importante para todos ali, inclusive para o garoto; talvez, ainda mais para ele. Era provável que estivessem juntos antes do desaparecimento ou a amizade era deveras eterna; uma força que alimentava ambos para continuarem tentando sobreviver. Essa fraqueza no grupo de Rick perante um único membro abatido era o maior perigo... Do que eles seriam capazes de fazer?

Peguei-me fitando o adolescente novamente. Estava temerosa quanto a nossa aliança, ainda mais se considerasse a presença quase vinte e quatro horas de Lori. Rick também era um homem esperto e seria difícil esconder algo dele, até mesmo para mim. Eu imaginava, então, como Carl conseguiria guardar segredo sobre o trato. Por alguma razão, eu o via como um menininho que sempre contava tudo para os pais... Se descobrissem que eu vinha tentando levar o jovem para o mau caminho, o xerife não seria mais capaz de zelar por minha vida no meio de todos aqueles estranhos sedentos por minha morte.

Já fazia um bom tempo que o pai de Carl havia entrado na casa de Hershel a fim de convencê-lo a fazer algo quanto ao celeiro e eu estava começando a ficar mais apreensiva a cada segundo que se passava. Paciência... Precisava ter paciência antes de fazer qualquer coisa precipitada, da qual me arrependeria logo depois. Eu duvidava um pouco que fosse possível fazer o senhor mudar de ideia. Pessoas doentes... Nunca havia parado para pensar por essa perspectiva; para mim, já tinham perdido sua humanidade, sua essência humana e, portanto, não dava para imaginá-los como vítimas de uma injusta doença.

De repente, avistei ao longe a figura do xerife saindo da casa de Hershel. Era difícil dizer por sua postura, à considerável distância de quase vinte metros, qual era o veredicto, porém, não parecia algo bom. Ele começou a dar passos firmes e decididos, todavia, não em nossa direção. Expressei uma momentânea confusão e curiosidade, mas logo tratei de escondê-la ao engolir em seco, preocupada de estar sendo observada, mesmo a maioria estando absorta em seus pensamentos.

Rick conversava com Shane, o qual finalmente havia se afastado um pouco do celeiro, entretanto, mantinha-se perto o suficiente. Não dava para filtrar informação alguma e eram os meros detalhes que decidiam se a pessoa conseguiria viver ou não. Eu estava perdendo os detalhes e tinha plena noção disso. Desvantagem...

Como única saída, passei rapidamente o olhar por cada rosto desatento em suas próprias reflexões e verifiquei que eles não estavam exatamente ligando para a minha presença no momento. Esperei, então, Carl arquejar e levantar levemente o rosto para arejar seus pensamentos conflituosos e, nesse pequeno período de tempo, ele pegou de relance minha mensagem. No início, ele abaixou a cabeça imaginando ter sido uma coincidência, só que, insatisfeito com essa ideia, voltou a procurar por meu rosto, deparando-se com meu olhar mais uma vez.

Ele havia notado que eu o encarava intensamente e de modo proposital, porém, somente ao perceber que eu não tentava disfarçar, entendeu o que tinha nas entrelinhas. Sustentando meu olhar, o menino franziu as sobrancelhas, como se perguntasse a razão daquela conversa silenciosa, e, em resposta, eu arqueei a sobrancelha direita e entortei levemente a cabeça para o mesmo lado algumas vezes. Foi algo bem delicado e imperceptível para quem não houvesse pegado o assunto desde o início.

Carl franziu novamente as sobrancelhas e atentou-se à direção mostrada por mim. Eu continuei fitando-o: o queixo apontando diretamente para baixo, mechas de cabelo formando uma cortina castanha ao redor de meu rosto, porém, meus olhos teimavam em acompanhar o raciocínio dentro da mente do jovem. Eu quase via as engrenagens do garoto trabalhando e, após alguns segundos, algo em sua expressão iluminou-se e eu sabia que ele havia, enfim, entendido. Voltando a me olhar, assentiu uma única vez vagarosamente, no entanto, de maneira cautelosa.

— Vou andar por aí. — Anunciou com a voz baixa.

— Carl...

Ele fitou Lori e forçou-se a suavizar a expressão, algo que me surpreendeu. Foi algo verdadeiro ou ele estava enganando a mãe muito bem? Se o menino conseguisse manter aquela postura, talvez nossa aliança tivesse melhores e maiores chances de não ser descoberta, afinal.

— Sei me cuidar, mãe. — Deu um leve sorriso de lado. — Volto logo.

Meio à contragosto, a mulher acenou, concordando, e logo senti seu olhar desconfiado e quase ameaçador sobre mim, mas a silhueta de Carl, o qual tinha se levantado, passou a esconder Lori de meu campo de visão conforme caminhava até mim, poupando-me da necessidade de revidar o sentimento de inimizade.

Para não evidenciar minha participação na escolha do adolescente, permaneci sentada, quieta, como se não estivesse planejando exatamente ir com ele. Aguardei sua presença à minha frente e lentamente ergui o rosto para fitá-lo com um semblante de poucos amigos, o qual não precisei me esforçar muito para fazê-lo vir à tona.

Levantei, respirando fundo, como se fizesse um grande sacrifício, coloquei a mochila nas costas e passei as mãos por minha calça para tirar os resquícios de terra e grama. Uma leve sensação de tontura nublou minha visão por alguns segundos e imediatamente passei os dedos perto de minha têmpora, em uma ação instintiva. Uma tênue dor despontou da região, mas nada que eu não pudesse suportar, afinal, já vivenciara coisas mil vezes piores. Escondi meu mal-estar com todas as minhas forças. Estava com uma postura quase serena, porém, ainda furtiva, para deixar mais claro ainda que não confiava em Carl, embora tivéssemos feito uma aliança. Não poderia me esquecer de que ele era um dos inimigos...

Começamos a caminhar e a sensação ruim dissipou-se momentaneamente. Estávamos seguindo diretamente até Rick e Shane, deixando muito explícito que ambos representavam nosso destino; a causa de termos nos afastado do grupo. Sem explicações aparentes, portanto, passei a andar levemente para a direita, não dando outra escolha a Carl senão me seguir para não chamar atenções desnecessárias. Estávamos nos afastando dos dois adultos, no entanto, meu plano era somente disfarçar e, aos poucos, nos aproximar deles.

— O que você acha que aconteceu?

Imediatamente fitei o garoto, mas logo estreitei os olhos e voltei a atenção à paisagem. Minha vontade era a de simplesmente responder "Só porque fizemos um trato, não significa que sou obrigada a falar com você toda hora", contudo, suprimi essas grossas palavras e limitei-me a franzir a testa, também curiosa e pensativa, e dei de ombros.

Carl bufou, frustrado, e eu mais uma vez encarei o filho do xerife, agora também levemente irritada. Eu não possuía respostas para tudo, então, por que ele fazia questão de ficar bravo por uma coisa daquelas? Era o grupo dele, não o meu. Eu era a refém; eu não tinha o direito e a oportunidade de perguntar a Rick qual era o veredicto, enquanto ele sim... Já estava ficando bem claro o quanto minhas suposições acerca da chatice do menino eram verdadeiras: ele não passava de um filhinho de papai prepotente.

Com uma das sobrancelhas arqueadas, deixando explícito meu aborrecimento, indaguei, retórica:

— Algum problema?

O jovem ficou surpreso por ouvir minha voz, mesmo esta sendo carregada de ironia e raiva, mas aproveitou a chance para expressar o fruto de suas reflexões.

— Você vai ficar calada toda hora que eu pergunto alguma coisa? — Ele fez sinal de reprovação, evitando contato visual, como se eu fosse um ser digno de pena; um ser cujas ações tornavam-me descartável. — Olhe para você: sempre se achando superior e tudo mais, porém, não tem nem coragem de falar quando está entre nós.

Minhas bochechas esquentaram ainda mais, agora de irritação. Se ele ao menos entendesse o que eu passei e...

— Você não passa de uma covarde; alguém com medo da própria sombra, dos próprios pensamentos... Você está aqui, a salvo, enquanto Sophia está lá fora, sozinha e, com certeza, sobrevivendo. Ela tem motivos para ter medo... Ela tem. — O menino, enfim, fitou-me, abaixando seu tom de voz, porém, com a mesma postura crítica. — Nós fizemos um trato e você continua sem falar; está com medo de falar, algo de que você não tem direito. Eu pensei que já havíamos passado dessa fase.

Recebi sua opinião com um baque. Várias imagens percorreram minha mente na hora, fazendo a tontura ficar ainda pior. Vi minha família unida antes do apocalipse; meu pai tentando me convencer a aprender a atirar; os noticiários sobre o fim do mundo; minha vida pós-apocalipse; cada tentativa falha deles me abandonarem pelo caminho; o dia D, em que fomos cercados; minha mãe... Foi como se eu sentisse a dor da lâmina perfurando minha pele pela centésima vez seguida, após tantos pesadelos, os quais perturbaram meu sono durante os três últimos anos. Cada partícula de meu corpo estancou e meus pelos arrepiaram, conforme eu assimilava as palavras de Carl, e minha irritação chegou ao auge.

— Pensou errado.

Era óbvio que todos se encontravam frustrados e, em um momento normal, o garoto nunca falaria aquilo para mim, afinal, ele já transparecia arrependimento e ele mesmo citara a desaparecida Sophia. Eu não ligava para o que ele achava ou deixava de achar... Então, por que doía tanto?

Eu deveria permanecer impassível como sempre; não deixar que sua opinião me afetasse como deveras havia. Por alguma razão, ter o filho do xerife ao meu lado não fazia somente a raiva surgir, como também uma sensação estranha percorrer meu corpo. O calor não só proveniente dos intensos raios solares, como também de minha pele, incomodava-me bastante, somado aos traços de suor que escorriam por minhas têmporas e a irritante dor que ia e vinha em minha cabeça.

Ainda sentia vergonha por nosso encontro no quarto de Hershel — fora totalmente imprevisível — e o fato dele ter conhecimento de minha feia cicatriz fazia esse sentimento de humilhação se intensificar. Até aquele momento, Carl não havia tido a oportunidade de perguntar sobre ela, porém, estava bem claro em seus olhares de relance e em suas expressões curiosas o quanto ansiava por respostas. Respostas, as quais se eu pudesse ser forte o suficiente, nunca teria.

Olhei para cima, bloqueando a luminosidade com uma das mãos e pensando em como estava quente e abafado, e depois fitei o garoto rapidamente com uma expressão não muito amistosa. Por falta de sorte, no mesmo instante, ele também me encarou, enquanto continuávamos nosso percurso. Seus olhos estavam com uma tonalidade mais clara, quase um azul cristalino pela claridade, e senti a necessidade de quebrar o contato visual, todavia, permaneci daquela maneira desconfortável até ambos de nós engolirmos em seco e voltarmos a atenção para qualquer outra coisa. Sua expressão parecia querer fazer menção de pedir desculpas, mas não conseguia encontrar voz para tal coisa.

Caminhamos por mais alguns minutos e, atenta, eu virava meu rosto suavemente, vez ou outra, para observar as pessoas, as quais ficavam para trás conforme seguíamos. Estavam todos absortos em suas próprias reflexões, até mesmo Lori. Por mais que ela tentasse confortar Carol, seu olhar não estava sobre a mulher de cabelos grisalhos ou sobre Carl, estavam fixos em um ponto qualquer...

Não pude evitar pensar como seria fácil simplesmente dar um golpe no jovem, naquele momento, derrubá-lo e fugir. Se ao menos eu tivesse minhas armas e... Parei de imaginar a cena: eu nocauteando com facilidade o garoto e correndo pela floresta, mais uma vez confortável e isolada de tudo e todos. Novamente seriam meu instinto de sobrevivência e eu mesma, somente nós.

Percebi, então, que Rick se afastou de Shane e voltava à casa de Hershel a passos duros. Quase que imediatamente, o adolescente e eu trocamos olhares rápidos, como se dividíssemos nossa curiosidade. Perdemos nossa chance de ouvir a conversa.

— Sabe qual é o seu problema, Carl? — Travei o maxilar, encarando, preocupada, a porta da casa de Hershel se fechar. — Você tem a doce ilusão de que não corre perigo por trás dessas cercas. Nós estamos em constante perigo. Você pode achar o que quiser sobre mim. Eu tenho meus motivos para ser quem sou, mas guarde seus ridículos "achismos" para você e o seu grupo. Você, Grimes, pode ter sobrevivido até agora, mas sem eles... — Fitei o garoto, apontando o nosso redor. — ... estaria andando por aí, morto. Pode pensar que sou idiota por ter me tornado o que sou, porém, eu sobrevivi, não é? O que vale é isso: continuo viva. E você? E a sua namoradinha? — Tentei atingi-lo, com sucesso. — Qual a serventia de ser alguém como você em um mundo rodeado pela morte?

Ele engoliu em seco e encarou os próprios pés, resmungando:

— Ela não é a minha namorada.

Arqueei a sobrancelha.

— E eu com isso? — Revirei os olhos, sentindo algo estranho ao ouvir a notícia. — Enfim, agora que perdemos tempo falando o que achamos um sobre o outro, o que sugere, Grimes? Seu papai já voltou para bater um papo com o dono da fazenda e continuamos sem respostas. — Declarei, ácida. — Então?

Carl demorou um tempo para falar. Também direcionou o olhar à porta principal e parecia refletir. O vinco entre suas sobrancelhas reapareceu e, depois de alguns minutos em silêncio, encarou-me.

— Se eu arranjar as armas... — Ele iniciou, incerto. — O que você vai fazer? Digo... — Pausou, tentando não mostrar muito interesse. — Você sabe... — Engoliu em seco. — Sobre a sua parte do acordo.

Bufei. Eu ainda não tinha certeza se iria cumprir a minha parte do trato, por isso, nem havia considerado o que poderia fazer. A cada minuto, o qual eu permanecia naquela fazenda, mais pressionada eu me sentia. Obriguei-me a pensar rápido em uma saída; atingi-lo em seu ponto fraco e despistá-lo... Era uma boa estratégia, por mais incomodada eu ficasse por ser obrigada a enganá-lo. Eu não possuía garantias de que o ajudaria.

— Inacreditável... — Forcei um sorriso maldoso, sem encará-lo. — Enquanto os mortos caminham em busca de vítimas, você quer a minha ajuda para tirar a sua mãe da sua cola... É óbvio que ela apenas está dando uma de protetora, pois se importa. — Bufei, odiando minha voz levemente rouca pela sede e pela inveja. — Enfim, se é isso que quer mesmo, eu posso armar um teatrinho: tento fugir pela floresta afora e você me traz de volta; ou talvez eu poderia ajudá-lo a encontrar a sua namoradinha. — Arqueei a sobrancelha, manipulando-o. — Encontrá-la provaria à sua mãe o quanto está pronto para lidar com esse novo mundo.

A expressão de Carl mudou. Seus olhos brilharam e eu já tinha certeza que havia tocado em um ponto delicado e importante. Eu ganharia.

O pior de tudo, entretanto, não era estar barganhando com ele, e sim, estar me importando um pouco com o problema daquele grupo. Eu já passara por algo parecido: estar perdida em uma floresta, sem minha família, pois esta decidira me deixar para trás... Talvez eu me compadecesse pela situação toda vez que me lembrava das feições de Carol. Ninguém merecia passar por uma coisa daquelas.

Rapidamente, dispensei minhas reflexões, ciente de que não poderia sentir algo assim pelo inimigo, por mais que uma garotinha totalmente sem rumo, na mata, fosse complicado. O grupo de Rick não hesitaria em me deixar à mercê das leis da natureza, portanto, não me importaria com o desaparecimento de uma integrante deste. Não me importaria.

— Eles perceberiam a nossa ausência. — Declarou, como se eu tivesse esquecido desse detalhe. — Nunca conseguiríamos sair da fazenda.

Parei de andar e respirei fundo, fitando-o extremamente séria. Eu nunca deixaria um detalhe daqueles passar... Detalhes. Carl realmente não parecia alguém adequado ao apocalipse, principalmente por estar sempre tão alheio às valiosas informações trazidas pelo ambiente. É claro que ele não havia percebido a falta de atenção sobre nós e a floresta estendendo uma de suas entradas a alguns poucos metros de distância.

— Então, deveríamos aproveitar a bela oportunidade que temos agora, não é? — Entortei a cabeça para o lado, passando a andar na direção oposta, a qual seguíamos anteriormente. — Esse tipo de chance é a forma do destino brincar conosco. — Notei sua aproximação, portanto, decidi criar coragem e prosseguir com meu tom de sabedoria. — A vida virou um jogo pela sobrevivência, Grimes. A pergunta é... — Obriguei-me a fazer contato visual de novo. — ... vamos jogar?

Suas orbes azuis ficaram mais escuras e imediatamente eu sabia que ele aceitaria. Nem esperei por uma resposta, apenas pulei as cercas e continuei a me embrenhar pela floresta.

Já fazia uns dez minutos que caminhávamos pela mata. Não havíamos esbarrado em qualquer morto-vivo ainda, porém, era só uma questão de tempo, é claro. Toda hora que Carl quebrava um galho aos seus pés, eu fechava os olhos, levemente irritada por ele nem se esforçar para fazer menos barulho. Eu sabia que andar na floresta era difícil: eu também tinha dificuldades para não chamar atenção de errantes quando várias folhas secas estendiam-se pelo solo, mas pelo menos eu tentava. O jovem andava de maneira despreocupada, nem se dando ao luxo e necessidade de colocar a mão sobre o coldre.

Estaríamos mortos se eu não estivesse assegurando a guarda sobre ambos de nós. Eu precisava cuidar não só da retaguarda, como de todo o resto, inclusive procurar pistas de que a menina desaparecida poderia ter passado por ali. Eu realmente não sabia o que procurar, na verdade. Pegadas? Indícios de luta? Tecido? Aquela busca era mais uma maneira de cumprir com a minha parte do acordo e não sentir um peso na consciência depois. Deixei passar a sensação de que estava realmente me esforçando para procurar a tal Sophia. Eles nunca fariam isso para mim... Por que me dar ao trabalho? Por quê?

— Você deveria falar mais... — Ele finalmente comentou.

— E você deveria cuidar mais da sua vida, enquanto ainda tem uma.

Senti Carl revirando os olhos e dando um mínimo sorriso, como se estivesse lidando com uma criancinha chata. Ignorei-o, tentando entender aonde estávamos e se já havíamos passado por aquele pedaço da mata, já que, se dependesse do menino, já estaríamos andando em círculos há um bom tempo. Além disso, se eu precisasse fugir, era bom ter uma rota de fuga pela floresta sem o risco de me perder por dias, e saber voltar para o acampamento improvisado de Rick também era uma boa ideia, pois, sinceramente, eu duvidava que conseguiria passar mais tempo com o Grimes mais novo. A cada passada do jovem, eu sentia que um errante surgiria pelo barulho e agarraria meu braço, acabando comigo. Caso isso acontecesse, eu faria questão de persegui-lo...

— Por que está fazendo isso?

Olhei de soslaio seu rosto cheio de expectativa e curiosidade, tentando disfarçar minha irritação. Na realidade, eu só não queria dar motivos a ele para falar mais sobre o que achava de mim. Não que eu me importasse... Bom, infelizmente, eu me importava um pouco, mas eu queria que por pelo menos alguns minutos nós não discutíssemos e pudéssemos andar em silêncio. O aconchegante silêncio. Era impossível, ao que parecia. Ele tinha esse impulso de falar mais que a própria boca.

— O que foi agora, Grimes? — Suspirei, exasperada e sem paciência. — Qual o problema agora, hein?

— Só estou curioso...

— Quando não está? — Murmurei para mim mesma, retórica. — Desembucha.

Carl revirou os olhos e retomou seu pensamento.

— Por que se ofereceu para procurar Sophia comigo?

Por alguns minutos, permaneci em silêncio. Por que eu me oferecera para procurar Sophia com ele? Era uma boa pergunta. Provavelmente para cumprir com minha parte do acordo sem atirar mais lenha à fogueira chamada Lori... Irritá-la não seria uma boa ideia, ainda mais levando o filho dela a perseguir a fugitiva pela floresta, algo que, indiretamente, estava acontecendo naquele momento. Estava ferrada do mesmo jeito, portanto. Eu me recusava a imaginar que me importava. Isso evidenciava minha fraqueza e fraqueza era uma questão indiscutível. Ser fraca estava fora de cogitação.

— Em parte, para calar a sua boca, mas ao que parece, isso é impossível. — Desviei o olhar ao vê-lo sorrir levemente, pigarreando, desconfortável. — Eu não sei, Grimes. Agora, você vai continuar falando para atrair mais zumbis ou vai se concentrar em achar sua namorada?

O garoto bufou, meio frustrado. Ele voltou a fitar o nosso redor, mesmo que essa ação fosse um tanto questionável. Ele olhava para todos os lados e, de tempos em tempos, voltava a me encarar. Eu ignorava como sempre, porque sabia que Carl queria perguntar alguma coisa para mim e eu tentaria ao máximo me esquivar de sua bateria de questionamentos.

— O que estamos procurando ao certo, Wayland?

Molhei os lábios secos, sentindo falta de líquido e pensando um pouco em uma resposta para a única pergunta construtiva que ele havia feito até o presente momento. Analisei com mais afinco o chão aos meus pés, atenta à posição das folhas secas, e ciente da sombra feita pelas árvores. Olhei para cima, agradecida pela sensação mais fresca da mata, e encarei Carl.

— Qualquer coisa que remeta à ideia de um ser humano passando por aqui.

Carl expressou deboche, como se não acreditasse em minhas palavras. Ele, então, parou de andar, fazendo-me estancar também um pouco mais a frente. Fitei-o com um ódio explícito, estampado em meu rosto com um "O que raios você está fazendo?".

— Você também não faz a mínima ideia, não é? — Ele tentou suprimir um sorriso de escárnio. — Estamos aqui fora sem saber o que fazer para achar Sophia e sem saber como voltar, é óbvio.

Travei o maxilar e coloquei as mãos na cintura. Por que raios ele era tão petulante? Se ao menos ele tentasse fazer algo de útil, no entanto, Carl queria tudo de modo fácil e...

Antes que eu tivesse a oportunidade de responder à altura, ouvi grunhidos bem conhecidos. Atenta, fiquei mais ereta na tentativa de descobrir de que lado o morto-vivo vinha. O filho do xerife também começou a olhar para todos os lados, porém, de maneira mais assustada, como se não estivesse acostumado com a situação. Eu esperava que fosse somente impressão minha.

Logo, um errante que uma vez fora uma mulher de cabelos ruivos e olhos verdes surgiu à nossa frente. Suas orbes não passavam de um verde leitoso e a pele estava toda machucada, suja de sangue e vestígios de terra e folhas secas. A criatura avançava aos tropeços; parecia que alguém já havia atingido sua perna em putrefação, mas não tardou para que ela se aproximasse e estivesse a um metro de nós.

Desviei o olhar para Carl, o qual estava paralisado conforme o morto-vivo vinha em nossa direção. Eu ainda tentava me convencer de que a qualquer momento, ele sacaria a arma e atiraria no corpo, acabando com os grunhidos e o som de dentes batendo um contra os outros em mordidas no ar, porém, minhas esperanças murcharam quando o errante tentou agarrá-lo em vão.

Praguejei, entrando na frente do garoto, e empurrei o morto-vivo com força, tentando encontrar algo para usar contra este. Não poderia pegar os objetos em minha mochila, pois poderia precisar deles mais tarde e o garoto não poderia saber, então, sem pestanejar, vasculhei a terra coberta por gramíneas e folhas caídas e, enfim, encontrei uma pedra grande o suficiente para utilizar como arma. Agarrei com agilidade e, antes que a mulher — o que já havia sido uma mulher, pelo menos — levantasse, rumei em direção ao zumbi. Este, tentou agarrar meu braço, mas antes de conseguir me arranhar, bati cinco vezes em seu crânio em decomposição. Senti algumas gotas de sangue respingarem em meu rosto, porém, não me importei. Já abandonava o corpo e atentava-me a Carl com um ódio bem justificável.

— Você nunca matou um desses?!— Nem tentei disfarçar minha perplexidade.— Você é idiota ou o quê? Como você pode estar vivo ainda? Como...

Minha voz sumiu e eu passei a encará-lo, perdida em minhas reflexões. Eu quase perguntei como ninguém o descartara ainda. Como alguém ainda não planejara abandoná-lo pelo caminho, porém, logo me lembrei que o grande motivo para Carl estar vivo, mesmo sem saber se defender muito bem, vinha do fato de não precisar lutar por sua vida. Rick e Lori protegiam seu filho com garras e dentes, sem contar com restante do grupo, o qual não hesitaria em salvá-lo, do mesmo modo. O que havia acontecido comigo era uma exceção, um azar do destino... Apenas meus pais tiveram coragem de fazer o que fizeram. Apenas eles...

— Eu poderia simplesmente desarmá-lo e fugir... — Murmurei em um tom grave, aproximando-me a passos bem calculados. — ... mas nunca conseguiria escapar, não é mesmo? — Sorri sem sentir um pingo de graça. — Pegar minhas armas e dar o fora. Eu poderia...

Não cometi o erro de revelar que não sabia usar uma arma de fogo; continuei, assim, encarando-o sem palavras. Por alguma razão mesquinha, minha visão estava nublada pela inveja e pela incompreensão. Eu nunca fora tão humana como naquele momento, desde aquele dia, três anos atrás. Eu sentia meu coração implodir, levando toda a minha essência com ele. Eu nunca me perdoaria se eu acabasse como meus pais; tão desesperados em sobreviver, que se perderam pelo caminho.

— E por que não faz isso? — Ele indagou, irritado e com o orgulho ferido. — Afinal, você faz questão de mostrar o quanto acha que somos monstros, sempre sendo essa pessoa grossa e sem sentimentos... Nós alimentamos você, cuidamos do seu ferimento! Meu pai acolheu você e é assim que você agradece?

Não pude conter uma risada sarcástica, antes de retomar minha expressão totalmente séria.

— Pode parar por aí, Grimes! — Apontei o dedo indicador, quase rente a seu tórax, como se o acusasse de um terrível crime. — Se você realmente pensa que seu pai me acolheu porque se importa, eu tenho a minha certeza de que você não foi feito para esse mundo! Você é inocente demais; burro demais... Seu heroico papai... — Absorvi a minha própria acidez e ironia com um certo temor. — ... me aprisionou aqui para que o seu grupo, e apenas vocês, ficassem seguros de pessoas como eu. Então, Grimes, não se iluda pensando que seu pai é esse bem-feitor que você pinta. Eu só estou aqui, pois...

— Cale a boca, Wayland! — Cortou-me com uma veia saltando em sua testa. — Meu pai fez com que saíssemos vivos de muitos lugares; ele fez com que não morrêssemos em uma explosão no CDC; ele se importa!

Lembrei da conversa com Rick, em que ele explicou vagamente sobre vidas perdidas e alguém que simplesmente havia desistido de viver. O homem importava-se, sim, não poderia negar, mas ele se importava com o grupo dele, somente. Os acontecimentos no Centro de Controle e Prevenção de Doenças deveriam ter afetado sua vida mais do que o esperado, todavia, isso não o fazia o herói que Carl pintava.

Eu precisava ter extrema cautela nesses assuntos. Se eu permitisse meus demônios a saírem, tudo seria destruído. A dor de ser abandonada, a saudade de minha vida ordinária, os riscos de perambular pelo fim do mundo sozinha... O que o grupo do xerife sabia sobre mim? Minha família havia morrido tentando me salvar e eu acabei sem ninguém... Era essa mentira, a qual eles conheciam, e seria a única história que sempre teriam para contar sobre mim. Nada iria mudar.

— Você está tendo a chance de ter pessoas que a protegeriam!

Novamente, não tive tempo de engolir minhas palavras de desgosto e preparei-me para rebater. Aquela discussão era estúpida! Tudo começara por causa da minha indignação sobre o adolescente não ter tido a obrigação de matar um errante. Fora a minha culpa: se eu tivesse escondido a minha mesquinha inveja, não estaria batendo boca com o filho do líder dos estranhos.

— Poupe-me, Grimes! Eu vivi tempo demais aqui fora para saber que lá não é o meu lugar! — Fitei seus olhos brilhantes com um ódio palpável. — Você realmente acha que eles estão dispostos a me proteger? Seus queridos companheiros querem uma bala na minha cabeça! Eu sou a inimiga aqui...

— Se você não agisse como age, talvez a recepção fosse diferente! — Carl adquiriu um semblante ainda mais fechado. — Você fala como se nós fôssemos monstros. Eles estão arriscando suas vidas para encontrar Sophia, todo dia! Eles se importam! Não são como você, que só consegue olhar para o próprio umbigo e é essa grossa mal-agradecida!

Minhas bochechas esquentaram. Eu só esperava que elas não transparecessem o meu rubor de pura raiva e frustração. Arfei para gritar umas boas verdades, mas ele já estava novamente falando e falando...

— Nós só nos importamos conosco? Talvez, sim. Vamos ver por esse lado, então... — Carl pigarreou, como se procurasse forças para continuar discutindo. — Sophia está aqui fora há tempo demais, mas nós não perdemos nossas esperanças! Nós nos importamos com ela! Sophia faz parte da família... Se você estivesse aqui fora, tenho certeza que, no segundo dia de buscas, ninguém mais estaria procurando-a. Sabe por quê? Você é descartável, Wayland... Ninguém sentiria falta de alguém como você; alguém que não hesitaria em abandonar o próximo para salvar a própria pele! Somos monstros, não é? Você tem razão!

Absorvi o teor de suas palavras em completo silêncio, dando passos vacilantes para trás. Eu não o encarava mais; mantinha meus olhos presos aos meus coturnos surrados, enquanto um gelado percorria minha coluna. Minha cabeça também não estava bem. Tudo rodava, tanto pela falta de água em meu organismo, como pelo peso em minha consciência, e eu sentia o estranho ímpeto de me encolher até sumir. Minha redoma de vidro acabara de receber o primeiro ataque e um arranhão bem visível mostrava o quanto minha defesa estava penando em voltar a seu posto. Vezes ou outras, minha visão escurecia e eu só queria correr para longe de meus problemas.

Ele tinha razão. Tinha razão sobre tudo. Eu só queria cerrar os olhos e dormir, inundando-me em minhas próprias lágrimas e afogando-me em minha frustração. Quem eu queria enganar? Estava evidente o quanto eu era fraca; até Carl sabia disso.

— Me perdoe, querida.

Assustei-me, assim que ouvi a voz de minha mãe, tropeçando em uma raiz, totalmente alheia de ter me afastado de Grimes a uma distância de uns dois metros. A voz... A voz dela fez com que eu sentisse sua presença e revivesse aquela cena, assim, uma dor invisível fez minha mão automaticamente tocar a terrível cicatriz. Eu era tão fraca. Fraca e descartável! Ali estava a prova: eu nunca poderia descansar e me prender a novas pessoas, pois a culpa era, de fato, minha. Desde o começo... Sempre havia culpado meus pais, mas a culpa era definitivamente minha. Eu só estava fugindo de mim mesma. Minha fraqueza denunciava a série de problemas, os quais teimavam em me seguir e que causavam discórdia na vida dos outros. Eu era um peso-morto.

Eu começara a discussão e estava fugindo dela, naquele instante. Meus demônios retumbavam em minha cabeça, ao mesmo tempo em que sentia o sangue pulsando em minhas veias, tentando se livrar de meu baú de lembranças e verdades. Minha mente — a parte racional dela — tentava travar meus pés para que eu não desse um passo mais longe sequer e enfrentasse Carl; mas minha parte emotiva só conseguia causar tremores em meu corpo e me culpar de tudo.

— Quem você pensa que é para dizer essas coisas sobre mim? — Exaltei-me com o tom uma oitava acima. — Eu estou aqui, presa nessa porcaria de armadilha; rodeada por estranhos armados e um celeiro infestado por mortos-vivos, a menos de dois dias! Você não sabe nada sobre mim, Grimes! Não sabe quem eu era e quem eu passei a ser! Você não sabe absolutamente nada sobre o que passei nessa vida, enquanto você só consegue enxergar coisas fúteis, todo preocupado em acabar com a atenção dobrada de sua querida mamãezinha. Eu vi horrores; eu vivi horrores, entendeu? E você? Quem é você para me julgar?

Após praticamente cuspir minha rebatida, dei as costas a ele e comecei a andar a passos pesados para qualquer lugar longe do filho do xerife. Mal deixei-me assimilar o rosto levemente culpado do garoto, tentando refazer meus passos desde que ultrapassamos os limites da fazenda.

De repente, senti meu braço direito sendo puxado e, ciente de quem era, impulsionei-me para o outro lado, já dando uma cotovelada forte, mesmo ainda estando de costas, aonde eu achava ser o rosto de Carl. A pressão em meu pulso desapareceu e não tardei em dar meu próximo golpe, pois sabia exatamente que o garoto havia se afastado alguns passos. Girei e dei um chute alto na lateral de sua bochecha esquerda, derrubando-o na grama rala.

Arfei com a visão nublada pelo esforço. Eu estava fraca e precisava de água e sombra urgentemente, além de sentir meu ombro esquerdo latejar de modo desconfortável. Pela cotovelada, provavelmente eu abrira os pontos... Apesar dos apesares, forcei-me a dar passos lentos em direção ao corpo caído do menino. Ele pressionava uma região próxima ao seu olho e fazia uma careta de dor. Tentei desprezar o leve incômodo em saber que eu era a responsável pelo jovem estar sofrendo...

— Você não me conhece, Grimes. — Rangi os dentes, agachando-me ao seu lado. — Você não sabe absolutamente nada sobre mim. — Travei o maxilar, ainda sentindo a dor física e psicológica. — Eu tenho meus motivos para permanecer quieta e eles não lhe dizem respeito. Continue com suas deduções... Deduza sobre meu passado, minha vida, meus motivos... — Pisquei algumas vezes, tentando clarear a visão. — ... mas não me force a fazer coisas das quais me arrependerei depois.

— Solte o pirralho.

Virei o rosto subitamente e dei de cara com o caipira, o qual possuía a besta apontada em minha direção e um semblante enigmático. Eu estava em sua mira e ele não erraria seu alvo, tinha certeza. Eu não tinha escolha senão obedecer, afinal, já acabara com o que eu tinha a fazer com o filho do xerife. Se eu ouvisse mais uma palavra sua, provavelmente eu explodiria e eu faria questão dos estilhaços atingirem Carl no final. Precisava ficar um tempo sozinha.

Lentamente, afastei-me do garoto, fitando meus próprios pés, e Daryl continuou mirando em mim, enquanto ia até o menino, que se levantava mostrando estar meio tonto pelo golpe em seu rosto. O homem deu-lhe uma encarada de soslaio só para verificar se o mesmo estava bem, apesar de tentar deixar claro que não se importava muito, mas era óbvio que sentia um pouco de preocupação por baixo de sua pose de macho dominante. Ao averiguar que Grimes viveria, voltou a atenção completamente a mim, desconfiado.

— O que vocês dois, pirralhos, estão fazendo aqui fora, hein? — Resmungou, impaciente, com um sotaque caipira carregado. — Pirralhos...

Daryl começou a andar na mesma direção em que eu ia anteriormente sem dirigir mais uma palavra sequer a nós e, certa de que não falaria com o adolescente irritante tão cedo, passei a segui-lo em silêncio, concluindo que estávamos voltando para a fazenda.

Eu estava meio envergonhada por ter perdido o controle e atacado Carl, mas ele havia merecido. Meu julgamento sobre o filho do xerife não estava errado. Ou estava? Fitei-o de relance, vendo sua expressão fechada e, em parte, abatida. Será que eu tinha exagerado? Lembrei-me, então, de todas as suas detestáveis palavras e imediatamente travei o maxilar, enraivecida. Ele havia merecido, sim.

Respirei fundo, sentindo os músculos doloridos e, principalmente, meu ombro. Este, estava latejando, e minha cabeça estava cheia, mergulhada em uma torrente de pensamentos conflituosos, demônios soltando-se de suas amarras e dúvidas acerca de mim mesma. Eu estava enlouquecendo aos poucos e, uma hora, não teria mais volta. Meu coração estava petrificado e luz alguma seria capaz de me libertar.

Notas finais
E então? Gostaram? Espero do fundo meu coração que sim. E, é claro... Alguém aqui é fã de Twenty One Pilots??? *-* Bom, tentei seguir com algumas reclamações sobre o número de diálogos, aumentando um pouco a quantidade, mas não posso fazer muito mais que isso, por enquanto, pela própria densidade e complexidade da protagonista. Se eu estivesse no lugar dela, eu nunca ficaria falando o que eu bem quisesse, afinal, eu não confiaria em ninguém a não ser em mim mesma... Espero que entendam, por favor. Esse capítulo teve bastante treta entre Carl e Kat. Não deixem o Carl Poppa irritado por causa do quesito "Sophia", gente. Fica a dica. Ele não estará em seu juízo perfeito e ficará falando um monte de coisa desagradável. Só digo isso. U.U Sério, será que a Srta. Kat ainda desmaia pela falta de água? Hmm... Enfim, como já explicado nas notas iniciais, está muito difícil ter tempo para escrever esse ano e só posso pedir um pouco de paciência a vocês, por favor. Eu sei que é chato, mas peço de todo coração. Se puderem, comentem. Eu amo ler seus comentários, gente, inclusive os de crítica. Assim, posso melhorar a cada capítulo. Amo demais vocês, meus walkers de nutella. Xxxxxx
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.