Nascida nas trevas - Born in the dark
13 O orvalho da manhã
Depois de horas correndo, finalmente paramos em um espaço como uma clareira que dispunha de uns troncos em volta de um local apropriado para uma fogueira. Eu cai sentada com o corpo tremendo e tossindo com a garganta seca por falta de água. Tudo parecia ter sido arrumado estrategicamente para uma estadia aconchegante — tanto quanto fosse possível no meio de uma floresta.
—Que lugar é esse?
—É um abrigo para viajantes. A gente geralmente deixa algo aqui se retirar outra coisa, mas no nosso caso não temos nada. Deve ter comida. — Ele falava afastando uma grande tora de madeira do chão com toda a força possível. Em baixo dela havia um alçapão de ferro. — Vai me ajudar ou ficar olhando o cara que você envenenou terminar de se matar?
—Uau, achei que havia pago a dívida quando te salvei de se afogar. — Ri indo ajuda-lo.
Assim que conseguimos abrir a porta do alçapão, ele desceu as escadas de ferro no breu total e eu apenas olhava de fora sem saber onde ele havia ido parar ou o quão fundo era aquele lugar.
—Espere, vou achar uma vela. — A voz dele ecoava lá dentro.
Uma luz se acendeu de repente iluminando o rosto sorridente de Rudá que caminhou em direção à uma outra vela, dessa vez disposta na parede e acendeu-a. Logo em seguida sumiu andando lá por dentro enquanto assoviava uma canção.
— Você vem?
—Quem vai vigiar o lado de fora?
—Não temos inimigos nessa área, qualquer um que aparecer vai ser amigo. Até mesmo se for o seu povo, já que você está comigo.
Hesitei alguns segundos , mas a escuridão da floresta junto ao silencio absoluto ali me assustava então decidi descer o mais depressa possível. As escadas eram frias e rangiam, mas logo eu estava no chão com um corredor iluminado por velas ali e acolá. Não demorou para eu alcançar Rudá que abria barris olhando o que havia dentro deles.
—Porque a floresta é tão silenciosa?
—Como assim? — Ele abriu outro barril.
—Eu li determinada vez que os animais cantam à noite, uivam e fazem seus sons... Mas lá fora está muito silencioso.
—Bom, não temos tantos animais assim hoje em dia. E os que sobraram parecem ter desenvolvido um pouco de inteligência cognitiva, eles ficam em total silencio e nós nunca sabemos quando vão atacar.
—E se eles entrarem aqui?
—Não vão entrar aqui Tamryn, no máximo vão estar nos esperando lá fora. — Ele sorriu quando me olhou falando isso, mas logo seu sorriso se desfez. — Não precisa se preocupar, sério. Aqui é seguro e cheio de armadilhas para animais. Venha, encontrei algo.
Havia um barril com latas e mais latas dentro desorganizadas e não dava para saber bem o que era quando se lia.
—Sopa de ervilha? — Perguntei. — O que é isso? — Sopa de feijão...Sopa de tomate?
—São conservas. Comida feita para durar séculos. É o que temos para comer então desfaz essa cara de nojo.
Chacoalhei as duas latas em minhas mãos e o som era nojento. Dei de ombros.
—Então tá.
—Segura. Vamos levar duas pra cada um, amanha nós pegamos mais. Deixa eu achar uma mochila ou algo do tipo.
Rudá me largou com as quatro latas em meus braços desajeitadamente e saiu acendendo velas mais para dentro do corredor que parecia não ter fim. De repente abaixou-se com uma frase vitoriosa e voltou com uma espécie de pano recortado e amarrado em vários pontos.
—Alguém muito inteligente nos fez o favor de deixar bolsas prontas. Pegue uma. — Ele em estendeu uma das bolsas encardidas. Vamos subir com comida e bebida e amanha de manhã podemos pegar roupas e kit de primeiros socorros.
—Okay. Só quero descansar. E eu preciso muito de água. Muito.
—Aqui. — Rudá me fez segui-lo até um barril e abriu-o pegando algumas garrafinhas de uma água um pouco suspeita. — Ela é estranha mesmo, é água da chuva.
—Também bebemos água da chuva lá em alto mar.
—O que vocês comem lá? — Ele bebeu a garrafa inteira rapidamente depois de falar.
—Ah, peixes,ostras, algas, coisas assim. Aí uns terráqueos nos levam frutas as vezes.
—É tão estranho pensar que vocês não tinham frutas por lá.
—É estranho pensar que vocês não entram no mar para pegar comidas deliciosas, porque acham que somos demônios. — Debochei enquanto pegava outra garrafa de água. — O que faço com a garrafa vazia?
—Venha, vou te ensinar algo.
Rudá pegou outra garrafa também e subimos com água e comida de volta à clareira. As coisas foram jogadas no chão e então ele me chamou segurando as duas garrafas e começou a entrar na floresta iluminada pela lua.
—Veja. Se posicionarmos a garrafa em baixo de uma folha, ela vai passar a noite toda aqui e pela manha o orvalho vai pingar dentro dela.
—O que é orvalho?
—Não leu isso em seus livros? — Ele riu.
—Eu não tenho uma memória tão boa assim.
—Bem, é basicamente um fenômeno físico que resulta em água. Acho que é mais facilmente explicado assim. Tome. — Ele me deu a outra garrafinha. — Ache um galho bom para segurar a garrafa em baixo de uma folha.
Eu encontrei rapidamente um local e posicionei a garrafa animada para que no dia seguinte aquilo me desse resultados. Olhei para a aquele truque que eu havia acabado de aprender e sorri sozinha. Árvores eram mesmo uma bênção.
—Venha, já peguei alguns gravetos, vamos acender a fogueira e comer porque minha barriga já está doendo.
—Eu quero aquela do pote vermelho.
—Acho que era a sopa de tomate.
—Isso! — me sentei enquanto ele descia e voltava com uma vela que usou para em segundos acender a fogueira que crepitava de forma deliciosa de se ouvir. — Rudá, tem certeza de que isso não está estragado?
—Me de. — Ele revirou os olhos abrindo a minha lata e depois sentando ao meu lado. — Experimente.
—Eu bebo?
—Bom, era para comermos com colher na verdade. Eu esqueci.
Eu comecei a rir enquanto ele ia buscar as colheres correndo e voltava entusiasmado para que eu comesse logo.
—Tenho a impressão de que isso vai ser nojento. — Eu resmunguei antes de dar a primeira colherada. — Uhg! Horrível. — Falei de boca cheia entregando a lata para ele.
—Eu não acredito. — Ele caiu na risada. — Tomate é incrível, ta? Venha, experimente esse agora.
Dessa vez a lata era marrom e me indicava que era sopa de feijão. Eu havia escolhido a de tomate pela cor bonita que ela parecia ter e essa agora era com cor de água suja.
—Isso me parece ainda pior. — Dei uma colherada sem pensar muito. — Oh! — Engoli depois de mastigar e dei maus uma colherada. — Esse é maravilhoso.
—Bom, você não gosta de tomate, mas gosta de feijão. Anotado. — Ele começou a comer o de tomate antes de voltar a falar. — Você não é um demônio não é?
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