Nascidas para Matar ou Morrer
7 Parasita número 3
Notas iniciais
O céu estava com tonalidades laranja e a lua começava a aparecer, brilhante, trazendo a paz de um término de dia consigo. Aquela era a hora que Sarah mais gostava. Ela podia voltar para o templo e descansar depois de um dia fazendo serviços.
Ultimamente ela não havia recebido tantos pedidos, mas naquele dia em especial, tivera três trabalhos, um atrás do outro. Uma pobre jovem dama que traíra seu marido –homem raivoso e, principalmente, cheio de dinheiro- um rapaz com aparência doentia que vinha roubando alguns mercadores e um homem apaixonado pela filha de um dos maiores capitães da guarda alemã. Otário.
Sarah estava andando nas ruas de Monique indo em direção ao templo de Fritz, despreocupada, limpando o sangue de suas mãos quando ouviu barulhos de cavalos trotando e homens gritando bem perto dali. Ao se virar em direção ao barulho, um homem se chocou violentamente com ela. Por sorte, ela moveu a perna esquerda para trás rapidamente e isso a permitiu continuar de pé.
–Olhe por onde anda, imbecil! –ela disse cerrando o punho.
–Olhe você por onde anda! –ele franziu o cenho por no máximo dois segundos, mas depois a olhou de cima a baixo e sorriu da forma mais maliciosa possível e se curvou fazendo sinal de reverencia- Senhorita. –depois voltou a sua postura normal- Lamento não poder corteja-la devidamente. Você merece bons elogios porque... Nossa. –ele fez uma careta- Acontece que estou meio ocupado. Fica para a próxima, dama.
Antes que ela pudesse responder furiosa, o homem saiu correndo. Dez segundos depois guardas montados em cavalos passaram voando por ela.
Os dias vêm sido estranhos.
–--
Chegando no templo, sem mais delongas, ela abriu as portas pronta para ir tirar aquela roupa ridícula de garotinha e ir se deitar.
–Sarah? –A voz retumbou no ambiente- É você? –Ela foi se tornando mais próxima.
–Obviamente, Fritz. Quem mais seria?- A garota respondeu com seu tom usual sarcástico.
Seu mestre apareceu e foi andando até ela. Mesmo que ela tivesse crescido bastante, ele continuava tendo, no mínimo, trinta centímetros a mais que ela.
–Não sei. Observei movimentos suspeitos lá embaixo da montanha. Você sabe que não suporto ninguém perto daqui. É perigoso demais e ultimamente estou sem saco para ir lá e matar quem quer que seja. Se a pessoa ou sei lá o que quiser vir aqui me matar ou me roubar, que tente. Eu o mato aqui.
–Justo. -ela passou seu peso para outra perna- Eu não vi ninguém lá em baixo. Talvez tenham ido embora.
–Não. Isso não faz sentido.
–Hey, relaxa por um instante. Consegui três trabalhos hoje. –ela sorriu, ficou na ponta dos pés e o beijou. Isso era o que eles tinham. Essa relação paternal, misturada com de amantes.
Isso começou desde quando Fritz a disse que tinha de aprender a seduzir os homens, faze-los ansiar por tê-la e assim ter uma vantagem sobre todos. Uma coisa levou a outra Sarah acabou conseguindo seduzir Fritz. Claro que para ele não era uma desvantagem já que ele sabia se controlar perfeitamente, tanto física quanto psiquicamente. Então depois de um tempo os dois passaram a ter relações.
Ela não via problema algum. Sabia que mulheres da sua idade se casavam com homens da idade dele naquela época e ele era o homem ideal para treinar esse tipo de coisa. Já Fritz ficava meio incomodado. Ele não gostava de ter tanto contato com ela. Contato algum, na verdade. Ainda assim era homem, humano, e não podia resistir uma vez ou outra.
–Você sabe que eu não vou relaxar, Moritz. Não é assim que as coisas funcionam. –ele afastou os braços dela de si e começou a andar para um dos quartos do templo. Aí estava ele. Frio e ríspido como sempre.
–Sr. Fritz, por favor. –ela bufou e começou a tirar a maldita saia enquanto caminhava atrás dele- Eu estou cansada, você esta cansado, permita-me fazer com que ambos relaxem.
–Não, Moritz! O que você é agora? Uma meretriz? –ele parou e virou para ela, o que acabou a pegando de surpresa já que estava a alguns passos dele e teve que parar bruscamente- Já disse que isso tem que parar! –ele ergueu a mão e deu um tapa em seu rosto.
Espantada, ela arregalou os olhos e botou uma mão na bochecha. Passaram alguns segundos sem que nenhum dos dois dissesse nada até que o mestre a pegou pela cintura com força e começou a beijar seu pescoço, já tirando as mangas de sua blusa.
Sem ele ver, ela sorriu maliciosamente. Vencera. Sabia que ia vencer.
–--
–Sarah! Sarah! –ela abriu os olhos com preguiça escutando alguém falando alto, com um tom preocupado. Assim que ela estava desperta, Fritz abriu a porta do quarto dela com força.
–Garota, ande! Isso não é um treinamento. Corra. O mais rápido que puder. Para longe daqui. Agora.
Sarah se levantou da cama em um pulo com uma expressão de horror.
–O que raios aconteceu, Hudge? –Disse já botando caças escuras rapidamente.
–São os homens que eu falei que estavam bisbilhotando o templo! Eles são piores e com um maior número do que eu imaginava. E eles estão subindo a montanha.
–Você não acha que podemos combate-los? –ela perguntou já vestindo a blusa com um pingo de esperança.
–Não! –ele respondeu com urgência. Era a primeira vez que ela o via assim, quase com medo- Você não entenderia. Eles não são simples mercenários como nós. Agora não tenho tempo para lhe explicar, garota. Só corra. –ele começou a empurra-la para fora do quarto.
–E quanto a você?
–Obviamente eu consigo me virar, né estupida? Só não quero que peguem você. Eles não querem nada comigo.
–Como?!
–Só vá! –ele disse com uma expressão de “Pelo amor de Deus, garota. Vá de uma vez!”.
Então ela começou a correr para a porta dos fundos. No momento que fechou a porta atrás de si, ela pode ouvir as portas da frente do templo serem abertas com força e batidas na parede. Ela sentiu uma vontade enorme de voltar e ajudar seu mestre, matar todos que vieram ali, mas Hudge Fritz nunca estava errado e se ele disse para ela correr, ela deveria. Não tinha tempo para pensar.
Começou a correr em direção a íngreme descida, ajustando seus olhos à falta de luz. Devia ser madrugada, alguns raios de luz começavam a aparecer, mas ainda assim tinha de ser atenta.
Ela fez um coque rápido no cabelo para que eles não ficassem atrapalhando sua visão e arremangou as mangas para maior mobilidade. Ela já subira e descera aquela montanha correndo várias vezes, mas nessa hora havia muita tensão. Suas mãos suavam e Sarah derrapava algumas vezes no chão, esfolando os cotovelos e joelhos, mas se recuperava rapidamente e continuava em disparada.
–A garota está fugindo! –ela ouviu uma voz masculina gritando atrás de si. Provavelmente no topo da montanha, avistando ela a alguns metros. Então ouviu algumas pessoas arfando e barulhos de passos correndo em sua direção. Muitos passos. Passos demais.
Então começou a correr mais rápido, mesmo que isso fosse perigoso. Talvez quem quer que estivesse seguindo ela e fosse igualmente rápido, escorregaria nas pedras e com sorte quebraria alguma coisa. Se fosse mais devagar, ela ganharia distancia.
Quando a montanha foi se tornando menos íngreme e a garota foi conseguindo ver o chão, ela percebeu que havia mais algumas pessoas alí em baixo. Calculou oito silhuetas. Poderia derrubar todos eles e depois continuar correndo. Iria derrubar qualquer um que ficasse no caminho.
Quando eles a viram, três foram em sua direção e os outros cinco ficaram onde estavam. Os que foram chegando mais perto eram:
Um homem alto, forte, careca, com uma expressão assassina. Grande demais. Provável falta de agilidade. Atacar primeiro. Ele vai tentar uma investida brusca. Desviar e dar soco no pomo de adão. Possível chute nas bolas.
Uma mulher magra, negra e rápida. Irá alcançar assim q finalizar o primeiro. Virar rapidamente e desviar do ataque. Sair correndo.
Homem de estatura mediana, sem braços fortes e sem muita velocidade. Não deve ser pesado. Correr em sua direção, agarrar pelo braço e pescoço e arremessar o corpo em direção a mulher negra. Distração.
Continuar correndo.
As outras cinco silhuetas agora já estavam se movendo em direção a Sarah. Os passos atrás de si também continuavam. Ela não iria conseguir matar todos eles. Estava cercada.
–Sarah Fritz, pare onde está! –Ela ouviu uma voz gutural gritando. Quando ela se virou em sua direção, percebeu que vinha de um homem negro muito mais forte que ela- Nós fomos autorizados a machuca-la, se for preciso. Se eu fosse você não mexia nem mais um músculo. –ele disse se aproximando.
Quando ele chegou perto da garota, ela pode sentir sua respiração perto de si. Ele estava a poucos centímetros dela e aquilo trazia o gosto de bile em sua garganta. Ela pode ver os músculos dele ficando tensos e seus punhos cerrando.
–Jura? –ela ergueu o queixo lentamente em direção ao ouvido do garoto e sussurrou: Então me observe. –então bateu sua cabeça com força no nariz do garoto. Ela pode ouviu seu osso quebrando e um sorriso já surgiu na boca da garota quando ela viu o sangue dele escorrer. O problema foi que o garoto não emitiu nenhum som, ou mesmo se mexeu. Só o que ele fez foi passar a mão –que tinha uma cicatriz meio estranha que emanava um brilho azulado- embaixo do nariz para limpar o sangue. E então com um simples e breve geste, ele botou seu nariz no lugar. O gosto de bile estava de volta na boca de Sarah.
–Você cometeu um grande erro, parasita número 3.
–--
–Porque demoraram tanto para pegar essa parasita, afinal? –A agente chamada Cora perguntou para seu colega Aiden, que estava dirigindo a carruagem. Atrás deles, dentro do veículo, Sarah Moritz estava desmaiada sendo vigiada por outros três agentes.
–Pois ela é forte. –ele deu de ombros e Cora franziu a testa. Precisava de uma explicação melhor- Digo, seu gene é o da força. Além do mais, ela foi criada por um assassino. Isso não estava nos planos do Sr. Kanzkar. Ela é bem treinada.
–Nós homens também são. –Os dois ficaram em um longo silêncio até que ela voltou a perguntar- O número dela me incomoda.
–O que? O 3?! Pelo o que ouvi isso não define muita coisa. Só que ela foi uma das primeiras a ser cobaia. –Cora assentiu e voltou a olhar para estrada de pedra. Aiden começou a revirar aquilo em sua cabeça. Ele esperava que não definisse muita coisa.
Depois de muito tempo de viagem, eles chegaram em um grande portão de ferro, no meio do nada, com uma grande placa em cima escrito “Kanzkar Company”. Cora desceu e foi até o portão para solicitar a entrada da carruagem e Aiden foi verificar se estava tudo bem dentro da mesma.
–Bom dia, senhorita Cora. –ela flagrou o guarda olhando diretamente para seus peitos pressionados pelo espartilho- Como foi de viagem?
–Bom dia, agente Fields. Foi boa. –ela não tinha tempo para papear com um gordo inútil como ele- Deixe-nos entrar, por gentileza.
–Gentileza era o que a senhorita devia ter mais, né?! Só estava a cortejando.
–Ah, faça-me um favor. –ela aumentou o tom da voz sem querer- Em minha posição posso mandar mata-lo com um estalar de dedos.
–Ainda continua uma mulher. E eu um homem. Sou superior a você nisso.
–Não me faça querer vomitar, Fields. Abra o maldito portão.
Depois de resmungar mais um pouco, o agente abriu o portão e Cora voltou para carruagem. Aiden não estava ali fora.
–Agente 38? Esta tudo bem? –Cora bateu na porta da carruagem.
–Sim. Sim. Só estou ajudando os outros a desamarra-la. Dirija para mim, por favor.
Cora deu de ombros e os conduziu para dentro do grande edifício cinza. Chegando à garagem, ela desceu e foi em direção a porta da carruagem. Quando ela abriu, uma adaga voou direto para o seu peito e uma mulher morena apareceu sorrindo.
–Bom dia, chuchu. –Cora caiu de joelhos no chão, olhando pasma para o seu sangue escorrendo pelo espartilho- Vejo que nós não estamos com muita sorte hoje, não?! –então Sarah pulou do veículo e tirou a adaga do peito da garota, suspirando- Ops, isso é meu.
–Co-como? –Cora se levantou com dificuldade.
–O que? Ah, ta. Vocês acharam que eu não ia me acordar alguma hora e me desamarrar né?! Como se eu nunca tivesse sido treinada para isso. –a morena deu uma risada, limpando a adaga na blusa- Tão clichê...
Cora olhou para ela com os olhos arregalados e então olhou para dentro da carruagem. Os três agentes que acompanhavam a parasita mais o agente Aiden estavam com cortes na garganta e com olhares vazios. Seu estomago fez um nó.
Sarah seguiu o olhar da garota e fez uma careta.
–Devo admitir que isso aí foi difícil. Digo, três contra um. –ela chegou perto da garota em choque- Agora... –ela sorriu e botou a adaga no pescoço dela- Ou a senhorita me diz o que diabos eu tô fazendo aqui, ou você vai ficar igual eles.
–Que tal isso?! –Cora puxou sua própria adaga e apunhalou o ombro direito de Sarah. Então ela rapidamente a derrubou e pôs a adaga no pescoço dela- Como se eu nunca tivesse sido treinada para isso.
Antes que a parasita pudesse reagir, um grupo de homens altos, fortes e equipados com facões e armas chegou.
–Agente 100, deixe-a conosco agora. Sua missão está completa.
Cora rolou para o lado, com as mãos em cima do corte em seu espartilho. Ela estava arfando, enjoada e com raiva.
A última visão de Sarah foi o mesmo homem de quem ela quebrou o nariz pairando em cima dela com um pano na mão e depois tapando sua boca com aquilo.
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