Nation: A garota da capa vermelha
10 Jacob - O acordo
A princesa Renesmee já estava em Quilay há duas semanas, mas era como tentar domesticar uma fera indomável. Claire, sua guardiã, me dizia que Renesmee era inteligente e astuta, mas tinha sérios problemas com a rotina. Cada dia que passava, o desejo do lobo por ela se intensificava, tornando-se quase insuportável. Eu precisava dela, mas não queria que essa necessidade se transformasse em algo forçado. Por isso, me jogava nas tarefas diárias, buscando alguma forma de conter meus instintos, mantendo a relação entre nós o mais equilibrado possível.
Naquele dia, após visitar os vilarejos do Sul que ainda se recuperavam das perdas causadas pelo incêndio, retornei à casa real. Entreguei as rédeas do meu cavalo a um dos guardas e logo recebi uma mensagem de Kiwwi em meu comunicador.
“A Rainha Consorte solicita a presença de Vossa Majestade em seus aposentos reais.”
Suspirei, sentindo o cansaço do dia pesar sobre meus ombros enquanto caminhava pelo longo corredor.
— Estou a caminho, Kiwwi. Cancele todos os demais compromissos da tarde.
“Desativação de compromissos ativada. Devo remarcá-los, Majestade? “— veio a resposta imediata.
— Darei novas instruções em breve — respondi, desligando o comunicador e me dirigindo aos aposentos de minha mãe.
Quando entrei, fui recebido pelo largo sorriso que sempre me acolhia, mesmo nos dias mais difíceis.
— Que bom vê-lo, querido — disse minha mãe, sua voz carregada de calor.
Me aproximei, abraçando-a, sentindo a familiaridade do gesto.
— Perdoe o sumiço, mãe. Quilay tem me tomado muito tempo — falei, tentando aliviar um pouco da culpa que sentia por não estar tão presente.
Sarah segurou minha mão, seus olhos fixos nos meus.
— Tão ocupado a ponto de não ter tempo nem para sua prometida?
Sorri, embora por dentro sentisse o martírio de estar longe de Renesmee. Tinha medo de que forçar minha presença só complicasse ainda mais as coisas.
— Eu a vejo todos os dias... enquanto dorme — confessei.
Minha mãe franziu ligeiramente o cenho.
— Como você espera ser retribuído, Jacob, se não se faz presente? — Perguntou, enquanto começávamos a caminhar lado a lado pela varanda, rodeada por belas *lumínias escarlates*, as flores vermelhas típicas de Quilay.
— Você a viu? — Perguntei, tentando esconder a ansiedade em minha voz.
— Sim, querido. Conversamos todos os dias. O imprinting já se afirmou nela, mas ela ainda é uma menina cheia de vida e sonhos. Tem dúvidas, Jacob, dúvidas que só você, com toda a sua experiência, pode responder.
As palavras de minha mãe encheram meu coração de esperança. Parei e segurei suas mãos, beijando-as em um gesto de gratidão.
— Obrigado, mãe. Vou ouvir seus conselhos — Prometi.
Nos despedimos, e eu voltei a caminhar em direção aos meus aposentos. Enquanto atravessava os corredores, acionei Kiwwi novamente.
— Envie uma mensagem a Claire Alteara. Diga que deve preparar Renesmee para passar a tarde comigo no jardim real.
O jardim real de Quilay era um verdadeiro paraíso, um local onde a natureza se expressava em toda a sua glória. As *lumínias escarlates*, com suas pétalas vermelhas intensas, floresciam em todo o seu esplendor, criando um tapete vibrante que contrastava com o verde profundo das folhas. Ao lado delas, flores douradas chamadas *solarianas* se erguiam como pequenos sóis, suas pétalas refletindo a luz com uma suavidade quase etérea. *Elaphinas*, com asas que cintilavam em tons de azul e violeta, dançavam entre as flores, enquanto pequenos *albarinos*, de pelagem branca como a neve, saltitavam alegremente pelos arbustos. Árvores frutíferas, carregadas de maçãs, pêssegos e peras, espalhavam uma doce fragrância pelo ar, tornando o ambiente ainda mais encantador.
Eu estava ansioso, esperando por Renesmee no meio desse cenário deslumbrante. Quando a vi finalmente se aproximar, foi como se o mundo ao meu redor tivesse parado. Ela usava um vestido azul que contrastava perfeitamente com seus cabelos cor de cobre, que estavam delicadamente trançados. Por um momento, fiquei hipnotizado por sua beleza, sentindo o lobo dentro de mim se aquietar, quase em reverência.
— Espero não tê-lo deixado esperando, Majestade — disse Renesmee, com um leve sorriso.
Eu balancei a cabeça, ainda preso à visão dela.
— Não, de forma alguma.
Começamos a caminhar lado a lado, mantendo a distância exigida pelas leis reais, uma barreira invisível que parecia mais insuportável a cada dia.
— O que tem achado de Quilay? — Perguntei, quebrando o silêncio.
Renesmee me olhou, seus olhos brilhando com uma admiração genuína.
— É realmente como nos livros, mágico. À noite, sinto como se pudesse tocar o céu, e as estrelas parecem maiores.
Sorri, lembrando-me de como eu mesmo já havia sentido essa conexão com o céu estrelado de Quilay.
— Com o tempo, você se acostumará com essa visão e ela não parecerá mais tão extraordinária.
Renesmee franziu ligeiramente o cenho, sua expressão se tornando mais séria.
— E eu realmente não posso retornar a Humman?
Eu suspirei, sabendo que a resposta não seria fácil para ela.
— Isso colocaria sua vida em risco. Muitos desejam saber como entrar em Quilay.
Ela suspirou, o peso de sua situação evidente em seu olhar.
— Meu pai, o Rei de Humman, está à minha procura.
— Em três dias, eu a levarei pessoalmente a Humman — respondi, tentando acalmá-la. — Não é bom para a sua reputação estar sozinha comigo, sem que sejamos casados.
Ela me olhou, surpresa.
— Está me dizendo que sou obrigada a me casar com você, Majestade?
Eu segurei seu olhar, tentando transmitir toda a sinceridade que sentia.
— Você se sente obrigada a estar comigo?
Renesmee voltou a caminhar, pensativa.
— Sei como os lobisomens escolhem suas parceiras, mas não sou uma Quileute. Então, por que eu?
Eu hesitei por um momento, antes de responder.
— Não posso explicar o porquê, porque isso nunca aconteceu antes. Mas peço que me dê a oportunidade de fazê-la se render ao imprinting. Deixe-me mostrar que pode ser maravilhoso ser minha esposa. Se, após sete dias, você não se render à escolha do lobo, eu a deixarei em Humman e nunca mais a procurarei.
Ela me encarou, avaliando minhas palavras com cuidado, antes de finalmente responder.
— Aceito a proposta.
Após concordarmos com os termos da nossa inusitada proposta, decidimos fazer uma pausa no passeio. Nos acomodamos sob uma tenda real, cercados por frutas frescas e outros alimentos preparados especialmente para nós. Renesmee estava curiosa, e eu respondia a todas as perguntas que ela fazia sobre Quilay, sobre o reino, sua história e suas peculiaridades. Eu sabia que ela estava tentando entender melhor esse lugar que, de repente, se tornou tão importante em sua vida.
Enquanto conversávamos, Renesmee pegou uma das frutas, uma *tangil* — um fruto suculento de casca fina e doce — e a levou à boca. Observei seus lábios vermelhos e carnudos se fechando em torno da fruta, e um desejo intenso me percorreu. A vontade de beijá-la era quase incontrolável. Fechei os olhos por um momento, tentando conter meus instintos, lembrando-me das promessas que fizera a mim mesmo.
— Acho que já respondi a muitas perguntas suas — disse, quebrando o silêncio que se formara entre nós. — Agora é a minha vez de fazer algumas.
Renesmee sorriu, um sorriso que tinha algo de tímido, mas também desafiador.
— Tentarei respondê-las.
Respirei fundo, escolhendo minhas palavras com cuidado.
— O que levaria uma princesa a se tornar uma caçadora e roubar de seu próprio reino?
Ela me olhou por um momento, como se estivesse buscando a resposta certa.
— Humman não é tão próspero quanto Quilay — começou, sua voz suave, mas carregada de uma seriedade que eu não esperava. — Existe uma parte do povo que vive isolada, sem acesso a Itryo. Eles não têm como gerar energia, se aquecer ou se proteger dos vampiros.
Suas palavras me surpreenderam. Em todas as conversas que tive com o Rei Carlisle, ele sempre me garantiu que a população estava sob controle, com todos recebendo o necessário.
— Seu pai e o conselho sabem dessa população? — Perguntei, tentando entender o que estava acontecendo.
— Acredito que sim — respondeu Renesmee, um tanto hesitante. — Afinal, eles têm o controle de tudo.
Fiquei em silêncio por um momento, ponderando sobre as implicações do que ela estava dizendo.
— Você acredita que seu pai seria injusto com seu próprio povo?
Renesmee hesitou antes de responder, o que me deu uma sensação desconfortável.
— Confio no meu pai. Talvez a quantidade de Itryo disponível esteja insuficiente.
— Não é isso — retruquei, balançando a cabeça. — Talvez esse povo que os caçadores defendem seja uma população irregular, com procriação fora das regras estabelecidas.
Renesmee me olhou com firmeza, uma chama de determinação em seus olhos.
— E se for, não vejo problema nisso. Acho que as mulheres deveriam ter o direito de escolher quantos filhos querem ter, e não seus parceiros, muito menos o rei.
Eu a encarei, tentando não deixar transparecer a surpresa que suas palavras me causaram.
— Essa regra existe para que todos possam sobreviver — expliquei, tentando manter meu tom calmo. — Humanoides, Quileutes, Vampiros... Se uma raça se sobrepor à outra, uma delas será exterminada.
Renesmee desviou o olhar, parecendo refletir sobre o que eu disse. Eu sabia que essa discussão não seria fácil. As crenças e convicções que ela trazia de Humman eram profundamente diferentes das de Quilay, mas eu esperava que, com o tempo, ela começasse a entender nossa perspectiva.
E, talvez, começasse a ver em mim mais do que apenas o rei que tinha o direito de reivindicá-la, mas alguém disposto a lutar ao seu lado, mesmo que isso significasse questionar as regras estabelecidas por séculos.
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