National Anthem
3 Capítulo dois – Mother
Notas iniciais

“In your tears and in your blood
I hear you laugh, I heard you sing
And I wouldn't change a single thing
Steal my heart, and set me free
For you I'd wait 'til kingdom come
Until my day my day is done
For you I've waited all these years
I don't know which way I'm going, I don't know what I've become”
Til Kingdom Come – Coldplay
Era começo de janeiro, começo de um ano novo atordoado. Uma fina chuva caía sobre Washington naquele momento. Fazia horas que ela estava naquela mesma posição, sentada sobre o sofá de seu apartamento, enquanto seu mundo parecia desmoronar. Seu rosto estava inchado e seus olhos levemente avermelhados, dois claros sinais de que já havia chorado por um bom tempo. Mantendo o olhar fixo em um pequeno bastão em suas mãos, Natasha sentia todo o seu corpo tremer. Não conseguia pensar direito, a única coisa que havia feito durante toda a madrugada e o começo da manhã foi chorar. Nunca sentiu-se tão vulnerável como naquele momento. Aliás, nunca imaginou que pudesse chorar tanto.
A espera estava matando-a pouco a pouco, e o desespero parecia crescer dentro de si, cada vez mais.
– Deus, não. Por favor, não –murmurava repetidamente com a voz já rouca, em meio as lágrimas que teimavam a rolar sobre sua face cansada.
Quando olhou para o relógio em seu pulso e viu que já haviam se passado os dois minutos necessário, Natasha sentiu seu coração se apertar, não conseguia pensar em mais nada a não ser o resultado que descobriria a seguir.
A ruiva então encheu-se de uma coragem que no momento não sabia de onde havia tirado, deu um longo e pesado suspirou, e finalmente moveu o olhar para o teste de gravides em suas mãos. Seus olhos encheram-se novamente de lágrimas quando viu dois finos traços formarem-se no pequeno bastão. Positivo. Positivo. Positivo!
Se pudesse definir uma sensação naquele momento, ela com certeza diria que sentia desespero, um desespero enorme, um desespero que nunca havia sentido em toda a sua vida. Como Viúva Negra, Natasha já havia ficado frente e frente com a morte várias vezes, mas em todas as situações que colocou sua vida em risco, nunca sentiu um desespero e até um medo tão grande como naquele momento. Medo e desespero, era o que a resumia naquele momento.
Estava tão confusa, estava tão desesperada, que logo voltou a chorar descontroladamente. Natasha não encontrava aquela personalidade forte, firme e sem sentimentos naquele momento. Tudo o que via em si mesma era uma mulher que acabara de descobrir que estava grávida, gravida de um homem o qual estava apaixonada. Grávida, e sem saber o que fazer. Naquele momento, era simplesmente mulher, sem mascaras e sem fingimento, apenas mulher, com os sentimentos a flor da pele, à beira de entrar em colapso.
Nervosa, Natasha jogou longe o bastão, deixando que ele caísse em um canto qualquer do chão, e em seguida elevou as mãos ao rosto, completamente descontrolada. Encostou-se no sofá, e perdeu a conta de quantas horas ficou ali, chorando, com raiva, com medo. Medo pois não sabia qual iria ser a reação de Steve ao descobrir. Nem sequer tinha pensado nisso, até aquele momento. Não sabia o que fazer, não sabia o que pensar.
Foi então que finalmente resolveu tomar alguma iniciativa, pois não poderia ficar ali até o fim dos tempos, mesmo desejando isso do fundo de sua alma. Precisava agir, precisava fazer alguma coisa.
Natasha suspirou, tentando acalmar-se. Enxugou as lágrimas com as pontas dos dedos e lutou contra a forte vontade de voltar a chorar. “Olhe só para você, Romanoff, chorando como uma menininha.” Seu subconsciente parecia gritar, deixando-a louca.
Decidiu tomar um banho, e depois de passar um longo tempo debaixo do chuveiro, pareceu conseguir relaxar, muito pouco, mas conseguiu. A ruiva então vestiu-se com uma roupa mais leve e, enquanto caminhava até sua cozinha para preparar um forte café, agradeceu mentalmente por estar de folga da SHIELD naquela manhã.
Romanoff tomou várias xícaras de café e quase não comeu nada, ainda abalada, e a vontade de chorar persistia, rondando sua mente a cada segundo. Sentia seu estomago embrulhar, sentido que poderia vomitar a qualquer momento. Voltando a sentar sobre o sofá, a ruiva deixou sua xícara sobre a mesa de centro, e esperou algum tempo, olhando fixamente para o teste de gravides, ainda jogado sobre o chão.
Ela então suspirou longamente, enchendo-se de coragem e tentando manter-se forte, o que parecia impossível naquele momento. Subitamente, levantou-se do sofá e caminhou a passos lentos até seu quarto. Aproximou-se da mesa de cabeceira e, com as mãos tremulas, pegou seu celular. Romanoff sentou-se amigavelmente sobre a cama enquanto discava rapidamente um número no aparelho em suas mãos. Aproximou-o de seu ouvido e deixou chamar.
– Natasha? – a voz doce de Pepper finalmente pode ser escutada.
Natasha conseguiu dar um leve sorriso, agradecendo mentalmente por Pepper estar em na cidade durante algumas semanas, trabalhando avidamente em um novo projeto para uma outra Torre Stark, agora em Washington.
– Oi, Pepper. Desculpe ligar a essa hora, mas eu estou com.... – ela fez uma pausa, segurando-se para não chorar, e então continuou. – Estou com um problema, e acho que você é a única que saberá me ajudar – explicou.
– Oh meu Deus, é alguma coisa séria? –perguntou Pepper, sentindo a voz da agente ficar cada vez mais tensa.
Natasha engoliu em seco.
– Sim, é bem sério –respondeu, e em seguida, perguntou, já sem forças para segurar seu choro. – Será que você poderia vir até aqui?
A resposta de Pepper foi rápida, quase imediata.
– Claro que sim, Nat! Chego ai em quinze minutos, no máximo. Aguente firme –disse, tentando transmitir controle, mas também parecia não estar dando certo.
A verdade era que Pepper Potts e Natasha Romanoff haviam construído uma grande e fiel amizade desde a batalha dos Vingadores em Nova Iorque. Desde então, as duas eram sempre unidas, e sempre que podiam, arranjavam um tempo para se verem e colocaram as conversas em dias. Mas o ápice da relação das duas fora a cinco meses atrás, quando Pepper descobrira que estava grávida de Tony, e buscou a ajuda de Natasha. Mesmo sem entender muito daquele assunto, Natasha foi quem consolou a amiga e, por incrível que pareça, a deu os conselhos certos.
Agora, parecia o momento certo de Pepper retribuir o favor, pois tudo o que Natasha desejava naquele momento, era alguém para desabafar, conversar, e chorar, chorar mais ainda.
[...]
Seis anos depois...
A medida que abria os olhos, conseguia visualizar a luz da lua que entrava facilmente no quarto, clareando o ambiente. Sua respiração era calma, relaxada. O vento frio da madrugada batia contra a cortina de cor rosa, na janela de frente para a cama. Ela remexeu-se na cama, tentando voltar a dormir, mas não conseguiu. Esperou algum tempo, até que então sentou-se sobre a cama, olhando ao redor com certa dificuldade. Coçou os olhos com as costas das mãos, e levantou-se, caminhando a passos tortos para fora do quarto.
Os sons que vinham da sala de estar estavam baixos, mas à medida que se aproximava, aumentavam gradativamente. Ao chegar à sala, ela fixou os olhos na mulher ruiva a sua frente, sentada sobre o sofá. O ambiente estava iluminado apenas por um abajur em uma mesa ao lado do sofá e pela luz que era emitida da televisão.
– Mamãe? –chamou a pequena garota, com a voz sonolenta, aproximando-se cada vez mais.
Concentrada na leitura de vários documentos de sua nova missão, Natasha despertou em um sobressalto, e só assim notou a presença de Stella no ambiente. Os cabelos ruivos e lisos da garotinha estavam um pouco assanhados, e seus olhos verdes pareciam estar cansados. Vestindo um pijama rosa de mangas compridas, a pequena abraçava-se fortemente a um urso de pelúcia.
Romanoff então olhou para a filha, e sorriu, sentindo seu coração se encher de alegria naquele momento. Ela poderia estar passando por qualquer problema fosse, poderia estar chateada com algo, poderia estar com raiva de alguém, mas sempre que olhava para o rostinho risonho de Stella, todas as suas preocupações se dissipavam, cada momento que passava ao lado dela era maravilhoso.
– Oi, meu amor –disse ela, afastando todos os papeis em suas mãos e colocando-os sobre a mesa de centro. Em seguida, abriu os braços para Stella, que sorriu e correu em sua direção, abraçando Natasha carinhosamente. – O que houve, Stella? Era para você estar dormindo –continuou a falar, sorrindo, enquanto fazia cócegas no corpo da filha, fazendo-a rir.
Stella sentou-se sobre o colo da mãe.
– Tive um pesadelo. Não consigo dormir –respondeu Stella, docemente.
Natasha suspirou pesadamente e abraçou novamente a filha, enquanto ela se aninhava em seus braços, sentindo-se protegida. A ruiva cantarolava uma canção qualquer, balançando Stella em seus braços, acalmando-a. Mas a garotinha realmente não estava conseguindo voltar a dormir.
Dado certo momento, um silêncio se instalou, e quando Natasha pensou que Stella havia voltado a dormir, a voz da pequena foi escutada novamente.
– Mamãe, porque eu não tenho um pai? –perguntou Stella, inocentemente.
Romanoff sentiu seu coração se apertar com a pergunta da filha. Os anos haviam se passado, mas o amor que Natasha mantinha por Steve ainda estava lá, vivo, torturando-a psicologicamente. A dor de ter abandonado o amor de sua vida ainda estava presente, todos os dias, todas as horas. A verdade era que a ruiva sentia falta de Steve, sentia falta do pai de sua filha.
– Quem disse que você não tem um pai, Stella? –replicou Natasha, suspirando calmamente enquanto ajeitava-se melhor no sofá, colocando o corpo da filha sobre seu colo, com o objetivo de fazer com que Stella a olha-se.
A pequena franziu a testa, confusa.
– Nunca me falou sobre ele, então acho que não tenho um pai –respondeu com a maior inocência possível.
Natasha não conseguiu deixar de rir com o comentário da garota.
– Meu amor, é claro que você tem um pai. Mas eu já expliquei para você, não é? A mamãe nunca contou nada sobre ele pois é para sua segurança –ela fez uma pausa, e quando Stella a encarou, a ruiva continuou. – Seu pai tem muitos inimigos, Stella, e você seria um alvo fácil se soubesse quem ele é.
A pequena deu um sorriso tristinho, e perguntou:
– Então é por isso que eu tenho que morar com o tio Clint, e não com você?
Romanoff então acariciou o rosto da filha, e sorriu.
– Tudo o que eu faço é para proteger você, Stella. Não é só seu pai que tem inimigos, e o meu trabalho é perigoso. Por isso você precisa morar com o tio Clint, para sua segurança. Você entende isso, meu amor? –explicou calmamente.
Stella sorriu novamente, concordando com um meneio de cabeça.
– Sim, eu entendo, mamãe –respondeu.
– Boa menina –murmurou Natasha, dando um beijo carinhoso sobre a testa da filha.
As horas se passaram, e Stella acabou adormecendo nos braços da mãe, enquanto Natasha continuava a cantarolar uma canção, voltando a ler atentamente os documentos da SHIELD, agora em suas mãos.
O celular de Romanoff vibrou sobre a mesa de centro, despertando-a novamente. A ruiva visualizou o nome de Clint no visor e atendeu rapidamente a chamada.
– Tasha, temos um problema –disparou o Gavião, assim que ouviu a voz dela.
Imediatamente, Natasha sentiu seu corpo ficar tenso.
– O que houve? –perguntou.
– Ela não está mais segura aqui. Eles a encontraram, Natasha. Eles sabem que a Viúva Negra tem uma filha –explicou Clint.
Com muito cuidado para não acorda-la, Natasha deitou Stella sobre o sofá, ajeitando-a em uma posição confortável. A garota deu um leve murmuro sem abrir os olhos, e logo voltou a dormir. Em seguida, a ruiva afastou-se, ainda sem tirar os olhos da filha. Aproximou-se da janela e ali ficou, tentando manter-se calma. O medo parecia invadir sua mente pouco a pouco.
– Como isso aconteceu, Clint? Droga, nós tomamos todo o cuidado possível! – indagou ela, já nervosa, tentando manter sua voz baixa, mas parecia impossível naquele momento.
– Calma, Viúva! Nada de ruim vai acontecer com a Stella, você sabe disso – ele tentou acalma-la, inutilmente. – Faremos uma pequena reunião de emergência amanhã cedo, no meu apartamento. Esteja lá, ok? E por favor, tente ficar calma, Tasha. – explicou.
Natasha suspirou, cruzando os braços acima do peito e encostando-se sobre a janela, sentindo cada parte em seu corpo doer. Só de pensar em algo ruim acontecendo a sua filha já deixava-a louca. A ruiva voltou seu olhar para a pequena criança dormindo tranquilamente no sofá, e sorriu levemente. Ela amava Stella, amava demais sua filha, amava-a mais do que a si mesma, e nunca sequer pensou que poderia sequer ama-la tanto assim.
– Tudo bem, nos vemos amanhã então –respondeu depois de algum tempo, ainda mantendo seu olhar preocupado em Stella.
Clint suspirou, e antes de encerar a chamada, aconselhou:
– Tente dormir um pouco, Tasha. Nossa pequena precisará de você mais do que nunca.
Natasha concordou.
– Você tem razão, Clint. Descanse em pouco também, ok? Amanhã resolveremos tudo –respondeu, por fim.
– Boa noite, Viúva – o Gavião disse, por fim, encerando a chamada.
Tudo o que Natasha sabia naquele momento era que protegeria Stella, seja o que fosse necessário, ela sempre a protegeria.
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