Natal entre lobos.
1 25 de Dezembro de 2011
Notas iniciais

25 de dezembro de 2011
O natal era a época favorita de Sansa. Mesmo que já não fosse mais criança, pelo menos aos seus próprios olhos, porque para sua mãe uma garota de treze anos ainda era uma criança, todo o clima que rodeava a data ainda a enchia de agitação. Ela adorava o inverno, a neve que caía e cobria toda a cidade de branco, as luzes enroscando-se nas árvores enquanto piscavam em um ritmo coordenado, até o cheiro parecia mudar naquela época do ano, as relações se tornavam mais estreitas porque todos procuravam um modo de se aquecer, mesmo que fosse usando os corpos um dos outros. A família Stark costumava se reunir em sua grande casa e fazer uma extravagante ceia para celebrar. Naquele ano, diferente de quase todos os outros, sua tia Lyanna e seu tio Rhaegar haviam vindo visitá-los, portanto seu primo Jon não precisou voltar para casa.
Jon era quase uma espécie de melhor amigo. Mais que uma relação fria entre primos, eles haviam desenvolvido uma relação de confiança e afeto com muita facilidade. Lembrava-se com clareza do dia em que seu pai trouxera o menino magricela para morar com eles e concluir os estudos na capital do norte, Winterfell, onde ela morava. Lyanna escolhera morar em Vila de Inverno, que era um lugar mais pacato, portanto não havia muitas escolas que abarcassem a ambição de Jon de fazer faculdade em Porto Real. Mesmo que ele fosse dois anos mais velho e tivesse interesses distintos, eles sempre encontravam um modo de concordar. O diálogo era a base, conversavam por horas. Ele costumava visitar seu quarto à noite, sem malícia, como duas crianças que encontraram refúgio um no outro, e partilhavam seus sonhos. À medida que foram crescendo, a relação se tornava cada vez mais estreita e por vezes Sansa recebia reprimendas de sua mãe. Em sua cabeça, Catelyn estava apenas sendo má, visto que não havia nada de errado no que faziam.
Porém, um dia, naquela noite de natal incomum, com toda a família reunida e os adultos levemente bêbados na sala, Jon e Sansa se refugiaram no jardim de inverno que tinha na casa, e ela entendeu porque sua mãe parecia tão incomodada com a proximidade que tinham. Já havia passado da meia noite, então já era oficialmente natal. Estava aconchegada nos braços de Jon quando sentiu seu corpo aquecer. Era uma sensação incomum, não apenas pelo tempo, mas porque nunca havia sentido aquela reação em seu corpo. Ela o olhou e encarou sua face de pré-adolescente curiosa. Ele era bonito, tinha que admitir. Jamais havia reparado nele daquela forma, era apenas seu melhor amigo, seu primo de sangue, nada mais, então como sua aparência era não importava. Aquilo havia mudado, no entanto.
— O que está olhando? — ele perguntou, a fazendo despertar daquelas divagações.
— Nada — sentiu que sua face ficava ainda mais vermelha do que já estava devido ao frio.
— Sei — ele a olhou cético. Sabia quando mentia. — O que há? — ela observou enquanto Jon erguia uma de suas sobrancelhas e fazia aquela expressão que ela conhecia muito bem, a expressão que usava para repreendê-la.
—É apenas... Sua barba é muito feia — ela mentiu, forçando seus lábios a se repuxarem em um sorriso que foi capaz de acusar sua mentira. Jon, no entanto, percebeu que não deveria insistir, porque Sansa era teimosa e não falaria nada mesmo que ele a forçasse.
— Está crescendo — ele comentou, indo na onda. — Não fale mal de minha barba — então riu.
Um sorriso sincero repuxado em seus lábios bem desenhados, que fazia com que seus olhos cinzentos se encolhessem e se tornassem tão pequenos que quase pareciam fechados. Sentiu uma súbita vontade de beijá-lo, só para ver como era a sensação, só pra sentir o que lhe causaria. Sorriu instantaneamente, um sorriso genuíno daquela vez. Quando se deu conta dos sentimentos que batalhavam dentro de si, da forma como havia passado a observá-lo quase sem notar, se livrou dos braços dele e se ergueu apressada.
— É melhor eu ir antes que mamãe venha atrás de nós.
— No estado em que estavam lá dentro duvido que Catelyn sequer lembre de que você existe — Sansa duvidou, no entanto.
— Ela nunca esquece que eu existo — riu divertida. — Está aqui mesmo quando não está — disse, por fim, olhando ao redor como forma de se certificar de que sua mãe não havia surgido ali de repente.
Ele não deixava de concordar, mas não queria que Sansa fosse. Jon então se levantou, ficando de frente para ela. Tocou em suas mãos e sentiu as pontas dos dedos gelados de Sansa nas suas.
— O que há? — repetiu sua pergunta. Viu que estava inquieta e nunca havia deixado de percebê-la.
— Você alguma vez pensou... — começou, mas antes se deu conta do que ia falar e se interrompeu. — Não é nada.
— Pode até tentar, mas nunca conseguiu mentir pra mim — ele a encarava tão fundo nos olhos que Sansa pensou que era capaz de ver dentro de si.
— Quero experimentar uma coisa, mas você tem que prometer que não vai correr. Tem que prometer que não vai me olhar como se fosse louca ou me recriminar e que nada vai mudar entre nós — disse retribuindo o olhar dele.
— O que... — tentou argumentar, teimoso que era, mas Sansa o interrompeu.
— Prometa— os olhos dela eram de um azul tão frio que Jon pensou que podiam perfurá-lo como estacas de gelo. Havia aprendido que não era uma boa ideia questioná-la.
— Prometo — disse, por fim, derrotado.
— Feche os olhos — sua voz saiu tão autoritária que soou como uma ordem.
Jon espremeu suas pálpebras com força, sem questionar. Ela então tocou sua face, os dedos gelados percorrendo em sua pele, fazendo com que um tremor percorresse por seu corpo e os pelos de sua nuca se eriçassem. Então, sem qualquer aviso prévio, sentiu os lábios de mármore de Sansa contra os seus, os pressionando de maneira dura, desajeitada. Nunca havia beijado uma garota antes e sabia que Sansa também nunca havia beijado um garoto. Então, naquele momento, o beijo que trocavam era completamente inexperiente. Inocente e infantil. Mesmo assim, não deixaram de sentir as reações conflitantes que os invadiram. Eram primos, quase irmãos de tão próximos, Deuses, Sansa era mais próxima de Jon do que de seus próprios irmãos. E ali estavam, trocando seu primeiro beijo e não podiam deixar de acreditar que nada poderia ser mais certo do que aquilo.
Alguns segundos eternos se passaram antes que pudessem tomar coragem de aprofundar aquela ação. Sansa passou as mãos nos cachos negros de Jon e ele a envolveu em seus braços, unindo seus corpos. Quando o fôlego exigiu que fosse recobrado, separaram-se a contragosto, colando suas testas e ofegando com força. Seus olhos estavam fixos um no outro, um pouco aturdidos e confusos. Um pouco culpados e levemente estranhos. Mesmo que fosse uma exigência de Sansa que nada mudasse entre eles, depois daquilo, absolutamente tudo mudou.
Fale com o autor