Nascidos da Noite - Livro Rigor Mortis

31 Capítulo 31 - A noite pertence aos vampiros


Centro de Investigação Criminal, São Paulo

Cíntia Amaral segurou o copo de café expresso e levou-o até boca. A luz da manhã que entrava pela janela da sala de espera era reconfortante, porém, ela sabia que a noite logo chegaria novamente.

E a noite pertence aos vampiros.

Seu irmão e a vampira chamada Lea vão procurar pelos Cavaleiros do Apocalipse. Edgar presenteou-a com a Marca de Sangue. Eles devem estar deixando o prédio neste momento, se é que já não o fizeram.

— Marca de sangue – sussurrou ela para si mesma.

Victor Salvador apareceu logo depois.

— Você está bem? – perguntou ele, acariciando o ombro dela.

Cíntia apenas sinalizou positivamente com a cabeça. Na televisão, o discurso do presidente americano era reprisado, várias e várias vezes por dia.

Senhoras e senhores, é com grande satisfação que minha equipe e eu nos colocamos à disposição de vocês. Foi com essa mesma disposição que fomos eleitos, sempre pensando e trabalhando pela família humana americana. Hoje, começa uma nova era para nosso país, esta grande nação abençoada por Deus e democraticamente construída sobre os pilares da liberdade e da justiça. Não podemos mais nos mantermos à margem da existência, calados e oprimidos em nossa própria casa. Não podemos mais permitir que a insegurança e o medo nos dominem. A partir de hoje, novas leis entrarão em vigor. Todo semi-vivo deverá usar uma braçadeira que o identifique claramente...

— Veja só o que estão fazendo – sussurrou Cíntia. – Isso se parece demais com o episódio mais obscuro da história da humanidade.

— Você sabe o que dizem: a história se repete.

Cíntia concordou. Tomou um pouco do café fumegante. As coisas estavam se complicando a uma velocidade incrível. Era apenas uma questão de tempo até o Brasil adotar a política americana de perseguição aos semi-vivos.

A porta ao lado se abriu de repente:

— O delegado Vivas quer vê-los agora – disse a secretaria, retornando para sua sala em seguida.

Cíntia e Victor se entreolharam.

— O que você vai falar, Victor?

— A verdade.

Cíntia segurou o companheiro pelo bíceps e puxou-o para junto de sim. O volume de sua voz foi reduzido a um quarto do habitual:

— Vão processar você.

— Não podemos mentir para o Vivas, você sabe muito bem disso.

— Vão prendê-lo, tomar seu distintivo e você estará fora da polícia para sempre.

— É um risco que preciso correr. Está tudo bem se você não for acusada. Eu ficarei bem.

— Deus...

Entraram na sala do delegado Salatiel Vivas.

O delegado estava olhando pela janela quando os dois policiais entraram. Salatiel Vivas era um homem negro de quase dois metros de altura, de pouco mais de cinquenta anos e que mantinha sua forma física graças a exercícios físicos pesados (seu segundo vício, depois do trabalho). Estava na polícia há exatos trinta anos, e raramente sorria, especialmente quando recebia alguém em sua espaçosa sala elegantemente decorada. No centro, uma mesa de carvalho de mais de duzentos anos, com várias pastas de arquivos e material de escritório, além de um pequeno monitor. As paredes cobertas por estantes, cheias de livros e prêmios. No teto, um enorme lustre de cristal.

— Monteiro Lobato disse que “um país se faz com homens e livros”. Sabe, eu não sei que tipo de país estamos fazendo agora – disse Vivas, sem se virar para os policiais.

Ele suspirou, e pareceu refletir. Virou-se devagar e, de costas para a janela, continuou:

— Acho que ele não é mais um bom exemplo, não é mesmo? Ele era eugenista, e até mesmo a melhor de suas ideias parece suja agora, indecente. Temos cada vez menos pessoas decentes, e isso é uma lástima.

— Investigadores Salvador e Amaral, como estão?

— Estamos bem, delegado, obrigada por perguntar – disse Cíntia.

O delegado assentiu.

Vivas caminhou lentamente até sua cadeira, e sentou-se. Fez um sinal para que os policiais também se sentassem. Segurava uma caneta tinteiro, que movimentava entre os dedos, como se brincasse com o objeto.

— Fomos vítima de um ataque arquitetado e executado por semi-vivos. Quinze policiais morreram, alguns foram mordidos e outros desapareceram. Estão testando a força da polícia de São Paulo, a minha força.

Victor e Cíntia concordaram com um leve movimento da cabeça.

— Parece que esses vampiros previram o que está acontecendo agora lá fora, em outros países. As leis contra os vampiros estão se endurecendo, toda a sociedade civil está se movimentando na direção de cercear os direitos destes... Seres humanos diferentes. Estamos vivendo um ponto de ruptura, nossa sociedade vai se dividir entre nós e eles.

Acho que essa divisão já existe, delegado, nunca deixou de existir, pensou Cíntia.

— Pois bem, e não chamei vocês aqui para divagar sobre o futuro da raça humana, mas para conversarmos sobre a noite de ontem. Tem alguma coisa que gostariam de relatar?

Os investigadores trocaram um olhar descompromissado. Vivas puxou uma folha A4 e segurou-a diante dos olhos.

— Li seus relatórios preliminares. Estão perfeitos. Burocraticamente perfeitos. Mas há coisas que não vão para os relatórios, e são essas coisas que eu gostaria de saber de vocês.

— Senhor... – começou Salvador.

— Só um minuto Salvador. Antes de dizer qualquer coisa, gostaria que se lembrasse de seu juramento. Você jurou agir com “honra, integridade e defender as instituições com o sacrifício da própria vida”. E a sua instituição é a polícia!

— Posso saber do que estou sendo acusado?

Vivas virou o monitor para que os policiais pudessem ver. Apertou o play. Era um vídeo onde os policiais conversavam com um vampiro. No vídeo, Salvador entregava uma pedra de lápis-lazúli para o semi-vivo, e logo depois uma grande explosão ofuscava a tela.

Victor Salvador olhou para Cíntia com preocupação.

— Senhor, eu posso explicar...

— Espero que possa mesmo, investigador Salvador! – gritou o delegado.

Vivas apertou a caneta tinteiro, que explodiu, derramando tinta vermelha sobre a mesa e manchando os relatórios. Levantou-se, derrubando a cadeira no chão com um estrondo.

— Eu não sei o que está acontecendo aqui, mas eu vou descobrir! Meus homens foram atacados e mortos por um bando de sanguessugas, e logo depois eu recebo um vídeo que mostra que dois dos meus melhores agentes estavam ajudando um vampiro! Um vampiro! Exatamente aqueles que nós devíamos prender! Entregar lápis-lazúli a um vampiro é crime contra a polícia, com pena de expulsão e prisão! Onde estava com a cabeça quando fez isso, investigador Salvador?

— Senhor... Nós precisávamos de uma informação do vampiro... – disse Cíntia.

— Amaral, não pense que vai escapar dessa sem sua punição por cumplicidade.

— Senhor, a investigadora Amaral não tem anda haver com isso. Eu negociei com o vampiro, e devo ser punido por isso.

Vivas dedilhou a mesa, encarando os investigadores.

— O que estão escondendo de mim?

— O vampiro ao qual o senhor se refere... Ele era o agente Carlos Aguiar, que foi transformado por um semi-vivo. Ele tinha informações sobre o paradeiro do meu irmão, sequestrado por uma vampira recém-criada... Fiz o que fiz porque precisava saber onde estava o meu irmão.

Vivas suspirou profundamente.

— E o senhor descobriu?

— O agente Aguiar... O semi-vivo... Ele disse que meu irmão e a vampira procurariam pelos Cavaleiros do Apocalipse.

Salatiel fechou os olhos. As veias em suas têmporas, normalmente elevadas, agora pareciam vibrar.

— Está dizendo que nosso médico legista e uma vampira deixaram esse prédio com a intenção de procurar pelo grupo de vampiros conhecido como Cavaleiros do Apocalipse?

— Sim senhor. Nós precisamos rastreá-los, a vida do meu irmão está em perigo.

Salatiel vivas levantou-se. Agarrou um lenço umedecido e começou a limpar a tinta vermelha dos dedos. Caminhou novamente até a janela, e fitou o horizonte.

— A situação é pior do que eu pensei...

— O que o senhor fará?

— Por hora, está dispensada, agente Amaral. Obrigado pelos esclarecimentos.

Cíntia olhou para Victor, e de novo para as costas de Salatiel.

— Senhor... O que acontecerá conosco?

— Você deverá aguardar que o processo administrativo contra você seja formalizado. Quanto ao agente Salvador, deverá deixar seu distintivo e sua arma, e se apresentar à detenção.

Victor levantou-se de sobressalto.

— Senhor...

— Detenção? Por quanto tempo? – perguntou Cíntia.

— Pelo tempo que a lei determinar! – gritou Salatiel, voltando-se para os dois. – Quem vocês acham que são? Isso daqui é uma instituição séria, não é o parquinho de vocês! Fornecer vantagens ao inimigo é um crime gravíssimo, punível com a expulsão e detenção! Sabiam o que estavam fazendo, e a senhora, agente Amaral, só não será detida neste momento porque seu crime é indireto! Se não fosse por isso, jogaria os dois neste exato momento em uma cela e esqueceria onde coloquei as chaves! Agora vão!

Os investigadores baixaram os olhos. Victor olhava para as próprias mãos, atônito.

— Com licença, senhor – disse a investigadora, saindo da sala.

Victor colocou seu distintivo e sua arma sobre a mesa de Vivas, e saiu em seguida.

Salatiel Vivas terminou de limpar as mãos. Calmamente, colocou sua cadeira de volta ao lugar e pegou o telefone. Discou um número que conhecia de cor. Do outro lado, uma voz igualmente conhecida atendeu.

Do lado de fora da sala de Salatiel, Victor era aguardado por dois policiais, que o encaminhariam à cela onde ficaria detido.

— Cíntia, escute, eu preciso que você me ajude. Encontre-os... meu irmão não pode cair nas garras desses vampiros – pediu o investigador, sendo algemado.

— Eu vou tentar, Victor. Prometo.

— Escute, Cíntia, tome cuidado.

— Vou tomar.

Abraçaram-se momentaneamente, e Victor foi conduzido pelos agentes até desaparecer da visão de Cíntia.

Antes de cumprir sua promessa, Cíntia Amaral precisava resolver seus próprios problemas e saber o que se passava com Sarah.

***

São Paulo, lugar desconhecido

Lea ficou escondida no porta-malas enquanto Filipe parou em uma loja de conveniência de um posto de gasolina para tomar um café.

Aquela manhã não se parecia nem um pouco com a noite anterior, quando uma horda de vampiros atacou o Centro de Investigação Criminal. Agora, todos tocavam suas vidas normalmente, como se nada tivesse acontecido.

Na televisão, o jornal da manhã exibia um banner: “Semi-vivos atacam Centro de Investigação Criminal: grupo anarquista assume autoria.” O apresentador começou a explicar a motivação do ataque: um novo projeto de lei tramitava na Câmara dos Deputados, com o objetivo de cercear ainda mais os direitos dos semi-vivos. Uma das mais polêmicas propõe classificar a relação entre um vivo e um semi-vivo como vilipêndio, passível de prisão. Casais óbito-discordantes protestaram em Brasília, um dia antes do ataque. Agora, no jornal, um comentarista falava sobre a difícil situação do Brasil, assim como dos Estados Unidos, que começavam uma agressiva política anti-semi-vivos.

Filipe tomou um café sem açúcar e comeu um pão na chapa. Pagou e saiu do posto de gasolina com passos rápidos. Entrou no carro e começou a dirigir pela rua.

Havia um segredo. Um grande segredo guardado por Lea e pelo estranho símbolo que ela portava no braço – presente do vampiro Edgar. Filipe sabia muito bem aquele segredo, e o que ele significava para a humanidade. Lea contou para ele, em uma espécie de transe, quando os dois pararam um pouco logo após deixarem o Centro de Investigação Criminal.

Lea revirou os olhos, encobrindo suas pupilas e deixando apenas a esclera visível. Sua voz se tornou grave, e quando ela olhou para Filipe, ela sorriu de uma forma diferente, que ele ainda não tinha visto antes.

— Lea? – perguntou o legista.

— Lea não está... Quem é você?

— Eu é que te pergunto: quem é você?

Lea (a criatura) riu, e Filipe reparou que até mesmo seus dentes estavam diferentes.

— Meu nome é Gadrel... E o seu?

Felipe não escondeu sua expressão de surpresa. Era mesmo uma possessão? Ou seria um truque vampírico? Ele não sabia o que estava acontecendo, mas sentia que era algo muito importante.

— É Felipe... Filipe Salvador.

A criatura parecia hipnotizada por Filipe. Observava-o com uma atenção exagerada, mexendo a cabeça para um lado e para o outro.

— O que é você, Filipe Salvador?

— O que eu sou? Como assim o que eu sou.

— Nunca vi algo parecido com você, Filipe Salvador... A não ser em velhas ilustrações... O que é você, Filipe Salvador?

Depois, os olhos de Lea se abriram, e ela voltou ano normal.

Mais tarde, conversaram sobre o episódio. Aquela criatura aparecia para Lea e mais três vampiros – eles compartilhavam sonhos, como ela mesma disse. E esses sonhos mostravam um futuro terrível, com a terra coberta por fogo e lava, o céu eternamente negro e coberto por fumaça, bem diferente do que eles estavam acostumados. E nessa terra, só existiam os semelhantes de Gadrel, seja lá o que ele fosse. Gadrel mostrara a ela o futuro. E nesse futuro havia apenas os Primeiros— criaturas que, nesta dimensão, dependiam de sangue para viver. Sangue de humanos.

— Mas, se eles dependem de sangue de humanos para viver, como pode não haver mais humanos? – perguntou Filipe.

— Eles trouxeram a dimensão deles para nossa dimensão – disse Lea. – Nenhum homem e nenhum vampiro pode sobreviver na dimensão dos Primeiros. Foi assim que eles destruíram a todos nós.

Filipe encarou Lea, estarrecido. As Guerras Vampíricas. Foi assim que ele chamou. Elas se aproximavam. E eles podiam evitá-las. O sol dificultava o trabalho de seguir a marca de Lea, por isso precisavam esperar pelo anoitecer para continuar a busca pelos Cavaleiros do Apocalipse. Segundo a lenda, metade dos poderes dos vampiros desaparecia com o amanhecer.

E tinha o segredo. A parte mais importante. Todos perderiam a guerra que os vampiros iniciavam contra os humanos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.