National Anthem
23 Capítulo vinte e dois – Warriors
Notas iniciais
.gif)
“And I have fought
And with flesh and blood I commanded an army
Through it all
I have given my heart for a moment of glory
In the end as we fade into the night
Who will tell the story of your life?
Cause it's the end and I'm not afraid
I'm not afraid to die”
In The End – Black Veil Brides
S.H.I.E.L.D
Silêncio. Phillip Coulson sempre gostou da calmaria proporcionada pelos singelos momentos em que passava na solidão de seu escritório. Não precisava ir muito longe para perceber que tais momentos de calmaria estavam se tornando cada vez mais escassos em seu dia à dia desde que assumira o posto de Diretor daquela organização secreta. Mas ele não reclamava, muito pelo contrário. Adorava comandar seus agentes, fossem os novatos ou os experientes, e nunca sequer duvidou de sua própria capacidade de fazer da SHIELD um lugar melhor. Sempre com um sorriso no rosto, sempre sereno, transmitindo um sentimento de mansidão por onde andava, deixando assim um rastro de otimismo em cada trecho dos corredores da base.
Entretanto, Coulson parecia estar prestes a perder toda a quietude de sua personalidade, afinal, a desconfiança plantada em Bobbi e Mack vem crescendo mais do que ele gostaria, e não era o único a notar algo estranho entre os dois. Melinda May também não parecia estar confortável com a presença dos dois, principalmente com o sumiço de Hunter e a volta nada suspeita de Natalie Pierce, a repulsa e estranheza progrediram de uma forma bem negativa. Phil sabia disso, constatou isso, e por enquanto, tudo o que faria era aguardar. Esperar pelo o que viesse. Rezava que não fosse tarde demais.
Com isso, Coulson preferiu guardar sua desconfiança em seus próprios agentes para outra hora, já que haviam outras prioridades no momento. Steve lhe dará todas as provas que o tal Soldado Invernal não era mais o vilão, e mesmo com toda a indiferença aparente em vários membros de sua equipe, ele precisava ter certeza, precisava ver com seus próprios olhos. Sem dúvidas, era a decisão mais prudente a ser tomada.
Quando o silêncio foi cortado pelo ruído da aproximação de um Quinjet à base e o burburinho nos corredores tornou-se presente, o Diretor teve a fiel certeza de que suas visitas – ainda que não fossem tão visitas assim – haviam chegado. Embora soubesse de todo o caos que enfrentaria, ele permaneceu calmo, como o esperado, e respirou profundamente antes de levantar-se de vez da cadeira em que estava sentado. Era o começo de uma longa madrugada.
– Senhor, eles chegaram –tal afirmação o fez despertar. Não demorou muito para Skye adentrar em seu escritório, a feição rígida e contida, um sorriso satisfatório desenhado nos lábios, a voz tranquila e paciente. Como resposta, Coulson também sorriu, dando certeza de sua decisão.
Instantes depois, Coulson e Skye já estavam caminhando lado à lado por entre os diversos corredores da base, e a agitação dos agentes tornou-se mais intensa quando o Quinjet finalmente pousou na área de embarque e desembarque. No extenso pátio, em um canto mais afastado, May e Bobbi observavam tudo de perto, prontas para qualquer emergência que sem dúvidas seria muito difícil acontecer. Jemma, Fitz e Mack também estavam presentes ali, apenas para aguçarem a curiosidade e servirem como apoio. Todos ali, cada um deles, eram importantes para que nada saísse do controle.
Devidamente trajados com seus uniformes, Clint Barton e Natasha Romanoff foram os primeiros à saírem do Quinjet, e a expressão aborrecida no rosto da ruiva era um claro sinal de que ela não estava nada satisfeita com aquilo. Como de costume, o Gavião Arqueiro e a Viúva Negra cumprimentaram Coulson e Skye, passaram pelos dois e seguiram em direção a sala de reuniões. Phil quase deixou-se levar pela estranha troca de olhares entre Clint e Skye. Sorriu de canto ao perceber o constrangimento dela. A garota deu de ombros, e ele voltou-se a manter sua mente centrada.
Em seguida, foi a vez de Sam Wilson se fazer presente, e assim como Clint e Natasha, o Falcão sorriu ao cumprimentar Skye e Coulson, logo seguindo o caminho dos outros. Melinda aproximou-se, postando-se ao outro lado do Diretor, o olhar ávido, ora observando a correria dos agentes, ora tornando a encarar os dois últimos. Por fim, Steve e Bucky desceram do Quinjet, lado à lado um do outro, parecendo manter uma conversa amena. Ambos também já estavam trajados com seus respectivos uniformes, e mesmo que a expressão de Bucky não fosse uma das melhores, Phil viu-se satisfeito com o novo uniforme do Soldado Invernal. Muito mais SHIELD. Muito menos HIDRA. Era um começo.
– Capitão Rogers. Sargento Barnes. Sejam bem vindos de volta –afirmou Coulson, calmamente, à medida que os dois se aproximavam. Steve sorriu, e ao seu lado, o Soldado também arriscou um leve sorriso, observando Phil de uma maneira fixa, ignorando todos os olhares desdenhosos dos agentes que circulavam por ali. Cordial, o Capitão cumprimentou May e Skye, percebendo que Bucky se esforçou para repetir o gesto. Uma tensão palpável se estabeleceu naquele momento.
– Já estão todos prontos? –quis saber Steve, e Bucky o encarou, a curiosidade dando lugar a uma certa seriedade em seu tom de voz, um olhar mais rígido do que o normal. Phil deixou escapar um suspiro profundo enquanto começava a caminhar de volta aos corredores da base. Os dois logo o seguiram, sempre atraindo todas as atenções por onde passavam. Um pouco mais atrás, iam Skye e May, concentradas em tudo o que acontecia ao redor, tendo a certeza de que nada sairia do controle.
– Nossa equipe de agentes já está completa, então sim, todos prontos. Estávamos apenas esperando vocês chegarem, Capitão –respondeu Phil, a expressão em seu rosto adquirindo uma feição mais séria e formal. Steve concordou com um meneio de cabeça, aprovando a resposta. Em seguida, enquanto continuavam a caminhada em direção à uma sala específica, Coulson fitou Bucky de relance, e divagou: – A agente May encarregou-se de selecionar os agentes para lhe acompanharem esta noite. Você está prestes a comandar o nosso melhor esquadrão até agora, James.
– Ótimo. Seus agentes precisam saber o que fazem, Diretor. Quanto mais rápido terminarmos essa missão, melhor –redarguiu o Soldado firmemente, a acidez em sua resposta fez Skye arquear as sobrancelhas, desacostumada em presenciar toda aquela frieza. May e Coulson deram de ombros, enquanto Steve apenas sorriu para o amigo. Bucky o encarou, estreitando os olhos com uma rapidez absurda, mantendo a postura insensível de sempre.
A caminhada continuou por mais alguns minutos, até que finalmente, os cinco pararam de frente para uma porta metálica. May avisou que não poderia ficar, se despediu de todos, e antes de seguir por outro corredor, tratou de lançar um olhar nada animador na direção de Bucky. De novo, ele apenas ignorou, engolindo todo o ódio que sentia a cada vez que recebia uma reação controversa... Ou acusatória. Levaria certo tempo até o verem de outra forma, mas ele não se importava. Pelo contrário. Podia jurar que gostava de ser temido.
Coulson empurrou o trinco da porta com destreza, abrindo-a cuidadosamente. Bucky se apressou e deu passagem para Skye adentrar à sala primeiro. A garota o observou dos pés à cabeça, não imaginando que ele fosse capaz de um gesto amigável, e percebeu com clareza que estava errada em relação à isso. Logo, ela sorriu em resposta, e então, entrou na sala. Steve e Bucky a seguiram, e por último, Phil adentrou no ambiente.
O Soldado correu o olhar pelo lugar, reparando em cada detalhe e em cada pessoa ali presente. Todos já estavam ali, sentados à uma mesa redonda e com diversos assentos ao seu redor. Uma sala de reuniões bem organizada, com paredes em um tom claro e disposta de vários aparelhos tecnológicos. O símbolo da S.H.I.E.L.D. novamente se fazia visível em uma das paredes, próxima à uma grande janela. Natasha e Clint conversavam num canto mais afastado, e a ruiva não dignou-se sequer a encarar Bucky. Melhor assim. Evitaria confusão. O Gavião apenas sorriu, e ao lado oposto dele, Sam balançou a cabeça em um gesto positivo.
Skye e Phil trocaram algumas palavras por um certo tempo, e logo depois, o Diretor voltou-se para os outros e indicou que eles ocupassem as cadeiras dispostas. Assim o fizeram. Com todos acomodados, fora a vez dele apropriar-se do lugar na cabeceira da mesa, e Skye permaneceu de pé ao seu lado, um tablet de alta tecnologia ocupava as mãos da agente.
– Não temos muito tempo, então serei breve –ele disse, a voz e a feição adquirindo um tom mais severo e complexo. Logo, tendo certeza de que possuía a atenção de todos, Coulson suspirou profundamente, e iniciou a explicar: – Há uma base da HIDRA, em uma cidade no Tennessee, que precisa ser destruída. Capitão, Agente Romanoff, Falcão, essa é a missão de vocês. Temos civis mantidos como reféns. Resgatem-os, destruam a base, e retornem em segurança.
Os três se entreolharam por um instante, parecendo ter uma espécie de transmissão de pensamentos. Precisavam superar as indiferenças, e seguir com a missão. E era exatamente isso o que fariam. Logo, eles voltaram-se para Coulson, assentiram de uma maneira positiva, sem contestar, e o Diretor sorriu em resposta. Depois disso, Phil tornou a adquirir sua seriedade, e voltou-se para Bucky e Clint.
– Muito bem então. James, você e o Barton irão para Richmond, na Virgínia. Quero que destruam qualquer resquício da base da HIDRA, encontrem o objeto 0-8-4 e tragam-no de volta para cá em segurança –explicou Coulson, tranquilamente, enquanto os dois o escutavam com concentração, prestando atenção em cada detalhe dito por ele. – Barnes comandará o time de agentes, e Barton... –fez uma pausa, e ao encarar o Gavião, disse por fim: – Será o segundo em comando, o reforço necessário. Trabalhem em equipe, e assim como os outros, retornem em segurança.
– Entendido. E quando começamos? –indagou Clint, antes mesmo que Bucky pudesse se manifestar. Ele ignorou, não se importou com tal fato, apenas aceitou de bom grado o que lhe foi imposto. Não seria uma missão tão difícil de ser cumprida.
– Agora mesmo. O Quinjet já está pronto, e os agentes estão à espera de vocês. A agente Carter, agente Skye e agente Stark irão monitorar tudo daqui, então saberemos se acontecer qualquer imprevisto ou contratempo –respondeu o Diretor, e quando Clint e Bucky assentiram positivamente, Coulson voltou-se para todos ali presentes e desejou: – Lembram-se de não confiar em ninguém. Boa sorte, senhores.
Phil levantou-se, enquanto presenciava os outros fazerem o mesmo, e pouco a pouco, cada um deles saiu da sala. Discretamente, Steve observou Natasha deixar o ambiente, acompanhando-a com o olhar à medida que a ruiva sumia de suas vistas sem nem sequer manifestar-se. Ficou claro que aquela situação não estava sendo nada agradável para ela. Rogers soltou a respiração de uma forma exasperada, tentou esquecer qualquer pensamento negativo, trocou algumas poucas palavras com Sam, e logo o Falcão também deixou a sala, seguindo o mesmo caminho de Natasha. Em seguida, Steve aproximou-se de Bucky e Clint, e surpreendeu-se ao vê-los conversarem sem nenhum ressentimento. O fato agradou-o profundamente. Ambos pareciam concentrados, arquitetando algum plano de emergência no caso de algo der errado.
O Gavião sorriu para Steve ao vê-lo aproximar-se, e Bucky o observou de lado ao também notar a aproximação do amigo. Clint, por sua vez, voltou-se rapidamente para o Soldado, e avisou que estaria o esperando do lado de fora da sala. Ele assentiu, enquanto Barton afastava-se e caminhava na direção de Coulson e Skye, seguindo o caminho dos dois. Steve postou-se à frente de Bucky, e outra vez, não conseguiu conter um suspiro meio nervoso. Ambos encararam um ao outro no mais completo silêncio.
– Eles vão estar lá, então toma cuidado, Bucky –manifestou-se Steve depois de longos minutos calado. O Soldado sorriu de canto, não respondeu, permaneceu quieto, e apenas assentiu a recomendação do amigo, meneando a cabeça, novamente aceitando de bom grado a preocupação dele. Hesitando por um segundo, mas ignorando todos os seus conflitos internos, Rogers estendeu o braço e apoiou a mão no ombro do amigo. Bucky sentiu-se estranho, estremeceu por dentro, e não pensou em afastar-se como imaginava. Tornou a olha-lo nos olhos, e com isso, o Capitão disse por fim: – Não morra, tá?
Duas simples palavras, mas que valeram mais que uma década para ele. Bucky não negou a sensação de reconforto ao escutar tais palavras. Reconforto, sim, pois agora teve a total certeza de que Steve nunca ousaria desistir dele. Teve a certeza de que sua redenção era ali. A amizade que permanecia intacta mesmo depois de tantos anos... E tantas desavenças. Poderia enfim, recomeçar. Parecia tão real, não? Tão próximo de encontrar seu caminho de volta. Passado e presente mais uma vez se chocando, não era mais assustador. Não estava mais sozinho. Se agarraria à isso. À ele. À alegria nos olhos azuis que tanto conheceu um dia.
– Você também. Não morra –respondeu Bucky depois de um certo tempo, sua voz tentando parecer a mais sensata possível, a expressão lentamente se suavizando. Steve sorriu, afastou a mão do ombro dele, percebendo que ele estava mesmo... Mudado, ou tentando.
E só então percebeu um brilho diferenciado no olhar dele. Estranhou, mas não se manifestou. O Soldado notou a confusão do amigo, e por um milésimo de segundo, sentiu a culpa o abalar. Queria poder dizer a verdade. Dizer quem estava o mudando. Dizer o motivo do brilho nos olhos. Não podia. Era errado sentir aquilo por ela. Stella. A filha do seu melhor amigo. O medo de quebrar a confiança que estava construindo pouco à pouco se fez presente, deixando Bucky ainda mais culpado. Por mais que tentasse, não conseguia tira-la da cabeça.
Entretanto, Bucky agradeceu mentalmente a si mesmo por ter conseguido esconder todos os pensamentos que lhe rodeavam, toda a reação esperançosa que sentia quando estava perto de Stella. Não só perto dela, mas junto à ela. Não podia mais negar que o contato dela o trazia de volta à vida, era quase um vício. Mais uma vez, quis esquecer tais ideias, antes que se entregasse ali mesmo. E pensando nisso, o Soldado retornou à realidade, soltou um suspiro nervoso, e encarou Steve ainda à sua frente.
Se algo evoluísse... Ele entenderia? Ele iria compreender? Iria apoiar? Talvez, não sabia ao certo. Entretanto, tudo o que poderia garantir para si mesmo era que não ia desistir. Não ia desistir dela, não ia desistir do sentimento que estava o consumindo por dentro, e enfrentaria qualquer consequência para isso. O Capitão estreitou o olhar sobre Bucky, notando que ele parecia um tanto distante. Não entendeu o porquê de tudo aquilo, mas não ousou se manifestar. Daria tempo ao tempo. Ambos sorriram sem jeito, e o silêncio, novamente, se fez presente entre os dois.
“The time will come when you'll have to rise
Above the best and prove yourself
Your spirit never dies”
[...]
Richmond, Virgínia – Horas depois
Um filete de cor rubra escorria pela comissura de sua boca, e Bucky conseguia sentir o gosto de sangue o invadir pouco a pouco. Seus olhos não possuíam nada, nenhum sentimento, nenhum brilho. Vazio. Tão diferente de horas atrás. Mas era preciso. Era necessário colocar a máscara de assassino frio e calculista, ou eles se aproveitariam da guarda baixa. Não deixaria. Nunca mais. Agora ele estava no controle. Vingando as pessoas que um dia o torturaram, fazendo o que um dia fizeram com ele. Não demonstrava qualquer sinal de fraqueza, sinal de que nunca esteve tão bem em toda sua vida. De fato, sentia os arranhões, os hematomas, as dores no corpo, e ignorou tudo.
Próximo à ele, mesmo com todos os machucados em seu corpo, Clint não apresentava nenhum sinal de cansaço, e observava todos os passos dele, não ousando intrometer-se nos métodos do Soldado. Pelo contrário. Estava o apoiando, queria que aqueles desgraçados sofressem o inferno nas mãos de Bucky. E estava, ah se estavam. A elite de agentes em torno dos dois também acompanhava tudo, prontos para qualquer ordem. A base da H.I.D.R.A. já estava completamente dominada pela S.H.I.E.L.D., e agora restava um. O único que tinha informações sobre o objeto 0-8-4, e Bucky passaria horas e horas ali, mas não desistiria de ter o que tanto almejava. Aquilo era apenas o começo.
– Droga! Eu já disse que não sei aonde aquela porcaria está... –com o corpo muito bem amarrado em uma cadeira, ele repetiu a resposta. Sua voz possuía um leve sotaque russo, saiu rouca e desgastada, e o sangue que coloria seu rosto mostrou que não havia piedade ali. O agente da HIDRA era jovem, cabelos claros e olhos negros, mas era um dos piores, e por saber informações que nenhum outro sabia, foi entregue nas mãos do próprio Soldado Invernal.
– Você está mentindo, garoto. Eu sei disso –redarguiu o Soldado, e Clint revirou os olhos com a extrema capacidade que o agente tinha para mentir. Já estava cansado daquele joguinho, cansado de ser enganado, e assim como Bucky, queria respostas. Com isso, Barnes respirou profundamente, encarou o loiro à sua frente, a feição raivosa o fez continuar. Logo, tentou argumentar, e propôs: – Vamos fazer um trato, certo? Você me diz o que eu quero, e eu não te machuco mais. Agora você não me diz o que eu quero... E aí sim eu te machuco. O que me diz?
O agente o encarou com fúria, fixou os olhos nos dele, e com isso, a risada de escárnio contagiou o ambiente. Barton estreitou o olhar sob o garoto loiro, aproximando-se mais um pouco e postando-se ao lado de Bucky, cruzou os braços sobre o peito. Bucky cerrou os punhos raivosamente, e com isso, desferiu um outro soco certeiro no rosto do agente, que gemeu de dor, e riu mais uma vez. A verdade era que ele estava se divertindo, e Bucky, já perdendo a paciência.
– Vá para o inferno! Prefiro morrer a te ajudar. A ajudar vocês! –bradou em resposta, e ganhou mais um soco em troca. O garoto pendeu a cabeça para trás, enquanto um novo corte se abria em seu rosto. Desta vez, não deixou escapar uma risada, mas sim um gemido mais forte de dor. A respiração alterada, e seus olhos exalavam um ódio mortal. – Você nunca devia ter deixado a HIDRA, vai acabar se matando, ou a SHIELD fará. Whitehall o quer, e vai te caçar até o fim dos tempos! Me mate, e outros virão. Nunca vai acabar, é um ciclo vicioso. Corte uma cabeça e duas nascerão no lugar –ameaçou o agente, e Bucky sentiu um frio percorrer seu corpo ao escutar tal frase. A maldita frase, o maldito lema da H.I.D.R.A. Com isso, o Soldado sorriu com repulsa, aproximou-se um pouco mais do garoto e segurou o rosto machucado com a mão metálica, apertando-a com certa força em seguida, forçando-o a olha-lo nos olhos.
– Você pensa que eu não me lembro, não é? Está enganado, porque eu me lembro de tudo o que você me fez. Mas agora é a minha vez de te torturar, olha que engraçado –ironizou com a mais pura certeza, deixando uma dúvida pairar na mente de Clint, encarando o garoto loiro com firmeza, que apenas estreitou o olhar, não entendendo o que queria dizer com aquilo. Em seguida, Bucky tornou a adquirir uma raiva sem tamanho, e soltou o rosto do agente. Depois, disse por fim: – A verdade é que não se mata quem já está morto.
O Soldado afastou-se, e Clint entendeu o que precisava fazer. Barton trocou olhares com Bucky, assentiu, e agora, fora a sua vez de aproximar-se do agente. Com isso, o Gavião retirou uma flecha da aljava em suas costas, e sorriu enquanto acariciava a ponta metálica da haste. O garoto loiro arqueou as sobrancelhas, desafiando-o, e notando isso, Clint não esperou para cravar a flecha no abdômen dele. O grito de dor não assustou nenhum dos agentes da S.H.I.E.L.D., que continuavam a acompanhar tudo de perto, e fez com que Bucky deixasse transparecer um leve sorriso de satisfação.
– Não vou perguntar de novo, então acho melhor você responder –indagou Barton, girando a flecha alojada na pele do garoto e fazendo com que uma linha de sangue colorisse o uniforme que vestia. A dor era quase insuportável, e o agente mordeu os lábios, controlando seus gemidos desagradáveis. Ainda pressionando a flecha, Clint aproximou-se mais ainda, olhou-o firmemente nos olhos, e perguntou outra vez: – Onde está o 0-8-4?
Barnes o observou com raiva, estando quase a ponto de matar aquele agente. E faria, assim que possível. O garoto loiro engoliu em seco, ponderando o que deveria fazer, sentindo aquela dor agoniante crescer ainda mais. Sangue desceu de novo, deixando um rastro rubro em suas vestes. Novamente, encarou Clint, encarou Bucky, e voltou a encarar Clint. O gavião girou a flecha mais um pouco, incentivando-o a falar. Outro gemido de dor, mais sangue.
– Há uma sala no final do corredor, é protegida por senha. Está lá –ele revelou finalmente, o corpo dando os primeiros sinais de desgaste, mas seus olhos ainda contendo uma fúria palpável, fazendo com que os agentes da S.H.I.E.L.D. relaxassem por fim. Clint sorriu com ironia, lançou um olhar cúmplice na direção de Bucky, e assentiu.
– Viu como foi mais fácil? Obrigado pela sua cooperação –o Gavião virou-se na direção do garoto loiro, e agradeceu, o sarcasmo fiel em suas palavras. Ele ignorou a flecha ainda alojada no agente, e Bucky reprimiu uma singela risada enquanto Clint agora aproximava-se dele. Frente à frente um com o outro, Barton o observou satisfeito, e com isso, deu a decisão para o Soldado: – É todo seu, Barnes. Você decide.
Agora, fora a vez de Bucky assentir. Ele mais uma vez encarou o agente com seriedade, estudou suas feições e a condição que se encontrava, e percebeu que aquele garoto poderia saber muito mais a respeito da H.I.D.R.A. Seria útil, sem dúvidas, e no fundo, Clint também sabia disso, tinha certeza disso. Tanta certeza que não se espantou com a decisão tomada por Bucky. Aprovou, e no final de tudo, caiu em si ao constatar que o Soldado Invernal não era tão ruim assim, pelo contrário. Devagar, mudaria sua opinião sobre ele, e assim seria.
– Tire esse desgraçado da minha frente. Nós vamos leva-lo conosco. Coulson vai gostar de ter uma conversa com ele –instruiu para um dos agentes sobre seu comando, e o agente rapidamente assentiu, acatando a ordem sem contestar. Em seguida, Bucky voltou-se para Clint mais uma vez, e quase adivinhando os pensamentos do outro, constatou: – Pronto para encontrar o 0-8-4?
O corredor era extenso, e estava completamente destruído. Bucky e Clint iam à frente, seguidos por alguns agentes da S.H.I.E.L.D. apenas para lhe darem cobertura. Depois de caminharem por alguns minutos, atentos a qualquer movimento suspeito, os dois pararam próximos a uma porta metálica, as siglas “0-8-4” gravadas na superfície do material, e de fato, protegida por uma senha. Entretanto, Barton não viu problema nisso, e com as dicas que recebia pelo comunicador vindas de Skye, rapidamente conseguiu hackear a senha para ter acesso à sala. O grupo de agentes parou, aguardando por alguma ordem, e ali permaneceram.
Bucky retirou uma arma de seu coldre e engatilhou a mesma, apontando-a em direção à sala. Clint repetiu o gesto, e instantes depois, ambos adentraram no ambiente. Diferente do restante da base, o lugar estava intacto. As paredes extremamente brancas doíam na vista, contrastando com a forte iluminação. Entretanto, a surpresa foi instantânea, e Barnes não conseguiu deixar de estreitar os olhos, não entendendo o que acontecia ali. O tal objeto 0-8-4 era... Uma mulher? Dentro da sala, havia uma cama simples, e sentada sobre a cama, havia alguém. Era sim uma mulher, loira, de olhos azuis e feição frágil. Ela estava acorrentada à uma haste de metal, e seu aspecto não era dos melhores. O Soldado apontou sua arma na direção dela enquanto aproximava-se com cuidado.
Mas quando a mulher levantou a cabeça e encarou os dois, Clint assustou-se, arregalou os olhos sentindo um frio percorrer todo o seu corpo. O Gavião observou atentamente os olhos azuis da loira, revelando um passado não muito distante em que ela estava presente. Tudo ficou muito confuso. Depois de tanto tempo, seus segredos, seus demônios voltaram para assombra-lo. Barton abaixou sua arma no mesmo instante em que voltou a realidade a percebeu o real estado em que aquela mulher se encontrava. Estava pálida, hematomas arroxeados e arranhões por todo o corpo, e um corte acima da sobrancelha derramava uma cor rubra, colorindo boa parte do rosto dela com sangue.
Então, a loira finalmente pareceu o reconhecer, e seus olhos também se arregalaram no mesmo instante em que fixou o rosto no dele. Extasiada, ela endireitou-se na cama em que estava sentada, tendo uma melhor visão do arqueiro. Bucky não se moveu um centímetro sequer, apenas abaixou sua arma e observou a situação tensa que ali se instalava, confuso demais para sequer tentar entender o que estava acontecendo.
Logo, Clint observou a mulher por um bom tempo, como se ela fosse desaparecer a qualquer instante, e a loira também não se moveu, assustada demais para pensar em alguma coisa. Barton engoliu em seco, esperando qualquer reação fosse. Entretanto, ele pareceu perder completamente o chão e a razão, e tudo o que conseguiu dizer foi:
– Carol?!
“I'm so confused, I don't know what to feel
I never thought that you and I would ever meet again
But where do we begin now that
You're back from the dead?”
Fale com o autor