Naturais
1 Capítulo 1
Eram quase quatro da manhã. O pequeno Aaron dormia tranquilo quando um choro de bebê o acordou. De início, ele não queria levantar, mas então veio-lhe a lembrança de que seus pais estavam fora e que, se não fizesse nada, sua irmã continuaria chorando, chorando e chorando.
Obrigou-se a sentar na cama, apoiando as costas na cabeceira da mesma. Esfregou os olhos demoradamente, jogou as pernas para o lado e caminhou até o berço aonde Lieseldeveria estar dormindo.
– Lie, para de chorar. — ele tentou. Mas, como uma criança de apenas quatro anos de idade, não tinha muita ideia do que fazer — Por favorzinho... — nenhum efeito.
Ele suspirou. Ela não conseguia entendê-lo, ele sempre se esquecia. Tentou raciocinar: O que sua mãe faria naquela situação?
Aaron baixou a grade do berço que impedia que sua irmã caísse. Pegou-a no colo da melhor forma que podê.
– Vamos fazer um passio, Lie. — ele falou.
O Refúgio não era lá o melhor lugar para se dar uma volta com um bebê pequeno. Era um lugar sombrio, deserto e assustador, além de estar incrivelmente frio naquela noite. Mas não parecia ser nenhum incomodo para nenhum dos dois.
Eles seguiram para a praça principal. Não tinha extensos campos de grama verde, árvores ou qualquer coisa que lembrasse a Aaron aqueles campos abertos que apareciam nos filmes infantis. A praça, na verdade, era apenas uma área circular com o chão coberto de terra batida e pedregulhos.
No meio daquela circunferência gigante, havia uma espécie de escultura de pedra. Parecia nada mais nada menos do que uma estrela de oito pontas com quatro cristais encrustadas em seu centro, de modo a formar uma cruz. A peça estava apoiada sobre uma pilastra grega quebrada em vários pontos. Aquela era o único ponto aonde brotava uma grama seca e mal-cuidada.
– Olha só, Lie, essa é a Lápide. — o garoto disse, sentando-se de pernas cruzadas em frente ao monumento — Mamãe sempre me disse que essa pedra era a nossa esperança. — ele apontou para as joias — Ela diz que, quando essas pedras se acenderem, nós vamos ter a chance de ser livres. Não vamos ter que nos esconder nunca mais.
Naquele ponto, Liesel já tinha parado de chorar. Prestava atenção na voz do irmão mais velho como se ouvisse uma estória infantil e ele estivesse chegando na parte do 'Felizes para Sempre'. Abriu um pequeno sorriso, revelando a boca com apenas um dente branco nascendo.
– Calma agora? — ele riu — Vem, vamos pra casa.
E os dois saíram, voltando para o conforto de sua casa simples e velha, tão parecida com todas as outras casas do Refúgio.
Talvez, se tivessem ficado e aguentado o frio por mais cinco minutos, eles tivessem visto as pedras se acenderem.

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