National Anthem
26 Capítulo vinte e cinco – Darkness
Notas iniciais

“Sent by forces beyond salvation
We will save your precious skin
Let the healing light come in
I’ll cover you when the sky comes crashing in
World on fire with a smoking sun
Stops everything and everyone
Brace yourself for all will pay
Help is on the way”
World On Fire – Les Friction
Base da HIDRA
Sangue. Ela conseguia sentir o líquido viscoso escorrer por sua testa, colorindo a pele com a cor rubra, destacando o gosto metálico que ainda perdurava em sua boca. Seus cabelos escuros pareciam um tanto bagunçados, haviam marcas arroxeadas ao redor dos olhos, as orbes azuis esbanjavam pavor. Puro, simples e direto. Não tinha o que esconder. Ela estava apavorada.
Com a visão ainda um pouco embaçada, a garota encarou as próprias mãos, seu sangue também escorrendo por entre seus dedos, manchando o vestido cinza e surrado que usava, dando mais um dos vários sinais de que as torturas e testes que vinha sofrendo desde que chegara naquele lugar começavam a deixar grandes e profundas cicatrizes, tanto em seu corpo, como em sua mente, cansada de tudo o que estava sendo obrigada a passar. Ela queria livrar-se deles, queria livrar-se de cada um deles, e assim que tivesse a chance, mataria todos em um piscar de olhos. Mas como faria isso? Mesmo com seus poderes, sequer conseguia se soltar das correntes que envolviam seus pulsos, e com certeza não conseguiria com facilidade. Já tinha visto aquilo antes. Era um material diferenciado, difícil de ser encontrado.
A falta de forças em seu corpo se alastrou de maneira tão rápida que até mesmo ela se espantou, assustando-se quando as veias em suas mãos e braços ficaram negras, ressaltadas em sua pele altamente pálida. Os olhos, antes embaçados, agora se arregalaram em um claro e novo sinal de medo. Um medo que apenas crescia, afinal, ela não tinha a mínima ideia do tipo de “droga” que fora injetada em seu corpo, colocando-a como cobaia em mais um maldito teste, transmitindo-lhe as mais utópicas sensações... E até mesmo, visões. Sim, visões de um futuro o qual ela não via para si mesma. Guerra, desordem, morte, sangue e mais sangue. O que tudo aquilo poderia significar? Não sabia, mas logo poderia descobrir da pior maneira possível.
A garota ajoelhou-se sobre o chão frio quando uma forte dor de cabeça lhe atingiu, assim deixando que um grito fino escapasse por sua garganta. As veias, antes escuras, voltaram ao normal de maneira lenta, mais uma vez despertando um turbilhão de emoções. A dor perdurou por tempo suficiente para que ela pudesse jurar ver a morte de perto. Levando as mãos à cabeça em um ato desesperado, perguntava-se quanto tempo mais aquelas torturas iriam durar. Internamente, rezava para que seu irmão estivesse pelo menos vivo. Talvez.
Soltou a respiração de maneira pesada ao perceber toda aquela dor de momentos antes se dissipar por completo no mesmo segundo, como se nada sequer tivesse acontecido. Ela fechou os olhos, novamente conseguindo sentir seus poderes ficarem mais fracos, como se tivessem lhe roubado uma parte de si própria, e de fato, haviam. Seus músculos ficaram rijos, o sangue que antes coloria sua testa simplesmente desapareceu como em um passe de mágica, os arranhões e marcas roxas em seu corpo cicatrizaram instantaneamente, seu coração passou a bater um pouco mais rápido do que o normal.
Dado certo momento, a atenção da garota foi capturada quando a porta de metal do ambiente fora aberta. O barulho fez com que ela se assustasse, dando-lhe a incrível sensação de se sentir como um animal preso em uma jaula, usada e usada diversas vezes, e descartada quando não era mais necessária. Esses pensamentos não saiam de sua cabeça, afinal, aceitou participar desse projeto apenas por acreditar em um mundo melhor, um mundo onde a paz poderia ser mais fácil, ao alcance de todos. No final, talvez não valesse tanto a pena assim. Ou talvez tivesse sido ingênua demais, mas quem poderia a culpar por isso? A chuva de possibilidades assustou-a ainda mais. Via um flashback em sua cabeça, trazendo à tona suas antigas e profundas memórias. Algumas memórias. Mais precisamente do dia em que perdeu seus pais. Sentia-se diferente. Mais forte. Quase isso.
— Wanda? — uma voz a chamou, conseguindo enfim despertá-la de seus pensamentos. Ela conhecia aquela voz, a única voz em que confiava plenamente, a única em que se sentia segura. E de fato, havia sentido falta de escutar a voz dele. Como se ele fosse o único motivo por ainda conseguir respirar. Estava viva por ele. Queria viver por ele.
Wanda Maximoff levantou a cabeça a tempo de notá-lo parar ainda na soleira da porta. Ele parecia debilitado, possuía apenas alguns arranhões pelo corpo, pequenas marcas roxas no rosto, mas a feição estava aliviada por vê-la. Uma ponta de esperança nasceu no subconsciente de ambos. Seu olhar cruzou com o dele, e ao vê-lo ali, vivo e seguro, era como se nada mais importasse, como se tudo o que sofreu tivesse valido a pena. Conseguiu esboçar um singelo sorriso e levantou-se do chão com certa dificuldade, e com isso, o garoto de cabelos quase brancos não esperou por mais nada para correr em direção à irmã. Ao ficar frente a frente com ela, também conseguiu esboçar um sorriso nos lábios, e enfim, puxou a morena para seus braços, abraçando-a com toda a força que conseguia, sentindo que ela o abraçava de volta na mesma intensidade. Era ali que ela pertencia. Ali que se tornava segura.
Ele, o garoto, Pietro Maximoff, parecia estar em algum tipo de transe apenas por conseguir sentir a pele fria da irmã contra a sua, e por mais que ela não estivesse muito bem, pelo menos estava viva, e naquele momento era isso que importava. Ainda com os braços ao redor do corpo de Wanda, mantendo-a perto de si, ele soltou um suspiro aliviado e fechou os olhos, acariciando os cabelos escuros dela por um bom tempo. Começou então a tentar acalmá-la quando a garota não segurou mais as lágrimas. Não precisava mais fingir estar forte.
— Confie em mim, Wanda, vai ficar tudo bem — murmurou ele ao aproximar o rosto do ouvido dela, lutando para parecer o mais tranquilo que pudesse, querendo pelo menos protegê-la de tudo que fosse necessário, como se aquelas palavras fossem seu segredo, a razão pelo o que continuavam firmes. De fato, tentavam o possível. Mas como faria isso se nem ao menos sabia o que ainda iria enfrentar? Pietro não queria admitir para si mesmo, não queria demonstrar fraqueza, mas estava tão assustado quanto a irmã, o que era aceitável, dada a situação dos dois.
— Eu sei. Sempre confiei em você — respondeu ela aos sussurros, quase automaticamente, mantendo seu tom de voz baixo, parecido ao do irmão. Respirando profundamente, Wanda acalmou-se e enxugou suas lágrimas. Afastou-se devagar, com dificuldade, fazendo um esforço para permanecer de pé, conseguindo enfim fitá-lo nos olhos de maneira profunda. Suas mãos foram de encontro as dele, buscando todo o conforto que necessitava. O medo que circundava sua mente ainda era ameaçador, não podia negar isso, mas por um segundo sequer, Wanda tentou ignorar tudo e aproveitar a presença dele ali, com ela, o que era muito raro de acontecer. Sem conter uma ponta de curiosidade crescente, a morena estreitou o olhar sobre Pietro, e um tanto tensa, questionou: — Eu não entendo. Como... Por que... Por que eles deixaram você vir me ver, Pietro?
Ele deu um suspiro longo e contínuo, parecendo estar buscando as palavras certas diante da pergunta feita por Wanda. Afinal, nem ele mesmo sabia o porquê disso. Mas precisavam tomar cuidado, qualquer passo em falso ali poderia ser uma catástrofe, ou pior ainda, poderia ser mortal. Pietro continuou a observar a irmã enquanto apertava mais um pouco as mãos dela contra as suas.
— Não sei ao certo, parece que o Von Strucker tinha algo importante para resolver e um tal de Daniel Whitehall está no comando enquanto isso. Não sei o que ele planeja fazer conosco, mas não é nada bom — explicou pacientemente enquanto Wanda o escutava com atenção, sem desviar seus olhos dos dele por nenhum instante sequer. As palavras ditas pelo irmão haviam a deixado ainda mais tensa e preocupada com o que poderia vir a acontecer. Não demorou muito para Pietro perceber isso, mas mesmo assim, precisava informá-la de qualquer jeito, e foi o que fez. Esperou poucos segundos para enfim avisar: — Estão testando uma nova droga em nós dois.
— É, eu percebi — replicou Wanda, podendo notar o olhar surpreso de Pietro ao escutar isso. Pelo visto, ele não desconfiava que a irmã já soubesse, mas com todos os efeitos que a tal droga causava, seria impossível não notar, seria impossível não sentir os pesadelos que tivera. Ainda assim, a garota decidiu explicar-se melhor: — Essa coisa me deixou diferente. Roubou meus poderes por um segundo, depois me deixou mais forte — e ao ver o olhar um tanto intrigado que recebera dele em resposta, Wanda decidiu arriscar: — Pietro, se continuar desse jeito, eles vão acabar nos matando.
— Não, eles não vão. Seria estupidez demais se fizessem isso, para o Von Strucker, e até mesmo para esse tal de Whitehall — contestou ele, mas suas palavras não pareceram convencer Wanda, a qual continuou tensa, sentindo seu coração se acelerar um pouco mais. Pietro nunca gostou de vê-la assim, e mais do que nunca, precisava tirá-la daquele lugar o mais rápido possível, antes que fosse tarde demais.
— Precisamos de um plano para fugir daqui — disse ela em certo momento, nervosa, praticamente adivinhando os pensamentos que rondavam a cabeça de Pietro, fato que o fez rir baixinho, despertando a curiosidade da irmã, que o encarou com um olhar de dúvida.
— Não se preocupe, já estou trabalhando nisso. Eu juro que nós vamos sair daqui, Wanda. Só... aguente mais um pouco, e continue confiando em mim — afirmou com convicção, agradecendo mentalmente por conseguir controlar suas emoções mais do que o esperado. A verdade era que Pietro não sabia o que aconteceria dali para frente, mas precisava fazê-la acreditar, fazê-la confiar que haveria uma saída daquele inferno. Seu único medo era não conseguir.
— Você sabe que eu nunca deixei de confiar — respondeu ela, confirmando o que havia dito instantes antes a respeito disso, e por um singelo momento, conseguiu deixar um pequeno sorriso irônico brotar em seus lábios. Pietro também sorriu no mesmo instante com a reação tida pela irmã. Em meio a toda bagunça que suas vidas se encontravam, eles tinham um ao outro, era uma pequena esperança surgindo. Não seria fácil, mas desistir não era uma opção. Precisavam tentar, e iriam tentar. Apenas não sabiam as consequências que isso lhes trariam.
Entretanto, Pietro preocupou-se quando viu a irmã desmanchar seu sorriso e fazer uma careta de dor, sentindo a cabeça rodar e o corpo pesar. Percebendo isso, ele a segurou por um dos braços e a guiou com cautela até uma cama que se encontrava encostada à parede. Wanda sentou-se com dificuldade, e devagar. Pietro sentou-se ao seu lado, sem soltar sua mão por nenhum instante sequer. A garota começou a suar, e com certo temor, fitou o irmão à sua frente, quase estampado em seus olhos o que viria pela frente. E foi exatamente o que aconteceu segundos depois.
A porta do ambiente abriu-se de novo, causando um barulho novamente, despertando a atenção dos dois, e mais uma vez fazendo com que Wanda se sobressaltasse de susto. A mão de Pietro apertou ainda mais a dela contra a sua, tentando manter-se calmo. A morena levantou a cabeça lentamente quando escutou passos se aproximando, e logo em seguida, fora a vez do irmão virar-se com calma na direção do homem presente ali. Notou que a irmã engoliu em seco, voltando a sentir o medo dominá-la com rapidez. O tal homem possuía cabelos grisalhos, usava um óculos de armação redonda, e vestia um terno grafite. Seu rosto trazia um olhar diferenciado e um sorriso um tanto estranho. Wanda e Pietro não se sentiram nem um pouco confiantes com a presença dele, pelo contrário.
— Ah, enfim, os gêmeos... — murmurou o homem quando enfim parou à frente dos irmãos. Pietro o encarou com uma sobrancelha arqueada, enquanto Wanda não conseguiu esboçar nenhuma reação sequer. Ele, o homem, cruzou as mãos atrás do corpo e riu brevemente. Logo, balançou a cabeça em um gesto rápido, voltando a observar os dois à sua frente. Em seguida, sorriu outra vez, e com a voz firme, disse: — Pietro e Wanda Maximoff, devo confessar que é uma honra finalmente conhecê-los. Eu sou o doutor Daniel Whitehall, e não se preocupem, estou aqui apenas para ajudá-los.
— Como? — indagou Wanda com incredulidade, direta, sem meias palavras, erguendo o queixo de forma desafiadora, o que causou certa estranheza em Pietro. Mas ele não se manifestou, apenas continuou quieto enquanto também observava Whitehall com certa descrença. O doutor apenas riu.
— Não se preocupem, teremos muito tempo para conversarmos a respeito disso tudo. Garanto que todos os seus esforços serão recompensadores, o Sr. Von Strucker está... Confiante, em relação aos resultados — explicou ele, pausadamente, mas como percebeu certa dúvida nos olhares dos gêmeos, Daniel suspirou de maneira profunda e recomeçou: — Enquanto essa hora não chega, temos muito o que fazer, e vocês dois são peças chave nisso tudo.
Assim que terminou de falar, Daniel fez um pequeno sinal com as mãos, e logo em seguida, outro homem adentrou o local. Wanda assustou-se, levando uma das mãos à boca no mesmo segundo em que encarou Brock Rumlow, lembrando aquele maldito rosto que sempre via em seus pesadelos. O causador de toda aquela destruição. O causador de toda a dor que iria sentir. Rumlow não se intimidou com o olhar da garota sobre si, apenas sorriu de maneira maldosa. Algo ali estava muito errado, e os dois sabiam disso. Wanda e Pietro sabiam muito bem que nada ali significava boa coisa.
“Seeping through the cracks
I’m the poison in your bones
I’m gonna make you suffer
This hell you put me in”
[...]
S.H.I.E.L.D.
A música de melodia triste ecoava por sua sala, e pela primeira vez, Bruce Banner estava surpreso consigo mesmo. Não por estar prestes a aceitar o único conselho vindo de Tony, mas sim por se sentir culpado em relação ao seu próprio passado. Mantendo o olhar fixo no vidro transparente que o separava do restante do laboratório, ele deixou um suspiro sem graça escapar de seus pulmões ao mesmo tempo em que cruzava as pernas sobre a cadeira sem interesse nenhum. Aquilo poderia lhe render uma bela dor de cabeça no final do dia, mas pela primeira vez Bruce não se importava com isso. Queria sentir o gosto do líquido cor âmbar contido no copo em uma de suas mãos. Na outra mão, segurava seu celular, hora ou outra encarando a tela do aparelho, parecendo estar tentando tomar uma importante decisão. E de fato, estava. Imaginava se aquilo era mesmo o correto a se fazer, e era nesses momentos que o doutor queria ser como o Homem de Ferro. Bruce não iria se acostumar nunca com a facilidade que Tony Stark desviava-se dos problemas mergulhando na bebida. Mas isso era passado, Tony agora dizia ser um novo homem. Mudado, realmente não poderia negar.
Bruce despertou de seus próprios pensamentos de maneira súbita, largando o celular sobre o tampo de vidro da mesa, deixando para trás a ideia de ligar para uma antiga amiga. Pensou não ser o momento certo, ou simplesmente não estava com coragem o suficiente para escutar a voz dela depois de tanto tempo. Não sabia, apenas deixou para lá. Ele então deixou seu olhar cair novamente sobre o copo com a bebida que ainda segurava em sua outra mão. Observou-a por um bom tempo, e enfim elevou a borda do copo até sua boca. Entretanto, quando estava prestes a saborear o primeiro gole, algo lhe chamou a atenção. A movimentação de pessoas no laboratório aumentou, e movido pela curiosidade, Bruce desligou a música que antes tocava em sua sala simplesmente para escutar o burburinho vindo do lado de fora.
O doutor estreitou o olhar ao ver Bucky Barnes praticamente invadir o recinto carregando alguém em seus braços. Ao que enxergava de longe, o Soldado parecia gritar com Jemma Simmons, a qual estava em um verdadeiro estado de choque, sem saber o que fazer. Mas os olhos de Bruce se arregalaram no mesmo segundo em que reconheceu a garota ruiva desacordada que Bucky carregava em seus braços. Ele então largou o copo de bebida sobre a mesa e levantou-se de sua cadeira em um gesto automático.
Saindo às pressas de sua pequena sala, Bruce correu na direção deles o mais rápido que conseguiu, enquanto percebia Fitz pedir para todos os agentes ali presentes esvaziarem o local. Jemma continuava estática, os olhos assustados fixos em Stella, queria fazer algo, mas simplesmente não conseguia. Logo, quando o olhar de Bucky enfim cruzou com o seu, Bruce conseguiu perceber todo o desespero em sua feição. O doutor engoliu em seco observando a situação em que a ruiva se encontrava. Estava desacordada, o corpo frio, os lábios roxos e olhos fundos, lutando para respirar.
— O que diabos aconteceu?! — perguntou Bruce depois de retornar a realidade, tendo total certeza de que aquilo não era nada bom. E sem mais esperar, ele guiou Bucky até uma das salas do laboratório e indicou uma maca localizada no centro do ambiente, para que o Soldado pudesse colocar Stella ali, e foi o que ele fez logo depois. Louis chegou em seguida, desacelerando seus passos à medida que via a situação em que a melhor amiga se encontrava. A Stark então levou as mãos até a cabeça e começou a observar tudo de longe, sem saber muito bem o que fazer.
— Não sei o que aconteceu, Bruce, eu a encontrei com a Louis em um corredor. Ela ainda estava acordada, mas desmaiou no caminho até aqui — explicou o Soldado ao mesmo tempo em que Bruce examinava Stella com afinco, beirando uma seriedade extrema. Seriedade que até mesmo chegou a assustar Bucky, que permanecia ao lado da ruiva o tempo inteiro, nervoso e desesperado com o que poderia acontecer com ela. Mas Louis e Jemma também não estavam muito longe disso. Em seguida, ele pediu, repetindo aquela frase quantas vezes fosse necessária: — Ela não pode morrer, você precisa fazer algo!
— James, acalme-se, eu estou fazendo de tudo... — respondeu o doutor, sabendo exatamente o porquê do Soldado estar tão exaltado daquele jeito, tão preocupado como estava no momento. Ignorando tudo isso e se concentrando no que precisava fazer, Bruce colocou uma máscara de oxigênio sobre o rosto de Stella com a intenção de ajudá-la a respirar, e depois disso, virou-se na direção de Jemma. — Agente Simmons, eu preciso de dois miligramas de adrenalina — pediu com urgência, mas como ela ainda não parecia ter escutado, ele repetiu: — Jemma, a adrenalina, agora!
Do lado de fora da sala, Fitz e Louis permaneciam lado a lado, cada um mais assustado que o outro com a cena que presenciavam, ele mantendo um dos braços sobre os ombros da Stark, enquanto ela se desmanchava em lágrimas. Só então a cientista pareceu despertar do transe em que se encontrava, atendendo ao pedido de Bruce com agilidade enquanto Bucky observava todos os movimentos feitos por ela sem nem sequer ousar deixar de segurar uma das mãos frias de Stella. Instantes depois, Jemma voltou ao ambiente carregando um pequeno frasco com um líquido transparente. Entregou-o para Bruce, que colocou o líquido em uma seringa e aplicou no braço da ruiva o mais rápido que conseguiu. Ela não demonstrou nenhuma reação sequer.
— Doutor Banner, foram quase três miligramas de adrenalina... Isso pode matá-la! — avisou Jemma ao notar a quantidade um tanto exagerada que Bruce havia aplicado em Stella, a qual não mostrava nenhum sinal de melhora, o que deixou Bucky e Louis ainda mais preocupados.
— O corpo da Stella é diferente do nosso, então acredite, Jemma, adrenalina será a última coisa nesse mundo que irá fazer mal a ela — respondeu Bruce com um singelo sorriso no rosto, mas ainda mantendo a postura rígida e preocupada. Jemma engoliu em seco, enquanto Bucky afastava-se um pouco apenas para dar espaço à cientista, que então começou a medir os batimentos cardíacos de Stella no instante seguinte.
Sem não ter mais o que pudesse fazer, Bruce afastou-se, deixando apenas Jemma tentando controlar a respiração desregulada da ruiva. Alguns segundos depois, tudo ficou em silêncio, sendo escutado apenas o barulho dos fracos batimentos cardíacos de Stella no monitor à frente dos três. Do lado de fora, Louis continuava a observar tudo junto com Fitz, lutando para controlar suas emoções, enquanto Bucky começava a caminhar de um lado para o outro, sem saber mais o que fazer para tentar amenizar seu nervosismo. Mas ele sabia que não iria se acalmar enquanto não a visse bem. E naquele momento, ele não se importou com todos os olhares curiosos por ele estar tão desesperado ao ver Stella assim. Não se importou, simplesmente não se importou com nada.
Não demorou muito para que Hunter e Bobbi se juntassem à Louis e Fitz do lado de fora, ambos também chocados com o que viam diante de seus olhos. O tempo passava, e Bucky sentia-se pior do que qualquer tortura que pudesse enfrentar. Se ele ainda tinha dúvidas em relação aos seus sentimentos por Stella, aquelas dúvidas se dissiparam naquele momento, quando pegou-se pensando que não iria saber o que fazer se caso ela não sobrevivesse. A verdade era que não queria sequer imaginar tal fato. Era a confirmação que precisava. A confirmação de que não poderia mais viver sua “nova vida” sem ela. E não queria. Nunca.
— Bruce, isso não está funcionando... — murmurou Bucky, ainda mais nervoso, impaciente com a situação tensa que presenciava naquele momento. O doutor suspirou, enquanto Jemma não tirava os olhos do monitor à sua frente, atenta a qualquer singela mudança que fosse.
— O que faremos agora? — perguntou Jemma com certa relutância, subitamente despertando a atenção de Bruce, que a fitou com um olhar preocupado, mas ciente do que estava fazendo. No fundo, o doutor sabia que logo algo como aquilo iria acontecer, só precisava preparar Steve e Natasha para a notícia nada agradável que iria lhes dizer.
— Não há mais nada que nós possamos fazer, agora só nos resta esperar ela acordar. A adrenalina precisa começar a agir no corpo dela, tenham paciência — Bruce instruiu, tentando parecer o mais calmo possível, por mais que a situação o deixasse fora de si. Mas tudo o que dissera era verdade, não havia mais nada que pudesse fazer, apenas... esperar. E talvez fosse essa torturante espera que tornava tudo ainda mais difícil.
Bucky então levou suas mãos à cabeça, continuando a caminhar de um lado para o outro enquanto começava a sentir-se culpado por algo que, na verdade, não era sua culpa. Sua lógica era que deveria ter protegido Stella de tudo o que pudesse acontecer de ruim, de que não deveria ter saído de perto dela nenhum instante sequer. Mas ele não tinha ideia da condição preocupante em que a garota se encontrava, e imaginava que nem mesmo ela tinha noção disso. Seguindo esse raciocínio, o Soldado perguntou-se como Steve reagiria ao vê-la daquele jeito. Perguntou-se também se Natasha havia sequer desconfiado de algo. Estava intrigado pois algo lhe dizia que Romanoff escondia muita coisa. Coisas além do que esperava, não podia negar. Não que ele se preocupasse, mas o olhar mortal que ela mantinha sempre que lhe dirigia a palavra poderia significar muitas coisas.
Querendo esquecer tais pensamentos, Bucky respirou profundamente e parou de caminhar de um lado para o outro apenas para aproximar-se de Stella, sempre mantendo um olhar sério e contido, não conseguindo de fato esconder o nervosismo que o dominava. Vê-la ali daquele jeito, exposta, inerte, desacordada e rodeada de fios que monitoravam seus sinais vitais, despertou nele algo mais. Algo como um senso de proteção fora do comum. Como se devesse protegê-la do mundo. E faria isso, de agora em diante, protegê-la seria sua prioridade acima de qualquer coisa, ainda sabendo que Steve e Natasha fariam o mesmo sempre. Logo, ele não conseguiu evitar e aproximou sua mão até a dela, segurando-a com firmeza, sentindo a temperatura fria do corpo da garota.
Olhando para o lado de fora da sala em que se encontrava, ele fez um rápido gesto para Louis, que entendeu no mesmo instante o que precisava fazer. Então, a Stark fez um sinal positivo enquanto enxugava as lágrimas que lutava para controlar. Despediu-se de Bobbi e Hunter, deu um meio sorriso para Fitz e deixou o local em seguida, indo em busca de Clint, como Bucky havia lhe pedido com apenas um gesto. Ao sair, Louis encontrou-se rapidamente com Skye. As duas trocaram algumas palavras e ambas seguiram seus caminhos. Skye entristeceu-se quando se aproximou de Fitz, que explicou o que acontecera, e não conseguiu deixar de observar Stella. Ficou ali, junto aos outros, esperando alguma resposta positiva vinda de Bruce.
“And if it’s too late for deciding
Oh, just leave it to me
Stay with me, please
Cause I’m living in the darkness”
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