Nascimento de Alice

1 Capítulo 1: Nascimento de Alice


Numa manhã de domingo, o sr. Manoel chegou, mais uma vez, bêbado em casa. Sua esposa, Maria Júlia, estava se contorcendo de dor. Ela já estava com nove meses de gravidez e com a pressão elevada. Filha de camponeses, Maria Júlia já tinha 3 filhas: Angélica, Catarina e Conceição. Esta última se chamava assim, por nascer no dia 08 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição e receber sua proteção na hora do parto, o qual tinha sido muito difícil. O médico aproveitou a ocasião e disse ao sr. Manoel que sua esposa não poderia engravidar mais, pelos problemas de saúde já enfrentados ao longo da última gravidez.

Mas o casal acabou se descuidado. Num dos momentos de concretização do amor verdadeiro que os unia desde a adolescência, Maria Júlia engravidou novamente. Ficou preocupada, mas também feliz porque sempre pensou que filho fosse bênção. O sr. Manouel, pai de uma prole feminina, tinha esperança de ganhar um menininho de presente da vida. A gravidez transcorreu tranquila até o sexto mês. Depois disso, Maria Júlia começou a ter problemas com a pressão elevada.

— A gente precisa tomar cuidado! – alertava Vovó Joanoca.

Mas o sr. Manoel, que quase sempre estava bêbado, respondia:

— O que é que eu posso fazer, se não sobra dinheiro para consulta, nem pra remédio? Vamos rezar para Deus abençoar para que a criança nasça com saúde.

Chegou o grande dia. De cócora num canto da cozinha, Maria Júlia gritava e chorava de dor, quando o sr. Manoel chegou em casa. Meio cambaleando pelo estado de embriaguez, foi correndo na casa do sr. Malaquias, um vizinho bondoso que possuía um carro velho.

Quando, enfim, estava sendo levada ao hospital, o carro interrompeu no meio da rua. Problemas no carburador do velho chevette. Maria Júlia gritava de dor, suava e empalidecia casa vez mais, até perder suas forças e desmaiar. O sr. Manoel tentou pegar a esposa nos braços, mas não encontrou forças. Correndo feito louco no meio da rua, conseguiu parar um carro que brecou bruscamente quase atropelando o fiasco de gente que era um misto de pavor e desespero.

Por coincidência, o socorro veio de um médico, um “anjo sem asas”, que começou a atender a paciente ali mesmo, dentro do carro velho, no meio da rua, atrapalhando o trânsito. Ao recuperar os sentidos e com ajuda do profissional, Maria Júlia colocou toda sua força e toda a pouca vitalidade que ainda possuía para expelir o seu bebê para o mundo. E conseguiu. Mas isso custou-lhe a vida. Como se as palavras do sr. Manoel tivessem ganhado forças, Deus abençoou e nasceu com saúde uma linda menina de olhos grandes, que recebeu, escolhido pela mãe, o nome de Alice.