Nascida da Violência.
2 Capítulo 2.
Notas iniciais
Lá fora, o vento era forte. O céu vazio sem estrela alguma estava escondido por nuvens esbranquiçadas e carregadas. A lua era alta e iluminava as ruas silenciosas. A academia não ficava tão longe, e ainda não era tão tarde, oito horas talvez.
Cassie caminhava a passos rápidos, olhando para frente. Ao chegar em frente a academia em questão, suspirou ao ver as portas duplas fechadas.
Já estava dando meia volta quando viu uma pessoa saindo de dentro do local, reconhecendo-a imediatamente: Tom, um outro lutador, que treinava junto á Santiago. Não eram propriamente amigos, mas sim colegas.
A menina correu de volta até ele, parando a sua frente:
— Tom! – Sorrio. — Está com as chaves ai? Meu pai esqueceu a mochila com os pertences aqui, e pediu que eu viesse buscar.
— Cassie... – Tom retribuiu ao sorriso, de uma forma calorosa, enquanto os olhos passeavam pelo corpo da garota. — É claro.
Era um homem atraente, quatro anos mais novo do que Santiago. Possuía um porte atlético, cabelos negros, olhos azuis e uma barba rala. Não costumava puxar assunto com os outros na academia, apenas treinava em silêncio, demonstrando concentração.
Ele se aproximou das portas duplas e pôs uma das chaves do bolo em sua mão na fechadura, destrancando-a com um clique. As empurrou para dentro e tateou a parede para encontrar os interruptores, acendendo as luzes.
— Obrigada! Vou ser rápida.
Cassie o seguiu, adentrando à academia junto a ele. Começou a andar por lá, buscando pela mochila do pai em todos os cantos.
— Hm... Sabe, eu acho que vi uma mochila em um dos bancos do vestiário – comentou Tom, apoiado em uma parede.
Cassie não o respondeu, apenas mudou o rumo dirigindo-se até o vestiário. Seguiu o pequeno corredor após a porta de metal, deparando-se com a sala estreita composta por bancos, armários e chuveiros, separados por paredes baixas.
— Tem certeza?! Não há nada aqui... – Gritou ela para Tom, após varrer os olhos pelo espaço e nada encontrar.
— Eu não teria tanta certeza... – Sussurrou uma voz fria próxima à ela.
A menina arquejou, virando-se para trás. Alí, de pé, estava Tom. Ele a encarava com uma expressão maldosa e sorria de forma cínica. Dando um passo a frente, tocou o rosto de Cassie.
Ela desviou o rosto, arregalando os olhos.
— O quê qu-quer dizer? – Gaguejou ela, sentindo uma arrepio de medo tomar seu corpo.
– Vamos, querida, você não é tão burra – respondeu o homem.
— Tom, o que está acontecendo?! – Sem esperar por uma resposta, empurrou-o para o lado, com o objetivo de chegar até a saída do vestiário. Deixe-me passar.
Ao se aproximar da porta, entrou em pânico ao ver que estava trancada. Correu de volta até o homem ainda parado de pé no mesmo local e gritou:
— O QUÊ ESTÁ ACONTECENDO?! DEIXE-ME IR EMBORA!
O homem gargalhou, balançando a cabeça.
— Não... Eu tenho uma idéia melhor.
Ao dizer tais palavras, aproximou-se de Cassie envolvendo sua cintura com os braços fortes. Sem aguardar por uma reação, levou sua boca a dela beijando-a ferozmente.
Estática, ela não se moveu, levando alguns poucos segundos para notar o que acontecia. Ao se dar conta, empurrou o homem para longe, cuspindo no chão à seus pés.
— Quem você acha que é, seu imbecil?!
— Eu... Eu não sei... Mas, sei quem você vai ser... Quer saber também? – Disse Tom, encarando-a agora com raiva.
— NÃO! EU NÃO QUERO!
—CALADA! – O homem havia se aproximado novamente, desferindo um tapa contra o rosto da garota. — Você vai ficar quietinha... Nós vamos brincar... E você será minha bonequinha.
Cassie não sabia o que dizer. Os pensamentos não vinham, nada de útil que pudesse dizer ou fazer lhe surgia. Ela mordeu o lábio inferior, dando três passos para trás até sentir as costas se chocando contra a parede fria. Seu coração estava disparado. Ela sabia o que Tom queria dizer, é sabia também o que viria a seguir caso ela nada fizesse. Com a respiração falha, sussurrou ao homem:
— Você não pode fazer isso... Todos ficariam sabendo... Eu contaria. Você não sairia ileso.
Tom gargalhou novamente, andando até a garota. Apoiou as mãos na parede ao lado de sua cabeça e aproximou ambos os rostos, dizendo devagar:
— Você não sabe de nada. Não tem consciência do que isso significaria. Todos iriam sentir nojo de você, talvez até mesmo raiva. Eles diriam que você é a culpada. Você não teria coragem de contar... Para ninguém.
Ele deslizou uma das mãos pela parede lisa, tocando o corpo da menina. Seus olhos não demonstravam sentimento algum. Eram apenas frios. Talvez, lá no fundo, uma ponta de diversão fosse visível... Uma diversão repudiosa.
Cassie respirou fundo, fechando os olhos. Queria gritar, mas não o faria. Precisava pensar. Conhecia diversas técnicas de luta, poderia tentar...
— Você não me conhece. Não sabe como eu penso. Não pode dizer isto.
Ao abrir os olhos, ela os focou no homem. Fechou uma de suas mãos em punho e acertou um soco forte no estômago do outro. Sem deixar espaço para uma reação, ergueu o joelho acertando-o entre as pernas. Ele cambaleou, xingando a garota.
— Sua vaca! Vai me pagar!
Sem parecer mais dar importância aos golpes recebidos Tom voltou até Cassie e a segurou pelo pescoço segurando-o com força e lançando seu corpo contra um dos armários. Ao vê-la tonta e atordoada, juntou-a pelos braços e devolveu o soco que ela havia lhe dado, agora em seu rosto.
— MALDITO! – Gritou ela, sentindo a bochecha arder e um gosto metálico na boca.
— Eu mandei ficar... CALADA! – Ele devolveu o grito.
Cassie grunhiu, jogando-se sobre ele e enterrando as unhas pintadas em sua nuca. Desferiu tapas, golpes e chutes em todas as partes do corpo que alcançava, até se afastar sem forças. Tom, que não havia tentado se defender desta vez, a encarou com ódio. Não havia sinal de pena ou controle no olhar que ele lhe dirigia.
— Você está me cansando... Vamos acabar logo com isso – murmurou ele, avançando novamente sobre a garota.
O homem a puxou pelos cabelos e bateu sua cabeça contra a parede, fazendo a gemer de dor.
Cassie não podia mais lutar. A cabeça girava assim como a visão, os membros pareciam estar partidos e haviam ruídos em sua mente a confundindo. Não estava desmaiada, mas também não estava totalmente acordada.
Ela pôde sentir quando seu moletom foi retirado assim com o resto das roupas. Quando seu corpo foi jogado sobre uma superfície dura, um peso sobre ela e depois algo a invadindo, com se a rasgasse por dentro. Ela queria gritar, fazer parar, mas nenhum som saía de seus lábios. Sentiu que as lágrimas quentes escorriam pelo rosto suado e aquilo a fez odiar a situação ainda mais do que parecia ser possível. A dor era alucinante, a consumia por dentro e por fora...
[...]
Cassie abriu os olhos.
Havia acabado.
Olhou a sua volta, enquanto as lembranças invadiam sua cabeça, a fazendo se inclinar para o lado e vomitar o que restava em seu estômago.
Nua, fitou o próprio corpo com pavor. Marcas avermelhada sobressaiam-se sob a pele.
Suas roupas estavam espalhadas pelo chão, mas ela não tinha coragem de se mexer para pegá-las.
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