Notas iniciais
A ideia pra essa fanfic me surgiu quando ouvia a música do Hibari, pela décima vez, e decidi procurar uma tradução em inglês (não tem em português -.-). Foi quando eu me comovi e disse: Kyoya! Você precisa entender isso (o amor)! E assim nasceu essa fanfic o/

NAS PEQUENAS COISAS

Eu não conheço o amor.

E não sei como amar.”

Hitoribocchi No Sadame — Hibari Kyoya

Ele sabia. Sempre soube que esse dia chegaria. Mas, como se conformar em ser eternamente só?

O temido Guardião da Nuvem estava prestes a voltar de sua viagem à Itália. O avião se tornava mais sufocante a cada minuto. Em sua mente, vagas lembranças de sua infância pisavam em seu ego. Não gostava de lembrar desse tempo, mas, ao ver Dino tão feliz com sua esposa, pôs-se a pensar em si e em sua vida. Já completara vinte anos e continuava sem um rumo, um objetivo. Seus dias se resumiam a lutar e passar a noite com alguma acompanhante bonita e sexy. Tudo se tornou tão monótono. Tão parado. Tão sem graça, que, quando teve seus olhos abertos, não pôde acreditar.

Se passara três dias, e nada de Reborn passar as tão necessárias informações. Como poderia continuar com as investigações dessa maneira? Suspirou longa e pesadamente. Esse arcobaleno realmente o tirava do sério.

Estava irritado, e sem um objetivo. Resmungou alguma coisa para Kusakabe e continuou andando. Precisava de silêncio. E, segundo informações, havia um campo de flores grande e silencioso. Lugar perfeito para tirar um cochilo. Exceto pela presença de alguém.

“Que droga” resmungou, enquanto mudava o rumo de sua caminhada.

Escolheu o lugar mais afastado da tal pessoa, e deitou-se. Mas, não antes de se permitir verificar quem era. Analisou a silhueta de longe. Definitivamente era uma mulher, ou melhor, uma garota, a julgar pelo tamanho. Talvez tivesse mais que um metro e meio. Seus fios castanhos estendiam-se até sua cintura, bagunçando a grama.

Bocejou. Essa garota não apresentava nenhuma ameaça, então, pôde dormir. Apenas esperava que ela não o atrapalhasse com algum barulho desnecessário.

٠٠٠

Abriu os olhos rapidamente. Quanto tempo ficara ali? Olhou o relógio e pulou. Passara-se duas horas. Como pôde dormir tanto?

Olhou para o lado e viu a garota de levantar. Analisando agora, com certeza tinha mais que um metro e meio… Um metro e cinquenta, talvez? Não, não tanto. Ela trajava um vestido branco, provavelmente de seda. Hibari balançou a cabeça. Precisava voltar para o local de encontro. E assim o fez, mas não antes de ver os lábios da garota se moverem em direção ao nada.

Realmente, era uma menina estranha.

Assim passaram-se três dias. Nada de Reborn entrar em contato. Estava começando a ficar realmente irritado. Não bastava suas crises existenciais, ainda tinha que tolerar esse atraso. Ao menos, podia dormir sossegado. Ou assim pensava.

No outro dia, novamente foi ao campo para dormir, mas aquela garota lhe roubou a atenção. Por algum motivo, sua presença o atraia. Talvez, fosse apenas por não saber quem era? Não… Era algo mais. Balançou a cabeça. Tudo culpa daquele cavalo idiota e seu sorriso de felicidade.

Sem que Kyoya percebesse, seu coração fora aberto diante da felicidade de Dino em seu casamento. O Cavallone chorou mais que a própria noiva. Noiva que sorria e o beijava sempre. Isso é bom? perguntava-se o guardião enquanto assistia os constantes abraços e beijos. Nunca tivera essas experiências. O máximo de carinho que teve veio de algumas de suas muitas mulheres que agarravam seu cabelo enquanto reviravam os olhos. Mas nada que se comparasse ao carinho daquela mulher ao abraçar Dino e dizer que o ama. Amor… Não compreendia esse sentimento. Durante um tempo, pensara que o amor era nada mais que compaixão, mas esse maldito cavalo forçava-o a admitir que eram coisas diferentes.

“Oi?”

O guardião praticamente pulou de susto. Nota mental: Nunca se distraia num lugar aberto!

O susto do guardião fizera a pessoa dar um passo para trás. Hibari olhou para os lados rapidamente até fixar-se na pequena garota a sua frente. Olhou-a de cima em baixo, e concentrou-se em seus olhos.

Pareciam duas pequenas esmeraldas. Eram tão viciantes. Não havia expressão, apesar do enorme brilho. Kyoya balançou a cabeça e devolveu a seu rosto o comum olhar afiado.

“Poderia me dizer as horas?” a garota prosseguiu.

Precisara de algum tempo para raciocinar tal pergunta. A voz calma e doce o encantou.

“Duas e meia” tentara – sem sucesso – parecer frio e indiferente.

A menina olhou em volta e voltou sua atenção para o guardião.

“Obrigada.”

Nada de sorrisos ou mais palavras desnecessárias?

Kyoya sorriu. Essa garota despertara seu interesse.

٠٠٠

E assim se passaram duas semanas. O Guardião da Nuvem decidiu conversar mais com a garota, que não rejeitou sua aproximação. Conversaram sobre tudo, desde a chuva até como o universo fora formado.

Kyoya descobrira que a menina não era do Japão. Ela viera do Brasil para procurar alguém. Sua comida favorita era amora, amava desenhar e dançar. Gostava de cantar, apesar de não ser muito boa, segundo ela. Odiava multidões, informação que deixou Hibari satisfeito. Talvez, por isso ela fosse tão quieta. Descobriu também sua idade. Dezoito anos… Muita idade para seu pouco tamanho.

E sem perceber, contara cada detalhe de sua vida para essa menina. Suas frustrações, seus desejos, sua raiva. Até mesmo sobre seus pensamentos acerca do casamento do Cavallone. Parou de falar quando percebeu que aquela menina sabia de tudo sobre a máfia e sobre ele.

“O que foi?” a menina indagara quando o Guardião se calou.

“Nada…” foi tudo que respondeu.

Kyoya começou a desejar mais e mais que Reborn não o contatasse, para assim conversar novamente com a garota.

A cada encontro o coração do temido Guardião era preenchido com algo estranho – que mais tarde descobriria ser felicidade.

Esses “encontros” já duravam um mês. Até mesmo um pequeno piquenique fizeram. A garota trouxera um de seus pratos favoritos: torta de amora.

“É uma delícia!” afirmara antes de enfiar uma enorme fatia de torta na boca.

Hibari não sabia mais como agir. Temia que suas ações influenciassem algo ruim nisso, e, por mais que sua razão o dissesse para se afastar, seu coração, até então desconhecido, implorava por mais.

Depois de alguns dias, tomou coragem e tocou no cabelo da garota. Pensou que receberia um tapa ou palavras de repreensão, mas nada viera. E depois de quatro meses se encontrando, eles andavam de mãos dadas. Aparentemente, para a menina, não importava. Mas, para o Guardião, esse era um grande e estranho passo. Durante suas viagens, quando encontrava alguém, na primeira noite estavam na cama, mas com essa garota era diferente – tudo era diferente.

Não estava amolecendo, pelo contrário, sua raiva e ira de grupos apenas aumentara. Sentia vontade de protegê-la, mas também odiava o fato dela ser tão fraca. Começou a se odiar. Estava se contradizendo, e odiava isso.

Quando percebeu, seis meses se passaram rapidamente. Estava pensando se isso não era uma pegadinha. Como que, por seis meses, duas pessoas poderiam simplesmente se conhecerem e manterem uma relação tão estreita e íntima, sem ao menos saber o nome uma da outra? Balançou a cabeça dispersando tais pensamentos. Decidira que perguntaria o nome dela. E, talvez, numa atitude mais ousada, convidasse ela para um passeio, ou um jantar, ou…

“Kyou-san! Reborn finalmente chegara!” o vice-presidente falara com uma expressão de desespero.

Passar seis meses, durante metade do dia, todos os dias, sentado numa tenda sem fazer nada, era muito entediante, não?. Kusakabe admirou como Hibari ainda não mordera todos até a morte por fazê-lo esperar tanto.

“Hibari” chamara o arcobaleno “A demora não foi em vão” respondeu rapidamente ao ver a expressão irritada de Kyoya “Cada vez que investigávamos para lhe passar todas as informações corretas, mais perguntas surgiam. Mas eles nos pegaram durante uma dessas coletas e agora estão na base destruindo nossa linha de frente. Vamos!”

O Guardião ficou parado. Sua mente dividida entre ela e sua missão. Cerrou os olhos. Talvez estivesse de fato amolecendo.

“Kyou-san, o que foi? Droga, não se distraia!”

E isso fora o suficiente para Kyoya seguir Reborn.

٠٠٠

Tudo estava terminado. Sua missão estava concluída, e, “emprestando” informações do inimigo, conseguiram que uma parte de sua pesquisa avançasse.

Assim que relaxou sua mente olhou para a chuva. Imaginou se a garota estava lá. Balançou a cabeça. Mesmo sendo um animal fraco, um herbívoro não seria tão idiota. Ou...

“Pare, Kusakabe-san!” ordenou rispidamente e bateu a porta tão forte que poderia quebrá-la se não fosse reforçada.

Usou seu ouriço para iluminar o caminho. Estava tão irritado. Extremamente irritado. Não consigo, mas sim com aquela garota. Iria mordê-la até a morte. Isso! Por culpa dela, estava pensando no bem-estar de outros.

Os galhos rasgavam suas roupas e faziam alguns machucados em seu rosto. Mas nada que se compare com o que acontecerá com ela, pensou.

Queria gritar e espancá-la até a morte. Aquela idiota realmente estava naquela chuva.

Todos esses meses se passaram por sua mente, enquanto andava em direção à garota. Suas conversas, o piquenique, seus macios fios de cabelo...

“Atchim!”

E isso bastou para a raiva transbordar. Agarrou a garota pelo cabelo, deixando a pequena nas pontas dos pés.

“O que está fazendo nessa chuva, idiota?”

“Esperando você…?”

A menina se esticava ao máximo para manter as pontinhas dos dedos no chão. O cansaço era demais para o Guardião. Não queria discutir, por mais que parecesse normal fazer isso.

“Acha normal esperar alguém nessa chuva?!”

Já havia perdido a paciência desde que a vira nessa chuva, então admirava não ter batido na garota até agora.

“Hm... Mas… É normal” a garota respondera sem esboçar reação diante da raiva de Hibari – em seu rosto encontrava-se até um traço de curiosidade.

“Por quê?” foi tudo que se permitiu perguntar naquele momento.

A essa altura, já havia entendido tudo. Queria negar, mas não conseguia. Sabia que ela era diferente desde o começo. Era a única pessoa que se aproximara dele sem medo, nem interesse. Não… Havia um interesse. Mas, um interesse tão nobre que não merecia tal colocação. Talvez um objetivo. Não importava. Apenas queria negar para si mesmo o que aquela garota, cujo rosto estava próximo do seu, passou a significar para si.

Ergueu a cabeça para o alto e suspirou. Estava tão cansado que nem mesmo pensar queria. Forçou-se, uma última vez – pensara –, a olhar para a garotinha cujo cabelo estava preso em seus dedos.

Seus pensamentos ficaram vazios. Nada passava em sua mente. Nunca vira na vida um sorriso mais lindo e sincero como o que essa pequena estampava na face.

Sua expressão fora um tanto cômica: enquanto arregalava os olhos em surpresa uma felicidade se formava em seu interior. Com a voz mais doce, a menina respondeu:

“Porque eu te amo…?”

E, finalmente, o temido Guardião da Nuvem – famoso por sua frieza e indiferença – entendeu a diferença entre amor e compaixão.

Notas finais
Aaaah '3' Comentários? "Edit 02.04.2016: Revisei algumas coisinhas que estavam me incomodando >-
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!