Natasha
1 Epsilon Eridani Aparece
Não podia acreditar que já se havia passado um ano. Não podia acreditar em tudo o que se sucedera. Fora um ano que jamais iria esquecer.
Mas se vos vou contar esta história, mais vale começar pelo início. Comecemos então pela personagem principal. O nome delas era Tashia.
Ela odiava quando a chamavam assim. Por isso ninguém na escola sabia que era desse modo que a tratavam em casa.
Em casa ela era Tashia, irmã dedicada de um rapazinho de treze anos, e filha querida de uma senhora simpática e um homem afável. Boa menina, educada, adorada por todos.
Na escola ela era Natasha Jéssica Novikov, filha de um veterano russo, e alguém de quem ninguém se deveria aproximar caso tivesse amor à vida.
—Natasha, seu pai é demasiado protetor! — diziam os poucos colegas com quem andava.
—Nem por isso. — era o que sempre respondia. A verdade é que ela entendia o pai. Ele só estava preocupado com ela e queria o seu bem. Ele sempre fora assim com ela desde que Natasha nasceu. Talvez devido ao facto de ela ter aquele problema no olho direito. Natasha nasceu sem visão naquele olho. Por isso compreendia as razões do pai para não querer que estranhos se aproximassem dela. Talvez ela até fizesse o mesmo se se tratasse do seu próprio filho. Para além disso, não era como se a ruiva andasse sempre sozinha. Rose e Roxanne Wagner estavam sempre com ela. Não podia dizer que as gémeas eram suas melhores amigas, mas faziam muita companhia e para ela, isso era o bastante. E quanto a elas, pensava Natasha, era o mesmo. O sentimento era mutuo. Roz e Roxy, como lhes chamavam, também apreciavam a sua companhia. Elas costumavam apegar-se àqueles que tinham uma aura mais de “lobo solitário” por assim dizer. Era o caso de Julian Brown. Alguns diziam até que o rapaz era um verdadeiro lobo. Tinha um apetite descomunal e um feitio muito difícil. Natasha achava até que aqueles três eram como uma matilha, e Julian era o líder, sempre seguro de si mesmo e daquilo que queria.
—O que é que achas Natasha? — perguntou Roxy, tirando-a dos seus pensamentos.
—Hm? – ela respondeu, distraída.
—O festival que vai haver na baixa da cidade por causa do eclipse desta noite. Queres ir? – questionou Roz com um sorriso simpático no rosto.
—Não sei. Acho que não. É que hoje é o aniversário do meu irmão e a minha família deve querer festejar.
—Tens a certeza? — insistiu Roxy – é que eu ouvi dizer que um certo rapazinho vai lá estar... – ela disse, puxando os olhos com os dedos, obviamente tentando se referir a Takahiro Aoki, um aluno japonês de intercâmbio por quem Natasha tinha um fraquinho.
—É melhor ela não ir. – disse Julian entrando na conversa.
—Alguém está com ciúuuuumes! – implicou Roz, que adorava puxar a paciência do rapaz.
—Não é isso sua louca! – ele exclamou, ficando vermelho. Natasha não tinha a certeza se aquelas bochechas coradas eram de vergonha ou de raiva. – Se são os anos do Yuri, o Sr. Novikov vai querer a Natasha lá de certeza. Então é melhor pararem de insistir. – continuou, tentando chamá-las à razão.
—O Julian está certo. Para além disso eu já comprei uma prenda para dar ao Yuri. Fica para a próxima. – disse a ruiva.
—Desmancha prazeres. – responderam as duas morenas em uníssono.
O dia passou depressa. Como sempre todos na sala mantinham a distância dela. Como sempre a professora obrigava-a a participar. Como sempre passou o almoço com a Matilha. E como sempre as aulas acabaram e voltou sozinha para casa.
Era definitivamente a parte que mais odiava no seu dia. Ir para casa sozinha. Era tão silencioso. Isto exceto antes de passar pelo Bairro da Clave, onde ficava a casa do Richy Kingsman. O rapaz tinha aulas em casa, mas fazia sempre questão de esperar por ela na paragem de autocarros só para a chamar de Cenoura Russa, vesga, e fazer comentários nojentos até o autocarro chegar e a levar para casa.
Mas hoje era o aniversário de Yuratschka, o seu querido irmão mais novo. E nada nem ninguém, muito menos o estupido do Richy Kingsman, faria com que ficasse triste ou frustrada naquele dia.
No enanto, quando chegou a casa, o pai disse-lhe que Yuri estava com febre e não poderiam festejar o seu aniversário. Já era normal. O rapaz estava sempre doente. Fora uma criança frágil desde pequeno. Mesmo assim fazia-se de forte na frente da irmã. Por isso é que Tashia o admirava tanto.
Deixou a prenda na mesa de cabeceira do irmão e foi para o seu quarto. Cedo a noite caiu, e ao longe, da sua janela, podia ver as luzes do festival. De repente o eclipse começou e as luzes pareciam mais luminosas do que nunca. Ela olhou para o céu escuro, onde o sol e a lua se encontravam um ao outro.
—Quem me dera...- disse a frase inacabada, bem antes de ver um clarão de luz que parecia vir na sua direção e a encadeou, o que fez com que fechasse os olhos. Sentiu algo vir de encontro a ela e caiu com um baque no chão. Quando abriu os olhos, não podia acreditar no que via. Um rapaz de cabelos pretos como o carvão e pele irradiante olhava fixamente para ela. Eram os olhos mais bonitos que alguma vez havia visto. Azuis, extremamente azuis, brilhavam de uma forma fora do normal.
Ele tinha uma pasta branca na mão. Abriu a pasta e olhou para ela, como se estivesse à procura de algum tipo de informação. Suspirou, encolheu os ombros e em seguida olhou novamente para uma Natasha embasbacada e ainda caída no chão do quarto. Estendeu-lhe a mão.
—Eu sou Epsilon Eridani. Estou aqui para te ajudar a concretizar o eu sonho. Prazer em conhecer-te, Natasha Jéssica Novikov.
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