Natural
1 Prólogo
Grã-Bretanha, 858 d.C.
A noite já havia caído há um bom tempo, indicando que já passara e muito a hora das crianças irem para cama. Apesar disso, Arthur Van-Guintenever ainda se escondia pelos corredores do castelo onde morava. Ele adorava imaginar que as sombras formadas pelos candeeiros eram terríveis inimigos os quais ele podia derrotar com sua incrível espada invisível. Em sua mente infantil, a fortaleza GoldenHewlk estava sendo invadida e ele era o único herói capaz de libertá-la. Ele corria silenciosamente, quase como se fosse capaz de flutuar. Ninguém ouvia os seus passos e nem o som de sua respiração ofegante que ele tinha aprendido a abafar. Parou em um dos portais, fazendo um bom trabalho em se manter incógnito. Foi quando ouviu o ranger do piso de madeira. Alguém andava com força, sem se preocupar com o barulho que ecoava por todo ambiente. Arthur prendeu a respiração, apreensivo. Seria um inimigo verdadeiro ou seria o seu pai que tinha acordado? Ele não conseguia decidir qual das opções se apresentava pior.
O som das passadas ficava cada vez mais alto, indicando que a pessoa se aproximava. Mais e mais. O coração de Arthur estava aos pulos, e ele podia jurar que qualquer um na terra podia ser capaz de ouvi-lo batendo. Até que o som dos passos cessou, a pessoa havia parado, deduziu. O mais tenebroso silêncio tomou conta de tudo. Ele não ousou se mexer, fechando os olhos com força, permanecendo congelado, quase se fundindo com a madeira da porta. Foi quando um homem estranho praticamente surgiu diante dele. Arthur suprimiu um grito. Não porque era corajoso, mas porque simplesmente a voz não lhe saiu. Ele nunca tinha visto aquela pessoa em toda sua vida.
Era um homem jovem – não parecia ter mais que trinta anos – e alto, cabelos loiros, anelados. Estava elegantemente vestido. Sua postura altiva indicava que procedia de alguma linhagem nobre. Arthur o olhou abismado. A beleza de suas feições, quase angelicais, se contrastava com seu olhar maligno e sorriso sarcástico. O homem o analisou de forma divertida e se abaixou para ficar no mesmo nível dele. Arthur pensou que não podia ficar mais apavorado do que já estava. Como aquele homem havia entrado no castelo? Como ele havia passado pela guarda dos cavaleiros?
“Bravo garoto.” O homem falou mansamente, em um tom muito baixo. “Lutando, assim, contra as sombras... Quase se passa por um guerreiro.” Ele fez uma curta pausa, que pareceu horas, aeus olhos varreram todas as feições de Arthur, e depois continuou. “Quer saber um segredo? As sombras são formadas pelos próprios homens. É contra estes que você deve lutar.”
“Quem é você?” Arthur perguntou com os grãos de coragem que conseguiu reunir. O homem sorriu ainda mais, demonstrando sentir um estranho prazer com o seu pavor.
“Não precisa ter medo.” Ele disse correndo um de seus dedos pela bochecha de Arthur. “Permita que eu me apresente. Eu me chamo Maurice Van-Guintenever. Digamos que eu sou, bem, um parente distante. Não vou lhe machucar. Você não interessa a mim.”
Foi quando Arthur percebeu que ele tinha os olhos de um intenso azul celeste. Um olhar de lobo selvagem, a característica marcante dos homens da família Van-Guintenever. Provavelmente aquele homem dizia a verdade. Provavelmente tinha sido algum hóspede de seu pai que ele não tinha visto chegar. Apesar de buscar pensamentos calmantes, Arthur não conseguia se sentir menos amedrontado, antes, tremia mais e mais. O perigo saltava da face daquele que estava à sua frente. Saber que ele era seu parente não lhe trouxe tranquilidade alguma. Mesmo assim, não conseguia tirar os olhos daquele nobre rapaz. Era quase um transe hipnótico.
“Agora seja um bom garoto.” A voz dele entrou em seus ouvidos, como uma música melosa, e um doce aroma pairou no ar, um cheio que não se parecia com nada que ele conhecia. “Diga-me, onde encontro seu irmão mais novo?”
“Domenic?” Arthur balbuciou, sentindo sua mente girar.
“Sim, Domenic.” Maurice disse em um tom extremamente agradável.
O resquício de uma voz racional dentro da cabeça de Arthur dizia que ele não podia responder àquela pergunta, mas seus pensamentos estavam lhe traindo. Ele não conseguia lutar contra a vontade atender à solicitação de Maurice. Ainda tremendo, levantou o dedo indicador e apontou para a penúltima porta do imenso corredor, onde ficava o quarto de Domenic.
***
Como se tivesse levado um susto, Arthur abriu os olhos e se impressionou ao perceber que estava deitado em sua cama. Sentando, olhou em volta e o mais completo silêncio tomava conta de tudo. Ele olhou para a janela e percebeu que estava amanhecendo. Seu coração ainda batia acelerado e era como se ele ainda pudesse ver os olhos de Maurice fixos no seu. O cheio doce também estava em suas narinas, como se a cena tivesse acabado de acontecer. Exceto que, ele não se lembrava de como havia chegado ao seu quarto e nem deitado em sua cama. Não podia ter sido apenas um sonho. Definitivamente não. Lembrando de Domenic, levantou-se rapidamente e correu para o quarto dele, sentindo a preocupação o invadir. Abriu a porta com um rompante, mas o alívio passou por ele ao perceber que o pequeno irmão dormia serenamente. Ainda não satisfeito, analisou cada detalhe do seu corpo, buscando por marcas ou ferimentos. Nada havia nele que denunciasse a visita inusitada que passou por ali há poucas horas. Ainda intrigado, voltou para o seu quarto, onde trocou de roupa e se preparou para o desjejum.
Arthur foi o primeiro a sentar-se à mesa naquela manhã. Estranhamente quieto, esperou que todos tomassem assento. Não sentia fome, mesmo assim serviu-se da comida ali posta e permaneceu longos momentos olhando seriamente para seu prato intocado. Os acontecimentos da noite anterior se repetiam incansavelmente em sua memória. Não podia admitir que havia sonhado. Tudo foi real demais.
“Papai.” Arthur falou pela primeira vez desde que havia acordado. Seu pai se voltou para ele, sem verdadeiramente lhe dar atenção. “Nós temos algum parente distante chamado Maurice?”
Os olhos de seu pai brilharam impressionados. Arthur percebeu que sua mãe também havia parado o que fazia e lhe encarava apreensivamente.
“Onde você ouviu esse nome?” William Van-Guintenever, seu pai, perguntou autoritariamente. Arthur sentiu o sangue esfriar em suas veias. Algo lhe dizia que não tinha feito bem questionando isso.
“Ele estava aqui ontem à noite. E me assustou. Eu não sabia que havia hóspedes em GoldenHewlk. Onde ele está agora que não se senta conosco à mesa?” A voz dele saiu absurdamente inocente.
“Ele esteve aqui? Ontem à noite? Ele disse o quê queria?”
Arthur não sabia dizer se seu pai estava com raiva ou desesperado. Talvez um pouco das duas coisas. Sentindo as palavras presas na boca, olhou para sua mãe que parecia quase chorar, enquanto fazia o sinal da cruz.
“Sim,” ele respondeu cautelosamente. “Ele estava procurando por Domenic.”
“Domenic?” Leah, sua mãe perguntou atônita.
“Sim, mas eu não me lembro de mais nada. Só lembro de ter acordado em minha cama. Assim que levantei, fui ver Domenic e constatei que tudo estava bem com ele.” Arthur soou mesmo com o irmão mais velho e responsável.
William ouviu a narrativa do seu filho com os olhos vidrados em Leah. Ambos sabiam o que isso significava. Ambos sabiam que não era nada bom.
“Mande chamar o padre Andreas imediatamente.” Ordenou William.
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