Nascidos da Noite - Livro Rigor Mortis
28 Capítulo 28 - Expurgo
Flórida, Estados Unidos, 2020
A televisão do quarto de motel onde dormiriam estava ligada.
No telejornal, o presidente eleito Edmund Bekker discursava. Anunciava seu pacote anti-semi-vivos naquele exato momento:
— Senhoras e senhores, é com grande satisfação que minha equipe e eu nos colocamos à disposição de vocês. Foi com essa mesma disposição que fomos eleitos, sempre pensando e trabalhando pela família humana americana. Hoje, começa uma nova era para nosso país, esta grande nação abençoada por Deus e democraticamente construída sobre os pilares da liberdade e da justiça. Não podemos mais nos mantermos à margem da existência, calados e oprimidos em nossa própria casa. Não podemos mais permitir que a insegurança e o medo nos dominem. A partir de hoje, novas leis entrarão em vigor. Todo semi-vivo deverá usar uma braçadeira que o identifique claramente...
Enquanto o presidente falava, a imagem da braçadeira era exibida em um enorme telão – ela era vermelha com a imagem de um sol azul. Deveria ser usada sobre a roupa. A aglomeração de pessoas que assistia ao discurso começou a se movimentar. Alguns deixavam o lugar, outros aplaudiam fervorosamente.
Clarissa olhou para Douglas, atônita.
— Como podem permitir isso? – perguntou ela.
— As pessoas conseguem ser muito más quando querem – respondeu ele.
— Isso não é apenas maldade, Douglas... Eu não sei o que é. Às vezes eu acho que Kassius tem razão...
Douglas não respondeu nada. Deitado na cama, ele fitou o teto. Estava preocupado com os pais – o Brasil nunca foi o lugar mais seguro do mundo, e agora que um movimento cataclísmico aparentemente começava a se formar, parecia ainda pior. Já fazia algum tempo que não ligava para Sampaio e Edméia. Na escola não era chamado de filhinho da mamãe sem razão. Agora, não sabia mais o que era.
— Preciso falar com meus pais. Vou procurar um telefone na recepção, o nosso está mudo – disse ele, se levantando.
— Tudo bem.
Clarissa olhou pela janela. Lá fora tudo parecia normal.
Nada está normal. Não enquanto Kassius andar por aí. Mas, se o oráculo de Valáquia estivesse certo, seu destino estava determinado há séculos. Não poderia escapar dele, e isso era o que mais a assustava.
De repente, estava sozinha no quarto de motel.
Clarissa caminhou até a cama e deitou-se, fitando o teto. Estavam ficando para trás, Kassius avançava em sua empreitada, e ela não sabia muito bem qual deveria ser seu próximo passo. Se ele precisava deles para alguma coisa – mais precisamente de Juliette –, então, ainda havia uma chance. Mas, se ele conseguisse avançar sem eles, então talvez precisassem de um novo plano.
Um calafrio percorreu o corpo de Clarissa quando ela olhou, de relance, e imaginou ter visto alguém perto da porta do banheiro. Foi durante apenas um segundo, mas suficiente para que ela discernisse uma silhueta na penumbra.
— Douglas?
Silêncio.
Ela se levantou. Douglas foi telefonar para os pais, provavelmente não voltaria tão rápido. Um pouco apreensiva, Clarissa contou os passos até o banheiro. Agora a televisão estava desligada, e um cheiro de chuva invadiu suas narinas. Lentamente, ela percorreu a pequena extensão do cômodo, mas não viu nada demais. Quando olhou para trás, Clarissa e encontrou a porta do apartamento aberta.
— Tem alguém aí?
Clarissa saiu do quarto e caminhou pelo longo corredor, passando por diversas portas invariavelmente fechadas. Enquanto caminhava ela se perguntou para onde iria, não agora, mas quando tudo acabasse – se um dia aquilo acabasse. Teria forças para derrotar Kassius? Ou sucumbiria à sua maldade milenar? Ultimamente essas questões a afetavam mais do que o normal, como se, em algum nível ainda não compreendido por ela, o fim se aproximasse – alguma espécie de fim, pelo menos.
No final do corredor ela encontrou as escadas que davam para o piso inferior, e logo à frente estava a recepção. Ela olhou pela janela de vidro, e viu Douglas lá dentro, pendurado ao telefone. Clarissa acenou, mas ele não respondeu. Ele não me viu. Ele não me vê...Clarissa virou-se de repente, e então foi erguida pelo braço:
— Vem comigo!
Quem quer que a tenha raptado, certamente era um ser de outro mundo. Eles atravessaram o teto, Clarissa puxada pelo braço, e ela viu o motel ficar cada vez mais distante e as nuvens mais próximas, enquanto subiam na direção do céu. Clarissa olhou para o alto, e não foi surpresa nenhuma que se tratava de Kassius. O vampiro a levou até as mais altas nuvens, e então eles estavam frente a frente.
— Kassius... Como ousa?
— Clarissa...
— Que espécie de truque é esse?
O vampiro esboçou um sorriso, e soltou-a. Clarissa deu um gritinho de espanto, mas permaneceu exatamente onde estava, flutuando.
— É um sonho? Estou sonhando? O que você está planejando agora?
— Estamos em projeção astral. E eu quero propor uma trégua, Clarissa.
Clarissa cerrou os punhos e encarou o vampiro. Ele permanecia inabalável, era o mesmo sujeito pelo qual ela se apaixonou perdidamente, o mesmo sujeito que a traiu depois de conseguir o que queria? Como fora boba e ingênua.
— Não posso confiar em você...
— Não precisa confiar em mim, só quero que você veja uma coisa...
— Só maldade emana de você Kassius, e eu não vi isso desde o começo porque fui uma tola!
— Você estava apaixonada.
— Foi exatamente o que eu acabei de dizer.
Kassius não se abalou. Aproximou-se de Clarissa, que tentou fugir, mas foi pega por ele. O vampiro envolveu-a entre seus braços, e não a libertou, mesmo diante dos protestos de Clarissa.
— Se, depois que você vir o que eu tenho para mostrar, ainda quiser me matar, tudo bem, não a culparei. Mas você precisa ver...
Lentamente, Clarissa sentiu a consciência deixá-la, como se ela adormecesse.
***
O garoto brincava com bonequinhos de barro. Eles eram soldados enfileirados, prontos para a guerra. O garoto não parecia ter mais do que cinco anos, e seus cabelos pretos eram tão escuros quanto a noite.
Com passos pesados, um homem vestido de preto se aproximou. Ele pisou sobre um dos bonecos, que se desintegrou. O homem olhou para baixo, para o garoto, então, ajoelhou-se. O garoto olhou para o homem apenas por cinco segundos, então voltou a brincar com os bonecos. O homem acariciou a cabeça do garoto, e levantou-se. Àquela altura a mãe do garoto já havia saído do casebre onde moravam, e olhava para o homem com certa desconfiança. Os dias ficaram mais curtos, e as noites mais longas. Sim, eu sei. Ouço sussurros e gemidos quando as trevas nos cobrem feito um cobertor. Como ele se chama? Cassiano Ricardo III, mas o chamamos de Kassius. O homem voltou a olhar para o garoto. Aquela criaturazinha não sabia o que a aguardava, o quanto de dor teria que suportar – se é que suportaria. Onde está o pai dele? Saiu em uma Missão de Fé. Ele voltará antes da lua cheia? Ele sempre volta, não vejo porque seria diferente desta vez. Sim, claro.
Cinco dias depois o homem retornou. O garoto estava deitado com a mãe quando foi acordado. O pai era um dos homens que o pegou, ainda com as roupas de dormir, e o levou até o lado de fora da casa. Era uma noite de lua cheia, e havia uma grande multidão do lado de fora da casa. O som estridente de rodas girando invadiu a noite, e então uma carruagem surgiu diante de todos. O garoto olhou para a carruagem, e de dentro dela duas órbitas vermelhas brilharam. O garoto começou a chorar quando o pai aproximou-o da carruagem. E foi com total horror que ele viu a criatura que estava lá dentro, um ser humanóide, porém diferente de todos os outros humanos que ele já vira em sua curta vida. Começou a se debater, e sua mãe tentou se aproximar, mas foi impedida pelas outras pessoas. A criatura cheirou a criança, e lambeu sua bochecha com uma língua áspera e bifurcada. O garoto agora gritava de medo e horror, e tentava, em vão, afastar a criatura com as mãos. A criatura grunhiu, o que talvez fosse sua risada, e então disse uma frase em um idioma desconhecido. Um rapaz traduziu a frase para todos. Ele serve como cálice. Depois disso a carruagem foi embora, e a multidão se dispersou. Ficaram apenas o garoto, a mãe e o pai.
No mês seguinte o homem de preto retornou. Desta vez o pai estava em casa, afiando sua espada. O garoto estava do lado dele, e ainda brincava com os bonecos, que ainda eram soldados enfileirados prontos para a guerra.
Sabe o que vai acontecer. Sim, eu sei. É preciso, para o nosso próprio bem. Eu sei, sei que é. Devo levá-lo agora. Não poderá nem mesmo se despedir da mãe? Não há despedida que o conforte, senhor.
Assim, entre gritos e lágrimas, o garoto que se chamava Kassius foi tirado dos braços de sua mãe e levado para terras distantes. Durante a maior parte do trajeto ele estava de olhos vendados e, quando os abriu, desejou não tê-lo feito. O lugar onde ele estava mais parecia uma caverna – era úmido, escuro e fedia a enxofre. Duas órbitas vermelhas o observavam na escuridão daquele lugar horrível, e quando ele tentou sair correndo para longe, encontrou grades. Estava enjaulado.
A criatura humanóide não precisava falar – as palavras simplesmente adentravam a mente do garoto, e ele não as compreendia no começo, mas, estranhamente, começou a compreender depois de um certo tempo. Sim, ele estava aprendendo. A criatura falava o tempo todo, às vezes grunhia, às vezes uivava. Primeiro, Kassius chorou. Quando suas lágrimas secaram, ele gritou. Quando sua voz sumiu, ele entristeceu, e não saía de um dos cantos da jaula. Isso não parecia incomodar a criatura, que continuava a falar, grunhir e uivar.
De vez em quando alguém levava um pouco de comida para Kassius – no começo, verduras, frutas e legumes; mais tarde, carne de cordeiro assada; no final, carne crua. Ele resistiu à carne crua, não suportava o sabor do sangue. Com a fome cada vez mais intensa, acabou por ceder e comer.
Uma noite, quando tentava dormir, Kassius entendeu uma frase completa: Você é o meu cálice.
Assustado, ele se agarrou à grade que parecia ser a porta. Você é o meu cálice, repetiu a voz. Kassius segurou a grade com todas as suas forças, estava assustado e queria ir para casa, não aguentava mais ficar longe de seus pais e dos soldadinhos de barro. Não suportava mais a escuridão, queria ver novamente o céu azul, e os peixinhos que brincam nas águas dos riachos próximos à sua casa.
Sendo um cálice, Kassius não tinha vontade própria. Ele era um receptáculo, apenas um vaso onde alguma coisa seria depositada e, embora ele não soubesse naquele momento, essa coisa era a própria essência do mal.
Uma noite o garoto foi acordado por uma multidão de homens vestidos de preto, todos com a cabeça coberta por capuzes. Eles o arrastaram para fora da caverna. Era lua cheia, e havia uma fogueira enorme do lado de fora, assim como uma mesa de pedra. Kassius foi amarrado à mesa de pedra, e quando abriu os olhos ele viu a lua, brilhando inerte no céu escurecido.
Você é o meu cálice.
A criatura que o aprisionara e ensinara aquela estranha linguagem chegou voando. Suas enormes asas eram membranosas, e se pareciam bastante com asas de morcego. Os olhos de fogo encararam Kassius.
A criatura se aproximou lentamente, e quando os olhos de ambos se encontraram, Kassius soube que estava perdido. A criatura usou suas garras para arrancar as roupas de Kassius, e ele sentiu o frio da noite tocar sua pele. Depois, a criatura subiu na mesa de pedra, e começou a cortar a si mesma. O sangue da criatura banhou o garoto, assustado e, ao mesmo tempo, hipnotizado. De repente, a criatura abriu sua boca e juntou-a à boca do garoto, e eles ficaram ligados por um longo tempo. Ao redor deles, os homens cantavam e gritavam. Quando terminou, o corpo da criatura caiu de lado, vazio.
No outro dia, Kassius foi mandado para um lugar diferente. Ele era um cálice cheio agora.
***
Kassius não sabia onde estava. Sabia que as paredes eram feitas de rocha, porque, quando as tocava, ele sentia a textura. O quarto onde ele foi aprisionado era muito escuro, e ele ouvia passos do lado de fora.
Nos primeiros dias Kassius sentiu saudade dos pais. Chorou. Gritou. Depois se encolheu, e ficou deitado no chão de rocha por muito tempo. Com o passar dos dias foi como se alguma coisa mudasse dentro dele – talvez sua alma. Havia uma batalha dentro de Kassius, e ele sentia que uma parte de si morria, enquanto outra parte – maior e mais poderosa –, tomava conta. Depois de um mês, ele precisava se esforçar para se lembrar do nome dos pais.
Kassius sabia que, independente de seu esforço, a outra parte (que ele apelidou de o Invasor) venceria. Sentia isso cada vez que respirava. O Invasor era aquela criatura sombria que o invadiu, o preencheu como o vinho preenche um cálice. Cada vez que fechava os olhos para dormir, o garoto sentia que perdia um pouco de seu espaço interior, como se o Invasor se embrenhasse por cada espaço de seu ser, tomasse conta de seus órgãos, como se o vestisse da mesma forma que se veste um casaco em uma tarde fria.
Ele se sentia usado – e cada vez mais fraco também.
Então, eles o tiraram de sua prisão e o levaram até o homem de preto. Kassius tentou lutar contra tudo aquilo, mas foi em vão. Ele era apenas uma criança, não tinha força suficiente para vencer adultos.
Ele foi despido e amarrado ao chão, de joelhos. Quando ergueu os olhos, Kassius viu o homem de preto se aproximando dele.
— Vejamos, meu pequenino, se tivemos algum progresso.
O homem ajoelhou-se e segurou o queixo de Kassius com violência enquanto olhava dentro de seus olhos. Com um movimento negativo da cabeça, ele levantou e se afastou.
— Expurgo! – gritou.
Saíram das sombras quatro homens mascarados, cada um portando uma disciplina. Os homens se posicionaram em forma de círculo ao redor de Kassius. Então, o primeiro deles o chicoteou. Kassius gritou quanto das pontas da disciplina acertaram suas costas nuas, e então ele começou a chorar. O segundo homem o chicoteou nas nádegas, e o garoto deixou seu corpo cair no chão, experimentando o gosto da terra e do sangue de seus lábios feridos pela queda. Depois disso Kassius perdeu a conta das chicotadas que levou antes de retornar à sua cela.
Tudo o que ele sabia é que estava vivo – vivo e furioso.
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