National Anthem
20 Capítulo dezenove – Unstable
Notas iniciais
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“I've been spinning out of time
Lord, forgive me for the things I've done
I was never meant to hurt no one
I saw scars upon a broken hearted lover
Oh, colour crimson in my eyes
One or two could free my mind
This is how it ends, fading out again
I feel the chemicals burn in my bloodstream”
Bloodstream – Ed Sheeran
Aqueles corredores da Torre Stark pareciam não terminar nunca, fato que a deixou ainda mais agoniada. Estava tão nervosa, podia jurar que se perderia ali, mas enquanto media os passos em direção a sala de estar, Stella podia sentir o ritmo de suas batidas cardíacas se desregularem, sua respiração falhar em alguns instantes, seu corpo estremecer com a mais pura mistura de ansiedade e alívio. A garota caminhava com firmeza, os olhos atentos a tudo o que lhe acontecia ao seu redor, e inevitavelmente, se permitiu levar pelo turbilhão de emoções as quais rondavam sua mente, quase arrastando-a para fora da realidade.
Ao chegar na sala, Stella estremeceu com a visão que seu olhar alcançou no mesmo minuto. Steve e Bucky se encontravam sentados sobre o sofá conversando a respeito de algum assunto que parecia ser importante, e ambos não perceberam a presença da garota até que aproximou-se mais um pouco e deteve o passo quando parou um tanto afastada dos dois. Ela soltou um suspiro aliviado ao encara-los e teve certeza que tudo estava bem. Sim, agora tinha certeza. Seu coração acelerou-se mais uma vez, pulando uma nova batida, ritmada e contínua.
O Soldado pôs-se de pé no mesmo momento em que ele finalmente levantou a cabeça e seu olhar cruzou com o dela, causando uma onda de êxtase um no outro, revelando sentimentos que até então estavam escondidos e contidos. Não demorou muito para que Steve também se levantasse e acabou por observar a filha com um sorriso no rosto, obrigando-a a desviar a atenção dos olhos azuis impactantes de Bucky para mergulhar com avidez nos olhos azuis do pai, trazendo-a uma sensação apaziguadora. Apenas a tranquilidade, como se nada pudesse estar errado. Somente os três ali, a confiança ecoando no silêncio perturbador. O mundo lá fora? Não importava. Ela não se importava.
– Pai, você demorou, eu fiquei tão preocupada –murmurou tímida e aproximou-se do Capitão, praticamente correndo na direção dele, outro suspiro relaxante e aliviado escapando por entre seus lábios, fazendo com que um sorriso alargasse a alegria repentina que dominou seu rosto e sua mente. Steve também sorriu ao sentir o encontro do corpo de Stella ao seu, e como resposta, apertou a garota ainda mais contra seus braços, percebendo que ela correspondia na mesma intensidade forte e carinhosa. O tempo pareceu não existir, até que os dois afastaram-se um do outro com cautela, a felicidade estampada em seus rostos.
– Ei, princesa. Sentiu minha falta? –brincou ele antes de acariciar o rosto de Stella e depositar um beijo carinhoso sobre a testa da garota, que não resistiu e deixou-se fechar os olhos, aproveitando o raro momento de calmaria que instalava-se ali. Logo, notando a sombra de preocupação que teimava em assombra-la, Steve resolveu esclarecer antes mesmo que ela pudesse dizer uma palavra sequer: – Está tudo bem agora, Stella. Fique tranquila, ok?
Os olhos verdes pareceram brilhar, colocando-a à mercê de seus próprios pensamentos. Stella sentiu aquela sensação de alivio culminar-se em seu corpo ainda mais diante das palavras do Capitão, e querendo concordar com isso, ela sorriu uma outra vez enquanto soltava a respiração de uma forma exasperada. Sem dúvidas, a confiança que Steve lhe transmitiu poderia apagar qualquer traço de aflição que teimasse surgir.
Entretanto, a garota não demorou muito para conseguir perceber que estava sendo observada avidamente por uma outra pessoa, e tal fato fez com que seu coração disparasse de novo. Se continuasse daquele jeito, era provável que Stella acabasse por acostumar-se com a reação desconhecida que Bucky causava em cada terminação nervosa de seu corpo, provocando um verdadeiro choque de ideias e.... Sentimentos. Profundos e insondáveis sentimentos que até então ela ignorava. Não mais, pois enfim mostrou ter percebido. Havia algo ali, escondido no íntimo de ambos, mas agora desperto, e com um significado considerável.
– Você voltou, Soldado –ela afirmou, mantendo o sorriso desenhado nos lábios, e por um milésimo de segundo quebrou todos os seus paradigmas ao caminhar hesitante na direção de Bucky, detendo o passo, parando de frente para ele. Stella jurou perder a respiração quando seu olhar cruzou com o dele, mais uma vez fazendo um arrepio extasiante percorrer os corpos de ambos. Nenhum dos dois sabia exatamente como descrever o que passavam em suas mentes, e Steve permaneceu quieto, intrigado, apenas observando-os enquanto uma leve curiosidade começava a dominar seus pensamentos.
– Sim, eu voltei –concordou ele, sério, após um longo e constrangedor momento de silêncio, ainda encarando-a à sua frente, atordoado pela presença tão próxima da ruiva, e Stella o surpreendeu ainda mais quando, seguindo um certo instinto, aproximou-se mais um pouco de Bucky e quase sem perceber, o puxou e o abraçou.
Ele foi pego de surpresa. No mesmo instante, Bucky engoliu em seco, sem saber o que fazer com a reação tida por Stella. Mas a garota aparentou não se importar com tal fato, pelo contrário, apenas passou os braços ao redor do pescoço dele à medida que fechava os olhos e sentia sua respiração tornar-se ainda mais desregulada, pouco a pouco. O Soldado observou Steve por cima do ombro, uma confusão aparente beirando seu rosto, mas o loiro apenas mostrou um sorriso singelo em resposta, parecendo estar dando-o permissão para retribuir. E foi o que fez. Depois de travar um verdadeiro conflito interno, Bucky passou um dos braços em volta da cintura dela e a apertou sutilmente, correspondendo ao abraço de uma maneira um tanto desajeitada, rígida. Ela não se importou.
Arrepiada com o contato, Stella voltou a abrir os olhos quando sentiu que ele havia retribuído ao gesto. Mesmo que ainda frio e instável, Bucky havia retribuído e a ruiva não conseguiu conter um pequeno sorriso vitorioso ao perceber isso. Perceber que conseguira uma mudança ali. Por mais que pequena – ou grande – fosse, era uma mudança. Ambos sabiam disso, e Steve, que ainda os observava, pareceu aprovar o gesto da filha. Um simples abraço não modificaria nada, certo? Pelo menos, ele pensava. Praticamente tendo o mesmo pensamento que o Capitão, ela afastou-se lentamente e com cuidado, seus olhares se cruzando a todo instante, o coração sempre batendo mais frenético do que nunca. Era uma sensação... Diferente.
– Não sei o que me deu. Desculpe –pediu tímida, o rosto já ficando vermelho, e querendo disfarçar isso, Stella riu sem graça, com constrangimento exalando em seus olhos verdes, a respiração se acalmando devagar. Ele deu de ombros, não havia por que pedir desculpas, só não sabia como dizer aquilo. Logo, ela afastou-se completamente de Bucky, mantendo-se a uma distância no mínimo segura, e ao ter certeza que sua sanidade estava intacta, se virou na direção de Steve, que disfarçou um sorriso divertido com a cena que presenciou. – Mas então, o que o Coulson decidiu afinal? – perguntou em seguida, agora mostrando-se séria e um pouco mais preocupada. Steve percebeu, e logo tratou de seguir o mesmo caminho.
Bucky voltou a sentar-se sobre o sofá, e reprimiu a sombra de um sorriso mínimo ao notar que ela estava realmente preocupada com ele. Não entendia o porquê, mas também não tentou entender, não estava entendendo nem a si mesmo. Em seguida, fora a vez do Capitão também se sentar ao lado do amigo e relaxar o corpo no estofado. Stella fez o mesmo em uma poltrona à frente dos dois, pronta para escutar as explicações que viriam a seguir.
– Foi um pouco tenso todas aquelas pessoas nos observando com medo, mas como eu esperava, o Coulson pareceu mais sensato do que imaginei. Ele está disposto a dar uma segunda chance ao Bucky –explicou Steve, pausadamente, percebendo o olhar atento de Stella sobre si, escutando cada palavra dita por ele. – No final, creio que conseguimos nos resolver. E eu te apresento o mais novo agente da SHIELD, Stella –constatou em seguida, com certo eufemismo em suas palavras, afinal, sabia que aquilo estava sendo complicado para Bucky. Mas ele conseguiria, ou pelo menos, não desistiria assim tão facilmente. Nunca desistia sem uma boa luta, e essa era uma das características que ele conhecia tão bem.
– Nossa! É verdade? –ela virou-se de uma maneira brusca na direção do Soldado, encarando-o com um sorriso esperançoso, os olhos brilhando de entusiasmo. Bucky deu de ombros, fingindo não estar se importando na satisfação da garota. Tudo ficaria bem, certo? Pelo menos, era o que esperava. Todos esperavam.
– Ao que parece, é verdade sim –confirmou com poucas palavras, o tom de voz rude, não aparentando estar muito feliz com aquela decisão. Mas qual opção teria? Pelo menos agora poderia aproveitar sua liberdade. Ou pelo menos, parte dela, já que sabia muito bem que a HIDRA ainda continuava travando uma caçada contra o Soldado Invernal. Talvez só precisasse se acostumar com a ideia de agora trabalhar com a SHIELD, ele tinha Steve ao seu lado, Louis também, além de Stella e alguns outros Vingadores. Não era tão ruim assim, e pensando nisso, Bucky sorriu minimamente na direção da garota e informou: – Eles... Eles me enviarão à uma missão amanhã à noite, como um teste. Preciso provar minhas boas intenções ao Coulson.
– Bucky, isso é fantástico! –a ruiva exclamou, eufórica, ainda assim não conseguindo conter uma leve ponta de apreensão surgir em sua mente. Claro que confiava nas habilidades de Bucky para se defender, principalmente estando armado e com um batalhão de agentes à seu favor, mas não queria nem sequer imaginar o que a HIDRA faria se colocasse as mãos no Soldado Invernal de novo, e aquele era um risco que Stella sem dúvidas não queria correr. Ele era um amigo, seria normal ficar preocupada. Certo? Ela balançou a cabeça, querendo esquecer tais ideias e sentimentos.
– Tony também o quer junto aos Vingadores. Estamos ponderando seriamente a ideia, seria bom tê-lo conosco no time, e não posso negar que o Bucky vem a ser uma ajuda valiosa contra a HIDRA –novamente a voz de Steve despertou a atenção da ruiva, que absorveu aquelas palavras com profunda admiração. Era bom saber que, aos poucos, tudo estava caminhando bem. Outra onda de alívio percorreu cada centímetro de seu corpo.
– Viu, Soldado? Você está ficando importante, não é? –provocou Stella ao voltar a observa-lo mais uma vez, mantendo um vislumbre irônico, e Bucky simplesmente olhou-a nos olhos, a expressão despreocupada e brincalhona. Ela percebeu, e gostou do que viu. Ele notou, e também gostou do que viu. O Capitão apenas riu, fingindo ter ignorado a constante troca de olhares tida pelos dois naquele curto espaço de tempo.
Stella e Bucky continuaram naquela mesma posição, os olhos fixos um no outro, o verde se chocando constantemente com o azul, o tempo parecendo ter congelado. Logo, o silêncio fez-se presente no ambiente, deixando ambos em um estado quase entorpecido com o turbilhão de emoções e sensações que os rondava, extasiados pelo simples fato de estarem um tanto próximos. Mais próximos do que o recomendado, mesmo que a real distância entre eles fosse razoavelmente grande. Steve percebeu o pequeno momento compartilhado pela sua filha e o seu melhor amigo, com isso, tratou de soltar um simples pigarro, querendo desperta-los dali.
Não demorou muito para que os dois percebessem o que acontecia ao redor. Stella tornou a encarar o Capitão no mesmo instante, desperta, com o rosto ruborizado de vergonha. Bucky, por sua vez, abaixou a cabeça e escondeu um mínimo sorriso, um pouco constrangido com o que acabara de fazer. Uma significativa troca de olhares podia não ser absolutamente nada para ele, mas porque sentia o contrário em relação à Stella? Não sabia, mas queria muito descobrir. E iria.
– Acho que a mamãe vai querer conversar com você, Steve. Ela estava preocupada –desconversou Stella, encarando o pai com certa seriedade, e ainda assim, Steve sentiu um certo frio percorrer sua coluna. De fato, ele e Natasha precisavam conversar, e logo, afinal haviam algumas novidades que necessitavam serem esclarecidas. – Bem, eu vou deixar vocês dois conversando então –disse calmamente ao levantar-se do sofá, e mantendo o olhar mais uma vez fixo em Bucky, despediu-se sorrindo: – Te vejo por ai, Soldado.
A ruiva piscou os olhos na direção do pai, e em seguida, Stella começou a caminhar lentamente em direção à escada. Bucky e Steve seguiram-na com o olhar até ela sumir das vistas de ambos, e mais uma vez o silêncio tornou a existir. Desta vez, nenhum dos dois se incomodou com tal fato, pois aquele momento silencioso não foi constrangedor como os outros. Não. Era tranquilo, e compreensível. Amigável. Mas logo o Capitão tratou de cortar tal silêncio, e Bucky não se surpreendeu com isso.
– Apenas amigos, não é? –zombou Steve, fazendo menção à resposta tida pelo amigo quando, mais cedo, perguntara o que de fato estava acontecendo entre ele e Stella. Não hesitou em dizer “somos apenas amigos” de uma forma evasiva, mal entendia o que viera a significar a palavra amigos. Eles tinham uma amizade? Talvez. Não parecia.
– Ei! Estou tentando me socializar, ok? –Bucky defendeu-se no mesmo tom zombeteiro, e o sorriso do Capitão alargou-se mais ainda com a reação tida pelo amigo. Não demorou muito para que também sorrisse torto na direção dele, e com isso, o Soldado prontamente esclareceu, ainda que parte de si não concordasse em todo: – A sua filha é só uma amiga, Steve. Assim como a Louis, e agora sei que posso confiar nas duas. Apenas amigos.
Outro sorriso brincalhão desenhou-se em seus lábios no mesmo instante em que percebeu Bucky ficar um pouco mais tenso. Ao contrário do que imaginava de si mesmo, Steve não importou-se com a troca de olhares que presenciou, desde que aquilo não se transformasse em... Algo mais. Era a condição imposta por ele para aceitar de bom grado a aproximação de sua filha com o Soldado. Isso agora, pois não sabia se conseguiria vê-los em outra forma. Havia alguma chance de aquilo tornar-se “algo mais”? Pensou ser provável que não. Definitivamente, não. Esqueceu tais pensamentos ao confiar em seus instintos.
– Se você está dizendo... –redarguiu sugestivamente em seguida, deixando uma ponta de dúvida ecoar na mente do amigo, o qual estreitou o olhar em claro sinal de dúvida. Steve respirou de maneira profunda enquanto levantava-se do sofá, e logo, já de pé, observou o Soldado à sua frente. Em seguida, conteve a feição neutra ao avisar e questionar: – Eu vou tomar um banho agora e depois, conversar com a Nat. Você tem certeza que ficará bem sozinho?
– Eu vou ficar bem, não precisa se preocupar –replicou sem muita demora, completamente seguro de si, torcendo ao máximo para que suas respostas não ousassem terem saído com certa grosseria. Mas como o Capitão apenas sorriu, confirmando a decisão tomada pelo amigo, Bucky teve a certeza que não mostrou-se rude ou insensível, e até deixou uma singela risada tomar-lhe de conta com a inquietação constante de Steve.
Steve esperou alguns instantes, e então deixou a sala de estar para trás. Bucky permaneceu quieto em um profundo silêncio. Hora ou outra, um pequeno sorriso voltava a alcançá-lo timidamente, fato que não agradou uma certa pessoa, pois ele não havia percebido, mas já estava sendo observado por um bom tempo. Do alto da escada, depois de ter certeza que Stella não estava mais ali e não havia lhe visto, Logan manteve um olhar nada amigável na direção do Soldado, que, também, em momento nenhum notou sua presença.
Ao escutar os passos de Steve subindo os degraus em sua direção, o Stark logo tratou de sair dali, voltando para dentro de seu quarto instantes depois, e não demorou muito para mais uma vez ser consumido por seus mais sombrios e indiferentes pensamentos. Algo estava errado, e Logan descobriria. Sempre descobriria.
“Breathe in the light
I’ll stay here in the shadows
Waiting for a sign, as the tide grows
Breathe in the light and say goodbye”
[...]
Perdera a conta que quantos minutos ficou ali, encarando o material metalizado à sua frente por um bom tempo. Talvez tentando criar coragem. Louis suspirou profundamente antes de criar a tal coragem que ansiava e abrir a porta do escritório de seu chefe. Em seguida, ao entrar de vez na sala, a garota surpreendeu-se ao encontrar Phil Coulson e Leo Fitz em uma conversa que parecia ser importante. Ela não teve intenção de interrompe-los, mas como o diretor não importou-se com isso, e fez sinal para que ela se aproximasse, a Stark sentiu um pequeno alívio percorrer seu corpo, e mais uma vez, soltou um leve suspiro, agora vitorioso.
Houve um silêncio tenso e constrangedor. Intrigado com a presença da garota ali, Coulson sorriu abertamente, levantou-se da cadeira em que estava sentado até então, e encarou Louis com uma calmaria sem precedentes. Tentou esconder algo que carregava nas mãos, mas sabia que de uma maneira ou outra, cedo ou tarde, não conseguiria mascarar isso.
– Agente Stark –cumprimentou Leo, também lançando um sorriso amigável na direção de Louis. Os dois sempre foram bons amigos, mas quando estavam na SHIELD, à trabalho, ambos faziam questão de manterem uma relação estritamente profissional. Até porque, já havia percebido os olhares enciumados de Jemma em cima de Fitz sempre que o via com ela. Mas ele fora o único que nunca percebeu tal fato, assim como Simmons, que claro, nunca percebeu o aparente ciúme que sentia.
– Agente Fitz –respondeu a garota, no mesmo tom amigável que o companheiro, os lábios lutando para não formarem um sorriso ainda maior e mais divertido ao lembrar de quando ela e Skye tentaram juntar Leo e Jemma, o que pareceu não ter sido uma boa ideia. Louis balançou a cabeça, esquecendo tais lembranças e voltando a focar-se em seu real motivo para estar ali, na sala do diretor, atrapalhando uma conversa que parecia ser importante. – Senhor, eu creio que preciso discutir alguns termos... –tentou começar a explicar, aproximando-se mais um pouco da mesa de Coulson. Entretanto, a Stark parou de falar no mesmo instante em que estreitou o olhar e percebeu um material metálico nas mãos de Coulson. Com isso, não resistiu ao instinto de indagar com certa indiferença: – O que diabos é isso?
A garota cruzou os braços sobre o peito, a expressão confusa, agora encarando o diretor com mais firmeza. Fitz engoliu em seco, mas ainda manteve um sorriso no rosto, enquanto Phil, por sua vez, soltou a respiração de uma maneira quase exasperada. Deu um pequeno sinal para o agente ao seu lado, e minutos depois, Leo guardou a espécie de pulseira prateada de volta à uma caixa, deixando-a ainda mais intrigada. Ela deu de ombros, mas ainda assim pôde jurar ver uma pequena semelhança com o ativador da Mark 7, uma das armaduras do Homem de Ferro. Seria a mesma tecnologia? Seu pai teria criado aquilo – seja lá o que fosse – para a SHIELD? Não. Improvável.
– Isso é um rastreador, agente Stark –despejou Coulson, sem medir as palavras, como se fosse óbvio demais, beirando um pequeno sinal de antipatia. Louis revirou os olhos diante daquilo, a impaciência começando a domina-la.
– Um rastreador? Não sabia que eu precisaria de vigilância vinte quatro horas, diretor –redarguiu, a ironia mais uma vez presente em seu tom de voz, fato que fez Fitz reprimir uma risada. Fora a vez de Phil dar de ombros. Mas logo, o sorriso de Louis desapareceu quando ela percebeu por fim: – Espera... Esse rastreador não é para mim? É para...
– Sim, Louis, esse rastreador é para o Sargento Barnes –Coulson cortou o raciocínio da garota antes que ela mesma pudesse continuar o falatório. Ao lado do diretor, Leo levou uma das mãos à cabeça, prevendo uma discussão.
– Para o Bucky?! –a Stark replicou, claramente incomodada com a notícia e indignada com a falta de confiança que Coulson teimava em manter. Já não bastassem todas as provas que o Soldado havia dado para afirmar que estava do lado da SHIELD agora, e ainda precisava ser monitorado? Era um exagero, mas o diretor não pensava assim. – Senhor, isso é um absurdo! Por que o Bucky precisa usar uma dessas coisas? A palavra dele não basta? –ela insistiu, agitada, e outra vez, Phil obrigou-se a soltar um suspiro nada amigável.
– Louis, eu dei uma segunda chance ao Sargento Barnes, mas isso não quer dizer que confio plenamente nele. Preciso mantê-lo monitorado, pelo menos até ter certeza de que ele está ao nosso favor –defendeu-se Phil, e Fitz voltou a ficar tenso no mesmo instante ao perceber o olhar quase assassino da Stark. Em seguida, Coulson encarou Louis seriamente, e completou com segurança: – Estou fazendo isso pois não quero correr o risco do Soldado Invernal destruindo a SHIELD de novo. É apenas por segurança, e tenho certeza que ele ficará confortável com essa decisão.
– Honestamente, eu não tenho tanta certeza se ele ficará confortável com essa novidade. Por Deus, o Bucky não é um monstro! Ele não precisa de todo esse seu excesso de segurança, Coulson. É loucura! –rebateu Louis, ainda mais alterada.
– Claro, e a senhorita afirma isso porque já o viu de perto, não é? Já viu o quanto instável ele é! Já viu o quanto perigoso ele pode ser. E principalmente, já viu o quanto ele pode ser controlado! –as palavras do diretor se mostraram mais rudes do que o necessário, e automaticamente, Louis deu alguns passos para trás, a raiva dando lugar a uma dor e um trauma irreparáveis, despertando dolorosas lembranças, as quais sempre tentou superar. Por sorte, Phil logo percebeu isso, e já mais calmo, explicou-se melhor: – Louis, eu fui desnecessariamente rude com você, me perdoe. Você é uma das minhas melhores agentes, e não quero você envolvida com este assunto. Eu prezo a sua segurança.
– Está tudo bem, senhor, creio que isso seja verdade. Mas nós dois sabemos muito bem que eu já estou envolvida nisso –a voz dela tentou apaziguar a situação, e com as palavras ditas pela Stark, Coulson pareceu ter baixado à guarda, e com isso, Louis se recompôs e insistiu: – Coulson, o Bucky me salvou. Ele sabia o que fariam se ele hesitasse, mas mesmo assim, poupou a minha vida, sofreu as consequências por mim. Eu sinto que preciso retribuir isso. Quero e vou ajuda-lo. Por favor, só nos dê uma chance de provar que ele não é ruim.
Phil permaneceu em silêncio, fitando a garota por um bom tempo, parecendo estar ponderando os argumentos dela. Fitz, por sua vez, permaneceu quieto, ora encarando o diretor, ora encarando Louis. Ele sabia de tudo o que ela sofrera no passado, e estava ciente de que aquele era um assunto delicado, o qual, por mais que tivesse o consentimento da Stark, não possuía o poder de dar opinião. Leo praticamente conseguiu sentir a tensão palpável que se instalou ali, mas a pergunta que o torturava também torturava a mente de Coulson. Confiar... Ou não confiar?
– Por favor –repetiu ela, mostrando-se o mais calma possível, o que claramente pareceu impossível. A respiração de Louis já estava um tanto descontrolada.
Mesmo com toda a alegação vinda do Capitão América e do Homem de Ferro – e até de sua própria agente –, mesmo que com a chance que deu a Bucky... A SHIELD poderiam confiar no Soldado Invernal? Pensando neste tom similar, Coulson deixou mais um suspiro irregular transparecer, relaxou o corpo, a tensão desaparecendo lentamente, e em seguida, vencido pela enorme confiança contida nos olhos de Louis, tomou sua decisão.
– Tudo bem, sem rastreador –concordou ele, entregando a caixa na direção de Fitz, que apenas recebeu cuidadosamente o recipiente em tom marfim, e no mesmo instante, a Stark sorriu animada em resposta. Entretanto, antes que ela pudesse agradecer, Coulson adiantou-se, ergueu o indicador na direção dela e avisou com seriedade: – Mas Louis, a responsabilidade está em suas mãos agora. Eu vou conceder a liberdade ao Sargento Barnes apenas porque você me pediu com afinco, e espero não me arrepender de ter tomado esta decisão. Qualquer deslize, qualquer ato contra as regras, o rastreador se torna obrigatório. Entendido?
– Sim, senhor –respondeu quase no mesmo instante, o que de fato deixou Fitz mais tranquilo, pois ele conhecia Louis muito bem, sabia plenamente que ela possuía a mania de contestar a Deus e o mundo, e talvez essa fosse uma das características que mais prezava nela. Percebendo a animação dela, Coulson também não conseguiu esconder um sorriso bem-humorado em seu rosto. Com isso, a garota olhou com firmeza nos olhos do diretor, manteve-se firme, e assegurou, dando-o certeza de sua decisão: – Eu ficarei responsável por ele, e garanto que você não irá se arrepender por isso, Phil. Ele é um aliado à nos, e lhe dou minha palavra que podemos confiar no Bucky.
Fitz estreitou o olhar, observou os dois, e abriu a boca para fazer uma certa pergunta, contestar as palavras de Louis. Mas antes que pudesse sequer pensar em dizer algo, Coulson lançou-lhe um olhar quase mortal, fazendo com que ele esquecesse tal ideia no mesmo instante, e a Stark riu diante da reação tida por Leo. Logo percebeu que não havia mais nenhum traço de tensão ali. Tudo terminou bem. Pelo menos, por enquanto. E era o que realmente importava. O futuro? As consequências? Isso ela pensaria depois. Teria tempo suficiente, sem dúvidas teria.
“I'd love to change the world
But I don't know what to do
So I'll leave it up to you”
[...]
Base da HIDRA – alguns anos atrás
Perdeu a noção do tempo. Tão apática. O corpo estava pálido, sem cor, quase sem vida. Seu cabelo um tanto curto também não estava muito longe disso, perdera todo o brilho e maciez. O rosto delicado dela agora possuía arranhões e marcas arroxeadas, enquanto um filete de sangue escorria no canto da boca. As olheiras fundas e escuras embaixo dos olhos no mais claro sinal de cansaço, mas ela não se rendeu. Suas mãos estavam presas atrás das costas, e aquelas malditas algemas começaram a incomodar, roçando constantemente na pele alva.
Enfrentou o pavor e medo que sentia até então, mas quando a porta abriu-se com estrema violência, despertando a atenção da garota que permanecia acuada em um canto da sala, a coragem desapareceu no mesmo instante. E com isso, ela virou-se na direção da mulher parada na soleira, encarando-a com superioridade e desdém. Frieza. O medo a devorou mais uma vez, com mais fervor. Estava em um verdadeiro pesadelo.
– Onde eu estou? O que você fez com o meu irmão? –a garota murmurou baixo, assustada, receosa, a voz rouca e fraca, as lágrimas beirando nos olhos. Mas, percebendo que sua própria situação não era das melhores, ela tratou de refazer a pergunta, sentindo o corpo ficar ainda mais tenso: – O que você vai fazer comigo?
A risada mórbida da mulher contagiou todo o ambiente, e notando todo o medo aparente nos olhos daquela garota, Natalie Pierce finalmente adentrou na sala, a forte iluminação do lugar quase cegando-a, mas ao mesmo tempo, destacando o jaleco branco que ela vestia. Os cabelos loiros estava presos em um rabo de cavalo forte e alto, e uma arma escondia-se por detrás do tecido esbranquiçado do jaleco.
– Oh! Não se preocupe, eu não farei nada com você, pequena Stark –afirmou convicta ao aproximar-se mais um pouco, o sorriso venenoso desenhado nos lábios rosados. Louis Stark engoliu em seco, não entendendo muito bem o que Natalie quis dizer com isso. Então, em seguida, a loira voltou-se para um dos agentes do lado de fora da sala e ordenou: – Chega de esperar, vamos acabar com isso. Prinesite yego*.
Louis estreitou o olhar, mais uma vez não entendendo o palavreado russo da mulher. Mas ela não precisou se esforçar muito para entender, pois no instante seguinte, outra pessoa adentrou na sala. Um homem... Com um braço metalizado. A garota arregalou os olhos em puro desespero no mesmo momento em que percebeu o olhar frio e sombrio do Soldado Invernal, caminhando rigidamente na direção dela. E ao parar de frente para a garota, ainda sentada sobre o chão, Natalie aproximou-se do Soldado e entregou-lhe uma arma.
– Vá em frente, Soldado. Termine com isso. Mate-a –ordenou, o sorriso desdenhoso mais uma vez presente. Ele encarou Natalie com certa dúvida, hesitante, até que a loira novamente ordenou um “mate-a”, agora em russo, agora com mais raiva, agora com mais acidez: – Ubit' yeye. Faça.
O Soldado encarou Natalie outra vez, mas logo em seguida, assentiu com a cabeça, acatando tal ordem. Louis notou isso, e fechou os olhos no mesmo instante em que percebeu a arma ser apontada em sua direção. O som do engatilhar fez um frio percorrer a coluna da garota. E então, tudo o que ela escutou foi o som do tiro.
“No, I’m not what you think that I am made of
I’m a story
I’m a break up
Can you see my scars?”
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