Natural Disaster
48 Capítulo 48 - Justiça
Notas iniciais
Após Ernesto finalizar seu discurso inescrupuloso, o alvoroço tomou conta da sala de justiça. Todos estavam indignados com a audácia do homem em confessar perante as autoridades e a população algo tão absurdo, ainda mais naquele tom de sarcasmo, como se tudo aquilo fosse algo para se dar risada ou se orgulhava.
– Eu vou acabar com você, desgraçado! – A fúria de Derick era tanta que teve de ser contido por três guardas, que mais pareciam armários. – Você vai pagar por isso, você vai pagar! – Ele berrava de forma agoniante até o juiz bater seu martelo repetidas vezes sobre a mesa de madeira para reestabelecer a ordem naquele tribunal.
Catherine e sua mãe permaneciam sentadas em seus bancos, sem fazer qualquer movimento. O que Ernesto havia dito era algo que já não mais as chocava. Por tudo o que haviam passado, sabiam do que ele era capaz de fazer e apenas olhavam para o juiz, aguardando pelo momento em que a justiça fosse feita. Sabiam que as manchetes do dia seguinte seriam sobre a declaração cruel do réu diante de todos.
Depois de alguns minutos, a ordem se reestabeleceu e o julgamento então pode prosseguir como se deve. Era a vez então de ouvir as testemunhas, então o promotor iniciou o interrogatório:
– Por favor, diga seu nome à corte.
– Talles Garcia.
E assim seguiram-se os depoimentos de todas as testemunhas, os ex-capangas de Ernesto, Helena, Derick e seus pais, o policial que resgatara Cath, Murillo, Giulio, Peter, Jax e Robert, entre outros, exatamente todas as pessoas envolvidas. Obviamente que a família Becker e sua empresa de advocacia fizeram de tudo que estivera ao alcance deles para pôr o réu atrás das grades pelo maior tempo possível. Eram os melhores do país, aqueles advogados seriam capazes de fazer com que o juiz mandasse Ernesto para a cadeia por longos anos mesmo que ele fosse totalmente inocente e não havia nada que o advogado público de defesa, que já trabalhava com má vontade, pudesse e quisesse fazer contra isso.
Foi um julgamento longo e cansativo, que se arrastou por mais três dias em que o réu já não falava mais nada em tom provocativo, porém mesmo com aquele julgamento que o incriminava e com o fato de não ter conseguido encontrar Enrico, permaneceu com um ar de superioridade e arrogância do início ao fim daquele julgamento. O desgaste emocional de todos era grande e era difícil manterem a calma enquanto destrinchavam e contavam milhões de vezes a história que todos queriam apagar de suas memórias para o juiz.
Ao final do quarto dia não havia como o veredito ser outro e Ernesto olhou fixamente nos de Helena, que sangravam de ódio, enquanto o juiz preparava-se para encerrar o julgamento.
– Após ouvirmos as testemunhas, as provas apresentadas nesse julgamento e a torturante confissão do acusado desde o início, admitindo frieza e crueldade perante o mundo...A acusação formulada na pronúncia foi julgada procedente, e com os poderes que me foram dados pelo Estado, seguindo os preceitos legais, condeno o acusado Ernesto Bellini à pena de trinta e cinco anos, seis meses e quinze dias de prisão pelos crimes hediondos cometidos por ele contra descendente em regime prisional FECHADO.
Catherine e Derick se entreolhavam sorrindo enquanto o juiz terminava de proferir a sentença que colocaria um fim em toda a angústia e sentimento de injustiça pelos quais haviam passado. Todos aplaudiam enquanto o homem era algemado, e Helena lançou seu olhar para Ernesto, mostrando que não sentia mais medo, ela apreciava a derrota dele sabendo do terror que o esperava. Pôde sentir que por mais indiferente que ele tentasse se apresentar, havia um certo pesar em sua expressão e ela sabia que no fundo ele estava sofrendo e que ainda sofreria muito mais, o que a deixou com uma satisfação sádica, muito mais do que compreensível.
–
Dias depois
Derick havia tomado coragem para finalmente conversar com Cath sobre o que havia acontecido. Com o julgamento satisfatório e Ernesto atrás das grades definitivamente, sabia que teria o equilíbrio necessário para fazer o que precisava ser feito. Estavam os dois no carro da família Becker, e Derick a levaria para conversarem em algum lugar o qual ela ainda não sabia qual era. De repente, o celular de Derick tocou e ele prontamente atendeu ao ver que era seu amigo Giulio:
– Liga o rádio, na 102,9. Agora. – Ele não havia falado mais nada e desligado o telefone. O garoto então obedeceu à recomendação imediatamente, pedindo ao motorista que ligasse o rádio naquela estação.
– É a sua voz... – Murmurou Cath ao reconhecer que se tratava de uma música da The Rebel Machine.
– É a sua música... – Disse Derick suando frio. – Eu realmente não sabia que...- Ele gaguejou. – Uau... – Catherine sorriu derretendo-se ao ouvir aquela música pela primeira vez, e Derick estava vermelho de tanto nervoso. – É a primeira vez que a minha banda toca na rádio...Nós finalmente conseguimos, e isso é graças à você...à tudo de bom que você me faz sentir Cath...
– E ao talento de vocês, principalmente o seu em escrever palavras tão bonitas... – Ela segurou a mão do garoto com força como se não quisesse perdê-lo por nada e os dois ficaram abraçados até chegarem ao destino final.
Derick abriu a porta do carro para Catherine, que ao descer se chocou com o cenário e se deu conta de que realmente era a casa onde havia crescido, só que dessa vez com um novo aspecto, uma nova sensação, nem um pouco agoniante.
– Como você fez isso? – Ela gaguejou impressionada ao ver aqueles muros limpos, pintados e cobertos por flores. – Está tudo tão lindo...
– O Talles, o Martinez, o David e o Willian me ajudaram, nós consertamos tudo.. – Ele disse um pouco mais feliz. – Nós mesmos... Já me imaginou virando cimento e pintando paredes?
– Confesso que não... – Catherine sorriu tristemente. – Você esteve tão estranho desde que... Bom, eu confesso que não esperava que você fosse fazer uma coisa como essa.
– Me desculpa... – Derick a abraçou com urgência, fazendo com que o rosto de Cath corasse imediatamente. – Sei que precisamos conversar...Eu sei...
Os dois então deram-se as mãos e atravessaram o portão juntos. Tudo estava reformado e organizado. No jardim o gramado estava impecável e Derick havia plantado alguns arbustos, diversos tipos de plantas, e semeado em um dos canteiros de pedra que construíra algumas árvores frutíferas. Ele havia mantido as características originais da casa e até mesmo as cores originais dos cômodos.
Os ladrilhos azulados da cozinha ainda estavam lá, e o quarto da garota, com papel de parede listrado, seus antigos livros e alguns brinquedos. Catherine passava pelos cômodos observando cada pequeno detalhe da arrumação de Derick e pela primeira vez em muitos anos sentiu alegria por estar naquela casa. Foi caminhando lentamente, com os olhos cintilantes, encantada, até se deparar com aquela porta no chão no meio do corredor, que dava diretamente para o tão temido porão:
– Você entrou lá? – Ela perguntou um pouco aflita. – Desce comigo? – O garoto assentiu e os dois desceram as escadas.
Catherine então pôde perceber que na mão de Derick ainda havia aliança alguma, mas isso não ofereceu a ela nenhuma calma ou segurança, sentiu seu coração apertar por medo de como aquela conversa terminaria. O porão estava limpo, sem nenhuma mancha de sangue, as paredes pintadas de branco, e a imagem de Jesus Cristo agora já restaurada.
– Obrigada... Por tudo. – Ela sussurrou. – Não sei como seguir com a minha vida... Não sei o que fazer... – A garota disse se sentando no chão e encolhendo as pernas.
– Em relação à gravidez? – Disse o garoto sentando-se ao lado dela. – Ou a nós dois?
– Em relação às duas coisas. – Ela respirou fundo um pouco nervosa e criando coragem para falar. – Sei que está sendo difícil pra você lidar com essa situação, tanto que já passou um certo tempo e até agora você e eu não tivemos uma conversa... – Derick a olhava nos olhos fixamente quase fazendo com que a coragem dela desaparecesse, mas ela teve que encarar. – Mas eu quero que fique tranquilo...Eu já entendi que acabou, e eu realmente entendo o seu lado... – Ela abaixou a cabeça evitando que o garoto percebesse o quanto ela queria chorar. – Eu te amo, e eu quero você seja feliz.
– Catherine... – Ela gelou ao ouvi-lo hama-la pelo nome. – Não... – O garoto se arrastou até ela, acolhendo-a em um forte abraço. – Eu ainda quero, e ainda acho que há uma chance para nós dois.
– Se esse filho for seu... – Cath murmurou segurando-o com firmeza. – Mas o exame de DNA pré-natal só pode ser feito a partir da 9ª semana, daí... A única chance seria se eu interrompesse essa gravidez agora...
– Você realmente pensa em interromper essa gravidez?
– Acho que toda mulher que engravida por conta de uma relação forçada tem mais do que justificativas para pensar assim... De qualquer jeito, quando soubéssemos a paternidade, o feto já estaria no mínimo se formando... E se fosse do Ernesto? Será que eu teria a mesma capacidade de ser amorosa com essa criança como a mãe teve comigo? Será que eu conseguiria olhar para ela e não me lembrar de tudo? – Ele assentiu e a olhou inquieto aguardando por alguma decisão. – E o que eu faria se a gente se esbarrasse na rua e você me visse com essa criança nos meus braços... Eu sei o peso que é ser o fruto de um estupro, de uma história de terror. Talvez fosse melhor parar com isso tudo agora que ele não tem um sistema nervoso, é um aglomerado de células que não sente nada, e nem sequer sabe que existe do que talvez submetê-lo a uma vida de rejeição, por um passado que ele não tem culpa...
– Eu entendo... Sei que não tenho direito de opinar sobre isso, porque o corpo é seu, e só você sabe o quanto seria pesado parir uma criança nas circunstâncias atuais. – Ele a acariciou no rosto de forma compreensiva. – Mas essa é a sua vontade, mesmo?
– Talvez fosse o mais sensato, e eu gostaria de te dizer que sim, que teria coragem de fazer isso, que interromperia essa gravidez, e assim poderíamos seguir nossa vida juntos e felizes, mas...não sei... Não tenho coragem de fazer isso, pensaria a todo instante se aquele serzinho não era um filho seu e mesmo que não fosse... me sentiria culpada eternamente, mesmo sabendo que eu também sou uma vítima. – Ela deixou que uma lágrima escorresse de seu olho.
– Seria mais um trauma, imagino que não seja fácil para mulher alguma tomar uma decisão como essa, a despeito do que os moralistas pensam...Porque é muito fácil julgar os outros... – Constatou ele, ainda envolvendo-a nos braços.
– Então... É por isso que não tem como ficarmos juntos... – Cath se soltou lentamente dos braços de Derick e se levantou. – Pelo menos por enquanto, enquanto não sabemos a paternidade dessa criança. – O rosto da garota se tornou fechado e triste. – Mas te confesso que não sei como aguento tudo isso, como consigo suportar... – Envergonhada, ela retirou sua aliança e pôs em uma das mãos do garoto. – Só eu sei o quanto dói estar fazendo isso de novo, abrir mão de você e te devolver essa aliança mais uma vez, mas eu não posso ser egoísta, e eu sei o quanto seria duro para você ficar comigo... – Arrasada, ela se virou caminhando em direção à escada, como se fosse embora resignada.
Derick sentiu um desespero aterrorizante, e mais do que depressa levantou para impedi-la. Ele a segurou pelo braço, porém ela não virou o rosto para olhá-lo:
– Você não precisa se sentir culpado, eu entendo o seu lado, e eu não estou com raiva de você... – O garoto a abraçou por trás, encostando seu queixo no ombro esquerdo dela. – Não torne tudo mais difícil...
– Cath, eu muito amo você. – O garoto sussurrou no ouvido dela, fazendo-a estremecer. – Me diz, acha que tenho forças para te deixar ir embora?
Ele então se posicionou na frente dela, aproximando-se até que estivessem face a face. Mal conseguiam se encarar, pois era doloroso pensar que aquela troca de olhares seria a última, que aquilo era um adeus e aquela história de amor acabaria ali, como uma música sem refrão. Então as duas bocas se encontram desesperadamente, e os lábios lutavam, se sugavam, se mordiam. As mãos agarravam e percorriam os dois corpos grudados, como se só assim suas vidas fizessem sentido, como se estivessem entorpecidos, inebriados. Os corações batiam no mesmo ritmo pelos longos minutos em que estiveram submersos naquele ato, ofegantes e hipnotizados, como estivessem querendo mostrar às suas consciências que irracional mesmo era ficarem separados.
Derick segurou os longos cabelos de Catherine com uma das mãos deixando seu pescoço nu e beijou aquela parte exposta enquanto a segurava pela coxa apertando-a com desejo, deixando a garota totalmente extasiada. Voltou para os lábios dela carinhosamente, em um beijo apaixonado que se encerrou com selinhos que foram descendo para o queixo, para o ombro, arrepiando-a. Cath sentiu uma das mãos quentes do garoto em seu vente, tocando-a por debaixo da camisa, enquanto os selinhos desciam, até que Derick ajoelhou-se diante dela e pôs os lábios em sua barriga.
– O nosso amor é capaz de tudo... – Ele sussurrou beijando suavemente aquela superfície. – Sempre vai haver uma chance para nós dois. – Catherine sorriu emocionada enquanto acariciava os negros cabelos dele. – Eu reformei essa casa para te mostrar que, mesmo que nós não possamos apagar as memórias ruins, nós podemos criar memórias boas.
– Você sempre me mostra isso... É profissional em curar todas as minhas feridas, e transformar coisas que me aterrorizam em coisas que me trazem paz, felicidade, prazer. – Disse ela comovida enquanto Derick beijava suas cicatrizes no pulso, que ela havia feito há pouco tempo naquele mesmo porão. – Essa casa não me amedronta mais, é como se eu tivesse feito as pazes com ela... Eu sei que vou morrer de saudades, e vontade de correr para os seus braços cada vez for deitar na minha cama sozinha, que ouvir suas músicas nas rádios, que está doendo demais te perder, mas saiba que só de ter passado esse tempo com você, já valeu a pena. – O sorriso de Cath ainda parecia triste, melancólico, era doloroso, mas ela estava conformada, precisava se conformar. – Valeu a pena ter sobrevivido a esse inferno, valeu a pena ter sido forte... Obrigada por ter me mostrado o que é o amor, o que é ser feliz. E esse quintal agora vai me lembrar esse jardim que você construiu, esse porão vai me lembrar esse beijo.
– Por ser amor de verdade é que isso não é uma despedida Cath, que eu não sou capaz de te deixar ir embora, que esse não foi um último beijo... – O garoto disse ainda ajoelhado recostando seu rosto sobre a barriga dela. – Sei que andei agindo estranho com você, mas eu estava tão transtornado...Não sabia como falar contigo sobre algo tão terrível, mas nem mesmo por um segundo meu amor por você fraquejou. — Derick então pegou a aliança de esmeraldas e pôs novamente no dedo anelar de Catherine, que estava com as mãos trêmulas de tanto nervoso.
– Você tem noção do que está me falando, Derick? – Ela sussurrou erguendo a cabeça do garoto para que se olhassem nos olhos. – Essa é uma dor a qual eu vou ter que aprender a conviver, mas você realmente conseguiria olhar para a minha barriga crescendo ou quando o bebê nascesse e não pensar... se ele era mesmo o seu filho?
– Cath, eu sempre estive disposto a apoiar você qualquer que fosse sua decisão, porque a sua dor é a minha dor... Eu serei o pai dessa criança e irei amá-la incondicionalmente independente do meu sangue correr nas veias dela, porque ser pai é muito mais do que isso... Você me ensinou a ser forte, a enfrentar tudo... Ao invés de se entregar, você sempre deu a volta por cima e eu estarei ao seu lado para superar mais essa junto com você. Nós não podemos mudar o passado, mas nós ainda podemos fazer um final feliz. Eu, você, o nosso bebê, a nossa família. Fica comigo Cath, confia em mim?
– Eternamente.
–
Meses depois
Ernesto havia sido colocado em um dos presídios mais conhecidos do país, aquela penitenciária era considerada o lar das estrelas, local onde ficavam os presos famosos por crimes de muita repercussão na mídia. Não era superlotada, pois sua arquitetura era bem planejada para evitar isso, e as fugas durante rebeliões. Havia também naquela penitenciária presos comuns, e a carga negativa dos crimes cometidos por Ernesto era algo que nem os criminosos conseguiam perdoar.
Por conta disso, desde que chegada àquele local, por mais que os carcereiros tentassem evitar, ele era muito visado dentro da penitenciária, sendo agredido diariamente pelos outros presos. Ernesto já estava resignado, e apesar de sofrer com as dores, ainda tentava pensar que havia saído vencedor de toda aquela história por ter se vingando. Entretanto, em dos dias de visita, algo inesperado ocorreu, uma voz conhecida adentrou o ambiente:
– Realmente acha que nunca teríamos essa conversa? – Disse Helena socando a mesa enquanto ria ao observar o rosto ferido do homem que havia roubado todos os seus sonhos. – Você está com o rosto exatamente do jeito que deixava o meu. A justiça finalmente está sendo feita.
– Eu sempre soube que um dia viria atrás de mim. – Ele se surpreendeu ao vê-la ali, mas tentou se manter firme. — Acha que eu me importo em apanhar? Te garanto que todos esses socos apesar de estarem doendo muito, não estão doendo tanto quanto o que eu fiz à sua adorada filhinha.
– Então prepare-se para ir para o inferno de vez, seu nojento. – Ela o olhou com o olhar quase que maligno ao retirar alguns papéis de um envelope branco e jogá-los na mesa. – Durma com esse barulho! Se conseguir...
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