Nascidos da Noite - Livro Rigor Mortis
29 Capítulo 29 - Como se faz um deus
O garoto-vampiro olhou para sua presa com curiosidade. Abrindo a boca o máximo que pode e expondo seus caninos proeminentes, ele começou a sair da escuridão, sendo iluminado por uma luz pálida que vinha do alto do poço.
Cachorro Louco foi parar no fundo do poço depois que o braço metálico acabou de ruir e, agora, ainda com os pulsos amarrados, ele via seu assassino se aproximando lentamente.
— Acho que não vou esperar pela mamãe. Estou faminto!
Você deveria, é feio comer sem que todos estejam presentes.
Quando o garoto estava prestes a saltar sobre Cachorro Louco, Samanta aterrissou, se interpondo entre os dois. O garoto parou, e então recuou um pouco, assustado com o repentino aparecimento da jovem vampira.
— Prima Samanta! Não sabia que vinha! – disse o garoto. – Chegou na hora do jantar.
Samanta olhou para Cachorro Louco, e foi como se ele lesse os pensamentos da vampira. Estava a salvo, podia respirar novamente.
— Mamãe vai ficar contente em vê-la.
— Sua mãe está morta, Alfredo.
A expressão do garoto foi de total estupefação. Seus olhos se estreitaram dentro das órbitas, e ele pareceu desorientado. Então, começou a andar de um lado para o outro.
— Não pode ser... Quem cuidará de mim? Eu quero a minha mãe! Eu quero a minha mãe!
Alfredo começou a gritar, puxando sua corrente. Seus gritos ecoavam dentro do poço, como se fossem mil crianças fazendo birra ao mesmo tempo. Ele foi até a parede do poço e começou a arranhá-la.
— Quem a matou? Quem a matou?
— Fui eu – disse Samanta.
O garoto-vampiro parou. Naquele instante ele mais se assemelhava a uma estátua do que a um semi-vivo. Lentamente, Alfredo virou o rosto na direção de Samanta.
— Como pôde fazer isso? Eu a amava, prima Samanta...
— Você não ama ninguém, Alfredo. Nem a mim, nem sua mãe. São só palavras.
O garoto fechou os olhos. Quando os abriu novamente, eles pareciam duas brasas incandescentes. Com um grito ensurdecedor, Alfredo saltou sobre Samanta. A vampira segurou-o pelos ombros, enquanto ele tentava, desesperadamente, mordê-la no pescoço.
— Você matou minha mãe! Minha mãe!
Os dois vampiros começaram a rolar no chão. Parcialmente imobilizado pela corrente, Alfredo recuou um pouco. Samanta aproveitou para segurá-lo, puxando seus braços para trás.
— Escute, Alfredo, eu não quero matá-lo – disse a vampira. – Mas você precisa prometer se controlar...
— Eu vou destruir todos vocês!
— Ótimo, eu tentei.
Samanta começou a flutuar. A corrente que segurava Alfredo logo chegou no limite da extensão, mas a vampira continuou puxando o garoto para cima. O vampiro-garoto urrava, e ouviu-se um baque seco quando a perna dele se desprendeu do restante do corpo. Ele gritou, e a amaldiçoou. Samanta subiu cada vez mais, e ela viu as luzes lá embaixo, e elas se pareciam demais com vaga-lumes.
Parou quando estava há quilômetros de altura.
— Muito bem, a viagem termina aqui, Alfredo.
— Sua vadia! Não pode fazer isso comigo!
— Adeus, primo.
Então ela o soltou. Alfredo despencou sacolejando os braços, com um grito estridente. A vampira desceu novamente. Encontrou Cachorro Louco ainda no fundo do poço, e o ajudou a sair.
— Está tudo bem com você?
— Sim... Agora está, obrigado por salvar minha vida... E você?
— Depois conversamos, vai amanhecer daqui a pouco e, bem, você sabe o que acontece com vampiros quando amanhece.
Sim, Cachorro Louco sabia. E ele também sabia que não queria perder Samanta.
— Vamos ficar na casa da minha tia até anoitecer novamente. Tudo bem para você?
— Sim, tudo bem. – O que aconteceu com o Alfredo?
— Digamos que ele resolveu fazer um vôo solo.
Samanta esboçou um sorriso enigmático, e eles entraram na casa.
***
Era como flutuar, e ele quase podia sentir o cheiro das nuvens.
Da primeira vez que aconteceu, Kassius praticamente não sentiu nada – deslizou lentamente para fora de si mesmo, como quem se despe de suas roupas. Foi depois da terceira sessão de expurgo, quando ele foi chicoteado pelos homens encapuzados e jogado de volta à sua cela, semi-inconsciente. Naquela noite, Kassius abandonou todas as esperanças de voltar para os pais e desejou morrer. Mas a morte não foi visitá-lo. Então, ele saiu de seu corpo, desejoso por ir ao encontro dela.
Em vez disso, Kassius flutuou.
O medo inicial foi substituído pela curiosidade de explorar aquele lugar. Ele atravessou paredes e espiou seus sequestradores. Eram homens comuns – ou pelo menos pareciam –, que se escondiam naquele castelo, não havia nada de extraordinário neles. Kassius os observou enquanto limpavam, cozinhavam ou rezavam. Ele os viu cultivar o campo e ordenhar as cabras. Viu quando se despiam e se lavavam no rio. Então, depois de ficar durante muito tempo fora do próprio corpo, Kassius começou a enxergar além dos próprios olhos – agora ele via espectros, criaturas que se arrastavam das sombras. Com medo, ele se lembrou que tinha um corpo, e retornou para ele o mais rápido que pôde.
Assim que abriu os olhos, Kassius viu alguém vigiá-lo do lado de fora da cela. Era o homem de preto, que esperava pacientemente sentado em uma cadeira elegante.
— Ora ora, vejam só quem desenvolveu o dom da projeção astral – disse o homem de preto. – Agora você só precisa de um pouco de treino.
Ele se levantou e caminhou até perto das grades. Kassius permanecia deitado.
— Vejamos qual é o próximo dom da minha lista.
***
Era um enorme salão oval, em cujo centro havia uma berlinda.
Kassius foi conduzido até lá, e teve os braços e a cabeça presos ao instrumento de tortura (apesar de seus gritos de protesto). Em torno dele, dezenas de olhos espiavam, frios, incapazes de qualquer reação. Os quatro homens encapuzados não estavam ali, e aquilo pareceu ser uma coisa boa (embora, talvez, não fosse). Ter esperanças era bobagem, e Kassius sabia disso muito bem.
O homem vestido de preto se aproximou.
— Como está se sentindo hoje, Kassius?
— Deixe-me ir... Eu imploro...
— Sinto muito, mas não posso fazer isso. Você tem uma importante demanda a cumprir, Kassius, da qual não poderá fugir. Pode não ter percebido isso ainda, mas seu destino já está traçado, e ele será grandioso, independente de sua vontade. E você ainda vai nos agradecer por isso.
O homem vestido de preto se afastou.
Então, as portas do grande salão rangeram, e os quatro homens encapuzados entraram, conduzindo dois prisioneiros de olhos vendados e mãos amarradas. Um homem e uma mulher.
Os pais de Kassius.
— Mãe! Pai! – gritou o garoto ao vê-los.
A mulher estendeu os braços para frente ao ouvir a voz do garoto.
— Kassius? Meu filho, você está aqui? – disse ela.
O pai de Kassius caiu de joelhos, e foi levantado pelos homens encapuzados, enquanto se sacudia, tentando se libertar. Mas tudo aquilo foi em vão.
Os dois foram conduzidos até Kassius. O garoto começou a chorar, sacudindo os braços e pernas, tentando se libertar da berlinda.
— Mãe! Pai!
— Filho, meu querido filho – disse o pai de Kassius, com uma voz sumida. – Eu sinto muito... Muito mesmo...
— Filho, nós amamos você... – disse a mãe, aos prantos.
Fizeram com que os dois se ajoelhassem, então, um dos homens encapuzados se aproximou portando uma enorme foice. Com um golpe rápido, antes que Kassius pudesse dizer qualquer outra coisa, a cabeça de sua mãe rolou pelo chão. Depois, seu pai teve o mesmo destino, decapitado pelo carrasco.
Kassius gritou. Seu grito ecoou por toda a sala. Então, seguiu-se um silêncio perturbador. O garoto arfava, os olhos parecendo saltar das órbitas.
O homem vestido de preto se aproximou novamente. Olhou com desdém para os corpos caídos, sem vida, e então, voltando-se para Kassius, disse:
— Você pode falar com eles. Se realmente quiser, você pode. Pode até trazê-los de volta à vida, talvez não agora, mas, com um pouco de treinamento, certamente conseguirá. Isso se chama Necromancia.
Kassius cerrou os dentes. Seus pais estavam ali, na sua frente, e ele não pôde abraçá-los uma última vez. Eles roubaram seu bem mais precioso, suas últimas esperanças, sua razão de resistir a toda a dor que lhe era imposta.
— Eu vou matar vocês... Todos vocês... – sussurrou o garoto.
O homem vestido de preto esboçou um sorriso.
— É tudo o que eu queria ouvir.
Depois disso uma série de imagens desconexas começou a invadir a mente de Clarissa. Kassius torturado. Kassius sozinho no escuro. Kassius treinando nas montanhas geladas. Kassius morrendo – e renascendo em outra era, em outro lugar, para recomeçar tudo. Kassius sendo cortado, decapitado, perfurado, queimado. E renascendo, mil vezes.
Então, a verdade subitamente a acertou. Ele estava lá, sempre esteve. E não importava o que fosse feito, ele retornava, em uma era diferente, em um corpo diferente. Agora, ele era aquele rapaz atraente que a encontrou na rua, quando ela tentava fugir de si mesma. E ele foi mais longe do que jamais conseguiu.
Enquanto as imagens desvaneciam lentamente, a voz do homem vestido de preto ecoou na mente de Clarissa: Nós vamos aprender a produzir um deus. Mesmo que isso leve mais de uma encarnação.
***
Clarissa estava atônita, parada em frente à janela.
Já havia voltado para seu corpo fazia algum tempo, mas ainda não tinha mexido nenhum músculo. Seus olhos se mantinham estáticos, os lábios cerrados em uma expressão de desalento. Quando Douglas entrou no quarto ela não se mexeu nem um centímetro.
— Meus pais estão bem, só não sei até quando – disse ele, se sentando na cama. – O Brasil está um caos...
Clarissa permaneceu estática.
— Clarissa, está tudo bem?
Ela olhou para ele, os olhos profundamente vazios. Douglas se aproximou de Clarissa e ajoelhou-se na frente dela.
— Aconteceu alguma coisa? Clarissa, por favor diga alguma coisa...
— Ele perdeu tudo, Douglas. Tudo. Até mesmo a alma.
— Do que você está falando? Quem perdeu tudo?
Clarissa suspirou profundamente antes de responder. E quando falou, sua voz saiu falha e desarticulada, as palavras atropeladas:
— Kassius... Eu vi... Ele me mostrou... Ele perdeu tudo, Douglas... Mas ele voltou depois... Ele sempre volta...
— Calma, me explica devagar o que aconteceu. Você quer um copo de água?
Sem esperar pela resposta, Douglas pegou uma garrafa de água no frigobar do quarto e serviu um copo para Clarissa. Ela bebeu a água com movimentos rápidos. Quando terminou, eles se encararam mutuamente.
— Kassius esteve aqui? Neste quarto?
— Projeção astral – disse Clarissa.
— E que mentiras ele contou desta vez?
— Ele me mostrou o passado, tudo o que aconteceu com ele.
— O passado ou uma ilusão criada por ele?
— Eu sei que Kassius pode ser um monstro, mas eu sinto que o que ele me mostrou é verdadeiro – Clarissa fungou, e uma lágrima escorreu pelo rosto dela. – Eu estive lá, eu vi tudo exatamente como aconteceu. Ele não teve culpa.
— Então você o perdoou, é isso? Já esqueceu o que ele fez com você, com todos nós?
Douglas pareceu desorientado. Caminhava de um lado para o outro dentro do quarto, movimentando as mãos desarticuladamente.
— Douglas... Kassius era apenas uma criança inocente quando foi sequestrado e torturado... Ele viu os pais serem assassinados na frente dele...
— Não percebe o que ele está fazendo com você, o que ele sempre fez?
— Eu não sei mais o que pensar.
Douglas ajoelhou-se novamente na frente de Clarissa.
— Clarissa, isso que você está me dizendo pode até ser verdade, mas aquela criança inocente não existe mais. Ela se tornou o mensageiro das trevas, a criatura que nós estamos perseguindo em uma tentativa de salvar a humanidade...
Clarissa encarou-o.
— Não sei mais se a humanidade será salva pela morte de Kassius.
***
Ilhas Virgens Americanas
Era um festival organizado especialmente para a tripulação do Gigante dos Mares, que ficaria por mais algumas horas na ilha.
Um menino tocava acordeão, e algumas pessoas dançavam. Completamente cego, sua apresentação era impecável. Quanto terminou, seu chapéu estava cheio. Kassius aproximou-se. Não disse nada em um primeiro momento, apenas observou o cego, como um lince caçando.
O garoto ergueu a cabeça e encarou-o, como se pudesse vê-lo.
— Eu sei o que você é – disse o pequenino.
O vampiro continuou em silêncio. Claro, seu disfarce era inútil, pois a magia passava pelos olhos, e os olhos podem enganar – mas o coração não se engana facilmente. Kassius observou o garoto, andou em torno dele por um tempo, estudando-o. Ah, os humanos, como podiam ser interessantes!
Kassius se ajoelhou diante do garoto, encarando-o. A face do garoto se mantinha inexpressiva – embora soubesse que o vampiro estava tão próximo, ele não movia um único músculo.
— E você não tem medo de mim? – perguntou o vampiro.
— Não.
O vampiro sorriu. Esticou a mão na direção do cego mas, antes que pudesse tocá-lo, uma mulher saiu da multidão e se interpôs entre eles:
— O que você quer com o meu filho?
Kassius encarou-a:
— Afaste-se – disse o vampiro.
Em transe, a mulher se afastou dos dois, como um boneco controlado por fios invisíveis. Ela não voltaria a incomodá-los, a não ser que Kassius permitisse.
— Ela explora você, não é? – perguntou o vampiro.
O garoto permaneceu em silêncio.
Kassius sorriu. Seu coração estava incomodado porque aquela criaturazinha ridícula não o temia, e ele não poderia tolerar tal afronta.
— Qual o seu nome, garoto?
— É Enzo.
— Pois bem, Enzo. A partir de hoje você saberá o que é medo.
Kassius aproximou-se mais do garoto e cobriu seus olhos com as palmas das mãos. Então, sobre os olhos do garoto, as mãos de Kassius emanaram um brilho vermelho, feito brasas. Kassius afastou as mãos, e quando Enzo abriu os olhos, ele viu o vampiro. Não apenas isso, agora Enzo era capaz de ver o mundo inteiro ao seu redor.
O garoto, que era cego de nascença, ficou parado durante um curto intervalo de tempo, admirando o mundo. Então, quando encarou a face do vampiro, ele surtou. Jogou o acordeão para o lado e se levantou. A bexiga imediatamente se esvaziou, molhando as calças. Enzo gritou, e correu o mais rápido que pôde, para o mais longe possível de Kassius.
O vampiro sorriu e caminhou tranquilamente na direção do cais. Algum tempo depois foi dado o sinal que o Gigante dos Mares deixaria a ilha.
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