Notas iniciais
Olá, seja bem vindo e aproveite.

Éramos uma grande plataforma flutuante no mar que sobrevivia de comer frutos marinhos e aves. Estávamos ali fazia gerações, alguns as vezes saíam para morarem nas cidades maiores, contudo quanto mais gente em uma cidade mais fácil era de ter confusões e mortes então a maioria preferia a paz e sossego da plataforma pequena (existiam muitas por todo o mar). Éramos péssimos para dar nome ás coisas e o nome da nossa plataforma era Cidade flutuante do alto mar da baía dos tubarões. Onde morávamos ficava bem próximo à um local onde ficavam diversos tubarões. Lá costumava ser o local onde se jogavam os que desobedecessem a lei. Eles eram simplesmente jogados para os tubarões. Não só os da nossa plataforma, mas de todas próximas. Além de manter a ordem nas cidades também ajudava a alimentar os tubarões mantendo-os longe das cidades flutuantes.

Ninguém sabe como que começaram as mutações nos seres celestes, mas a maioria tem asas e visões de incríveis distancias. As asas variam de cor, penugem, plumagem, alcance de altura, tamanho e etc. Tudo que sabemos sobre o início foi que o primeiro que teve asas sofreu tanta dor no nascimento delas que foi internado em um hospital para loucos porque achavam que eles estava maluco de tanto tempo que gritou. Não sei se é verdade.

O meu lado celeste me fez ter asas de abutre. Eu sei, nada elegante. Elas ficam bem recolhidas e eram quase imperceptíveis porque eu estava sempre de roupa preta e um sobretudo preto de tecido fino que se misturava com a cor das gigantes asas. Quando estão fechadas elas alcançam até meus tornozelos e um pouco acima do meu pescoço. Uma coisa bem legal delas é que não muda nada se estiverem secas ou molhadas então as vezes eu mergulhava no mar e depois subia direto para o céu voando. Além disso também enxergo como uma águia.

Mas vamos voltar ao foco.

Lá existiam nove seres celestes como eu já havia dito e todos eles eram bem mais serenos do que os marinhos que pareciam estar sempre de mau humor sendo estúpidos uns com os outros. Nós não temos sobrenomes como antigamente então vez ou outra esbarrávamos com pessoas de nomes iguais. Mas isso era bem raro de acontecer.

Basicamente esses éramos nós. Água e ar. Não, a terra não é um local que costumávamos frequentar. Na verdade nunca íamos e nem tínhamos interesse nela. Os habitantes eram conhecidos por serem selvagens e comerem uns aos outros. Alguns até arriscavam dizer que eles eram monstros. As nossas histórias de terror eram contadas sempre com eles como vilões que nos devoram vivos. Eu nunca fui uma pessoa aventureira então não fazia a menor questão de descobrir o que existia em terra firme. Nunca fui aventura, sempre fui guerra. Apenas isso e nada mais.

Eu nasci no dia primeiro do mês de agosto (sim, ainda usávamos o mesmo calendário dos outros séculos) do ano 2200 então fica bem fácil contar a minha idade nessa já que estamos começando essa história pelo ano de 2220. Assim como o aniversário de dez anos tínhamos que mergulhar e caçar nosso próprio alimento do dia todo, também aos vinte tínhamos que matar um tubarão. Essas eram formas de provar nosso amadurecimento nessas idades.

É por isso que naquele dia do meu aniversário de vinte anos cacei um tubarão — com facilidade, modéstia a parte — e no dia seguinte terminamos de deixar todas as partes dele separadas. Além de usarmos como comida e aproveitar alguns ossos para armas, construções e outras coisas, também era como fazíamos trocas com comerciantes que passavam por ali vez ou outra.

Alguns seres marinhos e celestes haviam decidido não se unir à grupos e isso fazia com que eles trabalhassem de uma forma diferente da nossa. Eles iam até a terra firme e conseguiam coisas para nós que não ousávamos nos aproximar daquele território. Assim, trocávamos comida e outras coisas pelos objetos deles. Essa era a nossa forma de comércio e de manter a paz com os nômades. Normalmente eles chegavam entre os dias primeiro e cinco então nesses dias tinha uma casa que ficava reservada para eles dormirem. Geralmente os nômades que iam para a nossa plataforma eram sempre os mesmos. Não sei como se conheceram, mas eram todos jovens de seus vinte e poucos anos e eram todos amigos então mesmo quando um deles já havia nos vendido algo o outro aparecia só pra dormir lá também. Acabamos ficando todos amigos deles já que são simpáticos e nunca causaram nenhuma confusão. As vezes também apareciam outros comerciantes, mas eles nunca ficavam por lá — nunca oferecemos também — apenas passavam, vendiam e iam embora.

Passei aquele dia inteiro esperando pelo momento que ouviria alguém gritar "abram os portões" e eu veria aquele grupo entrar como sempre faziam naquele barco velho. Eu adorava ouvi-los contar as histórias do último mês e eu já tinha o Harvey como meu melhor amigo já que ninguém na cidade era. Mas infelizmente ninguém apareceu no segundo dia do mês também.

Nossa plataforma, não sei se já expliquei isso, era em forma de C. No centro e na abertura do "C" é o mar e a parte aonde ficávamos é o C. Espero que tenha dado para entender, não sou boa em explicações. Tínhamos treze casas, dez com moradores, uma para alimentos e duas disponíveis. A casa do meu pai ficava ao lado da do chefe Rey porque meu pai era o braço direito e conselheiro dele. Do outro lado da casa do Rey ficava a casa da Aleyna, assim ele tinha o conselheiro e sua esposa médica (meus pais) de um lado e uma médica e um caçador do outro. Nossas três famílias eram as mais unidas de lá, os outros eram mais independentes, eram mais eles com eles mesmos.

No final do terceiro dia do mês eu voei até a torre de ferro mais alta e me sentei lá como de costume. Existiam amontoados de ferro em volta da cidade e eu os chamava de torres. A escuridão era infinita, eu não conseguia ver nada além dos portões, mesmo com minha visão noturna. Afinal, não havia anda para ver ali. A próxima plataforma não era perto então a pouca luz que eu enxergava vez ou outra era de algum peixe luminoso no mar, mas eles logo mergulhavam fundo e desapareciam de vista. Como todas as noites acontecia Korin voou até o meu lado e se sentou abraçando as pernas.

—Oi. — Ela sorriu para mim.

—Como você está hoje, Korin?

Desde que o marido de Korin havia matado o de Leah e depois fora jogado aos tubarões -Isso fazia dois meses daquele dia-, que ela tinha sido menosprezada por todos, menos por mim e pela Leah. As duas mulheres sempre haviam sido razoavelmente próximas já que eram vizinhas e trabalhavam juntas. Leah sempre fora solidária à Korin porque tinha pena dela. Korin era espancada pelo marido diariamente e por isso suas asas eram defeituosas e ela não conseguia ir muito longe sem cair.

—Melhor do que ontem. — Essa era sempre a resposta dela.

Ela parecia mesmo melhor. Korin sempre parecia meio morta quando seu marido estava vivo, mas ela parecia melhorar a cada dia mesmo sentindo vergonha do que ele havia feito. Uma briga por território que acabou em morte.

—Você acha que eles virão amanha? — Ela perguntou sem entusiasmo.

—Espero que sim, e que tenham roupas novas. Só tenho essa que estou e mais uma.

Roupa não era algo que comprávamos com costume, era realmente necessidade, fora que quase não se tinha para comprarmos. Eu geralmente usava uma calça e blusa pretas que eu não sei te dizer que tipo de tecido era, mas era algo grosso e uma espécie de blusa comprida que alcançava a altura da minha coxa, e era aberta. Alguns chamavam de sobretudo outros de casaco. Eu só chamava de blusa comprida. Nos pés todo mundo usava alguma espécie de bota sem salto e toda fechada, isso ajudava a não nos machucarmos. A minha era uma bota de pelo toda preta que vivia imunda. A Korin só usava galochas amarelas todo o tempo. A minha outra roupa era para dias muito quentes, um vestido cinza, mas não gostava dele porque para voar e nadar qualquer um me veria nua por baixo, então queria uma calça nova para usar por baixo dele quando aquela estivesse suja.

Os dias que seguiram naquele mês continuaram sem a chegada dos nômades e vez ou outra eu ouvia conversas do meu pai com o Rey sobre estarem preocupados com isso. Decidiram então reforçar a guarda e suspender as pescarias e caças quando chegou dia 31 e só voltariam nisso se até dias 05 eles tivessem aparecido. O medo deles era que alguém tivesse matado-os e estivessem por perto circulando.

Eu duvidava, eles eram fortes demais para terem todos morrido.