National Anthem
17 Capítulo dezesseis – Afraid
Notas iniciais
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“Stooped down and out
You got me beggin for thread
To sew this hole up that you ripped in my head
Stupidly think you had it under control
Strapped down to something
That you don't understand
Don't know what you were getting yourself into
You should have known”
Beggin For Thread – Banks
Sua mente fervilhava à mil, e devagar, seu coração alterava o compasso pouco a pouco. Mas ela permaneceu forte. Ignorou tudo o que passava em sua cabeça, enfrentou as companhias indesejáveis e continuou ali. A insegurança fazia-se presente sempre que baixava a guarda, não que isso fosse um problema. Talvez, mas não agora. E enquanto pensava e repensava sobre tudo, Natasha Romanoff caminhava lentamente pelo corredor, em uma direção certa, medindo seus passos ao mesmo tempo que aproximava-se, tentando a todo custo fazer o mínimo barulho possível. Não demorou muito para ver-se de frente para o quarto de Stella.
Devagar, a Viúva Negra girou a maçaneta e empurrou a porta, fazendo-a ranger com o atrito. Praguejou-se mentalmente pelo barulho que fez, temendo ter acabado por acordar a filha, mas não foi o que aconteceu, fato que a deixou aliviada. Sabia que a garota precisava dormir, mas sabia também que estava na hora de sair daquele quarto, afinal, já haviam se passado dois dias inteiros e Stella continuava presa em sua própria realidade, escondendo-se do mundo lá fora. Natasha tentou conversar, mas não conseguiu. Os constantes esforços de Pepper, Steve, Clint e até mesmo Tony para tira-la dali não adiantaram em momento algum. Louis era a única que estava conseguindo conversar com ela, abandonava sua rotina apenas para fazer companhia para a amiga, que agradecia de bom grado e desabafava o quanto podia.
Quando adentrou no ambiente, encontrou o quarto quase no escuro, as cortinas fechadas e um silêncio constante. Louis estava sentada na cama com a cabeça de Stella apoiada em seu colo, acariciando os cabelos da amiga enquanto ela dormia, e vez ou outra, chorava baixinho, quase sendo impossível de notar. Ainda que com pouca iluminação, a Stark sorriu ao encarar Natasha ali, lançando um olhar cúmplice em sua direção. Ela também sorriu, aproximando-se das duas de uma maneira calma.
Novamente, quando seus olhares se encontraram, Natasha e Louis concordaram mentalmente que já estava em tempo de mudar aquela situação, pois Stella não poderia apenas passar o resto de sua vida ali naquele quarto. Pensando nisso, Romanoff caminhou até à janela e, em um gesto rápido, puxou as cortinas, iluminando o ambiente com a luz da manhã. Os finos raios de Sol a encontraram em questão de segundos, despertando-a de um sono profundo e conturbado. A garota contorceu-se a contragosto, irritada, enquanto escondia o rosto nas cobertas e murmurava palavras incompreensíveis.
– Stella, chega de ficar neste quarto, hora de acordar –a voz de Natasha era firme e carinhosa ao mesmo tempo, impossível de ser ignorada, mas ainda assim, Stella não moveu-se um centímetro sequer.
Louis suspirou pesadamente ao mais uma vez acariciar os cabelos de Stella, encarando-a enquanto tomava uma decisão, e feito isso, começou a puxar as cobertas que envolviam o corpo frágil da amiga. Novamente, a garota murmurou algumas palavras indecifráveis pela voz rouca de sono antes de acordar por fim. Ela não resistiu o impulso de correr o olhar pelo quarto no mesmo instante em que suas orbes verdes abriram-se, incomodada com a iluminação que a alcançava.
Uma pausa, e ela finalmente pareceu tomar uma decisão sensata. Stella bufou de raiva enquanto sentava-se na beirada da cama e passava as mãos pelo rosto de uma forma exasperada. Louis não conseguiu evitar uma leve risada ao perceber toda a irritação dela, e com isso, a ruiva fechou a cara e deu um pequeno empurrão no ombro da Stark. Natasha observou as duas com animação enquanto ajoelhava-se à frente da filha e sorria.
– Melhor? –perguntou com preocupação ao repousar as duas mãos nos joelhos de Stella, e a garota assentiu. Seus olhos estavam claramente vermelhos e um tanto inchados, mas ainda assim, a aparência dela já havia melhorado muito em comparação aos dias anteriores. Natasha soltou a respiração ao levantar o olhar a filha e informou: – Seu pai e eu estamos preocupados, todos estão, Stella. Você não é assim, meu anjo, precisa levantar dessa cama e encarar o mundo lá fora.
– Não quero sair daqui e dar de cara com ele, mãe. Eu não sei se... Se estou pronta para isso –alegou a garota, evitando olha-la nos olhos, não sabendo ao certo como reagir diante daquelas palavras. Entretanto, Stella percebeu que a vontade de chorar não estava mais ali, apenas uma raiva sem tamanho que ainda consumia cada parte de seu corpo. Era um bom começo. Ou não.
– O Logan não está na Torre –fora a vez de Louis se manifestar, receosa, automaticamente atraindo a atenção de Stella, que assim como Natasha, virou o rosto na direção da garota e a encarou com dúvida. – Quando vocês terminaram, ele ficou descontrolado, saiu e desde então não temos notícias dele. Provavelmente vai passar um bom tempo longe daqui, pensando na idiotice que fez –explicou a garota, e em seguida, não conseguiu conter um sorriso divertido ao insinuar: – E acho que ele vai pensar muito no que fez depois da conversa que teve com o Steve.
– O quê? –perguntou Stella ao virar-se na direção de Natasha, ainda à sua frente, claramente duvidosa se as palavras de Louis eram uma coisa boa... Ou ruim. Stella imaginava que sua mãe conversaria com Logan, mas Steve, não, ela nunca imaginou. Estranhou. A informação a pegou de surpresa, mas não pôde negar que uma boa parte de si gostou daquilo. – Como assim, mãe? O que ele fez? –perguntou mais uma vez ao reparar no silêncio de Natasha.
– Digamos que, quanto viu você naquele estado, chorando aos quatro ventos*, ele mostrou-se superprotetor em relação à isso. Vou ser honesta, eu nunca o vi daquele jeito, tão furioso, chegou até a ser fofo toda a preocupação dele com você –esclareceu com divertimento, arrancando um tímido sorriso de Stella, que abaixou a cabeça ao sentir suas bochechas ficarem levemente vermelhas. – Eu mesma quis ter uma conversa séria com o Logan, mas o Steve foi irredutível em relação à isso. Não pude fazer nada –completou Natasha com certa satisfação naquelas palavras, e Louis riu lembrando-se daquilo.
– Eles conversaram por um bom tempo, e o Logan voltou para a sala de estar com uma cara nada amigável –relatou Louis, novamente não conseguindo conter o riso diante do que presenciou. Natasha a acompanhou, rindo ironicamente, e logo a risada doce de Stella também fez-se presente. – Você precisava ver a cara dos meus pais quando viram a cena –disse, fingindo drama, e as duas ruivas riram de novo com a careta feita pela Stark.
– Me surpreendi pelo Tony não o impedir de sair daqui, pelo contrário, quase arrastou o Logan para fora da Torre. Foi até engraçado, eu admito –com as palavras ditas por Natasha, uma nova onda de risadas ecoou, e ela pareceu ter ficado feliz por ver Stella voltando ao seu normal, ou quase isso. Aos poucos, o silêncio começou a voltar, deixando as três em uma monotonia absurda. Logo, Romanoff voltou a observar a filha, segurou fortemente as duas mãos da garota, e garantiu com seriedade: – O Logan não vai voltar tão cedo, Stella, e quando ele voltar, tenho certeza de que não chegará nem perto de você. Eu não vou deixar.
Stella encarou a mãe, acreditando fielmente em suas palavras. Ela sabia que, uma hora ou outra, iria dar de cara com Logan. Mas mesmo com toda a raiva e mágoa que ainda sentia naquele momento, precisava seguir em frente, e a melhor maneira de começar isso seria saindo de vez daquele quarto, voltar à sua rotina, voltar à sua vida, e agora sem Logan nela. Seria difícil, claro que seria, afinal, os sentimentos que mantinha por ele eram verdadeiros até demais. Entretanto, não era impossível. Ela podia. Ela realmente podia esquece-lo. E faria isso.
– Eu vou ver alguma coisa para você comer, tá? –disse Louis ao perceber que Stella já estava a horas sem se alimentar, fato que deixou-a mais preocupada do que o normal. Entretanto, Natasha sabia que aquele era um pretexto para a Stark deixar o quarto, pois Louis havia sentido que a amiga precisava de um tempo sozinha com a mãe. – Já volto –informou antes de deixa-las a sós, Stella e Natasha assentiram.
Instantes depois, a porta do ambiente fechou-se, deixando as duas completamente sozinhas e em um silêncio apaziguador. Natasha levantou-se do chão com um impulso e se sentou ao lado de Stella na cama. Não demorou muito para a garota se virar na direção de Romanoff, encarando-a com um singelo sorriso no rosto. A Viúva Negra soltou um suspiro aliviado e mais uma vez voltou a entrelaçar suas próprias mãos com a da filha, também não conseguindo esconder um sorriso diante daquilo.
– Você está bem mesmo? –perguntou ao perceber a feição preocupada de Stella, praticamente adivinhando que algo estava errado. A garota desviou os olhos, abaixando a cabeça com a pergunta, a qual mais parecia uma afirmação. Natasha estreitou o olhar na direção dela, e sem esperar nenhum segundo sequer, mostrou-se rápida ao erguer o rosto da filha com um dos dedos de uma forma carinhosa, e ao mesmo tempo, firme. – No que você está pensado, Stella? Sabe que pode me dizer –pediu em um tom apaziguador, a voz tão fraca que quase não conseguiu ser escutada.
Stella esperou alguns longos instantes antes de responder à pergunta feita por Natasha, tentando raciocinar no que estava prestes a dizer. Ela sabia, ela sentia, que algo não estava certo em si mesma. Como uma sensação... Diferente que crescia a cada instante. A garota não havia dito aquilo a ninguém, nem mesmo para Louis, há semanas não tinha uma boa noite de sono. Sentia-se estranha, em todos os sentidos, e suas suspeitas se confirmaram quando teve a briga definitiva com Logan. Aquele tapa, a força imposta por ela no rosto do garoto deixou-a apavorada. Mas ela ignorou tal fato. Estava tão magoada com o ex-namorado que apenas ignorou qualquer mudança em seu corpo. De fato, alguma coisa ali estava errado, e ela sabia. Ela sentia em cada terminação nervosa em sua mente.
Pensando nisso, a garota perguntou-se porque não contar aquilo para Natasha. Talvez ela pudesse ajudar dizendo que Stella estava passando apenas por uma fase e que tudo ficaria bem. Ou do contrário, ficaria mais preocupada ainda e iria até o inferno se fosse preciso para saber o que estava acontecendo. Mas precisava contar, precisa pôr todas aquelas preocupações para fora, e dessa vez, era como se apenas sua mãe pudesse lhe ajudar. Não Louis, ou Clint, nem Steve, apenas Natasha.
Talvez porque a Viúva Negra a entendesse melhor do que ninguém, a conhecesse melhor do que ninguém, como uma conexão neural impossível de ser quebrada. Mesmo com todos os segredos que escondia em seu passado, Stella sabia que sua mãe era única que poderia lhe dizer o que fazer, como agir, o que pensar. E era disso que ela precisava. Alguém que mostrasse o caminho, e que lhe acompanhasse nesse caminho. Estava insegura, completamente insegura a respeito do que acontecia dentro de seu corpo. O que poderia ser toda aquela força? Toda aquela raiva que carregava dentro de si? Não sabia ao certo, mas descobriria. Ela sempre descobriria. E iria encarar as consequências, sejam quais fossem.
– Mãe –chamou ela, despertando subitamente a atenção de Natasha, que em um gesto imediato, encarou Stella com uma preocupação palpável em seus olhos. Apertou as mãos da filha contra as suas, incentivando-a a continuar. E ela o fez, não hesitando mais: – Você acha que... Que o soro no meu corpo pode estar me mudando?
Natasha não pareceu entender a pergunta feita, pois agora passou a encarar a filha com preocupação e curiosidade, ainda imaginando aonde ela queria chegar com aquela conversa e com aquela pergunta. Havia algo errado então. Claro que tinha percebido, por mais que Stella negasse, ela percebera que estava algo errado, ou quase isso. Era praticamente como um sexto sentido, despertando seus instintos mais profundos.
– Como assim, meu anjo? O que você quer dizer com isso? –questionou Romanoff, ainda sustentando o olhar firme sobre Stella, que parecia estar nervosa. Porque ela estava nervosa? O que estava acontecendo, afinal? – Stella, me diga –indagou quando a garota novamente ficou em silêncio.
Ela engoliu em seco. Sem ter mais para onde correr, Stella viu-se sem alternativas a não ser revelar a verdade. A ruiva respirou profundamente, procurando pelas palavras certas, e então, explicou melhor a situação em que se encontrava:
– Quando o Logan e eu brigamos definitivamente, e terminamos... Não consegui controlar a raiva que senti, e acabei por dar um tapa nele. Eu o fiz sangrar, mãe, eu o machuquei. Tudo bem que ele mereceu, mas eu não queria ter feito aquilo, não sei o que deu em mim.
Não demorou muito para que Romanoff percebesse todo o nervosismo de Stella enquanto ela explicava tudo aquilo, as palavras saindo quase uma por cima das outras. Sentiu seu coração se apertar diante da reação exasperada tida pela filha. Agora, mais do que nunca, ela sabia que havia alguma coisa muito errada acontecendo. Natasha então mais uma vez segurou as mãos dela com mais firmeza, transmitindo uma confiança enorme, dando-lhe a certeza de que, no final, tudo ficaria bem.
– Ei, calma! –pediu calmamente ao puxa-la em um abraço carinhoso, tentando acalma-la a todo custo, e Stella relaxou um pouco nos braços da mãe, ignorando qualquer parte de sua mente que insistia em gritar as piores possibilidades possíveis. – Não tem nada de errado com você, Stella, tenho certeza disso –afirmou com convicção enquanto acariciava os cabelos de Stella, que por sua vez, escondeu o rosto no ombro de Natasha, acalmando-se pouco a pouco. E a garota confiou plenamente nas palavras dela, mais uma vez ignorando seus pensamentos mais sombrios, mas aquela sensação de insegurança não a abandonava nunca. Estava segura agora, e só aquilo importava no momento. Se manteria firme a todo custo.
– Eu estou ficando diferente, mais forte, não consigo dormir direito, não consigo me controlar... Eu não consigo controlar o soro no meu corpo, mãe. Está acabando comigo! –admitiu Stella, ainda abraçada ao corpo de Natasha, ressaltando tais palavras com uma preocupação aparente, mais uma vez sendo dominada pelo nervosismo. Romanoff, por sua vez, apertou a filha com um pouco mais de força, mantendo-a firme em seus braços enquanto voltava a tentar acalma-la.
– Tudo bem, eu vou falar com o Bruce, não se preocupe. Falarei com ele, e veremos o que está acontecendo com você, ok? E se algo estiver errado, vamos resolver, Stella, nós sempre resolvemos –garantiu Natasha, incapaz de livrar Stella do abraço em que a mantinha até então. Logo, a Viúva Negra depositou um beijo suave sobre sua testa, e com isso, a garota aproximou-se mais ainda. – Eu estou aqui com você, filha, e nem eu nem o Steve deixaremos nada de ruim te acontecer. Prometo –disse em seguida, e de imediato, Stella sentiu um reconforto ao escutar aquelas palavras.
Stella então simplesmente fechou os olhos enquanto agarrava-se ainda mais no copo da Viúva Negra, sentindo Natasha mais uma vez acariciar seus cabelos de uma forma carinhosa, tentando acalma-la. Naquele momento não havia mais nada entre as duas. Nenhum desentendimento, nenhuma briga, nenhum pensamento adverso. Apenas elas, mãe e filha, ali e agora, e nada mais importava.
– Já chega de ficar aqui nesse quarto, não acha? –novamente perguntou Natasha com um sorriso no rosto enquanto, ainda que relutante, afastava a filha de uma maneira paciente e com certo cuidado, despertando a atenção de Stella. Logo, quando a garota passou a observa-la curiosa, Romanoff segurou seu rosto com uma das mãos e impôs: – Tome um banho, vista uma roupa confortável, coloque um sorriso nesse lindo rosto e esteja na cozinha daqui a pouco. Vou preparar um café da manhã bem reforçado para você enquanto eu, Pepper e Louis estaremos lhe esperando.
Diante da ordem feita pela mãe, Stella não conseguiu evitar um leve sorriso. Ela então rapidamente concordou, assentindo com um meneio de cabeça, mais uma vez fazendo Natasha também sorrir com aquilo. A Viúva Negra fitou-a por alguns minutos antes de se levantar da cama e depositar outro beijo demorado sobre a testa da filha.
Instantes depois, Romanoff caminhou até a porta do quarto, lançando um olhar acolhedor na direção dela, e deixou o recinto. Não demorou muito para que Stella ficasse completamente sozinha de novo.
“Sometimes we're holding angels
And we never even know
We're holding on and letting go”
[...]
As horas se arrastaram, lentamente, vagarosamente. Quase uma utopia.
Depois de seguir as recomendações de Natasha, tomar um banho demorado e vestir roupas mais confortáveis, Stella parecia pronta para voltar a realidade e seguir sua vida, sentia-se com as energias renovadas, tanto física quanto mentalmente. Todos os problemas e preocupações que a rondavam momentos antes dissiparam-se, e ela deixou claro para si mesma que iria pensar nisso apenas quando estivesse mais preparada para discutir tais assuntos. Mas por agora, esqueceria tudo e viveria um dia normal, sem nada que pudesse deixa-la aflita ou atormentada. Precisava seguir em frente, e faria. Seguiria em frente, não importa quanto tempo fosse levar.
A ferida que Logan causou em seu coração continuava estava ali, martelando em cada mínimo pedaço de seu corpo, entretanto, parecia mais fácil agora, mais fácil de conviver com tal dor. Porque ela não podia negar, é claro que doía. Por mais que tentasse ignorar, mesmo que não quisesse admitir, a mágoa permanecia. Não sabia mais quanto tempo aguentaria tudo isso, mas precisava se manter firme e forte.
Stella não conseguiu deixar de sorrir enquanto raciocinava sobre tudo isso, e uma sensação de liberdade a dominava pouco a pouco. Estava tão imersa dentro de si mesma que quase não conseguiu perceber quanto tempo ficou naquele estado, remoendo diversas lembranças que a atormentavam. Entretanto, de repente, ela pegou-se sendo invadida por mais um turbilhão de pensamentos, mais precisamente uma pessoa em especial. Passou a perguntar-se o que havia acontecido durante os dois dias que ela ficou longe do mundo. Ou quase isso.
E só então ela percebera que havia sido incrivelmente egoísta com Bucky, afinal, Stella prometera que ajudaria a adequá-lo ao “século moderno”. Mas ao invés disso, depois do fim de seu relacionamento, tudo o que fizera foi se isolar de tudo e de todos, incluindo seu mais novo amigo. Pensou que talvez devesse um pedido de desculpas a ele, e não pôde deixar de sentir-se um tanto culpada por ter agido daquela maneira tão... Estúpida. Se queria seguir em frente com sua vida, esse era o caminho. Ajudar o Soldado poderia ser um belo começo, uma forma de também ajudar Steve. Mesmo que Natasha não aprovasse tal ideia, ela não iria desistir, e não iria mais se abater. Não mais.
Dentro do quarto, caminhando de um lado para o outo, Stella franziu a testa, estranhando seu ponto de vista a respeito de suas intenções. Tentando esquecer tais pensamentos, a garota balançou a cabeça e deixou uma leve e sem graça risada escapar por seus lábios. Logo, soltou a respiração demoradamente enquanto aproximava-se devagar da porta. Sua mão foi de encontro a maçaneta, mas por um milésimo de segundos, ela hesitou, não sabendo o porquê. Ainda assim, a garota quis prosseguir, e instantes depois, abriu a porta.
Entretanto, era imediato. Stella não conseguiu mais controlar as batidas frenéticas de seu coração quando deu de cara com Bucky. Ali, parado a sua frente, encarando-a com espanto e surpresa. O efeito daquele simples olhar causou uma onda elétrica nela, percorrendo cada nervo sensível de seu corpo inteiro. Não sabia o que era exatamente, mas foi forte, isso ela soube de cara. A respiração da garota acelerou-se pouco a pouco, exalando uma combinação mortal de fascínio e... Entusiasmo. Uma sensação tão arrebatadora que nem mesmo ela conseguia explicar.
– Oi... –manifestou-se ela, estática, percebendo que o Soldado não moveu-se um centímetro sequer, apenas observou-a, sem nenhuma intensão de desviar a atenção, fato que deixou Stella ainda mais confusa. Ou nem tanto assim.
– Oi –repetiu ele ao se permitir sorrir timidamente na direção dela, depois de um longo momento de um silêncio constrangedor. Seus olhares continuaram firmes um sobre o outro à medida em que Stella também deixava que um sorriso se desenhasse em seus lábios. Bucky pareceu hesitar ao explicar-se melhor: – Eu fiquei sabendo sobre você e o Logan, e... Não sei, apenas queria te ver. Como se sente?
– O Logan não é mais um problema, eu estou ótima –respondeu com entusiasmo, não sabendo ao certo se toda aquela animação era por sentir-se tão bem ao falar do ex-namorado ou se era pelo fato de Bucky ter se preocupado com ela. Talvez ambos os motivos. Não sabia. E nem tentaria descobrir. Mas ainda assim, seu coração batia descontrolado. Por que suas mãos estavam suando? Por que seu rosto ficou avermelhado de vergonha? – Acho que te devo um pedido de desculpas –disse, tentando mudar o foco daquela conversa, continuando a encarar aqueles olhos azuis tão eletrizantes à sua frente.
– Não vejo porque disso –replicou o Soldado, não entendendo o que Stella quis dizer com aquilo, e a garota riu levemente ao perceber a confusão que instalou-se no rosto dele.
– Ah, você sabe... Eu prometi que iria te ajudar a voltar ao mundo, mas eu mesma me excluí dele. Chega até a ser irônico –brincou, e o sorriso dela aumentou ainda mais diante da leve e pequena risada que ele deixou-se soltar. Aquele gesto fez seu coração quase pular do peito. Não entendia o que passava em sua cabeça agora, não entendia o porquê de estar tendo uma reação tão exasperada por simplesmente estar na presença dele.
– Não foi nada, não precisa se desculpar por isso, Stella –afirmou Bucky, fazendo com que a ruiva soltasse um suspiro mais relaxado diante de suas palavras tão seguras. Ele inclinou a cabeça levemente para o lado, encarando-a atentamente, percebendo toda a inquietação dela, não precisava de muito esforço para ver tal coisa. – Ah, eu... Pensei que talvez você pudesse me ajudar com isso –disse, a voz tão calma e paciente, mais uma vez quebrando o silêncio que instalou-se, e em seguida, retirou um aparelho celular de dentro do bolso da calça.
– Como conseguiu isso? –ela quis saber, mostrando-se curiosa, não conseguindo mais esconder uma risada irônica enquanto Bucky a entregava o pequeno aparelho. Ele deu de ombros, apenas estreitando o olhar na direção de Stella.
– Steve quem conseguiu. Me disse que seria útil, e que talvez você pudesse me ajudar a entender como funciona –respondeu com facilidade, podendo ver claramente os olhos verdes da garota brilharem de empolgação ao escutar o nome de seu pai. – Acho que a sua mãe não gostou muito da ideia, mas eu não me importo –admitiu em seguida, ao arquear as sobrancelhas em um fiel sinal de leve sarcasmo. Parecia tão diferente da última vez que haviam conversado.
– Com a minha mãe eu me entendo, não se preocupa –replicou Stella, imaginando como Natasha o ameaçaria dessa vez, afinal, a Viúva Negra não estava brincando quando exigiu que o Soldado se afastasse de sua filha. Não parecia estar dando tão certo quanto o esperado. – Acho que te devo uma, então será uma honra ajudar você a encarar o wi-fi e suas tecnologias –zombou ao fazer uma divertida careta. Bucky apenas revirou os olhos, fingindo indignação, o que fez a ruiva sorrir novamente.
Por alguns instantes, conseguiu esquecer todos os problemas que ainda a perseguiam. Mas ela sentia-se tão bem na presença dele que... Simplesmente esquecia de tudo. Era repentino demais? Não, não era. Ela sentia isso, sabia disso. Ou quase. Apenas negou-se a acreditar em tudo o que seu coração entorpecido teimava em lhe dizer. Mal sabia o que estava fazendo, mal sabia o que estava pensado. Lembrou-se das palavras de Natasha. “Você pode não saber onde está se metendo”. Stella não fazia ideia do que aquilo significava ou poderia vir a significar. Ignorou a frase que vez ou outra martelava em sua mente.
– Tenho que ir, o Steve deve estar esperando por mim –a voz do Soldado pareceu ter despertado Stella de seus próprios pensamentos. Demorou alguns segundos para que a garota entendesse o que ele quis dizer com aquilo. Não demorou muito para que ela caísse em si e lembrasse que, realmente, seu pai ainda teria muito o que conversar com Bucky.
– Tem razão, ele deve mesmo –redarguiu Stella, insinuando que ele estava certo. Precisava sair dali, de perto dela, antes que a situação piorasse ainda mais. Se era possível piorar ainda mais. Tarde demais. Já era tarde demais. Alguma coisa já havia mudado ali. – Até qualquer hora, Soldado –afirmou calmamente, mais uma vez voltando a sorrir na direção dele. Bucky apenas assentiu com a cabeça, e também sorriu como resposta.
– Se cuida, Stella –replicou ele ao mesmo tempo em que deu as costas para a garota e começou a caminhar à passos firmes na direção oposta, escondendo um sorriso divertido em seu rosto. Aquela era a mudança que tanto precisava. Era ela. Ela estava o mudando. Só não sabia exatamente o porquê ainda, mas ele descobriria. Sempre. A simples ideia fez sua mente rodar com as possibilidades.
Stella apenas continuou parada na soleira da porta enquanto observava Bucky afastar-se, reprimindo um leve e singelo sorriso ao morder os lábios, confusa de onde estava tirando tantos gestos amigáveis durante toda a rápida, mas significativa conversa que acabara de ter. Seus batimentos cardíacos se normalizaram aos poucos, mas sua cabeça encontrava-se em uma confusão ainda maior. A ruiva soltou um suspiro nervoso, e não demorou muito para que ela tomasse uma decisão sensata e fosse de encontro a Natasha, Louis e Pepper na cozinha.
Precisava apenas disfarçar seus pensamentos. E isso Stella sabia fazer muito bem. Era simples, não havia complicação. Pelo menos, não por enquanto.
“You’re undiscovered
I wanna see the rest of you
I can’t get next to you”
[...]
Seus passos eram firmes e decididos, caminhando rapidamente pelos corredores que tanto conhecia. Não precisou da ajuda de Louis para pôr em prática o que tinha em mente, e desse modo, ficou até mais fácil encontrar o QG provisório da SHIELD, escondido no meio do nada em uma cidade remota e desconhecida. Logan sabia muito bem porque estava ali.
– Posso saber o que você está fazendo aqui? –ouviu uma voz feminina atrás de si, fazendo-o parar de caminhar no mesmo instante, já a alguns metros da sala do atual diretor da organização. Ele conhecia aquela voz. – Área restrita –ela apontou para uma pequena placa pendurada na parede escura.
– Skye. Nossa, que bom ver você –sorriu sarcástico ao virar-se na direção dela. A agente apenas arqueou uma das sobrancelhas e cruzou os braços, em um movimento claramente enjoativo. Logan se aproximou um pouco mais de Skye enquanto explicava: – Eu preciso falar com o Coulson, e rápido. É urgente.
– Não é porque sua irmã é uma nível sete que você pode ter acesso livre por aqui, Logan. Não é simples assim, você sabe disso –rebateu ela, sem abalar-se, fazendo com que Logan cerrasse os punhos em um sinal de raiva e antipatia. Skye o encarou com certa dúvida.
– Em que posso ajuda-lo, Sr. Stark? –a surpresa nos olhos de Skye não foi em vão quando Phil Coulson surgiu ao abrir a porta de sua sala e observou Logan. Sempre com uma calmaria sem tamanhos, podendo ser capaz de acabar uma guerra apenas fazendo um discurso. Parecia ser um dom que ele tinha.
Logan virou-se de imediato na direção dele, ignorando a presença de Skye, que agora permanecia ao seu lado. O garoto soltou um suspiro aborrecido quando Phil o encarou com controvérsia, talvez perguntando-se porque estaria gastando seu tempo naquela inútil conversa. Então, o Stark não esperou por mais nada ao quebrar o silêncio que se estabelecia.
– Soube que você está à procura do Soldado Invernal –insinuou ele, e Coulson franziu a testa, estreitando o olhar na direção de Logan, interessado no que acabara de escutar. Skye apenas permaneceu quieta, sem mexer-se um centímetro sequer. – Pois bem, eu sei onde ele está. Eu tenho a localização exata do Soldado Invernal, Coulson, e posso garantir que ele está muito perto de você –declarou por fim, podendo ser percebida uma fúria palpável em seus olhos azuis. Logan permaneceu sério enquanto o diretor à sua frente raciocinava no que acabara de escutar.
Phil e Skye trocaram olhares curiosos e um tanto duvidosos. Poderiam confiar em Logan Stark? Não havia por que duvidar, afinal, o que ele ganharia com isso, com mentiras? Restava saber se aquilo era mesmo verdade. Talvez.
“Here it comes, this rising tide
So come on
Put on your war paint”
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