Nascida nas trevas - Born in the dark
3 Tubarões

Quando dia cinco de setembro chegou e os comerciantes nômades não chegaram junto com ele, todos os moradores começaram a ficar preocupados. O velho Reece já tinha 94 anos e tomava alguns remédios que nós não tínhamos ali, somente os nômades poderiam levar pra gente. Um mês sem seus remédios assustou sua filha Leah e a neta Rhiannon. Alyna precisava de coisas para seu hospital e minha mãe estava prestes a ter um bebe, isso assustava a meu pai e a mim. Além disso todos precisavam de algo ou apenas estavam preocupados com o sumiço dos nômades. A carne de tubarão já estava no fim ou estragando, as pescas suspensas acabou nos deixando sem muita comida. Não tínhamos estoques então logo Rey teria que liberar-nos para voltarmos à nossa rotina ou ficaríamos sem comida.
Rey e Aylin tinham pedido uma reunião e estávamos todos em volta do casal para ouvir o que eles tinham a nos falar. Ao lado deles estava meu pai.
— Vamos mandar uma equipe para fazer uma busca e descobrir algo sobre o sumiço de Harvery e os outros, quero que Kenan, Ross e Tamryn vá até a cidade flutuante dos corais e que Zoila e Kian façam uma varredura para o lado de lá. — Ele apontou na direção contrária a cidade. — Qualquer informação que conseguirem será de grande valia.
Nós todos nos juntamos em um canto para mostrar que estávamos de acordo e prontos. Meu pai me olhava orgulhoso.
—Aleyna vai ficar com Zia o tempo todo e induzir o parto, porque se precisarmos de uma fuga é melhor que o bebe já tenha nascido.
—Porque precisaríamos de uma fuga? — Korin perguntou sem jeito.
—Não sabemos o que está acontecendo lá fora, Korin. Tudo precisa ser pensado. — Ele voltou-se para o grupo todo novamente e continuou. — Quero que Stark,Vox, Jodie e Kena fiquem na cozinha e separem tudo que ainda pudermos comer de forma organizada e se desfaçam do resto. Adelina e Starla vão ajudar na ala médica. — Ele continuou dando ordem e todos acataram rapidamente assustados. Depois de falar com cada um, voltou-se para o nosso grupo novamente — Vocês sairão logo cedo quando o sol começar a nascer.
Logo que o sol começou a nascer eu já estava com uma bolsa de pano amarrada entre minhas asas atravessando meu corpo sem atrapalhá-las e sentada do lado de fora da minha casa com meu pai me dando mil conselhos. Kenan e Ross estavam vindo juntos para perto da gente e desejaram bom dia sem muito ânimo. Kenan sempre fora bem amigo do meu pai apesar de ser mais de vinte anos mais novo. Ele tinha 33 e Ross 53 anos, um ano mais novo que meu pai. Eu sou a única novata então me levam sempre pra todo canto para aprender sobre cada coisinha, apesar de eu já estar entre os caçadores desde meus 14 anos, ainda assim sou considerada muito novinha já que eles já são bem mais velhos do que eu.
Estávamos falando baixo nos despedindo quando ouvimos uma porta abrir bruscamente. O velho Reece estava rastejando para fora de sua casa e caiu de bruços com metade do corpo ainda dentro de casa.
—Acorda a Aleyna. — Kenan me falou antes de correr em direção ao velho junto com Ross e meu pai. — Chame-a imediatamente.
Corri até a casa deles e acordei Aleyna o mais rápido que pude.
—O velho Reece esta caído no chão. — Foi apenas o que eu disse e ela se levantou correndo em direção a um canto da casa e pegando uma caixa de ferro antes de me seguir até lá fora.
Zoila e Kilan estavam saindo da casa deles e ao verem o tumulto correram junto conosco até o velho.
—Afastem-se. — Aleyna pediu enquanto se ajoelhava ao lado dele virando-o para cima.
Abriu sua caixa de ferro e pude ver que eram seus equipamentos médicos. Ela não se deu ao trabalho de pegar nada dentro antes de colocar a cabeça no peito de Reece sentindo seu coração. Todos nós permanecemos em silêncio observando. Aleyna se afastou devagar e mediu o pulso dele. Já estávamos entendendo e eu decidi me afastar para acordar Leah, filha do velho Reece.
Bati algumas vezes na porta de ferro da casa delas e fui atendida algum tempo depois por uma Leah sonolenta.
—Bom dia Leah, preciso que venha comigo...
—É meu pai, não é? — Ela mudou a expressão.
Apenas assenti com a cabeça e ela saiu sendo seguida de sua filha Rhiannon confusa para saber o que estava acontecendo. Assim que me aproximei do grupo, Ross e Kenan vieram na minha direção.
—Precisamos ir, não podemos perder a luz do dia. — Ross me apressou.
Acenei para o meu pai e levantei voo atrás de Kenan que já estava indo em direção ao céu. Ross sendo um ser marinho pulou no mar e sumiu de vista. Lá de cima dei uma última olhada e vi a menina de 14 anos chorando em cima do corpo do avô morto.
Voamos por um longo período de tempo antes de finalmente chegarmos à plataforma mais perto da nossa. De longe podíamos ver que algo não estava certo naquele lugar. A plataforma dos corais costumava ser bem movimentada pelo tamanho dela e pelo número de gente morando lá. Cerca de duzentos moradores e sempre visitantes e comerciantes estavam na entrada. Desta vez mesmo sendo ainda manhã estava deserta demais. Eu vi uma única pessoa correndo e entrando em uma casa e pela primeira vez senti medo de me aproximar daquele lugar.
—Fique alerta, não pouse ainda. — Kenan me alertou. — Investigue, vou falar com Ross para ele não subir na plataforma.
Kenan voou em direção ao mar e eu comecei a voar por todos os lados procurando sinal de vida, mas tudo estava silencioso e deserto. Além disso estava tudo revirado, havia todo tipo de coisa jogada para todos os lados e finalmente cheguei em um local onde pude ver um amontoado de corpos sem suas cabeças. Tampei a boca para evitar um grito e me aproximei devagar evitando fazer qualquer barulho. Eu não estava enganada, eram corpos sem cabeças. Mulheres, homens e crianças ensanguentados, alguns braços soltos ou pendurados por nervos, nenhuma cabeça estava a vista. Voltei para o céu procurando por Kenan e Ross e os vi conversando perto de algumas pedras.
—Descobriu algo? — Ross perguntou.
—Sim, tem uma pilha de corpos sem suas cabeças. Acham que foram nômades?
Os dois se entreolharam confusos.
—Você tem certeza disso? — Kenan perguntou e eu apenas o encarei séria. — Me leve até lá. Ross, veja se encontra algo.
Kenan observava os corpos e franzia a testa pensativo. Nós dois nos surpreendemos com uma porta que se abriu atrás da gente de repente e nos viramos assustados dando de cara com uma jovem ruiva de cabelo cheio que nos encarava assustada.
—O que houve aqui? — Kenan se dirigiu a ela rapidamente.
—Monstros. — A moça desabou a chorar e fechou a porta novamente.
Kenan aterrissou e bateu na porta da mulher.
—Moça, pro favor precisamos de informações. Foram os nômades?
—Fuja daqui! — A mulher gritou. — Fuja pra bem longe. O mar não é seguro.
Kenan continuou batendo na porta, mas ela não abriu e nem falou mais nada então ele empurrou com força e nos deparamos com o corpo dela caído no chão. Ela havia cortado o próprio pescoço. Aterrissei ao lado dela e vi em seus braços o corpo de uma criança de por volta e dois anos de idade. Só o corpo.
—Que merda aconteceu nesse lugar? — Eu observava a casa cheia de sangue por todos os lado. — Isso vai atrair tubarões.
—Pois é, precisamos sair daqui.
—E se tiver alguém vivo?
—Eu duvido.
—Deveríamos procurar.
—Tamryn, não vamos arriscar nossas vidas e nem deixar nossa plataforma desinformada por muito tempo sobre algo assim.
Eu o fuzilei com os olhos e levantei voo novamente usando o máximo que podia da minha visão de águia para procurar por todos os lados alguém vivo. Eu ouvia a voz de Kenan me chamando sem elevar muito a voz para não chamar muita atenção, contudo não dei ouvidos e segui procurando por alguém. Em vão, pois não havia ninguém em lugar nenhum. Voltei ao encontro dele que ficou reclamando da minha falta de obediência.
Quando chegamos novamente em nossa vila a gritaria estava alta, de início achei que algo tivesse atacado-os também, mas quando vi Korin sentada no nosso lugar de costume tranquilamente, suspeitei que não passasse de mais uma briga. Sentei ao lado dela e perguntei o que estava acontecendo lá em baixo.
—Para começar, Leah estava furiosa com a morte de seu pai e o sumiço dos nômades o que acordou todo mundo e fez todos ficaram preocupados sobre até quando não teremos novos medicamentos e todo o resto. — Ela respirou fundo. — Depois quando foram levar o corpo do velho Reece para os tubarões, eles não estavam lá.
—Eles quem? — Perguntei confusa.
—Os tubarões.
—Como assim? — Eu continuava confusa. — Nenhum tubarão estava lá?
—Nenhum. Eles haviam sumido simplesmente. Alguém ouviu a conversa e espalhou isso pra todo mundo e ai virou a maior confusão.
Respirei fundo e apoiei a minha cabeça em minhas mãos. Comecei a pensar em voz alta.
—Tubarões não se assustam fácil, para eles terem fugido algo terrível deve ter acontecido. Quem sabe os nômades ou algum outro alguém decidiu tomar tudo para eles? Não. Teria que ter um grande exército para conseguir pegar todas as centenas de tubarões ali e isso seria totalmente anormal. — Eu não conseguia pensar em nada que fizesse sentido. — Se a minha mãe só come carne de tubarão e humanos e não temos mais tubarões... — Gelei.
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