Natural Disaster
36 Capítulo 36 - Olhos nos olhos
Notas iniciais
O garoto estava visivelmente transtornado, não estava consciente, como se estivesse numa espécie de surto. Sua capacidade de raciocinar estava extremamente debilitada, e ele só pensava naquele momento em vingar-se. Havia encontrado dentro de si uma coragem para tomar uma decisão tão radical como aquela, acabar com a vida de uma pessoa, coisa que nunca havia sequer um dia cogitado em seus pensamentos mais insanos.
– Já chega Derick, você vai acabar matando ele! – Gritou Giulio, desesperado. – Você não estava falando sério quando disse que o mataria, estava!? – Derick parecia não escutar nada do que o amigo dizia, continuando a agredir Ernesto com muita vontade. – Pare Derick, pare!!! – Berrava, mas sem conseguir se mover e interromper aquela agressão. – Não faz isso! Você não é ruim, você vai estragar a sua vida por um verme como ele cara!? — Não era maldade matar alguém naquelas circunstâncias, ninguém sensato poderia dizer que aquele homem tão cruel merecia viver. E quanto a estragar sua vida, o garoto parecia não se importar com isso. – Você não é um assassino! Você é melhor do que isso! Eu juro que preferia ver esse cara morto, mas não às custas de você sujar as suas mãos com o sangue desse cara imundo!
Ernesto Bellini já agonizava enquanto o sangue escorria por um dos cantos de sua boca e Derick insistia em acertar-lhe mais socos no estômago, até ouvir essa frase que o fez paralisar. As mãos e os punhos do garoto estavam cobertos daquele líquido vermelho e ele pareceu cair em si, notando o quão sério seria matar qualquer pessoa que fosse, e que, mesmo Ernesto Bellini sendo um homem sem escrúpulos que de fato merecia uma morte sofrida, não era de sua índole fazer justiça com as próprias mãos.
Respirou fundo e largou o homem, que já estava sem forças, com o rosto sangrento encostado no cimento daquele lugar nojento. Olhou com horror para aquela cena, se perguntando como era capaz de odiar alguém tanto quanto odiava aquele homem. Percebeu que seu corpo já estava exausto e voltou a sentir as dores dos hematomas que Ernesto deixara em seu corpo.
Estava chocado com o que havia feito, mas o ódio que sentia era totalmente justificável e ainda corria intensamente por suas veias. Mesmo que não tivesse o matado, o olhava e tudo que conseguia sentir era ojeriza, respirava ódio.
– A morte seria muito pouco, muito fácil. – Ele disse em tom baixo, porém firme, após cuspir na face de Ernesto Bellini que o olhava com pavor. – Você merece anos de sofrimento e tortura. Não vou sujar minhas mãos com um monstro como você.
Derick observou pensativo Talles e Giulio amarrando novamente os punhos do homem à pilastra. Decidiu que ele mesmo iria amordaçá-lo, para que não conseguisse gritar e talvez acordar mais rapidamente seus outros comparsas até que a polícia chegasse. Pegou o pedaço de pano e se aproximou do psicopata, o olhando bem nos olhos com frieza, sem um pingo de pena de tê-lo agredido.
– Eu espero que a minha namorada e a Helena estejam bem. – Falou ameaçando-o. – Se alguma coisa tiver acontecido com elas duas, eu vou viver em função de torturar você.
– Você deveria ter me matado. – Ernesto sussurrou com dificuldade.
– Deveria!? – Derick disse revoltado encostando o cano da arma na testa do homem. – Você não é ninguém para dizer o que eu devo ou não fazer. – O amordaçou rapidamente, prendendo com bastante força. O homem era desalmado o suficiente para não esboçar qualquer reação que fosse, já não estava mais tão visivelmente amedrontado por ter percebido que Derick era bom demais para matar alguém, seu rosto agora estava sem expressão.
Talles acenou para que fossem embora enquanto tentava encontrar algum celular com um dos capangas ou nas coisas de Ernesto Bellini. Após não ter encontrado nenhum, todos decidiram então partir. Os garotos mal se agüentavam em pé, e os ex-capangas tiveram de lhes ajudar a descer aquele barranco onde se localizava o casebre. Não havia ninguém por perto para que pudessem pedir ajuda, parecia que a civilização ficava longe demais daquele local.
Enquanto tentavam descer o mais rápido possível até encontrar um ônibus ou um orelhão para que chamassem a polícia, Derick direcionou seu olhar para Martinez, que parecia um tanto quanto decepcionado:
– Não me olhe assim... – Pediu o garoto, bastante abalado. – Eu não pude, eu não consegui...Eu sou um covarde...Eu deveria ter conseguido...
– Eu é que não deveria tê-lo deixado escolher, deveria ter acabado logo com isso. – Lamentou Martinez. – Você não é um covarde... Ele quase borrou as calças enquanto você batia nele. – O homem sorriu consolando-o. — Mas ainda é um garoto... Eu deveria ter feito isso por você. Eu só espero que na cadeia Ernesto encontre alguém pior do que ele.
–
– Você não deveria ir embora... Tem certeza do que está fazendo? – Perguntou Iris Maddox. – Você deveria esperá-lo voltar...
– Esperar até quando? Isso está me destruindo. – Respondeu Catherine. – Isso não é um adeus, eu não iria largar a minha faculdade assim... Lutei tanto...– Disse enquanto as lágrimas escorriam lentamente sobre sua pele pálida. – Eu e minha mãe só estamos indo passar um tempo na cidade vizinha, com a minha tia. Se eu ficar aqui mais um dia pensando no Derick, acho que enlouqueço...
– Eu imagino o quanto deve estar sendo difícil... – Falou Iris com um tom de preocupação na voz. – Quando ele aparecer eu te avisarei... As coisas não podem ficar assim, vocês precisam conversar...
– Me ligue quando ele estiver de volta. Mas por enquanto prefiro ficar me afastar um pouco. – Iris concordou com o que Catherine havia dito, encerrando assim a ligação.
Catherine guardou seu celular e permaneceu sentada no banco da rodoviária com sua mãe. Ainda faltavam alguns minutos para que o ônibus chegasse, mas preferiram se antecipar para que não se prejudicassem devido a qualquer imprevisto.
– A que horas o ônibus chega? – A mãe perguntou a filha. – Chegamos cedo demais.
– Calma, já são nove e meia da noite... O ônibus chega em meia-hora no máximo.
Helena olhava a filha com tristeza, se sentindo extremamente culpada por tê-la deixado se envolver e se entregar tanto a um garoto que agora aparentemente só estava ferindo-a.
A garota estava se acabando, havia perdido peso por não conseguir se alimentar direito, além de olheiras e uma aparência muito abatida. Além de mal comer, também não conseguia dormir.
– Eu não deveria ter deixado isso, deveria ter impedido que você se envolvesse. – Disse a mãe enquanto acariciava a filha, reconfortando-a. – Logo eu, a quem a vida ensinou que não se deve confiar logo de cara nas pessoas, confiei no Derick, e agora ele está brincando com seus sentimentos desse jeito. – A mãe parecia indignada, pois realmente havia se convencido da sinceridade dos sentimentos do garoto. – Eu também me sinto traída... Confiei que ele cuidaria bem da coisa mais preciosa da minha vida... – Cath nada respondia, agarrando-se ao casaco da mãe, como se aquela peça de roupa tivesse o poder de protegê-la.
Quando o ônibus finalmente chegou, os outros passageiros rapidamente se enfileiraram e um a um foi adentrando o veículo. As duas então se levantaram e foram para a fila. Catherine sentiu seu telefone tremendo no bolso esquerdo, já estava nervosa pela situação em si, e pegou mais do que depressa o aparelho para saber quem desejava falar com ela. Era um número desconhecido.
– Mãe... Alguém está me ligando... – Ela disse sentindo seu coração apertar.
– Atende logo filha, veja o que é. – Respondeu a mãe, um pouco sem paciência e a garota então atendeu a chamada.
– Cath... – Derick disse com dificuldade. – Onde você está? – Estava aos prantos e ela, ao reconhecer aquela voz, se arrepiou por completo.
– Onde VOCÊ está!? Onde esteve esses dias todos!? – Cath respondeu de forma dolorosa, quase que gritando. – Por que fez isso comigo!? Eu amava você, mas hoje eu te odeio... EU ODEIO!
– Estive no inferno. – Ele estava sem forças até mesmo para falar frases curtas e chorava desesperadamente enquanto ouvia Catherine furiosa fazendo aquelas acusações. – Eu amo você! Acredite em mim! Eu nunca te deixaria! Eu estou na rua da sua casa... Ligando de um telefone público, venha pra cá me encontrar, por favor.
– Tudo que eu posso sentir é ódio. Você me fez ir às nuvens... Só pra me jogar lá de cima. – Catherine saiu da fila do ônibus e não pôde mais conter as lágrimas. – Eu estou indo... Mas é só pra dizer na sua cara que acabou pra sempre... – Desligou.
–
– Derick, agora ligue para os seus pais de uma vez! Eles devem estar muito preocupados. – Disse Giulio para o amigo.
– Ela disse que me odeia... Que acabou pra sempre... – O garoto estava desolado. – O que ela deve estar pensando que eu fiz?
– Ela vai esquecer de tudo isso quando ver o seu rosto... Você está todo quebrado, garoto... – Respondeu Talles. – Agora trate de fazer o que é preciso ser feito, avise aos seus pais que está aqui porque eu e Martinez precisamos sumir dessa cidade. Logo logo a sua garota chega. Acalme-se. – Derick assentiu e realizou a ligação.
O garoto pôde perceber o desespero em que se encontrava sua mãe. Também parecia estar muito magoada e preparada para lhe dar uma bronca, até que ele explicou a situação. A mulher mal pôde acreditar quando ouviu seu filho dizer que havia ficado esses dias todos em cativeiro, sendo torturado por um homem doente.
A ligação foi breve e Lilian o avisou que estava a caminho, vindo o mais rápido possível. Traria o Dr. Vieira, médico conhecido da família, mas ligaria antes para ambulância de seu plano de saúde. Derick precisava de um hospital, urgentemente. Era um tempo frio e a fina e constante chuva, estava se preparando para tornar-se um temporal.
– Vamos para debaixo da marquise, está chovendo demais... – Martinez disse carregando o garoto já sem forças nas costas. Talles fez o mesmo com Giulio e todos foram em direção à marquise do prédio de Catherine, afinal, Derick estava à espera dela.
– E quanto aos seus pais Giulio? – Perguntou Martinez curioso. – Não tem ninguém pra quem deseje ligar avisando que está bem?
– Exceto Derick, não há ninguém nesse mundo que se importe comigo ou que pudesse sentir minha falta. – Martinez e Talles se surpreenderam com a resposta, mas ao notarem o desconforto do jovem com o assunto, resolveram não perguntar mais nada.
– Tomara que a polícia já tenha encontrado o casebre... Tomara que aquele psicopata já esteja preso. – Disse Talles. – Não tenham medo, dessa vez dará tudo certo.
Os quatro ficaram ali aguardando até que alguém chegasse, o que demorou menos de meia-hora hora. Derick estava encharcado e ardendo em febre debaixo daquela marquise, mal conseguia se manter acordado tamanha era a dor que sentia. Quando estava prestes a fechar os olhos, resolveu se segurar nas paredes e manter-se de pé, não queria e nem podia dormir.
Levantou-se com dificuldade e quando ergueu sua cabeça novamente para observar a rua, de repente Catherine e sua mãe apareceram. Cath veio andando, movendo a cabeça de um lado para o outro, procurando por algum rosto familiar, o dele em específico.
– Cath! – Ele gritou o nome dela repetidas vezes e ela virou o rosto para a direção de onde vinha o grito.
Ele havia a avistado de longe, e após alguns segundos ela também o avistou. Aqueles olhos verde-esmeralda fitaram Derick em meio à tempestade. Catherine permaneceu parada na chuva, sem conseguir ter uma reação. O garoto então fixou seus olhos nos dela, e juntou as últimas forças que tinha para correr em sua direção.
Quando finalmente chegou, sem dizer nada, ele a abraçou. Foi um abraço desesperado, que ela retribuiu, entregando-se àquele momento, e, de tão nervosa, deixou que seu guarda-chuva caísse no chão e fosse levado pelo vento. Catherine não parou para pensar em nada, não havia ódio que fosse maior do que o amor que ela sentia por Derick.
Era forte demais para ela poder domá-lo. Apenas conseguia vê-lo ali. Ignorou todo o resto, a presença da mãe, dos dois homens desconhecidos, de Giulio, e principalmente o ressentimento que estava sentindo.
Só de encostar naquele corpo do qual tanto sentia falta, seu lado racional parou de funcionar, deixando com que o coração controlasse suas ações. Ela o acolheu em seus braços, fechando os olhos e deixando que o garoto a beijasse. Os dois se mantiveram por minutos ali em um beijo intenso, enquanto a chuva caía em seus corpos, misturando-se com as lágrimas que escorriam pelo rosto de ambos.
– Eu te amo tanto... – Ele disse enquanto beijava-a o corpo todo. – Eu nunca te deixaria...
– É simplesmente impossível te odiar quando você me beija desse jeito. – Cath sussurrou enquanto sentia seu corpo estremecer nos braços de Derick. – Sempre vou amar você.
O garoto então a olhou nos olhos de perto e só então Catherine percebeu o quanto ele estava machucado. O rosto de Derick estava com muitos ferimentos, assim como todo o resto de seu corpo, eram cortes e hematomas graves. Ao sair da hipnose a qual estava submetida, Cath também percebeu o quanto o corpo dele estava quente e os olhos avermelhados.
– O que houve com você? – Ela perguntou nervosa. – Por que está assim? – O acariciou no rosto, preocupada.
Derick então retirou de seus bolsos dois canivetes que Ernesto costumava usar para torturá-lo e apontou para sua camisa que estava rasgada, e, apesar da chuva, ainda apresentava muitas marcas de sangue.
– Seu pai... — Ele disse chorando muito e em um tom quase que inaudível.
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